Demasia
1 Capítulo -1
Rafael levantou-se de sua estação de trabalho para buscar um café. Tocou o ombro de Pedro em convite. Os dois seguiram até o corredor margeando uma multidão que encarava monitores, alternando entre páginas sistêmicas e notícias do G1. Rafael mentalmente desculpou seus colegas — a si mesmo, inclusive — por estarem tirando uma folga de seus trabalhos enfadonhos.
Pressionou o botão "Açúcar" três vezes e em seguida "Café Forte". Pedro, como de costume, amaldiçoou-o com uma diabetes antes de pressionar "Café Suave". "Você terá de levar café na minha mesa se quiser salvar seu amigo. Assim, você adoça conforme sua consciência", brincou Rafael soprando seu café caramelizado. Pedro riu, mas dispensou a sugestão.
Tradicionalmente, os dois seguiam até a janela para planejar o envenenamento do chefe ou largar tudo e viver de surf na Indonésia. No entanto, ainda distante dela, alguém na máquina de lanches chamou a atenção de Rafael. Ele voltou, pensou rasgando um sorriso. Discretamente parou por um instante para certificar-se de que esse alguém realmente havia voltado. É ele mesmo... É ele!, confirmou em pensamento. Pedro, que reclamava sobre a má gestão de sua equipe por parte do Victor, não notara que Rafael já não estava mais ali com ele; pelo menos não mentalmente. Dezenas de flashbacks inundavam a mente de Rafael e em todos eles havia este homem loiro de paletó, estatura mediana e olhos incrivelmente azuis. "Pedro, acho que deveríamos comer alguma coisa", sugeriu Rafael, interrompendo-o. Pedro não teve tempo para lembrá-lo de que acabaram de almoçar. Segui Rafael quando ele já estava bem mais à frente em direção a máquina de lanches.
Antes mesmo de chegarem, o rapaz loiro vinha na direção oposta com uma barra de cereal. Por um segundo, ele olhou para Rafael, e passou entre os dois, como se, na verdade, estivesse sozinho naquele corredor. Ele lembrou de mim, pensou Rafael olhando para trás, que ainda caminhava, mas acompanhando o rapaz até que ele virou à esquerda. "Você o conhece?" Perguntou Pedro, que não pôde deixar de notar o que havia acabado de acontecer. "Han?", disse Rafael virando-se para o amigo, "hm, não, quero dizer, talvez." Tornou a olhar o fim do corredor novamente, mas dessa vez já não havia mais ninguém. Bebericou o café e sorriu deliciado. Talvez.
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