Demônios Não Amam.
8 Sinceridade... Bipolaridade, você escolhe.
Notas iniciais
Bom, antes de mais nada um super beijo para a Blood, Mnemosine, Mary Nynha, Carolina, Sweet Heart, Renata, Bia Salvatore e todos os meus outros amores por lerem, favoritarem ou comentarem.
Vocês não existem! Obrigada de verdade por estarem acompanhando essa minha história maluca e bem ruinzinha.
Agora sobre o capítulo ~le texto gigante para combinar com o capítulo gigante ~ esse e o próximo (que talvez eu poste amanhã), foram os que eu mais sofri para escrever. Estão muito drogados e sem noção (Tá, tudo aqui é assim) e eles tiveram que seguir uma linha fumantezona assim, porque foram escritos no meio de quatro amigas histéricas gritando ao mesmo tempo coisas como "NIKKI, COLOCA ISSO!" "NÃO, ISSO NÃO... COLOCA AQUILO" crrrrrr, enfim. As sugestões eram todas ótimas e lindas (amo vocês) o problema é que a escritora não conseguia conciliar muito bem as ideias e aí surgiu esse capítulo grotesco DD: Desculpa de verdade.
Outro detalhe é que o capítulo tem sexo. Yeap. Beeeeeeem levezinho e santo (o que não prometo quando for a vez do Damon e Elena. Sorry sou pervertida, me processem u____u xD), mas tem.
E por último... acho que grande parte da graça de tudo que é escrito é nós imaginarmos os personagens de acordo com os nossos gostos e tal, mas resolvi postar para vocês os atores/cantores/modelos/whatever que serviram de inspiração para criar alguns personagens. Óbvio que fica a critério de vocês, a decisão de imaginá-los assim ou not ;).
De novo desculpa e obrigada por estarem acompanhando. *O*
A Elena amar o Hulk na infância foi em homenagem à Bloodzuda, minha escritora predileta mega diva que tem uma saga incrível sobre os Vingadores. (um dia será¡ oficial da Marvel u_u)
beijos, beijos:*
INSPIRAÇÕES PARA OS PERSONAGENS:
http://demonios-nao-amam.tumblr.com/atores/

POV- A quinta herdeira.
Abriu os olhos sentindo a respiração leve e tranquila do humano ao seu lado na cama. O sol amanhecia fraco no horizonte e em algum lugar de Manhatan, uma música muito ruim tocava.
Malditos humanos filhos da puta esses que lançavam cantores que mais pareciam estar sofrendo de dores abdominais do que cantando. Aquilo sim devia ser pecado capital!
Grunhiu rebelde desejando matá-los apenas com suas unhas, mas depois se lembrou de que isso era irrelevante agora.
Precisava voltar o quanto antes para o seu inferno pessoal. E quando ela falava inferno, significava literalmente.
Jenny Wolf era a quinta na fila das herdeiras de Lúcifer além de ser a predileta dele mesmo sendo considerada por todo mundo como alguém com o “comportamento inadequado para uma soberana do submundo”.
Sinceramente, quando a vadia da Lilith ou suas irmãs imbecis lhe davam aqueles sermões, só conseguia ouvir: “blá, blá, blá. Somos vacas mal amadas, somos vacas mal amadas”, porque era no mínimo ridículo receber aulas de como ser bem comportada quando se era um ser maléfico e coisas “MUAHAHA” do tipo.
Se queriam uma lady, que a trocassem por uma anja ou algo assim. (o feminino de anjo existia, certo? Não importava).
O motivo da implicância estava todo na preferência de Jenny por humanos. Segundo as regras, príncipes infernais só poderiam fazer contratos importantes e raros, deixando a negociação de pessoas normais para súcubos, íncubos ou subalternos. O que ninguém parecia entender, no entanto, era o quanto isso era entediante e super: “Por favor, alguém me dê uma arma para que eu possa explodir os miolos”. Ela precisava de emoção e coisas que a deixassem entretida!
Não teve alternativa além de dar uma de rebelde sem causa e sair por aí se divertindo com os humanos e depois sugando suas almas vazias. O hábito não a alimentava tão bem porque não possuía tempo de transformar suas vítimas em más e deliciosas, mas não era de todo mau. Só a obrigava a usar minissaias com mais frequência do que o necessário.
Olhou o relógio sentindo seu corpo implorar por mais energia. Cinco horas relevando o fuso horário dava...? Ah, não deveria ser tarde.
Só podia ficar vinte quatro horas inteiras no mundo dos humanos se não estivesse em período de contrato e estaria verdadeiramente enrascada se qualquer um dos seus irmãos desse pela sua falta. Não que se importasse, mas a sensação de fazer as coisas sem que descobrissem tornava tudo ainda mais excitante.
Riu baixinho sentindo que o seu acompanhante acordava naquele exato momento. Qual era o nome dele mesmo? Freek... Fred... Freter...
– Hey. – Cumprimentou com um sorriso sonolento. – Pensei que tinha sido um sonho, mas você existe.
Homens humanos. Existia algo mais divertido no mundo?
Jenny sorriu maliciosamente rolando por cima do corpo quase infantil. O garoto deveria ter uns dezesseis anos no máximo enquanto ela somava seus duzentos e cinco mesmo com a carinha de adolescente.
Ops. Talvez devesse ser presa.
– E você tem esse tipo de sonhos? – Provocou enquanto deixava os lábios roçarem lentamente o pescoço do seu acompanhante fazendo seu corpo tremer. – Parece que alguém vai ter que rezar trezentos paternosters¹ na próxima missa.
Aprofundou os beijos em sua pele dando leves chupões que o faziam arfar e levou sua mão até dentro da cueca box, pegando o conteúdo e massageando vigorosamente.
O garoto sem nome fechou os olhos puxando mais ar para os seus pulmões enquanto ela sorria.
Ele parecia um cara legal, esse tal de Freetz. O tipo de garoto sem conteúdo que quando fosse mais velho iria dormir com todas as meninas em um raio de trezentos metros.
O descolado típico de todas as turmas. Uma pena que não pudesse colher todo aquele eminente sucesso.
Jenny sentiu que finalmente conseguira deixá-lo satisfatoriamente animado e retirou as peças intimas que os atrapalhavam, sentando-se sob ele bem devagar.
Pôde ouvir quando um gemido baixo escapou pelos lábios de Frederick e mordeu os lábios de forma convencida.
Seu corpo começou a se movimentar lentamente, sentindo as mãos firmes masculinas a segurando pela cintura. Os olhos verde musgo se abriram e encararam os seios que, sem falsa modéstia por parte dela, eram realmente dignos de toda aquela atenção.
A música irritante agora acabava dando lugar para outra pior ainda. Oh puta que pariu, quando isso terminasse mataria o maldito ouvinte inconveniente. Talvez pudesse até colocar a culpa no Fabriccio... Félix...
O garoto arfou mais uma vez, enquanto ela aumentava o ritmo dos movimentos sentindo uma leve energia fluir pelo seu corpo.
Apoiou as duas mãos no abdômen dele, lembrando-se, por uma fração de segundos, de como se conheceram em um clube noturno na noite anterior.
Ele e um amigo usavam identidades falsas e bebiam como loucos. Já tinham levado uma série de foras quando Jenny se aproximou com o melhor ar de vagabunda que conseguiu. (Por coincidência do destino ficou bem parecida com a sua irmã mais velha Tarah Smith, mas isso não era detalhe para se comentar em voz alta).
Os dois aspirantes a homens obviamente amaram aquela estranha com hormônios a flor da pele e após alguns drinks e insinuações, ela e o seu amiguinho ali acabaram entre lençóis. Mal suspeitavam que Jenny estivesse presente por um motivo muito diferente do que apenas sexo.
Tsc, tsc. Aquele papo da mamãe de não falar com estranhos deveria ser levado a sério por meninos como o F-Alguma-coisa.
Voltou a se concentrar no que acontecia no quarto e sentiu a energia aumentar aos poucos a fazendo sorrir de contentamento.
Chegou ao ápice poucos segundos depois de Ferdinand, e ela precisava admitir que não fora a sua pior relação amorosa.
Tampouco foi a melhor, mas isso poderia ficar guardado como um segredo.
Passou os dedos entre os fios de cabelo para coloca-los no lugar e saiu de cima do corpo do seu parceiro. Ele a tentou puxar de volta, mas foi impedido por tapas leves em sua mão.
– Ainda temos mais tempo. – Insistiu o garoto tentando soar provocante. – Só preciso ir para o colégio às oito. Podemos repetir a dose de ontem Lucy.
Não soube dizer se esse fora mesmo o pseudônimo que usara ou se não era a única ali com problemas para gravar nomes, mas não pôde deixar de lançar um olhar surpreso para o tal F.
O cara aprendia rápido!
– Desculpa, mas preciso ir embora ou meu pai me mata. – Murmurou catando suas peças de roupa espalhadas pelo quarto e as vestindo. O lugar era uma espelunca desorganizada, cheia de pôsteres de mulheres nuas como mandavam as regras dos hormônios adolescentes. Aquilo normalmente a faria rir, mas a fome estava tirando todo o seu humor. – Sua mãe vai demorar a vir lhe chamar?
Ele assentiu parecendo subitamente animado e Jenny esforçou-se para não revirar os olhos com desprezo. Enjoava das pessoas tão facilmente...
– Bom, então parece que temos tempo para uma última brincadeira. – Disse sedutora e o garoto esfregou as mãos com um ar sacana, enquanto ela engatinhava entre os lençóis até o rosto infantil. – Seus olhos são tão lindos, posso vê-los? – Pediu encostando os dedos na pele bronzeada e bela assim que ele obedeceu.
O verde musgo se arregalou refletindo a luminosidade demoníaca que estava visualizando na mulher à sua frente. A excitação masculina finalmente substituída por temor.
Jenny sorrira sentindo o vazio em seu organismo diminuir.
Seus dedos formigavam sentindo a alma ser arrancada do corpo da sua pobre vítima, e uma leve sensação de vitalidade e poder a tomaram.
A expressão do F em contraponto era sofrida, seus músculos se mexiam descontrolados e o terror deixava seus lábios pálidos e seu sangue frio. Debateu-se como um peixe agonizando longe da água até finalmente diminuir o ritmo da sua dança e ficar inerte no colchão exalando um último suspiro.
Finalmente, a diabólica menina o soltou encarando seu rosto com falso pesar. Pobre menino atraente e metido a valentão. Nem ao menos gritara ao sentir o que estava acontecendo.
Jenny não sabia se isso lhe deixava agradecida ou entediada. Gostava quando os humanos ficavam surtados gritando loucamente como criancinhas! Era mais emocionante.
Passou a mão pela fronte dele obrigando suas pálpebras a pesarem e saiu da cama calçando as botas e concentrando-se no lugar familiar para o qual queria ir.
Imediatamente sentiu-se desmaterializar e lembrou, quase que por sorte, o nome do seu cardápio do dia. Nada com F como ela imaginara:
Max Mooris.
Não sabia como era a imagem mental que os humanos mantinham do submundo, mas bem provavelmente deveria ser muito mais legal do que era de verdade.
Com exceção dos tons de azul que coloriam o céu humano, o resto todo era completamente igual ao mundo que as pessoas normais estavam acostumadas a ver.
Favelas, lojas, casas noturnas, bares, casas elegantes e alojamentos paupérrimos: o inferno era belo e destrutivo, obviamente com mais ênfase no segundo adjetivo, mas tinha seu toque inebriante.
A mansão dos filhos de Lúcifer ficava no cume mais alto da “cidade”, a pouquíssimos metros do castelo onde o próprio residia. Seu pai morava completamente sozinho e rejeitava até visitas familiares. Os únicos autorizados a entrar naquelas ruínas, e mesmo assim com restrições, eram Abramalech e Baalberith² para discutirem problemas estruturais ou políticos do inferno.
Seu meio irmão Damon também já fora lá, mas apenas duas vezes e por pouco mais de cinco minutos.
Sim, O Diabo era antissocial.
Só não julgava seu pai porque seu temperamento era extremamente parecido, mas se não fosse por isso ele ouviria poucas e boas por fazê-la morar junto às suas cinco irmãs, cinco irmãos (não conhecia o tal Stefan) e de quebra a madrasta da branca de neve.
Teletransportou seu corpo para seu quarto e jogou-se sob os seus lençóis de um vermelho luxuriante ouvindo os leves murmúrios vindos da sala de estar.
Eles já estavam acordados? Jenny precisava lembrar-se de dopá-los algum dia.
Ficou quieta tentando identificar as vozes que conversavam de forma fria e, com exceção do Damon, Lilith e Dolores, todos os outros pareciam estar presentes.
– Saco. – Praguejou, indo ao armário escolher alguma roupa que os convencessem de que ela estava dormindo em seu quarto até aquele momento.
Lavou os vestígios do perfume que Max deixou em sua pele, vestiu-se e desceu as escadas.
A família dó-ré-mi parou imediatamente seus afazeres e a encarou com as mais diversas expressões.
Ela sorriu sem se importar, sentando-se ao lado do Apaixonado e fazendo com que os olhares só se carregassem mais de censura.
Ethan não tinha exatamente a reputação que os demônios prezavam e admiravam. Para falar de um modo bem bruto e sincero, ele era odiado.
Tudo porque éons atrás, o Apaixonado fora imbecil o bastante para ganhar esse apelido ao quebrar um dos grandes mitos mundiais: o de que demônios não amavam.
Bem, a princípio não amavam mesmo, até porque Lúcifer não possuía a capacidade de sentir qualquer coisa que não fosse destrutiva desde que pendurara suas asinhas e auréola de lado (ou era o que dizia para todos). O único problema é que eles, como filhos de mães humanas, nasciam com uma centelha dessa humanidade.
Nada relevante comparado aos 99,9% de pura essência demoníaca, mas ainda assim era uma fagulha que quando alimentada, podia gerar verdadeiras tragédias.
Essa experiência nunca fora testada, (afinal... Quem em sã consciência amaria um demônio?) até que Annelise Baker aparecesse.
A garota era aquele tipo meigo que achava que o mundo era rosa e até as baratas mereciam ser amadas. Sonhava com o dia em que todos os seres convivessem pacificamente e por isso resolveu invocar um demônio com base nos seus conhecimentos bruxos nojentos.
Ethan era muito jovem, mas ainda assim sustentava a postura de inabalável e todos apostaram às gargalhadas que o demônio mataria a garota por causa daquele jeitinho meio hippie dela.
Pode até ter pensado nisso a princípio, mas o fato é que a cada dia de convivência começava a sentir-se diferente exposto a tanta atenção e amor partindo da menina.
Annelise começou a vê-lo com olhos românticos e com o tempo Ethan correspondeu fazendo com que toda a sua humanidade viesse à tona. Ainda era um demônio, mas seu coração virara humano e asqueroso.
No fim, era a prova que Anne possuía razão e seres maléficos poderiam ser “regenerados”, mas é óbvio que nenhum dos grupos gostou dessa ideia. Anjos, demônios, bruxas e o escambal uniram-se e perseguiram o casal estranho por séculos.
Assim que conseguiram capturá-los, as bruxas decidiram destruir e esquartejar a alma de Annelise e espalhar os fragmentos pelo mundo em diversas pessoas diferentes.
Ethan, arrasado, foi julgado por Lúcifer que quase lhe deu um destino igualmente terrível (como rebaixá-lo a torturas diárias), mas depois se convenceu de que o demônio sofreria muito mais se mantendo intacto e ainda refém do amor.
Seu irmão virara a vergonha e a cicatriz do Diabo, rejeitado por todos e torturado pelos olhos de Annelise que nunca esqueceu.
HAHA, cada vez que pensava na história a achava ainda mais patética. Gostava do Apaixonado, mas ele fora um burro. Sofrer assim por uma bruxa, francamente!
Tentou não aparentar o riso proveniente da sua divagação e puxou os cabelos curtos e escuros de Ethan, como um cumprimento.
Os olhos azuis acinzentados, que eram a marca registrada dos filhos de Lúcifer, a encararam com doçura e ela sorriu virando logo o rosto para não enjoar.
Eis um ponto muito ruim naquela história: Seu irmão parecera desenvolver sentimentos completos e não só o amor romântico, então sempre olhava para os irmãos dos quais gostava com aquele ar fraternal nojento e indigesto.
– Não se encoste a ele, Jenny. – Ralhou Diti, a mais velha das irmãs, com um olhar feroz. – Esse verme não merece a atenção de demônios de verdade.
Ethan trocou um rápido olhar com Derek e Bran e levantou-se subindo as escadas que dariam para o seu quarto. Ele já havia desistido de discussões, em especial com a primeira herdeira.
Diti era bela e altiva. Extremamente magra com um rosto afrancesado da sua mãe, olhos grandes e cabelo liso escuro.
Tinha um sorriso radiante, mesmo com os lábios vermelhos sempre moldados de veneno e era de longe, a irmã que a garota demoníaca mais odiava.
Para ser bem sincera, Jenny não se dava bem com nenhuma das irmãs.
Ravenna era outra beleza rara, os cabelos negros ondulados, os olhos atentos, a pele branca e sem nada rosado. Tinha um apetite intelectual feroz (lê-se nerd) e partilhava a arrogância e os mesmos interesses que a irmã mais velha, então desde cedo se uniram.
Pareciam duas velhas fuxiqueiras andando pelos cantos com sussurros e poses esnobes. E quando não, contavam com uma terceira peça.
Sabine era irritante. Longos cabelos lisos escuros, pele alva, nariz arrebitado e olhos ardilosos. Era terrivelmente falsa e seu jeito sonso fazia com que Jenny desejasse puxar aqueles cabelos e arrancá-los em tufos.
Seguia sempre com passinhos curtos fazendo todos os favores que as duas irmãs mais velhas necessitavam. Uma lacaia praticamente, mas só nas aparências. No fundo era a mais perigosa de todos.
Dolores usava uma aparência mais adolescente e não saía nunca do quarto. Fora criada até os doze anos como uma menina católica perfeita e o choque de descobrir quem realmente era fez com que ela ficasse meio louca.
Não que os demônios sentissem falta dela, a afetuosidade que ganhou dos pais adotivos fez de Dolores uma forte candidata a ser a segunda decepção da família, então quanto mais isolada ficasse, melhor.
Por último, Tarah.
Era uma vadia sem tirar nem pôr, luxúria era o seu segundo nome e ela se orgulhava disso. Se alguém resolvesse colocar em uma balança o cérebro “Tarahno” de um lado e um punhado de gelatina do outro, a gelatina ganharia.
No fim, Jenny era a mais legal das mulheres. E não, ela não era convencida. Até seu pai reconhecia isso!
Os homens já eram melhores de se conviver.
Derek, o mais velho de todos, era charmoso e sério e sua aparência de trinta e poucos anos deixava clara a sua personalidade. A covinha no queixo, os fios de uma barba que nunca deixava crescer, os olhos maliciosos e o cabelo sempre impecavelmente penteado eram os atributos que adornavam um cara sério, legal e na dele.
Só parecia estar sempre muito ocupado com assuntos que Jenny nunca soubera decifrar, mas sabendo respeitar seus momentos de reflexão, estava tudo bem.
Damon era, de todos, o seu predileto. Malicioso, sarcástico e naturalmente entediado assim como ela, tinha certo carisma que não dava para explicar. Sempre conversavam quando se encontravam nos corredores da mansão e agora ela sentia falta disso. No momento Damon estava brincando de casinha com uma garota aí, mas às vezes aparecia para diverti-la.
Ethan era na dele, calado, misterioso e meio nojento com aquela doçura toda.
Bran tinha cabelos louros escuros, um porte físico invejável e convinhas no rosto que o deixavam com cara de menino sapeca. Era extremamente ganancioso, atraente e cruel. A lenda dizia que toda vez que ele sugava uma alma, o corpo da vítima se desintegrava de tanta brutalidade com a qual ele fazia isso.
Não conversavam muito, mas ele pelo menos revirava os olhos em solidariedade quando Diti vinha fazer sermões para a menina.
Harold, ou simplesmente Harry, era o único que utilizava a aparência de uma criança. Possuía olhos atentos, habilidades natas para a espionagem e era inteligentíssimo.
Poucas vezes sorria, mas tinha uma fama invejável de conquistador de almas graças a esse seu jeito pacato que imitava uma timidez.
Stefan era um mistério, mas pelo que Damon contara para ela, o anjo era um saco. Meio reclamão e coisa e tal, deveria casar com a Diti e adotarem a Sabine e a Raven na opinião dela.
Inclinou-se buscando uma xícara de chá deixada sob a mesa de centro e bebericou sabendo que era do Apaixonado.
Queria deixar bem claro o que achava de toda aquela marcação cerrada com o pobre Ethan.
Os olhos gelados de Diti se estreitaram, mas ela resolveu relevar.
Jenny olhou em volta frustrada com o silêncio moribundo (aquilo era tão deprimente quanto reuniões de anjos) e decidiu fazer o mesmo que a louca Dolores e trancar-se no quarto.
Já estava no terceiro degrau da escada, quando Ravenna a chamou.
– Jenny, daqui a pouco nós teremos uma reunião importante e gostaria que ficasse no seu quarto durante ela. – Pausara a olhando com um meio sorriso. – Estamos pedindo para todos. É muito importante mantermos o sigilo da nossa convidada.
Ela sabia que o “nós” deixava implícito a presença de Diti, Sabine e Lilith. Suas irmãs só faltavam lamber o chão por onde a madrasta passava.
A garota demoníaca a olhou sem expressão e apenas assentiu.
Não sabia se aquilo era um pedido verdadeiro ou um truque para deixa-la curiosa e provocá-la a descer.
Isso que dava morar no meio de demônios!
Rolou na cama sentindo-se exausta por ter se obrigado a dormir tanto tempo. Ela não precisava padecer a nenhuma das atividades humanas para sobreviver, mas podia muito bem obrigar-se a executá-las.
Comer comida humana sem fome, dormir sem nunca sentir sono, etc.
Odiava fazer isso porque se sentia meio deslocada, mas não queria dar o gostinho para a Raven de ficar curiosa e descer para espioná-las e a única solução que surgiu foi... Dormir.
Aparentemente havia dado certo, o céu do submundo estava ainda mais escuro e nenhum ruído podia ser ouvido no andar de baixo.
Dando graças ao Diabo, levantou-se da cama e desceu as escadas atrás do Harold. Ele provavelmente ouvira tudo e podia fazer mímicas explicando do que se tratava a conversa tão “misteriosa”.
Ao chegar ao meio da escada, entretanto, percebeu que havia se precipitado ao julgar a sala livre.
“Você acha que pode dar certo?” – A voz de Lilith indagava com ar de diversão.
“Preocupo-me com isso também, minha senhora”. – Foi a vez de Sabine levantar a questão com o ar sonso dela de sempre;
“ E como poderia não dar? Nós damos as cartas nesse jogo, minhas queridas.” – A voz feminina misteriosa pausara. Jenny buscava na memória, mas de modo algum reconhecia aquele tom. De qualquer forma, era melhor voltar para seu quarto, aquilo parecia uma conversa de matronas bêbadas. “Querida... Pode, por favor, pegar água para mim?”
“ Água? Oh... mas é claro minha senhora.”
O barulho do copo sendo cheio ecoou enquanto Jenny virava-se para partir.
“ Damon já conhece?” – Diti foi curiosa.
O corpo da garota estancou ao ouvir o nome do irmão predileto. O que aquelas imbecis estavam armando? E quem era a outra mulher?
“Se os boatos forem verdadeiros... Sim. Você já viu majestade? Se agradou?”
Uma risada rouca a tenebrosa encheu o ressinto.
“ Vai servir meu bem. Como disse... Só preciso de um cadáver.“
“Perdão, mas qual é o nome da pessoa que escolheu mesmo?”
Jenny esgueirou-se mais na escada ouvindo a resposta da identidade secreta até repentinamente sentir o aço ultrapassando suas costas em uma dor dilacerante que quebrava costelas e rasgava carne e músculos.
As lágrimas encheram seus olhos sem a sua permissão, mas tentou dizer para si mesma que ficasse tranquila.
– Acho que deveria ter escolhido um alvo que fosse mortal. – Ela sussurrou tentando agarrar a lâmina metálica no seu abdômen.
O sangue jorrava espesso sujando os degraus de madeira como um rio macabro. Sua vista rodou e uma tosse que liberou ainda mais líquido vermelho escapou por seus pulmões.
Não. Demônios não podiam morrer... Como então, tinha tanta certeza que era seu fim?
Riu com um humor negro ao ver, na ponta da espada, símbolos estranhos.
É, parece que os filhos de Lúcifer estavam destinados a quebrar todos os mitos demoníacos.
Suas pernas cederam e seu corpo tombou na madeira polida, enquanto a morte a cegava.
Um último rosto invadiu os seus pensamentos e, inesperadamente, ele era humano. A face familiar quase infantil enfeitada por olhos verdes maliciosos que tentavam incentivá-la a não ir embora.
“A brincadeira acabou para nós dois, Max” Suspirou deixando de existir.
__________________________________________________________________
POV- Elena Gilbert.
Era oficial, todos estavam completamente loucos! Loucos, loucos, loucos. O que tinha de tão interessante assim em um cara lindo que fosse novato no colégio? Pff... Nada! Absolutamente nada.
Elena torceu o nariz ao ver a quinquagésima garota cumprimentar Damon com um sorriso monstruoso no rosto e uma bandeja fresquinha de biscoitos nas mãos (que ele provavelmente jogaria no lixo assim que ela saísse como fizera com os outros trinta e oito tabuleiros de cookies recebidos).
Desde que o tal “intercambista inglês” chegara, sua vida se tornara um inferno.
Ela ainda não sabia como o demônio fizera aquilo, mas desconfiava que tivesse sido a mesma técnica utilizada para a demissão dos pais. Algo como controle mental ou qualquer loucura semelhante. O fato é que o diretor da Mystic Falls High School resolvera reabrir o programa de incentivo ao intercâmbio da noite para o dia e, como a família Gilbert estava constando no antigo cadastro desde que Jeremy passou dois meses em Londres, foram os primeiros selecionados para hospedarem um nativo da Inglaterra.
Grayson achara a ideia boa por tanto que fosse um menino pelo menos seis anos mais novo que Elena ou uma garota, mas quando soube que o escolhido era um tipo de dezenove anos que mais parecia um modelo do que qualquer outra coisa, surtou.
Jeremy também não ficara totalmente a vontade, mas em solidariedade ao intercambista, disse não haver problema.
Elena estava dormindo na hora e nem se quer perguntaram a sua opinião! (Ok que ela que pedira para Damon mudar-se para lá, mas ainda assim queria ser consultada pela sua família).
Sobrou para Miranda dobrar o marido e convencê-lo a aceitar enquanto praticamente plastificava o fax com os dados de Damon como se fossem motivo de culto.
Afinal ele era um rapaz extremamente inteligente com muitos prêmios, que fazia trabalho voluntário e todo o tipo de caridade (cof, cof). “Melhor hospede não há” mostrou ao Sr. Cinza com um discurso de defesa na ponta da língua.
Estava animada com a diversidade cultural que hospedá-lo traria e com a bonificação de créditos que seus filhos receberiam com aquela boa ação. Fora que Elena desconfiava que sua mãe tivesse alguma esperança casamenteira com relação à filha e Damon.
Nenhuma mãe normal faria tanta propaganda sobre o cavalheirismo britânico sem terceiras intenções!
Mas enfim, tudo foi acertado, documentos assinados e contrariando todas as regras de um intercâmbio tradicional, Damon Salvatore apareceu no dia seguinte e ninguém pareceu encontrar nada de estranho na rapidez do processo!
Só podia ser macumba ou algo assim. É! Damon devia sacrificar galinhas pretas no meio da estrada cantando mantras de “Não achem nada do que eu faço anormal, oh yeah, oh yeah”.
Inventou uma história comovente de como estava hospedado com a família Caltron até aquela semana, em que infelizmente seus antigos tutores sofreram um acidente durante a viagem para visitar a filha mais velha em Boston, e ninguém se salvou.
Apesar de Grayson ter bufado e cochichado para Jeremy algo como: “Esse menino deve dar azar”, Miranda, o diretor, todos os professores e alguns alunos enxeridos praticamente foram às lágrimas com aquilo.
Caroline chegou a soluçar por horas e até os que mantinham a expressão firme não ousaram buscar na memória pontos como:
1- Nenhum acidente recente tinha aparecido nos jornais.
2- Ninguém tinha visto Damon na Mystic Falls High School ou em qualquer outro colégio da cidade e, no entanto, lá estava ele dizendo que já estava ali há três semanas (Se bem que alguns alunos já tinham visto ele, Elena e Carol conversando naquelas duas situações fatídicas).
3- A família Caltron morrera no ano passado em um assalto e todos foram ao enterro! Que vizinhos eram aqueles que nem se recordavam?
4- Porque o tal intercambista não tinha ido com a família adotiva para Boston?
5- Damon não aparentava dezenove anos nem em seus sonhos. Vinte e dois na cara, no mínimo.
6- Seu sotaque britânico era leve demais para ser convincente.
E, acreditem, ela estava sendo boazinha em encerrar a lista por ali.
Ok talvez estivesse irritada demais e pegando pesado, mas os últimos dias tinham sido péssimos e a faziam lembrar de uma lista ainda mais amarga.
Primeiramente, Miranda pedira para Jeremy servir como o guia turístico de Damon naquela semana enquanto as aulas ainda estavam mais tranquilas e, sem muita opção, seu irmão aceitara (Carol gritou por horas quando os viu juntos caminhando na rua). A amizade parecia estar dando tão certo quanto se era possível com um demônio. O único problema é que isso significava que os pontos turísticos de Mystic Falls viam Damon com mais frequência do que ela agora.
Em segundo lugar, Elena não recebeu nenhuma resposta se quer de Bonnie e sempre que ligava para a amiga, vovó Sheila dava-lhe alguma desculpa para dispensá-la. A ruiva provavelmente a evitava para não ter que explicar a transferência de escola que foi solicitada por sua mãe.
Ao que parece, sua melhor amiga resolvera ficar por um longo tempo com a avó e temia pela sua situação escolar se não começasse a estudar em um colégio mais perto da nova moradia. Ok ela entendia, mas isso as separava ainda mais.
Terceiro, Matt resolvera perturbá-la a cada mísero segundo e ela desconfiava que os dedos de Jeremy estivessem nessa história. Flores, chocolates, visitas e milhares de convites para sair choviam ultimamente.
Para a sua felicidade, Damon parecia não ir com a cara do garoto e queimava com uma expressão homicida no rosto todos os presentes que Matt mandava para Elena.
E por último, havia o problema do... Beijo.
O termo “selinho” se adequaria melhor, já que seus lábios mal se encostaram, mas o fato é que não conseguia tirar a imagem da cabeça de jeito nenhum.
Sorria como uma idiota lembrando-se da sensação quente e macia em seus lábios, mesmo que por míseros segundos.
Queimara sua pele, amortecera seus músculos e fizera com que seu coração trabalhasse dobrado.
O pior de tudo é que o beijo não tivera amor, desejo nem nada disso por parte do demônio. Foi mais uma provocação ou brincadeira para tirá-la do sério, mas mesmo assim sua mente sonhava com outras possíveis alternativas.
Será que ele a beijaria de novo? Ele sentia alguma mínima atração por ela?
Queimar os presentes de Matt; importar-se tanto com aquela história de “lista de amigos íntimos” de Elena e mudar o tom monstruoso e cruel para gentil e brincalhão depois de olhá-la significavam alguma coisa?
Conheciam-se só há um mês, ele era um demônio envolto em todas as coisas sombrias do mundo, não demonstrava um interesse pela garota e era imprevisível e ardiloso.
Logo, bem provavelmente, ele só queria sua alma humana insignificante mesmo e acabou.
Da varanda, Alice murmurou algo que ganhou como resposta um sorriso de Elena. Damon, Graças a Deus, despedia-se da visita deixando a expressão simpática morrer assim que fechara a porta da frente.
– Pensei que as regras não permitissem a tortura de demônios. – Acusou irônico sentando-se ao seu lado no sofá com a expressão cansada.
A garota riu observando bandeja de biscoitos sendo deixada na mesinha de centro.
– Achei que estivesse se divertindo. – Rebateu dando de ombros de forma inocente enquanto o demônio a olhava entediado. – De qualquer forma, que bom que as visitas terminaram por hoje. Tenho umas dúvidas para tirar... Tem alguém em casa agora?
Ele a olhou por alguns segundos, parecendo checar algo e então balançou a cabeça em negativa.
– Saindo de uma tortura para outra... O que quer saber dessa vez? Não, o coelho da páscoa não existe Elena, conforme-se. – Brincou lembrando-se das questões idiotas que a Srta. Gilbert costumava propor.
Ela estreitou os olhos por alguns segundos tentando parecer meio homicida e então apoiou os pés no estofado do sofá, abraçando os joelhos.
– Essa não é tão ruim, eu prometo. – Meneou a cabeça analisando os olhos azulados. – É algo que não entendo desde que me contou sobre a Bonnie e os contratos especiais.
A expressão demoníaca ficou mais séria e ela suspeitou que ele já adivinhasse o que vinha a seguir.
– Não estranho que tenha vindo a terra fechar um contrato com a Bonn, porque ela é uma bruxa e tudo aquilo, mas quando percebeu que eu era só a sua amiga humana e chata, ainda assim quis que eu tomasse o lugar da Bennett e fechasse um contrato. – Ela mordeu os lábios pensando cautelosamente em como falaria a seguir. – Porque você resolveu perder seu tempo comigo?
– Aposto cem dólares que você não vai gostar da resposta. – Desafiou sincero.
– Aposto duzentos que justamente por isso deve ser algo que eu precise saber.
Ele suspirou pesadamente encarando o piso encerado.
– Você já sabe que a família Bennett é especializada em caçar todos os tipos de demônios inclusive os filhos de Lúcifer, Elena. – Começara virando os olhos para os seus. – Eu só achei que estava na hora de um acerto de contas com os descendentes de Emily depois de ela ter me prendido em um selo idiota há cinquenta anos.
A garota buscou na memória o nome Emily, e lembrou-se da tataravó da amiga que morrera aos 100 anos de forma trágica.
– Nunca encontrei a chance perfeita de me vingar, mas então, repentinamente, a invocação da Bennett surge constituindo uma oportunidade única. – Seu semblante coloriu-se de amargura. – Não encontrei Bonnie como planejava, mas ter a melhor amiga dela ao meu alcance rendia certas vantagens.
A garota gelou tentando controlar os batimentos cardíacos e sufocar o medo.
– O que acha que ela vai fazer quando descobrir a sua origem e perceber qual é a mais nova companhia da amiga dela?
Era retórico, ela sabia, mas mesmo assim quis falar como que para checar que ainda tinha essa habilidade.
– Ela viria “salvar-me”. – Engoliu em seco. – Ou, se já fosse tarde demais buscaria vingança.
Um sorriso malicioso transpassou o rosto perfeito.
– Não pretendo deixar chegar ao ponto de “ser tarde demais”, por isso precisava da chave da Johanna. Preciso permanecer nesse mundo, mantendo você sã e salva, até Bonnie Bennett nos visitar. – Ao ver que as sobrancelhas de Elena se uniam, ele riu baixo. – Você é minha refém Lenn, minha isca. Vamos torcer para que sua amiguinha realmente se importe com o seu bem estar ou no pior dos casos, terei que ficar com a sua alma antes e pôr em execução um plano B.
A garota parou de respirar não conseguindo encarar outro ponto que não fosse os olhos azuis gelados.
Seu mundo girava de forma entorpecente. O que ela fizera?
Em pensar que tudo aquilo começara com a sua mania de fingir-se rebelde.
“Essas coisas de satanismo são idiotices, Bonn. Poderia fazer um ritual matando uma cabra e nada aconteceria”. Lembrava-se com repulsa de quando falara para a ruiva.
Ou quando Bennett já havia feito tudo e a garota de cabelos castanhos resolvera pôr o pentagrama invertido para assustá-la.
Idiota, idiota, idiota.
Fora que um dos motivos que a impulsionara a fechar o contrato fora achar que assim, quem sabe, estaria protegendo Bonnie de toda a atração pelo satanismo que a fez viajar para a casa da avó.
No entanto, estava é colocando a amiga em uma armadilha.
– Foi seu pai que planejou tudo? – Não soube por que fez aquela pergunta, mas parecia de alguma forma estar querendo livrá-lo da responsabilidade inteira.
Damon franziu o cenho.
– Não, apenas ordenou que eu viesse fechar um contrato com a Bennett. – Parecia agora intrigado com algo. – Embora tenha aceitado estranhamente bem o fato de que eu ficaria aqui e fecharia um acordo com uma mera humana.
Era como um soco no estômago.
– Ah obrigada. – Murmurou sarcástica. – Agora se o meu excelentíssimo sequestrador me der licença, vou deixa-lo refletindo sobre por que o “papai” quer tanto se ver livre do filho bad boy (permitindo até que ele se rebaixe a um contrato com a humana aqui), enquanto vou ao espelho ver se estou com a aparência correta de uma minhoca no anzol.
Largou os joelhos levantando-se com uma fúria anormal e marchando em direção à cozinha.
Percebeu que o demônio a seguida de perto, mas resolveu ignorar retirando um copo de vidro do armário e o enchendo de água com a garrafa que Jeremy sempre esquecia fora da geladeira.
– Acho que não devo mais ser tão sincero. – O filho do diabo encostava-se à bancada da cozinha a encarando. Algo no azul tinha mudado, mas ela estava com raiva demais para se interessar.
Deixou que um gole refrescasse sua garganta e devolveu o olhar.
– Não deveria mais nem existir, mas enfim... A vida não é perfeita.
Ele riu de forma ácida.
– Irritada por finalmente entender que convive com um demônio? – Indagou com a expressão irônica.
Sim, ela estava furiosa por saber que havia se permitido esquecer-se disso mesmo com todos os momentos em que ele mostrava sua verdadeira face.
Ressentida por tê-lo visto como um possível amigo mesmo mal o conhecendo.
Nadando em ódio ao constatar que dividira uma das coisas mais angustiantes da sua vida e que sonhara com seus beijos quando só era vista como uma isca para matar sua melhor amiga.
Mas a raiva maior era a de saber que mesmo com tantos motivos para odiá-lo, aquele ataque de fúria duraria pouco.
Entretanto, guardaria isso para ela. Precisava colocar a cabeça no lugar e repensar sua vida.
Terminou de beber a água colocando o copo na pia e seguiu o rumo da escada até o seu quarto.
Ouviu levemente o barulho da porta da frente se abrindo e Miranda e Grayson chegando animados do novo pique de trabalho, mas não soube se Damon os esperou ou só sumiu. Ela fechara a porta antes disso.
Resolveu aproveitar o tempo finalizando a arrumação do seu quarto enquanto repassava as prioridades em sua mente.
Era caso de vida ou morte agora saber exatamente tudo sobre demônios, bruxas e todas as criaturas loucas que pareciam estar na sua vida naquele momento.
Seria obviamente um trabalho árduo, mas ela ainda podia dar ordens ao imbecil e isso agilizaria o processo.
Outro passo importante seria afundar os planos sombrios de Damon. Ela assumiria a responsabilidade por ter feito um contrato satânico, mas ninguém se prejudicaria por sua causa.
O demônio comentara que ele precisava de Elena “sã e salva” para o tal plano “A” dar certo. Bem, se a garota deixasse sua alma tão ridiculamente tentadora, má e todos aqueles adjetivos que os demônios amavam, ele se alimentaria a matando e então não poderia mais usá-la como um escudo metafórico como pretendia.
É claro que ainda restava o tal plano B, mas ela cuidaria daquilo ainda naquele dia.
Saiu do quarto despenteando o cabelo de Jeremy ao passar por ele no corredor e foi ao banheiro tomar uma ducha e trocar de roupa.
Optou por uma calça jeans desbotada e uma blusa cor de mel que parecia deixar seus olhos mais claros.
Como visitaria vovó Sheila, passou um brilho labial só para não parecer tão moleca e desceu as escadas.
Damon e Miranda estavam entretidos em uma conversa sobre as belezas da Inglaterra quando a menina passou por eles pegando as chaves do carro.
Ambos se viraram para encará-la.
– Mãe, preciso fazer uma visita urgente a uma amiga. – Avisou ignorando o homem absurdamente lindo que a fitava sem nem piscar. – Como é fora da cidade, talvez eu demore, certo?
Era estranho fazer aquilo porque queria ser gentil ao mesmo tempo em que precisava deixar claro que não estava pedindo permissão.
A Sra. Gilbert a olhou franzindo os lábios com evidente preocupação nos olhos esverdeados.
– Querida, está um pouco tarde... Não prefere que eu vá com você amanhã bem cedo?
– Não mãe, é realmente urgente. Preciso ir agora, mas vou me cuidar. – Prometeu em um tom solene.
Era palpável o temor da bela mulher à sua frente e sua aversão à ideia, mas ainda assim era necessário. Damon podia mudar de ideia e agir o quanto antes de alguma forma.
– Sra. Gilbert? – O demônio chamou em um tom charmoso. – Se Elena quiser, posso acompanha-la...
A garota o fuzilou com os olhos enquanto sua mãe sorria animada com a sugestão.
Oh Salvatore, o ser caridoso que protege menininhas indefesas dos perigos da estrada.
– Muito obrigada... Damon. – Cuspiu o nome como se fosse um palavrão. – Mas não quero incomodá-lo. Você tem provas de nivelamento para fazer em breve então... Se concentre nos seus problemas que eu cuido dos meus.
Aquilo lhe rendaria um puxão de orelha mais tarde, mas ela não se importava de verdade.
Seu servo e sequestrador sorriu malicioso enquanto sua mãe parecia embaraçada com o comportamento rebelde da filha.
– Elena, por favor, sei que ainda está mal por eu ter visto você me espionando no banho. – Pausara com o ar maroto. – Mas eu já a perdoei. Permita que eu a acompanhe para que sua mãe fique mais tranquila.
Quem.a.espionara.no.banho.fora.ele!
Quem tinha algum facão em casa sobrando? Porque ela jurava que o degolaria em breve.
– Lenna, você andou espionando o nosso hóspede? – Miranda parecia horrorizada.
Ela não se rebaixaria. Não se rebaixaria. Não se rebaixaria. Não...?
– Desculpa mãe, mas encontrei um bilhete pervertido no meu quarto com a letra do Damon e fiquei tão descontrolada que entrei no banheiro para dar uma surra nele. – Defendeu-se colocando a mão no peito com um ar inocente. – Mas se consola você e defende minha honra, não tinha nada de muito interessante para observar por lá...
Se antes sua mãe estava vermelha, agora estava cor de vinho.
Salvatore a olhou mais homicida do que nunca.
– As alucinações ainda continuam? Tsc, tsc. Sei que prometi sigilo, mas deveria procurar um médico. – Começou abaixando o tom o tornando um sussurro. – Antes desse episódio teve aquele em que invadiu seminua o meu quarto dizendo que eu havia lhe chamado ou algo assim.
Os olhos castanhos se incendiaram enquanto a garota chegava mais perto dele.
– Parece que a sua imaginação fica muito fértil quando o assunto é criar fetiches que me envolvam. – Acusara enquanto ele se levantava para olhá-la de cima.
O demônio riu sem humor.
– Lamento frustrá-la Lenn, mas você não faz o meu tipo.
Ela não permitiu que isso a incomodasse mais do que deveria. Lidaria com esse problema mais tarde.
– Você está demonstrando isso muito mal Damon, mas já que não somos tão compatíveis assim apenas me deixe ir sozinha à casa da minha amiga.
– Já deixei claro que o meu único interesse em acompanha-la é para tranquilizar a sua mãe.
Citar Miranda fez com que a garota de cabelos castanhos acordasse e se recordasse que estava falando coisas meio pesadas e embaraçosas na frente da mãe.
Bem, o idiota que começara.
– Vou contar uma novidade para os dois então: eu tenho dezessete anos, não sete! – Rebateu convicta fitando apenas os olhos azuis acinzentados.
– “Você está demonstrando isso muito mal” – Seu servo repetiu debochado. – A Sra. Gilbert já sabe da sua tatuagem, Lenn? – Finalizou com um sorriso de lado.
Fora demais para os ânimos da adolescente, sua expressão ficou atônita ao mesmo tempo em que seus lábios se abriam em pura descrença.
– Seu filho da...
– Chega! – Miranda interrompeu finalmente saindo do seu choque e atraindo a atenção do casal brigão para si. – Parei de ouvir depois do início das agressões porque não consegui acreditar no que estava presenciando. Nenhuma das acusações se encaixa no perfil dos dois então é gritante que apenas querem desmoralizar um ao outro! A pergunta é: POR QUÊ?
Suas mãos balançavam no ar com uma frustração intensa.
Tanto Damon quanto Elena apenas fitaram o chão. Não dava para chegar e dizer:
“Ah mãe, temos uma relação bipolar. Damon é um demônio e eu sou sua contratante e refém, começamos essa relação nos irritando, passamos para uma quase amizade ainda com provocações, mas depois que descobri seu plano maquiavélico para matar a minha melhor amiga, resolvi considera-lo um inimigo em potencial. Sim, eu sei! Porque eu não o vi dessa forma logo que soube que ele era um demônio ou quando começou a me ofender? Bem... Estou disposta a descobrir mais sobre isso em um psiquiatra. O nosso plano de saúde cobre esse tipo de atendimento?”
– Não vou ganhar uma resposta? – Murmurou a matriarca cruzando os braços. – Ok então, vou apenas aplicar o remédio sem entender qual doença os atinge! Elena, o Damon vai acompanha-la. Como você bem disse: tem dezessete anos, ainda é menor de idade e enquanto for assim, vai obedecer às minhas ordens. Damon, você é nosso hospede e é um amor de pessoa, mas se não buscar um entendimento com a minha filha, terei que falar com o diretor da escola e pedir outra família para hospedá-lo. Aliais isso vale para vocês dois: Se entendam! Agora são praticamente “irmãos” e devem se gostar e se respeitarem como tais. – Um suspiro cansado escapou dos seus pulmões enquanto ela ainda tentava manter o ar de mãe durona. – Ah, sim. Lenna... Se você tiver mesmo uma tatuagem, prepare seus ouvidos para um sermão que vai valer por todos os anos em que eu estive fora. – Ameaçou severa.
Salvatore fingia um ar sem graça, mas a garota conseguia perceber quão divertido ele estava pensando no quanto sua contratante se dera mal.
– Perdão Sra. Gilbert. – Desculpou-se quase sincero. – Vou rever minhas ações.
Elena bufou irritadiça e impaciente.
– Você precisa parar de assistir I hate my teenage daughter³ ou essas séries que mostram relacionamentos familiares problemáticos, mãe. – Reclamou sem querer dar o braço a torcer.
Que as desculpas ficassem por conta do Salvatore, não com ela. Miranda a encarou com o ar ainda mais mãe-querendo-trucidar-o-filho-que-quebrou-todos-os-seus-jarros.
– Se me permite dizer Sra. Gilbert, eu achei o seu discurso fascinante. – Interferiu Damon bajulador.
O verde e o castanho voltaram-se para encarar o homem com perplexidade.
Puxa-saco!
– Sem bajulações, Damon. – Rebateu Miranda massageando as têmporas. – Agora, podem ir antes que eu mude de ideia e matricule os dois em algum internato militar. – Fora a sua dispensa.
Obedeceram sem mais reclamações, andando até o carro em um silêncio taciturno.
Elena fez questão de apressar o passo e entrar no lugar do motorista. Raras vezes podia dirigir livremente e, prestar atenção na estrada a impediria de ficar olhando como uma idiota para o seu servo e estragar todo o seu elaborado plano de três palavras: “O-ODEIE-MUITO”.
Deu a partida ligando o rádio e seguiu para a estrada principal de Mystic Falls.
Será que deveria contar para Salvatore o seu destino? Não que ele fosse chegar até o final da parada, a garota lera no Códex do Diabo que os espíritos malignos não conseguiam chegar nem a um quilômetro de distância da casa de uma bruxa sem a permissão dela, mas ainda assim poderia haver riscos de atentados terroristas mútuos. Afinal, seria uma reunião pra lá de interessante.
Duas bruxas, um demônio e uma contratante humana.
Era quase como juntar fogo e pólvora e esperar que nada explodisse.
______________________________________________________________
POV- Elena Gilbert.
Os olhos fixos de Damon em seu rosto já a estavam irritando de verdade. O que afinal de contas ele queria com aquilo? Antecipar uma facada naquele rosto idiota e lindo?
Bufou irritada devolvendo o olhar com sequidão, enquanto trocava a marcha automaticamente.
– O que foi Salvatore? – Rompeu o silêncio não suportando mais toda aquela observação.
Sempre teve tiques nervosos com o ato de ser olhada. Era estranho, mas pensava que a estavam julgando ou qualquer coisa do tipo que paranoicos normalmente acham.
Damon a julgando então, era ainda pior.
Maldito matador de amigas ruivas indefesas!
– Estou tentando realmente entender o motivo de tanto ódio. – O homem esclareceu ainda com o azul sob ela.
Elena revirou os olhos abaixando o volume do rádio.
– O fato de ter jogado milhares de bandejas de biscoito no lixo e não ter me deixado comer nenhum, já que, você sabe, você ser um demônio perverso louco para matar a minha amiga é algo “super” trivial que não me deixa nervosa. – Jogou de forma ácida fitando a estrada.
– Eu sempre fui extremamente sincero com você, até quando isso não era muito saudável para mim. – Sua voz era melhor do qualquer música do mundo. – Desde o início esteve ciente de que estava lidando com um demônio.
A garota suspirou tendo que admitir mentalmente que ele tinha razão. Isso não anulava a dor e a raiva que sentia, mas nesse caso a culpa não fora mesmo dele.
– Ok. Salvatore, eu sei que fui a idiota da história com a minha mania irritante de tentar vê-lo como um amigo ou... – Ela mordeu a língua não querendo externar o pensamento.
– Ou?
– Ou um protetor. – Admitiu pesarosa. Pôde notar que não era exatamente o que Damon parecia querer ouvir, mas depois ignorou decidindo que era coisa da sua cabeça. – Você me confundiu Salvatore! Tá, você apareceu como um demônio, mas logo depois ajudou a minha família a se reerguer apenas com um conselho. E eu pensei “Tudo bem, servo de Lúcifer... Mas o cara tem algo bom dentro dele”. – O olhou rapidamente e ficou feliz ao perceber que ele estava atento. – Você passou para mim a sensação de que eu estava segura contigo e então eu comecei a querer lhe dar um voto de confiança porque acho de verdade que no fundo é o que todo mundo precisa. Só que você é completamente bipolar! Num momento é legal e divertido, depois é cruel e sombrio e então volta a ser legal...
Ele riu virando os olhos para a estrada.
– Eu só tento fazer com que o seu cérebro funcione de uma forma mais... Humana – Começara ainda risonho. – Nós demônios somos treinados para sermos sociáveis, bons conselheiros, divertidos... “Envolventes” ou seja lá como você queira chamar. A aura que transmitimos é sombria e pesada demais e faz com que os humanos (que já não tenham tendências diabólicas) se afastem, então temos que remediar isso desenvolvendo algum tipo bizarro de carisma. O problema é que você é completamente louca com essa sua mania irritante de fingir ser inabalável. Nunca sentiu um medo real comigo a não ser quando eu mostro o pior que pode existir em mim. O que aliais é uma pena, porque você ficaria ainda mais atraente fugindo aos gritos.
Os olhos castanhos caíram sob ele, divertidos.
– Fetiche! – Acusou lembrando-se da discussão da cozinha enquanto ele ria.
– E de uma forma estranha. – Continuou ignorando a menina. – Eu sinto que tenho a obrigação de alertar você sobre quão maluca é com essa coisa de querer uma amizade ou sei lá com um demônio. Porque no final, nada vai mudar, eu vou continuar sendo quem sou.
Elena pegou uma nova pista e suspirou raciocinando. Sentia seu ódio pelo idiota ao seu lado diminuído a quase nada.
Tentava lembrar como ele era cruel, mal e tudo mais, só que nada funcionava. Tudo o que pensava era: “Anw ele queria me proteger para que eu não sofresse depois quando ele sugasse minha alma e fizesse um churrasco com os amigos. Ele se preocupa comigo!” Pff, ela era patética.
– Tá Damon, isso explica uma parte da história, mas não desvenda o porquê de você ficar legal de novo depois de ser cruel e doidão. Se quiser me deixar com medo, não pode fazer com que eu me derreta depois igual a uma... -Oh droga. “Derreter”? Ela tinha usado o verbo “derreter”?- Uma manteiga da amizade. Sabe como é derretida de um modo fraternal... E... ENFIM, hã, é meio estúpido assustar alguém e depois ser legal.
Os lábios demoníacos perfeitos viraram uma linha fina.
– Quanto a isso... Quando eu descobrir a resposta conto a você, não tenho ideia do que acontece. – Sua mão coçou sua nuca lhe dando um ar pensativo. – Talvez eu não queira que você fique completamente assustada...
Ele balançou a cabeça como se negasse algo e então sorriu.
– Agora que está tudo esclarecido, vamos acabar com as nossas discussões na frente da sua mãe?
Elena o encarou com o canto dos olhos.
– Depende... Ainda vai me usar para matar a minha amiga?
– Vou.
– Então não, Salvatore. – Cuspira segurando o volante com força. O ouviu rir, mas recusou-se a olhá-lo. Patife sem coração!
– Elena, é um empate justo. – Teve a coragem de falar em um tom ameno e pacifista. – Alega que eu estou usando você, mas está fazendo o mesmo comigo, ou não sou mais seu “humilde e prestativo servo”? Disse que confiou em mim, mas eu também precisei confiar em você parar contar a história de Lúcifer, etc., etc. E em momento nenhum disse que não poderia tentar me impedir de matar sua amiga. Não vai dar certo, é claro, mas vocês humanos parecem gostar dessa coisa do “pelo menos tentei”. – Riu bem humorado.
Algo naquele discurso dele a animou. Estava tão idiota e preocupada que nem pensara nisso.
– Rá! Tem razão, Dan... Você é meu servo e eu ordeno que não faça nada à Bonnie ou a seus parentes porque isso me deixaria triste e culpada! Tá vendo? Cumpri a regra de só pedir coisa para os outros com sentimentos egoístas.
Ela faria a dancinha da vitória, mas pressentiu antes mesmo de Damon a olhar com um ar superior, que ele não teria deixado uma brecha tão grande em seu plano.
– Lamento Lenn, é uma exigência tentadora. – Ironizou com o olhar azul vitorioso – Mas está no Códex que posso rejeitar qualquer ordem que coloque a vítima em um perigo real de morte, afinal se morresse por outros meios a alma não ficaria com o demônio.
– Pedi que poupasse a minha amiga, não que você me passasse na mostarda e me jogasse em uma jaula de leões famintos.
O filho de Lúcifer revirou os olhos impaciente.
– Você está se esquecendo que talvez a sua amiga queira matá-la quando descobrir tudo. Bruxas caçam demônios e contratantes, lembra?
Oh droga, era verdade.
A garota deixou que seu cenho pesasse. Teria que continuar com os mesmos planos imbecis que cogitara durante a tarde.
– Claro, lembro sim. E a propósito, você não é humilde nem prestativo.
As estradas estavam um tapete e sem quase ninguém para atrapalhar. A sensação era libertadora, uma vez na vida ela estava no controle de algo.
Conversou mais algumas coisas triviais com Damon e ficara acertado que ela faria de tudo para impedi-lo, ele para sair vitorioso e ambos para manterem a paz. Pareceu justo na medida do possível.
Assim que chegaram a uma loja de conveniência, exatamente a um quilômetro da casa da Sra. Bennett, Elena ordenou que seu servo ficasse ali a esperando enquanto prosseguia sozinha.
O céu mesclou-se de pigmentos mais escuros e ela finalmente estacionou em frente à casinha de madeira aconchegante que parecia ter saído de contos infantis.
Bom, era a hora da verdade. Suas mãos suaram, mas obrigou-se a sair do carro com certa dignidade e marchar até a porta central.
Não precisou bater, vovó Bennett já a abrira e a encarava de forma estranha.
A senhora não parecia em nada com uma avó convencional que vemos por aí. Seu cabelo era ainda de um ruivo intenso com apenas leves fios brancos que acrescentavam alguma sabedoria. Seu rosto era belo com olhos azuis vivos, bochechas coradas e lábios carnudos com desenho de coração e toda uma jovialidade emanava dos seus apenas um metro e cinquenta de altura.
Parecia-se tanto com Bonnie, que frente à frente, pareciam a duplicata do reflexo de um espelho.
– Elena. – Cumprimentou com um sorriso que não chegava aos seus olhos. – Bom revê-la querida.
Devia estar paranoica, mas algo no seu tom sugeria que era exatamente o inverso. Pigarreou sem graça por chegar tão tarde e sem avisar.
– Dona Sheila, eu lamento de verdade vir sem aviso e nesse horário, mas queria conversar algo muito sério com a senhora.
O azul cobalto a sondou com surpresa.
– Comigo, querida? Oh, sim... Desculpe-me os maus modos meu bem, entre ou vai congelar.
A porta de madeira se abriu um pouco mais lhe dando passagem e as duas mulheres se acomodaram na sala de estar que cheirava a canela.
– Chá?
– Não, obrigada Sra. Bennett.
As mãos maduras se agitaram no ar como se descartasse algo que a menina falara.
– “Vovó Bennett” para você. A conheço desde que tinha seis anos e jogava chiclete no cabelo de Bonnie. – Sheila riu com saudosismo. – Eram duas pestinhas! Minha neta, a própria Barbie e você aquele herói verde... Como se chamava mesmo, querida?
– O Hulk. – Corou lembrando-se da infância. Nunca gostou de princesas ou bonequinhas frágeis, queria ser o monstro de Bruce Banner para ir para Nova York em pouco tempo e resgatar seus pais do escritório maléfico em que sempre viviam. – Minhas roupas ficavam cheias de tinta guache verde.
A anfitriã riu gostosamente com a confissão.
– Recordar é viver! Mas, creio que esse não é o motivo da visita, o que quer falar comigo meu anjo? Minha neta dorme agora e esteve tão ocupada com as provas do novo colégio que temo acordá-la e deixa-la muito cansada para amanhã, mas se quiser que eu a chame...
Algo no coração de Elena se apertou. Óbvio que não queria deixar Bonnie nesse estado, mas tinha esperança de ver a melhor amiga.
– Ah não, por favor, vovó Bennett não a acorde. – Pediu mais por educação do que por vontade. – O assunto é com a senhora mesmo. – A ruiva se acomodou um pouco mais na poltrona enquanto Elena pensava em como dizer aquilo. Começava com perguntas idiotas como “Hey a senhora gosta de caldeirões e vassouras?” para confirmar antes o que Damon lhe falara, ou partia logo para “Sei de tudo, Hermione Granger”? Optou pela segunda opção por algum motivo insano. – Soube há pouco tempo que a sua família pertence a uma linhagem antiga de bruxas e tenho certeza que sabem se defender, mas eu... (–conheço-) soube que um demônio pretende se vingar e descontar tudo isso na Bonn...
– Damon Salvatore. – Murmurou a mulher fazendo com que a menina quase pulasse do sofá. – Já sei disso minha querida, não há o que temer. Bonnie estará preparada quando chegar a hora.
Ok. Aquilo era... normal, certo? Claro, ela era bruxa e blá, blá, blá, vai ver que tinha adivinhado em alguma bola de cristal.
A Srta. Gilbert esperava que não tivesse visto mais nada, seu pentagrama parecia pesar trinta quilos de tanta ansiedade.
– Anh... Eu fico feliz. Estava com medo do que poderia acontecer.
– E deve temer mesmo meu bem. – Anunciou a senhora com uma voz que gotejava hostilidade. – Mas não por Bonnie... Pense bem nisso.
A ameaça soou pela sala sacudindo seus ouvidos e elevando os batimentos do seu coração.
Talvez se Damon a olhasse com aquele desprezo e hostilidade, não precisasse reclamar da falta de medo da garota.
____________________________________________________________________________
Notas finais
Abramalech e Baalberith² : Nomes verdadeiros de demônios da mitologia Judaico-cristã.
I hate my teenage daughter³: Uma série que retrata conflitos familiares que os pais e filhos enfrentam na adolescência.
Fale com o autor