Deploratus
1 Capítulo 1 - Bewailed
Um amplo e chuvoso mundo se abria diante de mim. O vento salgado batia em meus cabelos e eu era apenas uma jovem mulher, eu teria toda uma vida a se desenrolar a minha frente e só havia um problema nela: eu não a queria se eu ainda tivesse que carregar meu fardo.
Um dia eu já fui realmente feliz. Eu o amava e ele parecia me amar também. Mas não, e ele foi embora e com ele, o meu coração.
Eu vivi meses de desespero sem Edward, meses tentando me manter inteira, e mantendo uma mínima chama de esperança acesa dentro de mim, de que um dia ele voltaria e nós seriamos felizes de novo.
Ele nunca voltou à úmida cidadezinha de Forks.
Por algum tempo, eu me alimentei de ocasionais alucinações com a sua linda voz. Tudo o que eu precisava era de um pouquinho de adrenalina que logo eu poderia ouvir sua voz de veludo ordenando, pedindo e implorando que eu parasse de correr tantos riscos de morte.
A última vez que eu estive naquele “topo do mundo” particular foi também a última vez que consegui meu remédio. E aquela vez foi a melhor porque, junto a sua voz, eu pude ver seu rosto, sua testa vincando de preocupação, seus lábios torcendo em reprovação, seus olhos dourados tão duros comigo, seu cabelo revoltoso ao vento.
Mas quando Jacob me salvou da morte, depois de ter saltado ao vazio, eu nunca mais pude experimentar minha droga pessoal. Eu entrei em abstinência, e eu teria que deixar o vício.
Eu nunca deixaria, eu amava aquela droga, ela me completava. Quando a tiraram o que restava de mim, tão brutalmente, só sobrou um vazio no meu peito. Eu tentei completá-lo, juro que sim, mas nada conseguia se encaixar naquele buraco tão bem quanto Edward se encaixava. Sempre sobrava um espacinho latejante.
Jacob foi o que melhor entrou ali. Ele estava disposto a me ajudar, e eu disposta a deixa-lo tentar. Nós namoramos, noivamos e casamos e em todas essas ocasiões, nunca era ele que estava na minha mente.
Eu tentei ser feliz ao lado dele, e por alguns momentos, eu realmente fui. Ele conseguia me fazer esquecer a dor por alguns momentos, mas ela sempre voltava querendo compensar o tempo perdido.
Eu implorava para a força maior que existisse para que Jacob pudesse me perdoar um dia. Eu o amava, só não era o suficiente, ele era meu melhor amigo e nunca passou disso.
Eu caminhei até a borda do penhasco, observando as pequenas gotas da garoa caindo até o oceano revoltoso abaixo. Agora não teria mais ninguém para me salvar, eu garanti isso vindo de madrugada. Todos dormiam e o sussurro do vento era minha única companhia.
Minha morte seria sem estrelas, havia nuvens demais para elas brilharem.
– Não faça isso. – doce e macio como veludo, Edward ordenou. Agora sim, tudo estava completo, eu teria isso também. Minha droga, só mais um pouco, só uma despedida.
– Me diga um, e só peço um, motivo para eu não fazer. – encarei uma última vez o mar antes de virar e me maravilhar com sua inumana beleza. Ele parecia o mesmo, é óbvio que parecia, mas depois de tantos anos ele estava ainda mais bonito aos meus olhos.
– Eu estou aqui, não estou? – ele retrucou, esperando me convencer com esse bom argumento. Se ele estivesse ali, todos os meus problemas estariam resolvidos.
– Não, não está. Você é apenas uma alucinação da parte que teme morrer da minha mente. Infelizmente, nessa noite ela está em desvantagem. O resto do meu cérebro concorda com o plano.
A chuva caia fina e eu ficava cada vez mais molhada, e estava frio, porém eu não ligava. Tudo o que eu queria estava ali, a saída e a droga, tudo ao alcance dos meus trêmulos dedos.
Edward, porém, parecia seco e perfeito, como já era de se esperar.
– Como eu posso convencer que realmente estou aqui? – ele ergueu uma das sobrancelhas, quase me desafiando a encontrar uma resposta.
– Desculpe querido, não tem como. É um desafio que eu, infelizmente, terei que perder.
– Então, pelo menos, sente-se aqui comigo. – ele indicou uma grande pedra, já se dirigindo para ela – e me explique o porquê dessa decisão.
O que eu teria a perder? Alguns minutos, talvez, mas não importava. Eu queria sentar na pedra gelada e escorregadia e contar todos os meus problemas, dores e confusões para uma inversão da minha mente, e só fingir que era o Edward real ali.
Sentei-me ao lado da minha doce ilusão, e ela era estranhamente palpável. Eu poderia tocá-lo.
– Quando você foi Edward, — comecei, sentindo a pedra fria como a pele do meu amado abaixo de mim – tudo desmoronou. Se você me amava ou não, já não tenho mais certeza, mas você era meu mundo. Ainda é. Tudo se baseava em você. Eu não poderia viver sem você, respirar sem você, tudo doía.
– Eu estou aqui Isabella, é sério. – era incrível como o meu cérebro, ou a parte que ainda tinha alguma consciência nele, insistia nisso, como se fosse me convencer a desistir. Não iria, não era ele ali.
E ela era boa, até mesmo me chamou de Isabella, coisa que ele só faria se estivesse realmente irritado ou desesperado.
– Eu tentei ter uma vida normal. – eu continuei, ignorando o comentário de Edward, ou da minha mente – Eu terminei a escola, tentei a faculdade, me casei... Jacob, eu poderia ter o amado se não te amasse tanto, ele foi bom para mim, apenas não foi o suficiente.
O tempo se arrastava devagar naquele momento, eu quase podia contar as gotas que caiam as nossos pés, as respirações desnecessárias de Edward, as batidas nervosas do meu coração. Por mais estranho que fosse, as coisas pareciam certas ali, o mundo havia encontrado seu ritmo, e ele era lento e espesso.
– Um dia eu vi que eu não aguentava mais aquele fardo, carregar um vazio tão grande no peito, eu precisava acabar com ele. E, me desculpe, mas morrer é a única forma, já que te ter novamente é quase impossível. – eu vi que ele iria repetir mais uma vez que estava ali, e não estava, mas o interrompi quando pus a mão no meu próprio rosto e vi que estava molhado por algo quente, que não era chuva. – Sabe, eu tenho chorado todas as noites desde então, é apropriado que eu chore hoje também.
– Oh, não chore meu amor! – ele secou minhas lágrimas com o polegar – Eu estou aqui, acredite. Eu nunca deixei de te amar, eu só... Temia por você. Eu queria que pudesse viver, ter seus filhos e netos, eu não queria estragar seu futuro, eu não queria te matar...
– Parece que funcionou? – o comentário saiu mais rude que eu desejava, mas era a mais pura verdade.
– Não, e agora eu vejo o tamanho do meu erro. Me desculpe, mas por favor, não se vá assim. – se ele pudesse chorar, ele provavelmente estaria nesse momento. Eu ouvia a dor em sua voz, e parabenizava minha mente por criar uma alucinação tão realista. Eu quase poderia acreditar.
– Não se incomode, eu me sinto bem agora. Leve como se pudesse voar, livre. – sorri triste para o homem que me encarava, seus orbes dourados fixados no meu rosto – Está tudo bem agora. Meus problemas estão prestes a acabar.
– Não, por favor, nem mesmo pense em fazer isso. Seus problemas acabaram – ele pegou minhas duas mãos, levando-as até seu peito e as segurando onde seu coração deveria bater – porque eu estou aqui, eu voltei Bella, eu não vou mais embora, eu estou aqui. Por você e só por você, porque eu te amo mais do que qualquer coisa, mais do que a mim mesmo, eu te amo!
Então seus lábios pressionaram contra os meus, e eu poderia chorar com a sensação da sua boca contra a minha. Era a mesma de tantos anos atrás, a mesma textura, a mesma temperatura e o mesmo sabor. Eu me sentia mais uma vez com 17 anos nos braços dele.
O único problema é que não era ele, não poderia ser. Edward havia ido embora e não havia solução. Aquilo tudo era um sonho provocado pela minha mente, algo muito convincente. Mais um pouco e eu poderia ser convencida e esquecer todo o meu plano.
Por isso, eu teria que agir rápido e inteligentemente. Meu devaneio teria que acreditar o resto da minha mente havia concordado em abortar a missão, e na mais próspera brecha, cumprir o plano.
– Me diga que eu consegui te convencer que era tudo uma estupidez... – ele murmurou, ainda de olhos fechados, apoiando a testa na minha.
Eu, sabendo o quão péssima mentirosa sou, apenas assenti com a cabeça, e ele se afastou levemente para encarar meu rosto.
– Sério? – desconfiado definiria a expressão de Edward, ainda assim com alguns toques de surpresa.
– Eu só preciso de um momento sozinha para pensar. – pedi, encarando o chão barroso. Eu não poderia mentir assim olhando para os olhos dele, eu sabia que fraquejaria. – Por favor, vá embora.
– Eu te deixarei, mas venha a mim no amanhecer. Vou está na minha antiga casa. Pegue carona, roube um carro, vá correndo mesmo, mas não me deixei sozinho lá. Eu irei te esperar.
Ele então juntou nossos lábios uma última vez, em um rápido beijo de despedida, do tipo que não era para sempre. Mal ele sabia que dessa vez seria.
Quando ele se virou para a floresta, correndo para longe de mim, eu vi a minha grande chance. Com todas as minhas forças, antes que ele notasse e voltasse para me salvar, eu corri e me joguei no vazio.
Tudo aconteceu muito devagar. A chuva caia, as gotas me atingiam lentamente e o céu parecia cada vez mais distante, lentamente. Eu pisquei e Edward estava na beira do penhasco, encarando minha queda.
Eu sorri para ele, “está tudo resolvido meu amor” era o que aquele sorriso representava. Ele parecia gritar, mas meus ouvidos estavam bloqueados para um som diferente do vento a minha volta. Eu estava anestesiada pela descarga de adrenalina e pela ideia de um final.
Depois, Edward caia atrás de mim, tentando me alcançar e seu rosto foi a última coisa que vi antes do mar me engolir.
A água estava agitada, as ondas me puxavam para diferentes direções. Eu fui empurrada contra várias pedras, e minha cabeça bateu contra uma delas, uma nuvem vermelha de sangue me cercando.
Foi quando algo gelado me pegou, uma pedra fria me abraçava tão carinhosamente. Nada tinha som ali embaixo, e o ar me faltava, mas eu parecia tão segura pressionada contra aquela pedra, como se ela pudesse me proteger de mim mesma.
A pedra parecia me puxar para a superfície, porém nada mais importava. Eu sabia que eu tinha que me lembrar de algo, mas a falta de oxigênio já me confundia, e a dor na minha cabeça me deixava ainda mais tonta.
O mundo, mesmo embaixo d’água, girava, rodopiava e latejava a minha volta. Os braços a minha volta era a âncora que me mantinham ciente que eu estava viva ainda.
Eu ainda estava viva quando nossas cabeças atingiram a superfície e o ar encheu novamente os meus pulmões. O céu estava escuro e chovia fraco. Não havia estrelas ou a lua. Exatamente como a minha vida, também não existia luz quando eu morri.
Notas finais
Pessoal, me perdoem, mas a fic é bem curtinha. Só tem mais o próximo capítulo e um ou dois bônus que provavelmente vou escrever. Não sei se notaram, mas a Bella morreu. Que fic longa eu posso fazer com ela morta? Uma encarnação dela no futuro é uma ideia muito manjada e assim como ela não foi feliz com o Jacob, o Edward não seria feliz com mais ninguém. Me desculpem mesmo.
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