Os Pães


Seis anos depois…

11 Anos de idade.



Eu, meus irmãos e meu pai estávamos desde cedo sovando massa de pão. Depois, fui para a sala decorar os biscoitos que preparei ontem à noite, enquanto os pães ainda assavam.

O cheiro do pão recém-assado ainda pairava no ar quando ouvi minha mãe gritar da porta dos fundos:


— Saia já daí, sua vadiazinha da Costura! Quer que eu chame os Pacificadores?


Curioso e confuso, larguei os biscoitos e fui até a cozinha, espiando discretamente por trás dela. E lá estava ela — a garota das tranças, encharcada de chuva, com os olhos fundos e o rosto encovado pela fome.

Meu coração se partiu. Queria ir até ela, trazê-la para dentro de casa. Mas minha mãe nunca permitiria isso.

Eu a observava há algum tempo na escola, embora ela nunca tivesse olhado de volta. Sentia algo por ela, mas jamais tive coragem de me aproximar. Admirava Katniss de longe, mesmo com meu coração implorando por uma chance.

Nunca tive essa coragem.

E por isso, meu corpo sofria com a minha própria covardia.

Meu coração acelerava, minhas mãos suavam frio sempre que ela passava por mim.

Eu tinha uma pasta cheia de desenhos — todos do rosto dela. Desenhava detalhes: o sorriso quando encontrava a irmã mais nova, os olhos tristes no dia em que perdeu o pai na mina.

Mas agora... agora ela parecia prestes a cair.


Minha mãe voltou resmungando para dentro, murmurando algo sobre "parasitas" e "vergonha", e eu continuei ali, parado, espiando pela vidraça.

Katniss caminhou lentamente até a árvore atrás do cercado dos porcos e desabou.

Literalmente caiu, como se a terra tivesse sugado a última gota de força do seu corpo. E ali ficou, imóvel, completamente derrotada.

Meu estômago se revirou. Eu sabia o que era aquilo: fome.

Morrer de fome não era um destino incomum no Distrito 12.

O medo de que ela morresse ali me paralisou.

Aquela imagem me perseguiria por muito tempo se eu não fizesse algo.

Talvez me perseguisse mesmo que eu fizesse.

Mas eu não podia deixá-la naquela situação.

Olhei para os pães sobre a mesa e depois para a fornada que já estava boa para sair do forno.

Foi então que tive uma ideia.

Vesti as luvas, puxei uma das assadeiras, inclinei-a levemente e deixei dois pães caírem próximo à chama do forno.

Coloquei a bandeja rapidamente sobre a mesa e, com a ajuda de um gancho da cozinha, puxei os dois pães antes que queimassem demais.

Por sorte, só chamuscaram nas bordas e em alguns pontos da crosta.


— O que você fez, seu menino inútil?! — gritou minha mãe, surgindo repentinamente ao meu lado.


Ela me acertou no rosto com as costas da mão, o punho fechado.

Seus anéis deixariam marcas — eu tinha certeza.

Doeu, doeu muito.

Mas não desviei.

Estava acostumado.

Segurei os pães com firmeza entre as mãos.


— Desculpe, mãe — murmurei, de cabeça baixa. — O que faço com eles?


Mas eu já sabia a resposta.

Ela mandaria dar aos porcos. Preferia alimentar os animais a ajudar qualquer pessoa do 12.

Principalmente uma garota da Costura.


— Dê isso aos animais, seu idiota! Ninguém quer pão queimado! — Ela ergueu a mão novamente, mas a campainha da loja soou, anunciando um cliente.

O golpe não veio.

Assim que ela saiu para atender, aproveitei.

Corri para fora, rasguei as partes mais queimadas dos pães e joguei-as no chiqueiro para despistar.

Olhei ao redor, me certificando de que ninguém observava.

A porta da cozinha estava entreaberta. Vi minha mãe voltando, mas a campainha tocou de novo, e ela correu para atender outro freguês.

Soltei o ar… nem percebi que o prendia.

Pelo canto do olho, vi Katniss ainda encostada à árvore, imóvel.

Observava tudo.

Talvez não esperasse mais nada de ninguém.

Talvez já tivesse desistido.

Fui até o cercado. Mantive os olhos nos porcos, como se nada de incomum estivesse acontecendo.

Então, joguei o primeiro pão na direção dela.

Caiu bem perto.

Um segundo depois, lancei o outro e corri de volta para dentro, fechando a porta antes que minha mãe percebesse.

Não olhei para trás.

Não ousei.

Meu coração estava aos pulos.

Senti um peso na consciência pela forma como joguei os pães, mas não havia outra maneira de entregá-los sem que minha mãe a atacasse.

Mas se ela os pegasse...

Ela teria como matar a fome por hoje.

E isso, só isso, já teria valido o risco.







Meu rosto ainda doía. O olho esquerdo estava roxo, latejando, e a bochecha inchada tornava até difícil sorrir — se é que eu quisesse tentar. Acordei cedo, como sempre, e ajudei meu pai com os pães da manhã. Não falamos muito sobre o que aconteceu no dia anterior. Ele me lançou um olhar breve e deu um tapinha leve nas minhas costas, como se dissesse: "Não se preocupe."

Não me recriminou, tampouco me agrediu, como minha mãe fez. E tenho certeza de que, se ele a tivesse visto naquele estado, teria feito alguma coisa.

Se eu pudesse escolher, faria tudo de novo. Mesmo que isso me custasse a vida.


Fui para a escola tentando parecer indiferente. Fiquei perto de alguns rapazes que se diziam meus amigos. Por sorte, ignoraram completamente meus machucados. Já estavam acostumados.

Mas hoje eles estavam mais irritantes do que o normal, falando bobagens, empurrando uns aos outros no corredor como se ainda fossem crianças.

Então, quando a vi parada mais à frente, meu estômago se contraiu.

Ela passou por mim com Prim ao lado, e por um segundo — apenas um — nossos olhares se cruzaram.

Um segundo. Nada mais.

Mas foi como se o tempo tivesse congelado.

Queria ter dito alguma coisa. Qualquer coisa.

Mas minha boca permaneceu muda, presa entre o orgulho e o medo de que ela descobrisse — ou adivinhasse — o que eu sentia.

Tinha medo de ser rejeitado. E, provavelmente, era exatamente o que aconteceria.

Virei o rosto rápido demais. Covardemente, talvez.

Mas eu a tinha visto ali. Viva.

Tão diferente de ontem.

E só isso já bastava.


No caminho de volta da escola, ainda a observei de longe — ela e a irmã atravessando o pátio com passos calmos, como se algo dentro dela tivesse mudado desde o dia anterior.

Havia um brilho nos olhos dela.

Determinação, talvez.

Ou esperança…


Fui até o ponto exato por onde ela tinha passado segundos antes. Quando olhei para baixo, querendo apenas chutar uma pedrinha, vi o primeiro dente-de-leão do ano, brotando tímido no meio do pátio poeirento.

Ela seguiu em frente sem me notar. E eu fiquei ali, parado.

Como uma estátua.

Nos dias seguintes, eu continuava vendo-a pelos corredores da escola.

Não conseguia tirar os olhos dela — mas desviava sempre que percebia que ela me pegara no flagra.

De vez em quando, ela também me olhava. Era rápido, quase imperceptível, mas eu notava. E ficava me perguntando o que estaria se passando na cabeça dela.

Mas, nesses momentos, eu não desviava.

Mesmo sabendo que ela nunca me enxergaria de verdade.


Agora que estávamos prestes a completar doze anos, nossos nomes teriam grandes chances de sair daquela maldita bola de vidro. Seremos empurrados um contra o outro, como peças num jogo cruel.

Quero acreditar que o nome dela nunca será sorteado. Mas sei que Katniss começará a pegar Tesseras quando fizer doze. Já ouvi boatos de que muitas crianças da Costura fazem isso por causa da fome.

E isso aumenta as chances de serem escolhidos.

Eu não suportaria vê-la morrer numa arena. Morreria junto, onde quer que eu estivesse.

Não quero viver em um mundo onde Katniss não exista mais.

Seria o meu fim também.

Disso, não tenho dúvidas.



🥖




Cinco anos depois…


Idade: 16 anos


A Colheita

74ª Edição dos Jogos Vorazes


O calor de julho grudava na pele como farinha molhada. Eu já tinha terminado as entregas da manhã e agora esperava, ao lado dos outros, na praça, com o coração pesado no peito.

Meus irmãos estavam lá também, mas pareciam distantes como sempre. Homens crescem depressa quando precisam alimentar a própria família.

Minha vida se resumia a fazer pães, biscoitos, bolos e decorá-los. Pintar e desenhar eram meus passatempos favoritos. Ah — e eu era perdidamente apaixonado por uma garota que mal notava a minha existência.

As pessoas se enfileiravam para a inscrição em silêncio. A Colheita era uma oportunidade para a Capital manter todos sob controle.

Assassinando crianças inocentes sem ninguém poder fazer nada para impedir.

Um lembrete.

Uma ameaça.

Será que isso um dia teria fim?

Será que eu chegaria a ter filhos? Os jogos ainda existiriam até lá? Mas quem poderia ir contra a tirania da capital e acabar com essa crueldade?!

São tantas perguntas sem respostas, é cansativo até imaginar.

Eu já estava posicionado na fila correspondente à minha idade, contando os segundos para aquele dia macabro terminar. Lancei um olhar de ódio para as duas urnas de vidro com nossos nomes dentro. Minhas chances não eram tão ruins. Eram... aceitáveis.

Mas o que realmente me preocupava era Katniss. O nome dela aparecia mais vezes na urna das garotas do que o meu na dos garotos.

Olhei para o palco. O prefeito, a escolta, Effie Trinket, as equipes de filmagem… tudo pronto para a cerimônia. O rosto de Snow tremeu nas grandes telas como um fantasma sorridente.


E então, ela chegou.

Katniss Everdeen.

Cabelos trançados, expressão cerrada. Ela parecia tensa, como se carregasse todo o medo do mundo dentro do peito. Estava ao lado da irmãzinha, Prim, com a mão pousada sobre ela, delicada e firme, como uma âncora.

Eu não conseguia parar de olhar.

Katniss sorriu discretamente, e meus olhos seguiram o motivo do sorriso. Gale.

Eles estavam sempre juntos — amigos próximos, companheiros de caça. Mas meu ciúme não via a situação com tanta simplicidade.

Havia boatos de que namoravam, só não assumiam. Eu não tinha nada contra ele, de verdade. Só odiava o fato de ele ser tão próximo dela… enquanto eu era invisível.

Desviei o olhar de Gale e voltei a encarar o palco com o coração doendo.

Foco, Peeta.

Esse não é o momento para ciúmes.


Pontualmente às duas horas, o prefeito iniciou o discurso fúnebre sobre Panem, que um dia já fora conhecida como América do Norte. Falou dos desastres naturais, das guerras, dos Dias Sombrios, da rebelião dos distritos, da criação dos Jogos…

Resumidamente: arrancar crianças de suas casas e forçá-las a se matar enquanto todos assistem pela televisão. Era assim que a Capital nos lembrava, ano após ano, de que estávamos completamente subjugados a ela.

A fala do prefeito parecia interminável, e eu me sentia cada vez mais tenso. Finalmente ele concluiu, e chegou o momento do sorteio.

Effie Trinket, como fazia todos os anos, anunciou:


— Primeiro as damas!


O sorteio começou. Ela mergulhou a mão na urna e puxou um papel.

Não era o nome dela.

Mas era quase, não tinha diferença.

Primrose Everdeen.

A irmã mais nova de Katniss.

A garota por quem sou apaixonado.


Katniss jamais permitiria que sua irmã fosse, se houvesse uma chance de impedir.

O som do nome de Prim me atingiu como uma pedrada.

Houve um silêncio tão profundo que pareceu que o mundo parou.

E então, o grito de Katniss cortou o ar:


— Eu me ofereço! Eu me ofereço como tributo!


— Não, Katniss! Não! Você não pode ir! — Prim gritava, desesperada, em meio às lágrimas.


Todos pareciam chocados, menos eu.

Era Katniss. É claro que ela faria isso. Ela faria qualquer coisa por Prim.

Respirei fundo, atordoado demais para pensar. Mas também não tive tempo.

Logo em seguida, foi a vez dos garotos.

Effie mergulhou a mão na outra urna… e disse o nome do tributo masculino.


Peeta Mellark.


Tentei parecer calmo. Caminhei entre a multidão com passos firmes, mesmo que por dentro tudo estivesse desmoronando.

Não olhei para meu pai, nem para meus irmãos.

Não olhei para ninguém, exceto pra ela.


O prefeito concluiu a leitura do Tratado da Traição e fez um gesto para que apertássemos as mãos.

Por um segundo, nossos olhos se encontraram.

Segurei sua mão com firmeza, e naquele gesto silencioso estava uma promessa:


Eu vou proteger você.


E naquele instante, eu soube.

Estava selado, mesmo que ela não soubesse ainda.



🥖



O Trem


A comida era farta. As paredes, cobertas por painéis polidos, refletiam um garoto que eu mal reconhecia. Eu me sentia sujo, deslocado — como uma peça que não se encaixava naquele lugar reluzente.

Estava sentado diante de uma mesa cheia, a cadeira ao meu lado seguia vazia.

Katniss apareceu com Effie e se sentou do outro lado, comendo em silêncio, como um animal desconfiado. Seus olhos percorriam o trem, os pratos, e voltavam à janela. Evitavam os meus.


— Onde está Haymitch? — perguntou Effie Trinket.


— A última vez que o vi, ele estava indo tirar uma soneca — respondi.


Queria dizer algo a Katniss. Qualquer coisa.

Mas como se começa uma conversa com alguém que talvez precise matar você? Katniss fará de tudo para sobreviver, e eu… farei de tudo para ajudá-la. Mesmo sabendo que meu fim é quase certo.


Sou um cara legal, mas também sei ser manipulador, astuto — e um excelente mentiroso quando necessário. Infelizmente, apesar de ser filho de um comerciante, nunca tive um dia fácil. Aprendi a sobreviver ainda dentro de casa. Posso usar isso a favor dela. Mas, antes, preciso que Haymitch fique sóbrio e nos ajude.

Effie falava sem parar sobre etiqueta, entrevistas, boa impressão. Haymitch, completamente fora do radar.

E eu... só queria entender como havíamos chegado ali. Tudo parecia um pesadelo.


No Edifício da Justiça, antes de embarcarmos, minha mãe usou seus últimos dois minutos para me ferir com palavras. Mas, no fundo, eu queria acreditar que ela estava certa. Disse que, ao menos agora, talvez o Distrito 12 tivesse um novo vitorioso. E não, ela não se referia a mim — seu próprio filho —, e sim a Katniss.

Em 74 anos, tivemos exatamente dois vencedores, e apenas um continua vivo: Haymitch Abernathy, nosso futuro mentor alcoólatra. E uma garota que estranhamente ninguém sabe que destino teve depois que voltou para o distrito doze.

Mas o que mais me marcou… foi perceber que ela sequer disse: “Espero que você sobreviva”.

Nada.

Nenhuma palavra de conforto.

Mas isso já era de se esperar vindo dela. Diferente do meu pai. Ele me abraçou, e choramos. As chances de revê-lo eram praticamente nulas.

Esse pensamento, sim, doeu e me atravessou como uma faca.


Respirei fundo, peguei mais um pedaço de pão — pão doce, com passas e canela — e mastiguei como se aquilo pudesse me manter ancorado à realidade.

Olhei para Katniss mais uma vez. Admirava-a ainda mais depois do que fizera para proteger sua irmã. Mas isso também me destruía. Porque nós dois estaríamos presos na Arena, enquanto as pessoas se divertiriam à custa do nosso sofrimento.

Porque agora ela está aqui. E eu também. Mas o que isso significa?

Como se olha nos olhos da menina que você ama, ou melhor, amou em silêncio a vida inteira e diz: “vou te proteger”, quando sabe que só um de vocês pode sair vivo? Ela nunca acreditaria em mim, provavelmente pensaria que estaria manipulando. Uma estratégia para que eu ganhasse os jogos. Se ela pensa isso, o que acredito que sim. Ela está muito equivocada. Não vou aceitar que façam da gente mais duas peças sendo lançadas à morte para divertir uma plateia insaciável.

Não vou perder minha essência, a capital não vai me manipular. E Katniss precisa ganhar.

Talvez tudo o que reste seja isso: Acreditar que ainda há um amanhã e um futuro para Katniss. Enquanto ela está ali ao alcance dos meus olhos, e ao mesmo tempo tão distante.

Logo a Capital vai começar a brincar conosco, lançados à morte como peças de um jogo antigo.

Não vou aceitar isso, só preciso descobrir como mudar as peças e os jogadores de lugar.

Que os jogo comecem.



Notas finais
Esse foi curto, meu propósito desde o início realmente era esse. Fazer um breve ponto de vista de Peeta. Agora focar em terminar a outra, que estou reescrevendo ... Distrito 12, um novo recomeço. :) Espero que gostem 🫰
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!