Demons
1 Demons
Notas iniciais
Ela partiu. Ela me deixou moribundo e arruinado. Não era esse tipo de pessoa que eu queria que ela se tornasse, mas ela nunca me obedeceu. Ela nunca fez nada de acordo com os meus planos e agora não poderia ter sido diferente.
As fraturas e os ferimentos fazem lágrimas quentes rolarem pela minha face, mas por dentro eu quero rir de minha própria miséria. Quero rir do ensaio desastroso que foi a minha vida, quero rir do fim sem honra que me espera.
Tudo passa como um filme por minha cabeça, a minha infância pobre, meu irmão violento, a inocência que me foi roubada, os anos que dediquei à proteção do menino Lannister, a compaixão que senti por Sansa, os meses na estrada com Arya... Joffrey está morto, nunca mais tive notícias de Sansa e Arya se foi.
Estou tão sozinho quanto estive em todos os dias de minha vida e é tudo culpa minha. Culpa minha por ter deixado Gregor monopolizar minha vida, por ter dedicado minha existência ao ódio e ao vinho, por ter sequestrado Arya.
Arya. Ela foi meu maior erro. Nunca devia tê-la sequestrado. Nunca devia tê-la subestimado e, acima de tudo, nunca devia ter me apegado a ela. Sim, é frustrante, mas eu me apeguei a ela. À sua teimosia infantil, sua bravura e coragem, seu olhar desafiador... Eu nunca fui bom para ela, mas sempre a defendi sem pensar duas vezes e tal defesa custou-me a vida.
Onde está Estranho? Ele foi meu único amigo nos últimos anos. Será que ela o levou para alguma cidade para ser trocado por prata? Será que ele está abandonado onde o deixei noite passada?
Minha cabeça dói e minha visão aos poucos perde o foco. O vento frio no meu rosto é o único conforto que sinto. Meus fantasmas riem e zombam nos meus ouvidos e eu desejo ter outra chance. Eu não sei seria bom dessa vez, talvez seguisse um caminho diferente ou talvez não.
Eu não mereço minha vida de volta, mas queria poder concertar minhas últimas palavras. Queria dizer a ela que o sangue do amigo dela nunca respingou em meu cavalo, queria dizer a ela que virei o rosto durante a execução de seu pai, que eu nunca machucaria o Passarinho, que não é sobre estupra-lo que estou pensando agora.
É sobre ela, é sobre a menina Stark que sempre viveu à sombra de seus irmãos, que sempre foi mais loba do que lady, que por vezes me fez lembrar de ser humano. É irônico e bastante improvável, mas é sobre Arya Stark que penso agora no momento de minha morte. É sobre o choro baixo dela que ouvi todas as noites e nunca tive coragem de consolar. Sobre as noites que dividimos a cama e ela se enroscou em mim como um filhote em busca de proteção. Sobre os meus erros e os dela.
Gostaria de pensar que ela sabe ou que desconfia disso, mas eu sei que não, pois ao contrário de sua irmã, ela sempre me olhou bem nos olhos e é justamente lá que meus demônios se escondem. Meus demônios foram tudo que ela viu. E são eles que vem me buscar agora.
Estou cansado demais, não sinto mais dor e não há nada entre mim e o vazio. Talvez seja assim que as coisas devem terminar.
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