Demônios
6 Capítulo 6: Tome chá, aprecie um cigarro e dance
Notas iniciais
Pensativa, Ino preparava um chá, com ervas de camomila. A cozinha, como o restante daquela casa afastada e escura, mantinha o aroma da distância e as sombras das enormes árvores daquela vasta propriedade. Era realmente um lugar sombrio e isolado. Isolada... Esta era à maneira de vida dele. Imerso por entre as trevas, recluso em si mesmo e em sua notável dor. Não somente a dor física pelos vômitos rotineiros, mas também, a dor emocional. Ele era sozinho... Quem havia tido coragem para abandoná-lo daquele modo? Todos os pensamentos da Yamanaka giravam em torno daquela questão. Tão ingênuo, tão retraído e precisando de alguém que lhe trouxesse segurança. Será que os familiares dele não haviam notado aquelas características? Estariam vivos? Se sim, teriam o desprezado por saberem do demônio vivendo dentro dele? A loira sentia-se inconformada. Sabia que o ruivo parecia não conviver com alguém há muitos anos, apenas o fato de tremer tanto ao toque que, mais cedo, desferira nele, lhe dava plena confirmação daquilo. Talvez nem seria preciso aquela prova. Ele se assustava e mantinha-se confuso a tudo que ela fazia, seguia-a e a observava como se estivesse diante de um ser estranho.
Suspirando, Ino virou-se de costas para o fogão, encarando a velha pelúcia surrada que ainda permanecia ali, onde colocara no café da manhã. Estava trajando novamente a camisa preta dele, sentia-se confortável nela e livre a noite. Porém, desta vez, a loira havia escolhido uma calcinha de coloração vermelha ao invés das roxas. Sorrindo de canto, Ino imaginava se ele notaria aquela mudança.
Uma luz surgiu atrás da Yamanaka, que estranhando a sombra clara formando-se no chão, virou-se outra vez, constatando que o pano de prato estava pegando fogo. Desesperada, Ino deu algumas voltas ao redor da mesa, sem saber o que fazer.
_ Aaaaaaaaaah!!! – gritava a loira, incrédula por poder estar começando um incêndio na casa.
Retomando um pouco da calma, enfim a constatação de que tinha de apagar aquele fogo de algum modo veio à mente de Ino, que pegando a ponta do pano, o jogou na pia por entre os gritos apavorados que saíam de seus lábios. Abriu a torneira depressa e, vendo a pequena chama se apagar, suspirou aliviada.
_ Por Kami... – pronunciou Ino, ofegante, deslizando o corpo escorado na pia até o chão.
Foi quando, lembrou-se do chá ainda no fogão.
_ O chá! – exclamou a loira, levantando-se rapidamente e apagando as chamas do fogão.
O chá fumegava além do ponto ideal sobre o antigo fogão. Por pouco, Ino não perdia também a bebida que preparava. “ Okay, finalmente me rendo Kami-sama! A testuda e eu somos as piores cozinheiras do planeta!” pensou Ino, usando de um par de luvas térmicas amarelas que havia encontrado em um dos armários para despejar a bebida em duas canecas de porcelana, de tons escuros. Havia optado por usar as canecas mesmo, certamente Gaara não ligaria para xícaras ou futilidades.
Subindo as escadas levando as canecas, Ino notou que a luz do pequeno banheiro estava acesa. “Teimoso...” repreendia a loira mentalmente ao ruivo, tinha pedido que ele ficasse onde estava, descansando sobre a cama, enquanto tomava seu banho e fazia o chá. No entanto, ele havia saído de lá. Ao assimilar que ele estava no banheiro, a face de Ino empalideceu. Estaria ele a passar mal outra vez? Seguiu correndo o corredor, porém, a passos silenciosos, pois descalça, seus pés não faziam barulho sobre as tábuas de madeira. Ao chegar na porta meio-aberta do banheiro, Ino permitiu-se escorar sobre a curva da porta. Ele não estava a passar mal, desta vez, estava a realmente tomar banho. A água vinda do chuveiro era o único som emitido na casa e, observando, a loira sorriu de canto, maliciosa. O box antigo de vidro negro cobria o ruivo, porém, deixava-lhe o torso à mostra, admirado pela Yamanaka. Apesar de muito pálido, Gaara possuía um corpo trabalhado, e os cabelos vermelhos também chamavam toda a atenção. Molhados, como pensado por Ino, eles aparentavam tornar-se mais vermelhos ainda.
Apertando as canecas com chá, Ino alargou o sorriso com certa dose de malícia. Ele era mesmo muito bonito. Por um breve instante, sentiu-se excitada. Certamente era algum efeito de estar a tantas semanas focada na agência e não ter saído nenhuma vez para se divertir. Entretanto, como logo a loira se recordou, ele era seu alvo. Era seu alvo e estava a passar por alguns problemas preocupantes, no momento, além de tentar ganhar a confiança dele pela missão, estava empenhada a ajudá-lo. Ele estava distraído, muito pensativo e não havia detectado a presença da loira a fitá-lo. “ É melhor ir...” pensou Ino, virando-se em silêncio e seguindo para o quarto, levando as bebidas.
As deixou sobre o discreto criado-mudo ao lado da cama e sentou-se sobre esta, cobrindo-se com o grosso cobertor negro. Estava frio, como no dia anterior. A casa permanecia silenciosa e sombria, o vento que adentrava a janela de vidros antigos atrás da cama soprava mediano, levando as pontas do cabelo da loira a descobrir-lhe os ombros. Alguns poucos minutos depois Ino pôde ver a imagem do ruivo surgir no quarto, com expressão impassível e as mãos levemente trêmulas. Seria em função do frio ou ainda estava aflito pelo que ocorrera? Era o questionava-se a Yamanaka, vendo-o abrir uma das gavetas da cama e retirar uma camisa branca. Concentrada mais uma vez no torso do ruivo, Ino deixou as cobertas e engatinhou pelo colchão, colocando-se atrás dele.
_ Como é que mantém seu corpo assim? – perguntou Ino, travessa.
Assustado, Gaara virou-se rapidamente, encarando a loira sorridente atrás de si. Ela estava posta de uma maneira estranha na cama, encarando-lhe com um brilho também incerto no olhar. Os cabelos loiros como o sol deslizavam pelas costas, fruto do efeito do vento. Não compreendendo o que havia de errado em seu corpo, o ruivo abaixou a cabeça e olhou para si mesmo, confuso.
_ Fiz chá para tomarmos, irá fazer bem ao seu estômago. – comunicou Ino, erguendo-se da cama e indo em direção ao criado-mudo, onde as canecas com chá repousavam.
Segurando-as, a loira colocou-se em seu lugar na cama novamente, vendo-o assentar-se ao seu lado, cabisbaixo, com a respiração um pouco alterada e ainda trêmulo. Docemente, ela estendeu-lhe uma das canecas, que fora segurada por ele.
_ Eu não queria mesmo arroxear seus braços... – proferiu o ruivo, não lembrando-se do nome que ela dera para o que havia feito.
Tomando um pequeno gole da bebida ainda fumegante, Ino olhou-o. Percebendo o olhar dela sobre si, Gaara tratou de fazer o mesmo. Ela olhava-lhe como se não se importasse com o ferimento que ele lhe causara, como se... Como se não o considerasse um monstro. Estava errado. Ela deveria considerar. Todos consideravam. Porque ela não? Aquela palavra doía-lhe intensamente no peito, tornava sua respiração descompassada e fazia a voz em sua cabeça gritar, atormentando-o.
_ Gaara... Tome um pouco do chá. Irá te fazer bem... – insistiu Ino, notando-o empalidecer cada vez mais.
Gaara enfim levou a caneca aos lábios, sorvendo-se da bebida. Olhou para suas mãos novamente. Elas ainda pareciam sentir o toque dela, um toque quente, cálido. Viu-a deitar-se e puxar o grosso cobertor, ainda estava vestindo sua camisa. Mas, ela não havia trago suas roupas? Havia uma mala roxa próxima a porta do quarto. Por um instante, sentiu sua expressão tensa relaxar, ela era mesmo muito difícil de se decifrar, mas, talvez a preferisse daquele modo. Não entendia o que ela havia apreciado em sua camisa, no entanto, não iria se opor ao uso dela.
_ É para beber tudo... – enfatizou Ino, vendo-o fazer menção de soltar a caneca no chão.
Ela tinha uma face levemente repreensiva, e, surpreso, o ruivo o fez. Tomou todo o restante da bebida e entregou a caneca a ela. Enfim, a viu sorrir de novo, colocando a porcelana também em seu velho criado-mudo.
_ Agora se deite, não descansou o bastante. – afirmou a loira, olhando-o doce.
Um pouco receoso, Gaara ajeitou seu travesseiro e deitou-se, permanecendo de frente para Ino, como na noite passada. Ele havia observado-a dormir, habitar mundos agradáveis e loiros por várias horas. Havia sentido-se bem ao vê-la dormindo, ela estava a poucos centímetros de si, como ninguém antes tivera coragem de fazer. Como ninguém antes tinha lhe tratado com tamanha normalidade e esmero. Permanecer ali, olhando-a, era tudo de que precisava por algumas horas, até as dores fortes voltarem e ele inegavelmente ter de amanhecer naquele banheiro, suportando seus dias. Ela havia o tocado e não sabia o que poderia corresponder aquele breve instante. Ele a tocara também, tinha segurado sua mão e pela primeira vez, confiou em outro alguém. Não sabia se havia feito corretamente, se tinha segurado a mão dela como se deveria, no entanto, era como se aquele mero detalhe não importasse. Ela não havia lhe repelido.
Perdido em seus pensamentos, o ruivo foi despertado ao sentir mais uma vez daquela sensação. Ela estava tocando-lhe. Podia sentir sua fina mão sobre sua camisa branca, na altura de seu estômago. Ofegante, Gaara olhou-a concentrado, tentando assimilar o contato.
_ Dói? – perguntou Ino, em um sussurro preocupado, encarando-o.
Ele estava a arfar, nervoso, e diante disso, Ino temia ter tocado o ruivo com brusquidão. Ele tremia e acompanhava com os olhos os dedos da loira, a deslizar por seu abdômen, em uma carícia leve. Vendo-o fechar os olhos, Ino sorriu. Aquela era sua intenção, fazê-lo se acostumar com o toque, fazê-lo acalmar-se e, mesmo que não conseguisse dormir, que descansasse por aquela noite. A quantidade de sangue expelida por ele havia sido muito grande, se continuasse a vomitar daquela maneira talvez entrasse em um processo de anemia nos próximos dias, certamente. Teria de mantê-lo o máximo possível distraído, distante daquele banheiro.
_ S-Sim... – o ruivo respondeu rouco, sentindo o dedilhar dela alcançar-lhe a boca do estômago.
Acariciando delicadamente aquela região, Ino logo sentiu a respiração dele se normalizar, aos poucos. Atenta, a loira perguntava-se se era a primeira a dirigir àquele ruivo um gesto de ternura, de afeto. E, pelo que as reações dele demonstravam, era como se tivesse certeza. Comovida, a Yamanaka olhava-o ainda manter os olhos fechados. A vida dele, a realidade dele, era literalmente um inferno particular.
XXX
Hinata não pôde deixar de sorrir ao avistar a presença de Naruto, adentrando irreverente a cozinha da lanchonete, trajando desta vez, um casaco de couro no lugar do tão marcante agasalho alaranjado. Internamente, ela tinha mesmo de admitir, o loiro estava mais radiante daquele modo, sorrindo contente e animado, como se completasse com chave de ouro sua imagem.
_ Como chegou até aqui? – perguntou Hinata, incrédula, porém ainda levando o sorriso gentil nos lábios rosados.
_ Conheço esse lugar melhor do que a palma da minha mão. Konoha inteirinha. Se quiser, pode me perguntar o nome de qualquer rua que eu garanto que sei o caminho! – exclamou Naruto, batendo com um dos punhos sobre a palma da outra mão, em um símbolo de otimismo e competitividade.
_ Eu não duvido... – concordou Hinata, rindo brevemente.
Em um pequeno momento de silêncio, a Hyuuga sentiu-se por leve rubra, como há muito já não ocorria. O olhar brilhante dele ainda permanecia sobre si e, perante a observação tão próxima, Hinata não teve outra saída: um pouco desajeitada, pensou em todos os assuntos possíveis para abrir uma conversa novamente, porém, nada parecia chegar-lhe a mente.
_ E então? Gostou do presente? – interrogou o loiro, para quebrar o silêncio instaurado. Silêncio pelo qual não havia entendido como se formara e porque ela havia cessado sua fala.
_ Ah! Gostei muito... Mas... Não precisava ter se... incomodado comigo... – agradeceu Hinata, virando-se e levando o bichinho feito de tecido nas mãos.
_ Lógico que precisava! Você fez simplesmente o melhor lamén de todos! Eu tinha que compensá-la de uma alguma forma. Não é qualquer um que sabe fazer um lamén tão bom... Devia ganhar um prêmio!! – opinou Naruto, cruzando os braços e escorando-se no pequeno balcão de granito atrás de si.
Sorrindo, Hinata apertou levemente o pequenino sapo de tecido. Era de fato um simpático bichinho feito à mão, e aquele laço brilhante parecia ter combinado perfeitamente com o laranja dos botões presentes.
_ Esse laço deve ter dado trabalho para quem o fez... – comentou a Hyuuga, analisando o bichinho, gentil.
_ Fui eu quem o coloquei! Achei que gostaria. – falou Naruto, sorrindo largamente por seu acerto, mesmo que lhe houvesse lhe custado um quarto totalmente transformado em um campo minado, uma verdadeira “zona” como Ayame costumava se referir a sua casa quando o visitava nas datas festivas de Konoha.
_ Boa escolha... Mas, agora eu tenho que terminar o seu lamén. – avisou Hinata, recordando-se que ainda teria de despejá-lo sobre uma das tigelas, adicionar os ovos cozidos cortados em rodelas e pegar os hashis.
_ Tudo bem então, eu vou indo lá para fora. Quero só ver a cara da Ayame quando me vir saindo dessa cozinha, vai achar que eu dei para furtar laméns! – zombou Naruto, rindo consigo mesmo.
Hinata sorriu, retornado ao lamén. Após a saída do loiro, olhou bem para o sapo de tecido que encontrava-se sobre o balcão. Ele havia dado-lhe um presente... Era tão doce, tão divertido... Não estava conformando-se mais com aquela missão. Suspirando, a alegria momentânea da Hyuuga se esvaiu. Não era justo. Não era justo ter de traí-lo depois daquela maneira tão cruel e abusiva.
Colocando tudo sobre uma bandeja vermelha de largura pequena, Hinata encaminhou-se ao centro da lanchonete, observando o loiro conversar animadamente com Ayame, ou melhor, debochar da cara da amiga, que no caixa, rebatia aos risos altos dele.
_ Você está vendo isso Hinata? Esse daí agora deu para achar que está na CASA dele! – comentou Ayame, fazendo toda questão de destacar os hábitos do loiro.
_ E não estou? Essa lanchonete é minha segunda casa! – argumentou Naruto, observando a Hyuuga pôr sob o balcão seu lamén.
Hinata sorriu discretamente da situação, estava imersa em suas questões. Sentando-se de frente para Naruto, ela não importou-se em saber que ele ao certo já deveria estar percebendo sua alienação naqueles instantes. Sabia que ele era bastante esperto, e verificava se aquele que ouvia suas histórias estava mesmo a prestar atenção no que falava.
_ Hey, Ayame! Esse lugar está muito parado, só tem nós três aqui. Cadê o resto dos clientes? – indagou Naruto, devido a expressão distraída que percebia na Hyuuga.
_ Você está farto de saber Naruto, hoje não costumam aparecer clientes por aqui. – respondeu Ayame, concentrada nas contas com as cédulas do caixa.
Bufando irritado, o loiro desviou os olhos na direção do velho aparelho toca-discos colorido, esquecido nos fundos do estabelecimento. Acabava de ter uma ideia.
XXX
Sakura olhava incrédula a silhueta de Sasuke, sentado tranquilamente em sua janela. Era como se a Haruno não conseguisse crer que estava mesmo dentro da realidade e não de um delírio qualquer. Como ele havia chegado até ali? Há quanto tempo estava a observá-la com aquele meio-sorriso despreocupado e imperativo?
Erguendo-se um pouco mais na cama, Sakura livrou-se dos cobertores que serviam de abrigo à ela naquela noite tediosa, e, caminhando desconfiada até a janela, bufou, cruzando os braços e encarando o Uchiha de expressão levemente descontraída. Pensando consigo, Sasuke não poderia deixar de achar a face da rosada cômica, ela olhava-o como se fosse uma assombração ou uma imagem errada refletida em um espelho.
_ O que está fazendo aqui? Há essa hora?... Aliás, como foi que subiu até a minha janela? E há quanto tempo está aí disposto a assustar moças entediadas? – questionou Sakura, descruzando os braços e sentando-se de frente para Sasuke, no espaço vago do parapeito da janela.
A brisa fria da noite os atingiu, levando os cabelos curtos e lisos da rosada, que protegia-se com o fino hobe branco, de textura transparente, que usava acima da camisola também branca, feita de seda. Surpreso pela ousadia da estrangeira, Sasuke manteve o sorriso de canto. Ela havia se sentado de frente para ele, em uma janela cuja altura do chão era consideravelmente alta e em seu lugar, as moças de Konoha jamais cometeriam tal ato. Também, não ficariam zangadas se um homem escalasse sua janela, para elas, como sempre ouvia coisas do tipo, era bem provável que interpretassem como um gesto de romantismo. Ela era mesmo uma mulher muito diferente.
_ Estou aqui porque quero, simples. – afirmou Sasuke, imperial.
Arqueando uma de suas sobrancelhas, Sakura firmou-se no parapeito com as mãos. Ele só poderia gostar bastante de zombar com os outros, era a única explicação plausível!
_ Ah é? E não vai responder minhas perguntas anteriores? – interrogou a Haruno, concentrada nos olhos ônix que olhavam-na com uma inexpressividade nebulosa.
_ Digamos apenas que esse prédio não é difícil de se escalar... – mentiu Sasuke, inclinando um pouco a cabeça para trás, escorando-se na madeira da janela.
Tanto ele quanto Sakura sabiam que aquela afirmativa não tinha nenhum fundamento. Para a rosada, de certo ele deveria ter utilizado uma das habilidades do demônio para subir e chegar ali tão rápido de maneira silenciosa, pelo qual não pôde ver sua presença até este se manifestar.
_ O que quer aqui? – perguntou Sakura, calma.
_ Não deveria encher seu salvador de perguntas. – assentiu Sasuke, retirando um cigarro do bolso.
_ Salvador? E do que é que você me salvou Uchiha? – perguntou a rosada, sorrindo e desviando os olhos um instante em direção da lua e das estrelas no céu.
A luz do luar estava abrangente, fazendo Sakura admirar o céu estrelado e tão bonito da isolada cidade. As noites na metrópole não possuíam um mísero quarto de todas aquelas estrelas. Era como se estivesse diante do próprio espaço, sentindo o ar frio bater contra a pele.
_ Do tédio e da novela horrível que você estava assistindo. – respondeu Sasuke, acendendo o velho isqueiro de seu pai, que, ultimamente costumava carregar junto a fiel jaqueta preta de tecido nobre.
_ Não sabia que um rapaz tão comportado fumava... – ironizou Sakura, sorrindo divertida.
Olhando-a, Sasuke manteve a face impassível, não importando-se com a ironia. Certamente ainda havia muito sobre ele que ela não fazia ideia.
_ E eu não sabia que uma moça entediada fazia o mesmo. – devolveu o Uchiha, vendo-a pegar o cigarro de seus dedos e levá-lo aos lábios cobertos por um sensual batom vermelho, dando uma longa tragada.
_ Tem muito ao meu respeito que não sabe. – completou Sakura, soltando de leve o ar e devolvendo a Sasuke o cigarro.
Mas iria descobrir. Com certeza o Uchiha fazia toda questão de descobrir. Era a primeira jovem que via fumando, e a primeira também a usar um batom tão chamativo naquele lugar. Apesar de discreta, era como se cada vez que a visse ela trouxesse algo marcante em si, naquele momento, era o intrigante batom para quem estava comendo pipocas e assistindo a uma novela ruim.
_ O que quer fazer? Tem algum lugar bom para ir a essa hora? – interrogou Sakura, escorando-se na madeira da janela.
_ O único lugar interessante nesse horário aqui em Konoha é a própria casa das pessoas. Mais nada. – respondeu Sasuke, observando a lua iluminar as coxas alvas e desnudas da Haruno, tomando-lhe mais uma vez o cigarro das mãos e levando-o aos lábios.
_ Está com uma cara de quem está chocado por ver uma garota fumar... – comentou Sakura, alisando os cabelos róseos, que embaraçavam-se de leve pelo vento.
_ Aqui as garotas não fazem muito isso. – disse Sasuke, sorrindo de canto junto de Sakura.
_ É notável... – concordou Sakura, estendendo por entre os dedos esmaltados em rosa claro o cigarro ao dono novamente.
XXX
_ Naruto... o que está fazendo? – perguntava Ayame ao ver o loiro ligar entusiasmado o velho toca-discos colorido.
_ Ora o que estou fazendo... Colocando essa coisa pré-histórica para funcionar e animar esse lugar, isso aqui está pior que funeral de padre! – exclamou Naruto, arrastando um pouco um móvel em mogno que tapava uma velha estante com alguns discos antigos.
Hinata observava a cena por detrás do balcão, perguntando-se o que ele realmente pretendia ligando um aparelho tão ultrapassado. Por mais que Konoha fosse bem afastada dos grandes centros, certamente um toca-discos já estava fora de moda, porém, não comparava-se com os últimos lançamentos tecnológicos de Tóquio. Sorrindo discretamente, a Hyuuga se divertia com a expressão célebre que o loiro exibia, procurando um disco que fosse de seu agrado.
Ayame a olhava e, diante do olhar, Hinata fez o mesmo, notando o mover dos lábios da moça, que inferiam em “ele é maluco”.
_ Esse é demais!!! – proferiu Naruto, entusiasmado ao encontrar um disco de uma banda americana, que fora de fama mundial durante o início dos anos noventa.
Virando-se e sentindo os fios azulados baterem em suas costas, Hinata entreabriu os lábios ao ouvir a introdução de uma das músicas que mais gostava. Cantando baixinho, a Hyuuga mirava seus pés, a balançar no rítimo da canção.
_ My girl... My girl... Don´t lie to me... – cantava consigo mesmo Hinata.
_ Tell me where did you sleep last night... – completou Naruto, sorrindo e debruçando-se frente ao balcão.
Surpresa, Hinata também permitiu-se sorrir. Ele conhecia aquela música? Como?
_ De onde conhece essa música? – perguntou Hinata, imersa nos olhos azuis do loiro sorridente diante de si.
_ Meu pai tinha uns discos de rock... Eles ainda estão lá em casa e alguns anos atrás eu os achei, e esse estava ente eles. – explicou Naruto, estendendo a mão a Hyuuga, em um convite.
Confusa, Hinata engoliu seco. Ele estava chamando-a para dançar? Não sabia muito bem como ou porque havia decido aquilo, mas quando se deu conta, já estava descendo do alto banco onde estava sentada por tantas horas, aceitando a mão dele.
_ Vai ficar aí de marra Ayame?! – perguntou Naruto, aumentando o volume da canção que já parecia ocupar todo o estabelecimento.
_ Prefiro observar e aprender, não sou tão boa dançando... – respondeu Ayame, observando-os de modo cativo, Hinata era mesmo uma moça de muitos dotes e, se tivesse nascido em Konoha, certamente já estaria casada. Os bons partidos a disputariam a dedo.
Levemente receosa, Hinata colocou suas mãos sobre os ombros do loiro, que segurou-lhe sutilmente a cintura, sorrindo. Movendo os pés devagar, os dois permaneciam calmos, mais presos a cantar a letra da música do que propriamente dançar. A voz da Hyuuga era discreta e afinada, aguçando os ouvidos de Naruto, que pensava em nunca mais separar-se daquele perfume que emanava dela. Hinata sentia as mãos do loiro lhe guiarem com louvor e, aquele era mais um fator a se anotar na lista de aspectos que se surpreendera a seu respeito. Ele sabia dançar. Perdendo a trilha do tempo, Hinata não via mais a lanchonete ao redor de si, era como se estivesse em seu quarto, coberta por suas expectativas como há muitos anos atrás.
Palmas foram ouvidas de uma Ayame contente que aproximava-se aos poucos. Despertados, Hinata afastou-se timidamente do loiro, sorrindo.
_ Nossa que impressionante! Se eu não conhecesse essa peça loira há tanto tempo diria que está tomando um caminho de vida finalmente Naruto! – brincou Ayame, desligando o toca-discos.
_ A Hinata dançou muito melhor que eu. – comentou o loiro, auxiliando a velha amiga a empurrar o móvel em mogno para o lugar.
Como Naruto já pensava, deveria estar muito tarde e passado da hora de fechar.
_ Claro que não! Eu não danço muita coisa. – opinou Hinata, retornando ao balcão para recolher o prato de lamén vazio do loiro, e levar a louça para a cozinha.
_ Já passou da sua hora de ir embora Naruto, por mais que seja um garoto não pode ficar andando por esses matos sozinho à noite. A sua casa é longe daqui. E você sabe muito bem que prometeu ao papai tomar cuidado por essas estradas. – Ayame jamais soubera o motivo de tanta preocupação do pai com relação ao loiro, porém, por sempre ouvi-lo falar que fora amigo dos falecidos pais do rapaz, fazia questão de manter a palavra do pai, que tinha Naruto como um filho.
XXX
Sasuke caminhava por entre a escuridão da noite. Já estava próximo do Distrito Uchiha, no entanto, a brisa gélida da noite não parecia afetá-lo na mesma intensidade como afetava a rosada, que, após tantos minutos de conversas banais, passou a tremer de frio. Estava muito bem acostumado ao frio. Ao frio e as sombras. O alto era seu conforto, o frio seu aliado e as sombras seus muros de proteção. Levando mais um cigarro aos lábios trancados, podia sentir o sabor de cereja que restara da boca dela. Era como se ela tentasse equiparar-se a ele em tudo. O Uchiha sentia-se desafiado, graciosamente desafiado. Jamais fugira de um desafio e aquele parecia de duro páreo, porém, ainda assim, notava que ela não seguia ordens ou instruções alheias. E ele estava acostumado a ordenar, a manter-se em uma postura autoritária que ela teria de se adaptar se ainda quisesse ter uma mínima chance de vitória.
A pele dela brilhava com a luz, e naquele traje branco que deixava as coxas à mostra, era como se brilhasse mais. Os cabelos curiosamente róseos voaram todos aqueles instantes desenfreados, todos aqueles minutos sobre a janela. Ela não lhe convidara para entrar mas acabou o fazendo sem o consentimento dela, para deixar bem claro que ela deveria sair a rua amanhã. Ele não brincara. Era melhor ela estar nas ruas de Konoha ainda pela manhã.
A passadas lentas, Sasuke viu-se em frente ao Distrito Uchiha e mais uma vez aqueles gritos lhe sopravam os ouvidos. Memórias... Memórias daquele dia sangrento, onde pela primeira vez, aquela voz falara-lhe na cabeça. Onde pela primeira vez se viu dividindo espaço em si mesmo.
Passos apressados chamaram a atenção do Uchiha, que virou a cabeça lentamente, vendo um rapaz loiro, vestindo uma jaqueta de couro atravessar a rua e ir em direção a uma mata fechada. Girou a maçaneta do portão, porém, a rapidez do loiro chamara-lhe a atenção, e por um segundo um pensamento aparentemente sem sentido lhe viera a mente. Não, não desejava que outra pessoa vivesse que o tinha de viver.
XXX
O sol apontava na janela aberta do quarto, incomodando os olhos do ruivo, tão adaptado a noite. O dia lhe feria. Sempre preferira permanecer sentado sobre as tábuas do quarto, naquele canto aonde a luz quase não chegava. Entretanto, nas últimas semanas, ao invés de assentar-se naquele peculiar canto ou vagar atormentado pela casa, em função dos gritos em sua cabeça, estava amanhecendo naquele pequeno banheiro, a engasgar com o próprio sangue. Era a primeira vez em muitos anos que amanhecia ali, naquela cama.
A mão dela ainda permanecia em sua camisa, sob seu abdômen. Ela tinha pedido para que não saísse da cama. Não havia o feito. Era como se não conseguisse fazê-lo. Não queria desvencilhar-se daquela sensação estranha. Ela iria tocá-lo novamente? Não sabia o que ela havia feito consigo na noite anterior, mas, gostara. O toque dela não queimara como antes e era como se o tranquilizasse, como se a dor, passasse por um curto tempo. Ela permanecia imóvel, respirando calmamente e os cabelos loiros como os raios de sol que adentravam a janela estavam mais uma vez espalhados pelo travesseiro. Ela já havia infectado o quarto com seu aroma floral, e esteve a noite toda a inalá-lo. Sua camisa vestida por ela estava amassada, ela mexia-se demais na cama, e ele acompanhava cada movimento desferido por ela. Não conseguia compreender o porque de suas ações, olhares e movimentos, mas, apreciava observá-los. Apreciava contemplar aquela criatura tão curiosa que parecia conhecer todos os mundos. Também não entendia porque ela havia mudado a cor da calcinha que vestia para vermelho. Pensava que ela gostava de roxo. Ela era um enigma complexo. Mas um enigma que estava lutando com um adversário poderoso, a voz. A voz lhe ordenara conseguir mais sangue para se satisfazer, diversas vezes seu estômago entrou em dor pela madrugada, porém, ela havia lhe pedido para não sair da cama.
Uma náusea forte atingiu Gaara mais uma vez, fazendo-o sentar-se na cama e se separar da mão de Ino. Respirando com dificuldades, ele tentava manter-se na cama.
Ino se mexia por entre o grosso cobertor, mas, os fortes raios de luz vindos da janela despertaram-na. Com a visão ainda um pouco distorcida, a loira notou o ruivo sentando ao seu lado, com o olhar fixo em algum ponto do chão. Espreguiçando-se, a loira se ergueu contente na cama, ele não havia passado mal.
_ Bom dia... – cumprimentou Ino, arrumando levemente os cabelos e aproximando-se de Gaara.
Ele não respondeu. Olhando-o, a de imediato notou sua palidez, os olhos voltarem a inexpressividade costumeira e um filete de sangue lhe escorrer no canto os lábios.
_ Gaara! Gaara! Você está bem? – se manifestou a loira, aflita.
O ruivo não reagia e, entrando em desespero, Ino levantou-se da cama, vendo os olhos verdes opacos acompanharem-na sem expressão. Sem pensar duas vezes, a Yamanaka segurou-lhe pelo braço, fazendo-o se levantar da cama também.
A caminho do banheiro, Ino o guiava pela cintura, sentindo o corpo dele tremer. Vomitando sangue, Gaara segurava-se na pia do pequeno banheiro, sentindo as unhas da loira deslizarem suavemente por suas costas, em uma tentativa de acalmá-lo.
_ Ino... Eu sou monstro. É melhor ir embora daqui. – falou o ruivo, em tom grave e seguro.
Notas finais
E então??? Ficou maior, mas gostaram??? Kisses, Nita.
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