Demônios

9 Capítulo 9: Os traços de um demônio


Notas iniciais
Chegamos aos 100 reviews!!!! Aaaaah *-*!!! E, por coincidência, a primeira a comentar foi também a centésima, por isso, este capítulo é dedicado a Bruna Lovers, a autora do primeiro comentário da fic e, agora, do centésimo!! Obrigada Bruna!! Bem, desculpe-me o atraso mas acontece que eu fico irada quando meu time (clube atlético mineiro) perde e, por isso, fiquei toda a quinta-feira sem inspiração nenhuma para nada. Bom, sem mais delongas, good read.

Respirando fundo, Gaara sentia-se paralisado. Os lábios dela haviam tocado seu ombro, provocando uma sensação estranha no estômago do ruivo que, com os olhos levemente arregalados em susto com o gesto da loira, soltara o lápis de cor vermelho que tinha em uma das mãos. Novamente, sua pele queimava em um nível desesperador e, completamente tomado pelo receio e confusão, ele desvencilhou-se do abraço cálido de Ino se encaminhando a passos rápidos em direção as escadas, onde as subiu ofegante e atravessou o escuro corredor em um rompante, adentrando o quarto e fechando a porta.

Os olhos verdes fixos no nada, apenas encarando inconscientemente a porta. Segurando a maçaneta com força, Gaara sentia arrepios percorrerem-lhe os braços e a espinha. Jamais havia sentido algo semelhante antes. Seus pulmões pareciam clamar mais e mais por ar, como se estivesse prestes a sufocar. Algo estranho reagia em seu estômago, gerando uma sensação diferente, arrepiante. Ela tocara-lhe com os lábios. Seu ombro ainda sentia o calor de textura macia que proviera da boca dela, um toque que, mesmo por cima da blusa branca que estava a trajar, havia sido úmido. Úmidos, macios e quentes, nunca tinha sentido combinação parecida sob sua pele e, agora que sentia, elas haviam dado origens há muitas outras combinações em si. As pessoas costumavam utilizar os lábios também para tocar? Nunca havia visto alguém tocar outra pessoa usando dos lábios e não das mãos que, aparentemente eram o único instrumento de toque. Porém, ela tocara-lhe com os lábios e, apesar do queimar, não era de um todo ruim... Era macio, calmante. Levando timidamente uma das mãos aos lábios pálidos, o ruivo questionava-se se seria capaz de realizar um ato daquele.

Apenas no pensar, sentiu novamente os mesmos arrepios percorrerem-lhe a boca do estômago. O local onde era sua maior fonte de dor. No entanto, aquela região não doía mediante aqueles arrepios incomuns e sim, trazia-lhe um nervoso nunca sentido antes. Assustado, o ruivo permitiu-se virar de costas à porta e, perplexo, deixou o corpo ainda fraco deslizar até as tábuas de madeira do chão. A areia adentrara o quarto, aos poucos. Todos seus pensamentos voltavam-se para ela, para a face delicada, os olhos azuis brilhantes e os fios loiros como o sol. Ouvindo um repentino grito em sua mente, Gaara gemeu em dor, levando as mãos à cabeça com dificuldades.

“ A ninfa loira será a sua perdição!!! Dê um fim nela!!! Expulse-a dos nossos domínios!!! Mate-a!!!” ordenava a voz, apavorando o ruivo que, atormentado, encontrava-se em estado frágil. A dor em sua cabeça aumentava gradativamente, arrancando gritos de pavor dos lábios de Gaara, que já via tudo a sua volta ser tomado por um intenso vendaval carregado de areia, que reduzia os objetos do quarto a pó e erguia a cama na altura do teto.

Apertando os dedos fortemente contra a cabeça, o ruivo já sentia as pontadas brutais atingirem seu estômago, causando-lhe náuseas. A voz já parecia ocupar toda sua cabeça, furiosa, possessa, causando movimentos involuntários nos braços do ruivo, cuja pele cortava-se por conta própria.

Com os olhos fechados, Gaara sentia a areia rodopiar cada vez mais veloz, porém, não o atingia, mas já retirava-o do chão. Em gritos, o ruivo tentava suportar a pressão em sua cabeça, as náuseas estomacais e a pele dos braços rasgando em pequenos cortes.

Passos desenfreados aproximavam-se afoitos do quarto e, fazendo um enorme esforço, Gaara esticou uma das mãos, apontado em direção a porta e controlando um pequena parte da areia. Não queria que ela se ferisse entrando ali, não queria que ela visse-o concretamente como um monstro, somente a suposição já fazia o peito do ruivo comprimir-se em dor. Ela jamais o tocaria novamente se visse aquela cena deplorável, iria embora e, como todos, também acreditaria que ele era um monstro. Sabia que o era, mas, apreciava não ser visto como tal pelos olhos azuis dela. Era como se, pela primeira vez, conseguisse sentir-se como algo que não merecia apenas o desprezo, a rejeição e as correntes. Ela acreditava em si, havia dito isto, ele estava disposto a saber até onde ela poderia levá-lo... Não queria que ela parasse de acreditar nele.

_ Gaara!!! GAARA!!! Gaara o que está acontecendo?!?! – gritou Ino, do lado de fora do quarto, sentindo uma força imensa impedir-lhe de abrir a porta.

Forçando as mãos finas contra a porta, a loira apavorava-se a cada grito de Gaara que chegava aos seus ouvidos, gritos de dor extrema, tortura. Desesperada, ela tentava de todas as maneiras fazer com que a porta de madeira se abrisse, mas, apesar dos chutes, socos e tapas suplicantes para que ele a abrisse, tudo fora em vão.

Com os olhos a pouco de tornarem-se marejados, Ino matinha uma das mãos contra a boca. O que diabos estava ocorrendo dentro daquele quarto? Porque todos aqueles gritos? Todos aqueles tremores do teto da sala? Era o demônio. Certamente era ele, provavelmente deveria estar demonstrando fúria, assustando o ruivo recém recuperado dos vômitos de logo cedo. Era culpa dela. Não devia tê-lo beijado no ombro, estava mais do que farta de saber que ele não estava acostumado a contatos, não devia ter o feito correr nervoso daquela maneira! Ela apenas queria reconfortá-lo. Mas, porque todo aquele pavor apenas por um beijo? Aquilo não entrava na cabeça da loira que, já ouvia o número de gritos diminuírem, assim como a altura destes.

Ela iria trazer a bandeja que prepara para cima e, imediatamente. Ele poderia desmaiar dentro daquele quarto se não comesse nada, ou pior, voltar a expelir sangue de forma compulsiva. Iria também dar um jeito de achar qualquer coisa que pudesse usar como primeiros socorros, certamente o demônio deveria ter punido o corpo dele. Pelo que lembrava-se da vaga leitura dos relatórios, o demônio além de alimentar-se de sangue e ser de escala alucinógena, utilizava do sangue do próprio hospedeiro quando no auge da fome, portanto, se ela levasse pelo sentido mais lógico, ele poderia ferir o corpo de Gaara com facilidade.

Não suportando a hipótese de vê-lo ferido, Ino correu em direção aos armários próximos à velha e grande lareira da sala, em busca de qualquer coisa que a ajudasse a acalmar o ruivo que, provavelmente, deveria estar em pânico.

Ofegante, sentado sobre o chão do quarto, Gaara tinha todo o corpo trêmulo, o olhar disperso, encarando o quarto que, tornara-se um ninho de escombros cuja cama e a cômoda foram os únicos móveis a permanecerem inteiros. Um grande rastro de sangue manchava o chão, assim como parte da blusa branca e da calça de moletom preta usada pelo ruivo. Sangue que ele expelira e que, inundava sua boca com sabor de ferro. Erguendo um dos braços doloridos, Gaara comandou outra vez uma pequena parte da areia, que levou consigo todo sangue do chão.

Respirando exausto, ele mantinha-se cabisbaixo, ouvindo os passos de Ino aproximarem-se do quarto.

Conseguindo abrir a porta finalmente, a loira adentrou o local carregando a bandeja com gelatinas e bolinhos de arroz, assim como um quite antigo de primeiro socorros que encontrara no fundo de um dos armários da sala.

Percorrendo os olhos pelo cômodo completamente surpresa, Ino observava o que restara do quarto, somente a cama e a cômoda, que estava completamente torta em função de um afundamento nas tábuas do chão.

Colocando rapidamente a bandeja e o quite sobre a cama, ela encaminhou-se depressa na direção do ruivo, que tremia bastante e encontrava-se cabisbaixo no canto do quarto.

_ Gaara! – exclamou Ino, abaixando-se diante dele.

Erguendo a cabeça, o ruivo olhou a face chocada dela, mostrando os lábios avermelhados com sangue e o rosto pálido, cujos olhos analisavam-na atentamente receando que ela estivesse considerando-o um monstro.

_ Ino... Como alguém deve fazer para pedir um abraço? – perguntou o ruivo, em um misto de agonia e súplica, a voz, saindo praticamente inaudível de tamanha rouquidão pelos gritos dados há pouco. Ele precisava urgentemente que a dor passasse. Ele precisava que ela fizesse a dor passar mais uma vez.

Estática em função da pergunta e do estado de Gaara, Ino imediatamente abraçou o corpo trêmulo do ruivo, sem importar-se com as manchas de sangue em sua roupa.

XXX

Sentado em sua enorme cadeira, Neji tinha as mãos apoiadas de maneira impassível na mesa. Milhares de papéis, milhares de e-mails registrados na tela do computador, milhares de tarefas a serem cumpridas. Porém, ele poderia terminar todos aqueles milhares de afazeres em menos de uma tarde. No entanto, desta vez, o Hyuuga sentia-se impotente, completamente alheio para conseguir realizar qualquer afazer.

Suspirando em frustração, o rapaz de longos cabelos lisos olhou mais uma vez para as pastas que estavam a sua mente, cujos nomes exibidos eram “Haruno Sakura”, “Yamanaka Ino” e “Hyuuga Hinata”. O que será que aquelas três deveriam estar a fazer naquele momento? Hinata não havia enviado o relatório ainda, entretanto, ela disse que o enviaria no final de semana e, portanto, ainda possuía mais quatro dias de prazo. Colocando os olhos perolados diante da pasta ao centro, leu com certo desgosto o nome, mais uma vez. Ino. Aquela louca deveria estar fazendo um estrago para não ter entrado em contato ainda. Inconsequente, irresponsável e incrivelmente irritante, assim que o Hyuuga definia a Yamanaka que, desde que entrara na agência, fazia questão de ignorar sua autoridade e não dar satisfação alguma à ele sobre suas missões, sempre indo falar diretamente com Tsunade e importunando-a as vezes, com questões que deveriam passar por ele antes. Ouvindo batidas na porta, Neji proferiu um sonoro “entre”, com seu tom de voz grave e prepotente, totalmente típico dele.

Adentrando a sala com mais alguns papéis, Shikamaru logo constatou a vazão do amigo que, estava completamente disperso do que havia em sua mesa.

_ Fala Neji! Empacando no trabalho hoje? – debochou o Nara, sentando-se divertido a frente da mesa do Hyuuga, que o encarava já acostumado com as indiretas bem diretas de Shikamaru.

_ Sei que já lhe disse isso Shikamaru, mas, torno a dizer: se fosse comediante estava na sarjeta meu caro. – afirmou Neji, olhando com desgosto para os papéis colocados em sua mesa.

Despejando-os e olhando com um misto de ironia e diversão, Shikamaru cruzou os braços, em sua mais comum expressão corporal. De face preguiçosa, ele encarava o amigo que, pelo visto, não havia dormido muito bem à noite.

_ Por isso mesmo que eu sou um agente e não comediante. Qual foi cara? Dragões na cama? – interrogou Shikamaru, em suas costumeiras comparações totalmente “anormais” na opinião do Hyuuga.

_ Dragões? Anda lendo muitos livros hein? – zombou Neji, tomando coragem e pegando os papéis para dar uma rápida analisada.

_ Alguns... Mas e aí? As meninas já deram notícias de como é que está sendo com os demônios? Fico só imaginando como é que a Ino vai ganhar a confiança de um demônio... Vai deixá-lo maluco isso assim! Soube que aquela cabeça de vento ainda não mandou nenhum relatório... – comentou Shikamaru, lembrando-se do jeito expansivo da loira de saltos altos que desfilava pela agência.

_ Nem ela nem Hinata. Mas falei com minha prima ontem e ela me garantiu que vai enviar até o final de semana. – afirmou Neji, deixando os papéis novamente a amontoar na mesa.

Exibindo uma face pensativa, o Hyuuga esboçou um sorriso irritado. Pegando as chaves de seu carro na primeira gaveta da mesa, levantou-se de sua cadeira em direção da porta. Shikamaru, virando a cadeira, já sabia bem o amigo deveria fazer. Bem cedo os e-mails da seguradora já estariam constando na conta agência... De novo.

_ Vai bater o quarto carro? – perguntou o Nara, naturalmente.

Abrindo os braços, irônico, Neji abriu a porta.

_ Eu pareço um louco para fazer esse tipo de coisa? – interrogou o Hyuuga, rindo de leve.

_ Não... Você não é nenhum pouco louco... Só bateu três carros de valores mais caros que a mansão do seu tio na semana passada... – ironizou claramente o Nara, descruzando os braços.

_ Também não sou nenhum pouco louco a ponto de, se eu não receber os relatórios até o final de semana, ir para aquele fim de mundo e dar andamento nessa missão. É a missão mais importante na história dessa agência, se ninguém der conta, eu darei. – decretou Neji, sério, escorando-se a porta de madeira pintada em branco neve.

_ Vai ter coragem de parar naquele fim de mundo? Você?! – questionou Shikamaru, incrédulo, o amigo só poderia estar envolvido com drogas para dizer algo daquele tipo. Conhecia Neji há mais de dez anos, estudaram juntos e, agora, também trabalhavam no mesmo local. Sabia o quando o Hyuuga tinha horror a cidades pequenas, de pouco desenvolvimento e, sem o agito da metrópole.

_ Se não chegar nada na minha conta da agência até domingo, em quatro ou cinco dias estou lá para fazer uma surpresa agradável. – assegurou Neji, dando um aceno de cabeça ao Nara, deixando a sala em sua postura altiva.

Estava cansado naquela ineficiência. Não poderia deixar a missão mais importante, em que as vidas de todo Oriente estavam diretamente influenciadas, falhar por irresponsabilidade de três garotas. Elas estavam lidando com demônios, seres das trevas, não estavam de férias em uma fazenda. Não se importava se chamavam-no de “nervosinho”, “mauricinho” e “chato”, ele tinha plenas condições de sobreviver em um local isolado. Bufando, Neji deu-se conta do fato: um lugar isolado. Talvez, ele devesse esquecer aquilo e permanecer na dele, feliz em sua Tóquio, mas, ele era um agente e, pela primeira vez, tinha a oportunidade de salvar um número grande de pessoas. Salvar como ele não havia o feito com seu pai.

XXX

Caminhando a passos lentos por entre a estrada de terra deserta, Hinata segurava firme sua bolsa de tecido azul claro, que exibia uma estampa em várias flores cor de rosa. Havia conseguido desculpar-se com Ayame em função da falta no trabalho dia anterior, e, estava muito aliviada em saber que o movimento na lanchonete havia sido muito baixo e a moça dos cabelos castanhos não tivera dificuldades em sua ausência. Tinha, portanto, feito de tudo para compensar agora a pouco, fazendo questão de preparar todos os pratos e lavar a louça após o expediente, deixando Ayame somente no caixa e no atendimento aos poucos clientes que apareceram pela lanchonete naquela noite. Ele não havia aparecido por lá. Ela havia feito seu lamén e esperado até a saída de Ayame, mas, quando terminou de secar as louças, resolveu enfim fechar o estabelecimento. Estava mais do claro que ele não iria vir e não adiantaria que ela ficasse ali, sozinha, a aguardá-lo altas horas da noite. Já estava muito tarde e, a Hyuuga sentia um fio de medo percorrer-lhe as veias a cada passo dado sobre aquela estrada escura, apenas com a luz do luar como única fonte de luz.

Mas, o que a consolava era que, dentro de praticamente dez minutos já estaria na entrada de Konoha, tendo assim, as luzes dos postes antigos da cidade como companheira. Porque ele não havia ido até a lanchonete? Aquela pergunta ficara a martelar em sua cabeça por toda a noite e ele, parecia não querer sair de sua cabeça. Seria algo que ela teria feito? Ele havia ficado bravo em saber que ela tinha um primo? Estava aflita, a hipótese de tê-lo magoado por algo que ela nem ao menos tinha conhecimento, era terrível. Assim que acordasse iria até a casa dele visitá-lo, compraria alguns sonhos para o café da manhã também. Tinha certeza que ele iria gostar, e já estava decidido, ela iria mesmo até a sua casa.

Talvez, ele havia apenas pegado um resfriado ou ficado doente e, sentido-se indisposto para ir até a lanchonete. O sorriso radiante, a pele levemente bronzeada, o humor praticamente nato... Ela dava-se conta que estava a sentir falta dele. Aquela noite em que ele não havia surgido na lanchonete, fora como se todo o lugar perdesse seu brilho. Até mesmo Ayame estranhara a ausência do loiro, dizendo que aquela era a primeira vez que ele faltava ao jantar na lanchonete.

Primeira vez... Então será que ele nunca havia ficado doente antes? Novamente, todas as letras do relatório a respeito do demônio vieram à cabeça de Hinata. Certamente ele não era do tipo que se adoentava, levando em consideração que, pelo que havia lido, era bem provável que ele tivesse a capacidade de se recuperar rápido de ferimentos ou doenças. Suspirando, ela colocou os olhos sobre suas sapatilhas em lilás, contendo um romântico laço em tom rosa nas laterais. O demônio... Ela não se conformava com o destino final de sua missão. Seria a tarefa mais difícil de toda sua vida, iria superar a morte de seu tio, em que o primo ficara completamente desolado, chegando a ficar internado em sérias dores de cabeça por mais de duas semanas. Saber, ter a consciência de que ela que deveria apagar aquela chama de vida tão radiante, era mais doloroso que reviver todo aquele período negro da família.

Distraída, Hinata já podia avistar as luzes da entrada de Konoha. Mas, sentia a brisa noturna cada vez mais fria, congelante. Inegavelmente, sentia o temor aumentar em seu corpo. Estava sozinha, ao final daquela estrada deserta. Deveria ter aceitado o convite de Ayame e voltado com a atendente, que tinha insistido para que ela não retornasse sozinha a cidade naquele horário. Abraçando os braços, Hinata apressava os passos, ouvindo movimentações em meio ao matagal em volta da estrada. Eram coisas de sua cabeça, só poderia. Ninguém estaria ali, naquele lugar, aquele horário. Entretanto, os ruídos se intensificaram e, sem perder tempo, a Hyuuga colocou-se a correr, tentando em meio a corrida, abrir sua bolsa e pegar ou o comunicador, para pedir socorro a Sakura, ou até mesmo seu revólver portátil caso tivesse que resolver a situação por ela mesmo.

Mas, na tentativa de correr e abrir a enorme bolsa, Hinata sentiu-se puxada para trás com violência por mãos brutas, que jogaram-na no chão de terra.

Sentindo o joelho ralar imediatamente em função da queda, Hinata tentou erguer-se e olhar seu agressor, mas este puxara-a pelos cabelos, virando-a de frente para ele.

_ O que uma estrangeira tão linda faz andando sozinha pelos meus domínios a esse horário? – indagou um homem de estatura mediana, cujos cabelos castanhos destacavam-se a luz a lua.

_ Me solta!!!! – gritou a Hinata, tentando livrar-se das mãos do homem em seus cabelos, a puxá-los com violência e, fazendo-a emitir um grunhido de dor.

_ Solta ela agora!!!!! – ordenou uma voz conhecida, estridente, cuja raiva demonstrada era absurda.

Sem pensar duas vezes, Naruto desferiu um forte soco na face do homem, que soltou em Hinata em função do impacto do golpe. Indo ao chão, a Hyuuga virou-se, encarando o loiro que, caminhava rangendo os dentes em direção do homem que a agredira, caído alguns metros dali, a tentar estancar o sangue que lhe escorria dos lábios.

_ Naruto!!! – exclamou a Hyuuga, tentando levantar-se do chão.

Parando de caminhar, o loiro olhou-a, detectando a pele alva ralada, no joelho. Os olhos azuis fixaram-se nas gotas de sangue a pingar na estrada de uma maneira praticamente hipnotizada. Assustada, Hinata encarava o loiro estático, a olhar-lhe a ferida de um modo estranho. Tentando se erguer mais uma vez, ela viu a pele do loiro tornar-se avermelhada, as marcas características nas maçãs do rosto assumirem um aspecto mais acentuado, as unhas crescerem aos poucos, como garras.

Com os olhos perplexos, Hinata olhava o rosto de Naruto apresentar uma fúria sobre-humana, que chegava a amedrontá-la. Os lábios que sempre exibiam um sorriso radiante, assumiram uma aparência trincada, raivosa e séria. Os caninos sobressaltavam-se, e a poeira da estrada tornava-se avermelhada como o corpo do loiro que, virando-se para o homem completamente assustado, aproximava-se aos poucos.

_ Q-Quem é v-você?! O que v-você é?!?! – questionava o homem, afastando-se desesperado no chão.

Em um rugido alto, Naruto levou as garras ao colarinho do homem, erguendo-o no ar. Hinata respirava com dificuldades, observando a cena apavorada. Aquele era mesmo Naruto? O que estava acontecendo com ele? O demônio. Será que este havia despertado ao ver seu sangue? Ele iria matar aquele homem!!! Ela tinha que fazer alguma coisa. Levantando-se finalmente, a Hyuuga tentou se aproximar do loiro, que estava a erguer o homem no ar, que implorava por sua vida.

_ Naruto!!! NARUTO!!! Solte-o!!! Naruto por favor!!! – gritava a Hyuuga, espantada com o que a imagem do loiro havia se tornado.

O vento soprava extremamente forte, desesperando Hinata ainda mais. O casaco de couro vestido por ele voava, exibindo o abdômen completamente trabalhado, desprovido de uma camisa. Algumas marcas na altura das costelas estavam marcantes, assim como a coloração de sua pele. Eram ferimentos recentes? Por onde ele havia andado?!

Possesso, Naruto cravou suas garras no pescoço do homem, parecendo não se abalar com seus gritos de dor. A Hyuuga sentiu-se derrubada mais uma vez sob a estrada, desta vez, por duas corridas velozes. Mais dois de Naruto haviam surgido, como se fossem cópias perfeitas dele. Fechando os olhos, Hinata optara por não assistir aquela cena brutal. O loiro estava a esquartejar o homem junto das cópias.

XXX

Sakura mexia com cuidado o chá que preparava sobre o imenso fogão dos Uchiha. Sasuke não havia acordado. Passavam-se de duas da manhã, ele estava a dormir durante o dia todo. Ela estava faminta, cansada de permanecer tantas horas sentada naquela cama, sentindo a mão apertada contra a dele. Não sabia como havia conseguido livrar-se da mão dele, mas ela precisava urgentemente comer algo ou passaria mal de tamanha fome. Era como se seu estômago estivesse a pouco de alimentar-se dela própria. Já tendo montado um prato com um sanduíche de pão integral e conteúdo leve, a Haruno tentava concentrar-se em terminar o preparo do chá. Era um verdadeiro desastre na cozinha! Ino e ela, certamente, ganhariam prêmios por suas habilidades culinárias, inversas. Totalmente inversas! O dia em que deixaram dois pratos caírem pela janela do apartamento de Hinata, no décimo andar, era a prova viva que, ao contrário do que sua mãe sempre desejara, ela era uma péssima dona de casa com “p” maiúsculo. No entanto, encontrara alimentos práticos na geladeira imperiosa da casa do Uchiha e, havia conseguido preparar algo que lhe satisfizesse sem cometer um estrago na cozinha.

Ela não havia fugido. Não tinha ido embora. Havia dado sua palavra a ele e, logo que ele acordasse, veria que tinha a prova de que poderia confiar nela. Estava desde a madrugada passada naquela casa de traços luxuosos, porém, bastante obscuros. Era uma residência muito grande para apenas um morador, era um bairro muito grande para apenas um morador. Como supunha, ele deveria sentir-se infinitamente sozinho. Todas aquelas casas que, um dia pertenceram aos seus familiares, vazias e inertes como a morte. Não fazia ideia do tamanho da dor que ele carregava consigo, mas, sabia que ele a carregava. Ainda lembrava-se do modo como ele temera imensamente que ela fugisse dele, que não o aceitasse e, assim como seus familiares, deixassem-no sozinho mais uma vez. Novamente, o dinossauro de pelúcia da fotografia no quarto viera a sua mente. Ao menos, em um período de sua vida, ele havia sido plenamente feliz, talvez até carregasse uma natureza carinhosa na época, que dera espaço ao modo autoritário usado como barreira para inibir os medos e principalmente as inseguranças.

Pensativa, a Haruno desligou rapidamente a chama do fogão, sentindo os dedos ferverem em função da caneca em metal, onde o chá já fumegava além do ponto. Não tinha jeito, nem mesmo se lembrasse ou fizesse algo correto, algo sempre daria errado. Como Ino disse certa vez, era “melhor desistir”.

Rindo de canto ao recordar da audácia da amiga em instalar-se na casa de seu alvo de “cabelos ruivos”, Sakura despejava o chá em duas xícaras de traços antigos, porém, bonitos, em porcelana branca. Havia posto uma em caso do Uchiha acordar e, querer comer ou tomar algo. Sentando-se a mesa de grande extensão, a rosada levou o lanche aos lábios, suspirando pela fome que seria enfim retirada de si.

Tocando o arco de entrada da cozinha, o Uchiha assistia a cena. Ela não havia ido embora. Não tinha descumprido sua palavra e, não aparentava estar incomodada em estar a tanto tempo em sua casa. No entanto, seria bom que ela se acostumasse a ideia pois, ela não deixaria mais aquela casa.

XXX

Correndo em direção a pequena e desorganizada cozinha da casa toda em amarelo, Hinata buscava urgente por um copo de água. Jamais imaginaria presenciar um episódio daquele, jamais imaginaria encontrá-lo tão vulnerável daquele modo, completamente isento de sua determinação costumeira. Certamente, tudo que vira naquela estrada ela tentaria ao máximo deletar de sua mente, entretanto, sabia que a chance de falhar naquela tarefa era grande. As imagens estavam coladas as suas memórias. Os olhos vermelhos, a pele avermelhada, as marcas do rosto sobressaltadas, os caninos evidentes como se fosse uma raposa faminta. A ficha finalmente parecia cair. Estava-se dando conta do que havia dentro daquele loiro tão gentil e radiante. Ela não queria enxergar, não gostaria de aceitar, mas, tinha de proteger o Oriente e o mundo daquelas garras, daquela forma brutal que, ao ver seu sangue, cometera um crime. Pegando uma jarra com água fresca na geladeira, a Hyuuga despejou todo o líquido que coubera no grande copo alaranjado de plástico, o primeiro que vira em cima da pia de mármore.

Correndo de volta a sala, Hinata sentou-se de frente para ele, que encontrava-se aos prantos, sentado sobre o sofá a abraçar e bater em um travesseiro de estampa infantil. Com os olhos perolados em uma mistura de espanto e comoção, ela logo tratou de estender o copo, chamando a atenção do loiro.

Com as mãos trêmulas, Naruto pegou o copo, tomando toda a água, exibindo os olhos bem avermelhados e a respiração descompassada. Não sabia o que estava havendo consigo, não sabia de onde estava surgindo toda aquela raiva incontrolável em seu corpo, que o fizera sair de casa a tarde, em busca de Hinata. E, entrando em conflito com inúmeros animais no caminho, ele perdera completamente o rumo do hotel onde ela estava hospedada, que era seu destino inicial. Porém, ao vê-la sendo agredida por um homem de explícitos pensamentos detestáveis, foi como se um gatilho se disparasse dentro de si, assim que viu o sangue dela cair sobre a estrada. Vê-la ferida fez nascer um ódio anormal em seu corpo e, tudo que conseguia pensar era em matar o responsável por tê-la machucado. Quando dera-se conta do que tinha cometido, teve que ser amparado pela Hyuuga.

_ Hinata... Por favor... Eu não sei onde é que eu estava com a cabeça... Por favor... Eu não sou um monstro, te garanto que nunca lhe faria mal... – falava compulsivamente Naruto, olhando em agonia para Hinata, imóvel a sua frente. _ Eu não quero ser isso...

Não tendo mais força para extravasar toda a raiva que sentia de si mesmo, Naruto entregou-se as lágrimas, deixando o travesseiro cair no chão.

Preocupada, Hinata tocou-lhe uma das mãos. Era a primeira vez que via aquele rapaz tão alegre, capaz de fazer mais de vinte estrelas em uma tarde, demonstrar dor, uma dor de alto nível.

_ Eu sei... Não se preocupe, não lhe acho um monstro. Nem jamais vou achar. – garantiu Hinata, pegando o travesseiro e devolvendo a ele.

_ Tem... T-Tem... Uma coisa em mim. Uma coisa que não fui eu quem colocou! Era ela na estrada, não era eu! – tentava desesperadamente se explicar o loiro, não desviando um segundo sequer os olhos de Hinata. Ele precisava ter certeza que ela não o deixaria, que não passaria a ter medo dele.

O contato dela em sua outra mão o fez calar-se. Olhando-o com mais calma, Hinata engoliu seco. Ele precisava de conforto por aquela noite e ela havia prometido a si mesma fazer de todos os instantes com ele os mais verdadeiros possíveis. Naquele instante, por mais que sua cabeça gritasse para que não deixasse levar pelo que ele demonstrasse, que se focasse na missão, ela não conseguia. Não era o que seu coração dizia. Ela iria permanecer ali.

_ Naruto, se acalme... Não precisa ficar nervoso, olha, se quiser eu passo a noite aqui com você. Não vou te deixar assim. – afirmou Hinata, segura.

XXX

Deixando que a água quente caísse por seu corpo, Ino tinha os olhos fixos no box trincado a sua frente. Lembrava-se muito bem em como aquele vidro negro havia adquirido aquelas rachaduras. Lembrava-se muito bem que, naquele dia, ele tinha os olhos semelhantes aos que havia demonstrado naquela manhã. Olhos carregados de dor, mágoa, sofrimento. Ele se auto rotulara como monstro, ela havia o visto pela primeira vez, chorar. Derramar lágrimas como um menino, iniciando ali, sua curiosidade a respeito do passado que teria deixado-o daquela maneira. As correntes... Não conseguia acreditar que pessoas da própria família eram capazes de acorrentarem uma criança, desprezá-la e, não demonstrar nenhum tipo de afeto. Somente de o imaginar, acorrentado, naquele quarto escuro, sendo rejeitado, uma raiva grande a consumia. Se pudesse, a loira gostaria com certeza de ir atrás de cada um dos familiares dele, e, mesmo que estivessem mortos, cuspiria em seus túmulos. Não havia conseguido perguntar sobre eles, saber se ele tivera a presença dos pais, se tinha ou não irmãos, todavia, aquilo não importava. Ele estivera todo o dia a fugir dela, se iria para o quarto, ele saía e ia em direção da cozinha, se tentava acompanhá-lo na cozinha, ele fazia o caminho de volta ao quarto. Certamente estava confuso, assustado e envergonhado por ter destruído todo o quarto. Mas não havia sido culpa dele, e ela sabia disso, apenas os gritos altos emitidos por ele até perder parte da voz já confirmavam aquela tese. No momento em que ele havia perguntado a respeito de como se pedir um abraço, Ino havia sentido o coração se partir. Ele era incompreendido, isolado sem nem mesmo o conhecerem de fato. Ele tinha noção alguma de contatos, tanto, que havia ficado daquela forma apenas por um beijo no ombro. A loira sentia-se culpada, mesmo que a hipótese de ficar daquela maneira somente por um beijo não entrasse ainda em sua cabeça.

Entretanto, o que realmente importava ele havia feito, tinha conseguido convencê-lo a se alimentar logo depois que o choque no quarto passara e, até agora, ainda não havia dado sinais de que iria passar mal outra vez. Já se passavam das três da manhã, o banheiro estava gelado, mas, era como se aquele frio não a afetasse. Desligando o chuveiro, a Yamanaka enrolou-se na toalha branca que estava pendurada em um gancho próximo ao box. Colocando a fina calcinha preta, a loira recordou-se de Hinata. A amiga com traços recatados sempre abominara todas as suas calcinhas, assim como Sakura, que concordava em gênero, número e grau com a Hyuuga. Nunca entendera o que havia de errado com suas roupas, ela tinha um corpo saudável, então, porque escondê-lo? Gostava de iluminar todos os lugares que frequentava.

Penteando os cabelos loiros com facilidade, Ino deixou a escova de cabelos vermelha que tinha trago consigo em cima da pia. As laterais daquela pia já carregavam manchas concretas, feitas pelo sangue do ruivo. Apertando a toalha enrolada, a Yamanaka saiu do banheiro, caminhando com os pés descalços até o quarto.

Apenas a cama havia sobrevivido ao ocorrido logo cedo, e a cômoda ainda encontrava-se torta. Ele não estava ali, no entanto, a loira havia decidido não importuná-lo por hoje. Ele deveria estar querendo ficar sozinho e ela não insistiria em nada, não queria dar mais nós na cabeça de Gaara. Deixando a tolha cair ao chão, Ino abriu a primeira gaveta da cômoda torta, pegando uma camisa sua, cor de rosa, iria dormir com ela. Porém, ao desdobrá-la, a loira sentiu uma mão gélida em sua cintura.

_ Esta. – decretou Gaara, estendendo sua camisa preta na direção de Ino.

Olhando-o surpresa, Ino desceu os olhos em direção a camisa que ele lhe estendia. Era a camisa dele que ela havia pegado no primeiro dia. Sorrindo travessa, ela pegou a camisa, colocando-a por cima dos seios fartos, cujos mamilos encontravam-se túrgidos devido ao frio e a leve excitação de vê-lo não reagir a vê-la daquela forma.

Encaminhando-se rapidamente a cama em meio há alguns dos escombros restantes dos demais móveis destruídos mais cedo, Ino logo puxou o grosso cobertor, finalmente ela estava a sentir o ar congelante da noite, que estava-lhe endurecendo os músculos de tamanho frio. Acompanhando-a com os olhos, o ruivo fez o mesmo, porém, não se deitou, sentou-se sobre a cama abraçando os joelhos. Ele não dormia de qualquer modo, e ela certamente não iria tocar-lhe no abdômen daquela vez, ela tivera a prova de que era um monstro.

Encarando o ruivo a direcionar os olhos aborrecidos na direção do teto, Ino sentou-se na cama, aproximando-se dele.

_ Não vai se deitar? – questionou Ino, abraçando os próprios braços devido ao frio.

Retirando os olhos verdes do teto, o ruivo a encarou. Ela tinha uma expressão ruim na face, tremia e abraçava os braços. Ela estava a sentir dor? Ela conhecia a dor? Vendo-a soltar o ar devagar pelos lábios avermelhados, Gaara puxou-a brutalmente pelas pernas torneadas e alvas, notando os olhos azuis arregalarem-se em surpresa. Colocando-a em seu colo, o ruivo entrelaçou os braços na cintura da loira. Ela fazia sua dor passar. Ele gostaria de fazer o mesmo por ela.

XXX

Terminando de comer o sanduíche, Sakura enfim notou a presença de Sasuke na entrada da majestosa cozinha, a observá-la.

_ Acordado? Pensei que fosse aproveitar que dormiu por todo um dia para emendar com o seguinte. – ironizou a rosada, sorrindo de canto e tomando o último gole de seu chá.

_ Não foi embora... – proferiu Sasuke, aproximando-se da mesa, suave, encarando-a.

_ Sou uma mulher de palavra Uchiha. Eu disse que não iria embora. Mas, infelizmente, agora que acordou, tenho que ir. Minha amiga deve estar preocupada comigo. – afirmou a Haruno, levantando-se da cadeira onde estava.

_ Fique. – pediu Sasuke, a voz soando como uma ordem.

_ Olha, eu... – ia justificando-se a Haruno, quando seu braço direito fora puxado com certa violência pelo Uchiha, colocando-a prensada contra ele e a parede atrás de si.

_ Desista. Não vai sair mais daqui... – sussurrou sensualmente Sasuke, com os olhos sobre os lábios rosadas daquela que ele prendia.

Notas finais
O que acharam??? Kisses, Nita.