Demon's War - Fanfic Interativa
3 Taberna da fronteira
Notas iniciais
O fogo fazia umas sombras esquisitas bruxulearem na parede da caverna, e seu som crepitante era o único do lugar. Vez ou outra o cavalo, um pouco mais na entrada da caverna, batia os cascos demonstrando seu tédio, mas Kaya estava cansada demais para sair com ele, ainda mais tarde daquele jeito.
Ela estava quase dormindo sob o chão que ela recobrira de folhas, quando as árvores lá fora fizeram um barulho fora do comum. Kaya Monlagge sentou-se e ficou o mais quieta e atenta possível. Aquilo parecia estar ficando mais alto, mais próximo. Num salto, ela esticou a mão para o lado e pegou o arco, os olhos semicerrados em desconfiança olhando para fora do lugar. Ela subiu a encosta e deu com a luz da lua, que estava bem acima dela.
O cavalo, quando a viu chegar, se virou e quase veio galopando depressa para seu encontro, mas ela o mandou ficar onde estava, indicando com o dedo, sem fazer barulho.
Poderia ser algum animal, um cervo ou um guaxinim. Mas também poderia ser algum espião, um bruxo, alguém que com quase toda certeza iria atrás dela.
Ela armou o arco e a flecha e mirou, traçando uma linha invisível entre as árvores, enquanto observava os arbustos, procurando qualquer indício de movimentação.
Kaya gostava de caçar e atirar. Bom, era uma das coisas que ela fazia mais que bem. Era uma garota destemida, podia-se assim dizer, mas também não tentava forçar as pessoas a gostarem de seu jeito ríspido e duro de ser, e muitas vezes era mal interpretada por causa disso.
O cavalo fez menção de se aproximar novamente, mas ela fez o sinal para ele continuar lá de novo. Ela tinha conseguido o cavalo há uns três dias. Ele tinha aparecido lá, montado pelo inimigo de Kaya, e ela já tinha estranhado desde que viu que ele não obedecia o seu dono. Então, teve uma ideia. Roubou dinheiro e suplementos, apenas coisas que a mantivesse viva por pelo menos um dia, e, em uma madrugada, ela alimentou o cavalo. Incrivelmente, ele não a agrediu, como fez com outros. Surpresa, ela então juntou suas coisas e fugiu, levando o animal consigo.
Até agora, ele parecia ser um bom companheiro, porque diferente de todos, obedecia tão bem a Kaya quanto um servo fiel.
O barulho até então cessara, e a garota desistiu, abaixando o arco e se contentando de que realmente era apenas alguma animal que tinha conseguido fugir antes de ir parar na fogueira que crepitava dentro da caverna. Ela voltou lá pra dentro, dando uns tapinhas na sela do cavalo antes de entrar.
– Pois é, parece que vamos ficar sem comida amanhã de novo – Disse, mais pra si mesma do que para o cavalo.
* * *
A estalagem estava cheia aquela noite. O barulho das risadas era alto, e se não estivessem bem longe da fronteira, era capaz que os demônios instalados em Greeta ouvissem. O chão era de madeira, e as poucas luzes eram de alguns lampiões pendurados precariamente sobre as pilastras também de madeira. O lugar felizmente era espaçoso, e várias mesas, a maioria já ocupava, se espalhavam, enquanto os fregueses trocavam conversas animadas e notícias do outro lado da fronteira.
Afinal, nem todos precisaram viram escravos. Alguns camponeses ágeis e habilidosos com uma faca, ou então salteadores que nunca ficavam sempre no mesmo lugar e não tinham família. Eles viviam daquilo. Trocando cumprimentos rápidos entre uma bebida e outra apenas para aquecer os corpos nas noites frias, e partindo logo em seguida para mais uma de suas noites prometidas. Alguns tinham coragem de voltar a Greeta, colher novas informações, roubar mantimentos e voltar intactos. Outros se recolhiam em cavernas desconhecidas e esperavam o amanhecer. E sempre era um alívio encontrar os mesmos parceiros de crime, vivos, dentro da estalagem ao fim do dia, e ouvir suas histórias bem aventuradas, lembradas algumas vezes por cortes e arranhões.
Ada Luvith, uma já frequente visitante da estalagem/taberna, estava em uma cadeiras precárias e altas que ficavam em frente ao balcão de bebidas. Distraída, mas ao mesmo tempo atenta, ela ouvia uma das conversas bem a sua direita, de um campônes já idoso, que trazia consigo uma bolso de couro recheada de cartas e um assaltante alto e moreno. Ser entregador naquela idade, e ainda mais numa época como aquela, era muito perigoso. Então pessoas assim eram extremamente respeitadas naquela região. O senhor entregara uma carta para o mais jovem, e dissera algo sobre a segurança de Greeta para com os demônios ter ficado mais forte contra quase humanos de passagem. Ada crispou os lábios, encarando o líquido em seu copo já pela metade.
Levantou os olhos e disse como quem não quer nada para o senhor idoso:
– Ei, por acaso não tem nenhuma carta ou bilhete para mim aí, tem? — Ela perguntou, já sabendo a resposta.
Ele olhou para o rosto da mulher, reconhecendo-a facilmente e procurou em sua bolsa por alguns segundos rápidos.
– Creio que não, srta. Luvith. Aliás, a srta. por aqui de novo, hein? — Ele murmurou, sorrindo levemente. Ada correspondeu – Ouvi uns rumores sobre uma capela próxima, onde um sacerdote acordara e não encontrou nenhuma de suas riquezas. Estou enganado ou a srta. é a autora?
Alguns próximos viraram ao ouvir menção de um roubo, mas logo voltaram as suas atividades anteriores. Era muito comum falarem abertamente sobre aquilo ali. Todos se conheciam, faziam as mesmas coisas e até agora não haviam sido descobertos por nenhum povo próximo a realeza.
Ada balançou a cabeça, sorrindo cabulada.
– Não, não, esse não fui eu, Jay. Não tenho agido muito essas semanas. Tenho pensado em algo para salvar Greeta, então estou procurando pessoal do reino – ''Jay'' pareceu preocupado, já que nunca se comunicavam com o povo. Ada deu um gole na bebida – Pelo que ouvi alheiamente, Aria foi solta do castelo para partir em uma missão em busca de um bruxo, foi o que disseram. Eu quero me juntar a ela, Jay.
– Mas, srta. Luvith... Você vai para o outro lado? E nós? Seus amigos, sua família de verdade aqui?
Ada sorriu de novo, parecendo se solidarizar.
– Eu tenho que ajudar Greeta, apenas isso. Não sei que loucura posso fazer quando chegar a mim a notícia de mais uma morte inocente.
Ela terminou o copo a frente enquanto o homem ia se afastando, iniciando uma nova conversa com um salteador, e entregando-lhe uma carta também. Com um aceno rápido, Ada chamou o barman para enchê-lo. Mas quem veio não era o barman.
– Ei, ei, ei – Ela murmurou, olhando fixo para o rapaz jovem que viera, meio atrapalhado – Você não deveria estar lá trás, garoto?
Ele se sentiu meio intimidado, ainda mais porque não tinha estatura nenhuma para ser um “garoto”, com 1,85. Abell, como fora obrigado a fugir da cidade, veio arranjar um local seguro como aquela estalagem, onde poderia ganhar um pouco mais como ferreiro. Infelizmente, há minutos atrás, o cara alto e forte de que era o denominado garçom da taberna parecia pálido e enjoado. Murmurou alguma coisa sobre ele servir o pessoal enquanto ele vomitava seja lá o que tivesse bebido lá nos fundos.
– E-Eu vim dar apoio para o outro cara – Disse, tomando o copo das mãos de Ada e virando de costas para um dos barris cheios de rum e gim. Já tinha feito isso algumas vezes, então não passaria tanta vergonha como na primeira vez, quando derramou quase toda a bandeja em um homem grandalhão.
Abell tinha cabelos ruivos como fogo e levemente ondulados. Seu porte físico também era bom, levando em conta sua altura, e seus olhos possuíam o mesmo tom do mar. Já Ada era uma mulher comum em padrões de beleza. Clara, como a de alguém que tem os padrões de vida adaptados para a noite, consequência de sua preferência pela madrugada. Com 1,68 metros e pesando 58kg, não era uma mulher de belas curvas, mas sim proporcionais ao seu corpo definido. Dentre suas características faciais, se destacam seu nariz afilado, seu rosto branco e feminino, também afilado, mas definido; sua falha na sobrancelha direita e uma pequena cicatriz de um corte de lâmina lisa, que corta sua boca; seu cabelo castanho escuro meio claro e liso (que bate na altura de seus seios), e seus olhos, acinzentados.
– Já te vi por aqui antes, não é? — Ela perguntou, tranquilamente, encarando aqueles olhos azuis.
– Sim, acho que sim. A senhora é aquela que rouba dos menos favorecidos, não é? — Ele disse, virando de costas e limpando alguma coisa que já parecia bem limpa no barril de trás. Ada sorriu maliciosamente e esticou o braço para pegar o copo, já cheio, e seus diversos braceletes que o cobriam tilintaram levemente, mas ela ignorou o som, apenas se divertindo com a frustração do rapaz.
– Bom, podemos dizer que sim – Ela disse de modo indiferente, deslizando o dedo indicador sobre a borda circular do copo – Mesmo que não faça muito diferença pra você, já que é só um ferreiro, não é?
– Pelo menos meu trabalho é digno de ser chamado de trabalho – Ele disse, ainda de costas, sentindo o rubor cobrir-lhe o rosto, enquanto esfregava aquele barril com o pano, não surgindo nenhuma mudança. Ele ouviu Ada rir atrás de si, com astúcia.
– Sim, você tem razão, querido. Toda razão... Bom, faça o que sabe que eu faço o que eu sei, está bem? — Ela finalizou, se levantando, tomando tudo de uma vez só e batendo no balcão – Nos vemos por ai, ruivo.
Abell esperou até a porta da estalagem bater para se virar.
* * *
– Ei, Aoi – Chamou a garota, largada preguiçosamente em um canto – Não tá um tédio aqui?
Aoi Yume lançou um ohar de relance para Lylian. As duas haviam sido obrigadas a dividir o mesmo grande quarto de Aria, mesmo que nem se conhecessem de verdade. Depois de quase uma semana ali, elas já tinham se acostumado a conviver entre si, mesmo que Aoi não aguentasse mais ouvir o tanto que Lylian tinha pra falar. Ela falava consigo mesma, coisas sem sentido, algumas com sentido, algumas que pareciam fazer sentido mas na verdade era só o quanto ela estava sentindo fome e o quanto sentia saudade de se meter em brigas.
Uma semana e meia depois dos demônios terem atacado Greeta, as duas, por destinos diferentes, vieram sozinhas e por pura vontade até o reino saber o que estava acontecendo. Porém, quando deveriam ser liberadas para circular por ai sem rumo, Crow as encontrou e, revoltado pelas jovens demônios presentes, as trancafiara no quarto da antiga rainha/princesa.
Sempre que algum demônio entrava para trazer a refeição das duas, ou então quando ela olhava pela janela gradeada e alta, cercada por magias, e via algum demônio-servo caminhando pelos jardins, Lylian gritava palavrões e besteiras extremamente alto, mandando que eles a tirassem de lá imediatamente, mas era sempre ignorada. Aoi ria sorrateiramente dessas fahas tentativas a um canto.
– Ah! Sim, sim, está – Ela respondeu com um sorriso de gentileza. Lylian suspirou nervosa.
– Se não deixarem a gente sair daqui hoje ainda eu vou começar a usar a força pra sair daqui.
Aoi revirou os olhos para a ignorância da garota e murmurou displiscentemente:
– Mas você sabe que tá tudo cercado com magia, e Crow ainda vai trazer mais dois magos pra fazer seja lá o que ele quer fazer. Não dá pra sair.
– Você não tem a mínima fé nas coisas, Aoi. Assim também é complicado, sabe? — Ela respondeu, levantando-se e olhando pela janela como fazia quase o tempo inteiro.
Lylian tinha cabelos longos, azul escuro, presos em maria-chiquinhas, olhos azuis claro brilhantes, pele clara, baixa estatura, orelhas pontudas, chifres azuis não muito grandes, rabo azul escuro, ficando mais claro na ponta e asas azuis escuras, enquanto Aoi tinha olhos vermelhos, e cabelos brancos, com um corpo meio escultural e uma espécie de coleira no pescoço, e mesmo que parecesse mais velha que a outra, Aoi tinha apenas 15 anos, e Lylian, 17.
– Fé? Isso que você acha?
– É, isso aí. Se eu tiver força de vontade, habilidade e determinação eu consigo deter essa barreira em um piscar. Só vou precisar de um pouco de treino. Quer ser meu saco de pancadas, Aoi? — Disse Lylian, e riu consigo mesma e sozinha depois, pois Aoi lhe lançou um olhar frio e questionador – Só perguntei, tá bom? — Ela retrucou, se defendendo, ofendida.
* * *
– Soren! Soren, levanta! — Chamou Lanoria, segurando os ombros do sátiro e sacudindo-os de leve. Soren abriu os olhos devagar e viu como o sol já estava alto. Levantou-se agitado no minuto seguinte.
– Onde eles estão? Já foram? Fugiram sem a gente? Que horas são?
– Fica calmo, estavamos esperando você acordar – Disse Aria de algum lugar atrás de Soren. Ela vinha da margem do rio próximo onde conversara com Klaus, que também estava atrás dela no momento, carregando uns 3 cantis de água.
– Um pra cada – Ele disse, entregando-os. Lanoria e Soren agradeceram.
– Minha ideia era sair ao norte e procurar mais pessoas, fugitivas ou salteadores camponeses. Depois, vamos para noroeste antes de anoitecer e talvez, se andarmos depressa, cheguemos na aldeia, pegamos os magos e bolamos outro plano de volta – Explicou Aria – Alguma sugestão?
Todos fizeram silêncio, consentindo. Aria confirmou com a cabeça, então deu as costas – Então é melhor seguirmos logo, não?
Ela já tinha caminhado uns cinco metros quando Klaus disse, ainda parado com os outros.
– Hã... Majestade... O norte fica pro outro lado.
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