Demônios
3 Capítulo 3: Biscoitos, laméns e dangos
Notas iniciais
Arfando, Gaara viu-se obrigado a se debruçar mais diante daquela pia. Seu corpo estava mais uma vez reagindo à quantidade exagerada de alimento para a “criatura” dentro de si. Seu estômago doía, e ao ouvir após tantos anos a voz de outro alguém, seu coração disparou em batidas assustadas e fora de controle. Logo a areia veio ao seu encontro, agitada e dilacerante a tudo a sua frente. Era uma voz feminina, semelhante a de sua irmã, Temari. Porém, não tratava-se dela. Acompanhado a voz, um perfume inebriante de flores contribuía para seu descontrole. Assim que recuperou as forças, o ruivo virou-se, levando um leve susto. Não era uma alucinação. Havia mesmo uma pessoa em sua casa. E... Era uma mulher, de vestimenta estranha e cabelos muito maiores que os de sua irmã. Cabelos dourados como o sol, e olhos em um tom novamente estranho, que fazia-o lembrar do céu que há muitos dias sem sair daquela casa, não via.
Outra vez, Ino sentiu-se paralisada. Seu alvo estava de frente para ela. E como já havia constatado, era um belo rapaz. Entretanto, de aspecto decadente. Ele parecia fraco, provavelmente em função do que deveria estar a fazer antes de sua chegada. Porque ele estava passando mal? Os olhos da loira desviaram-se mais uma vez para seus pés e para o ursinho próximo da porta. Uma quantidade de areia que de modo incomum movia-se até seus joelhos, e a pelúcia, manchada com sangue, já se aproximava dele, levada pela areia. Era ele quem controlava aquela quantidade absurda de areia? Como conseguia?
Encarou-o. Os olhos dele eram frios, impassíveis e de um verde morto. Em sua testa alva havia uma espécie de kanji, que dizia: “amor”. Amor? Em um demônio? “ Que irônico...” julgou a loira, estremecendo ao sentir a areia mover-se furiosa.
_ Desculpe invadir sua casa, mas acabei me perdendo por essas terras e não tenho lugar para ficar por essa noite... Desci na parada errada do ônibus que me levava a Konoha e não faço idéia de como posso chegar até lá. Será que se importaria se eu dormisse aqui por hoje? – perguntou Ino, soando bem convincente e exatamente como ela era: despreocupada.
Gaara perguntava-se mentalmente se havia ouvido bem. Passar a noite ali? Na mesma casa que ele? Ela não tinha medo de quem ele era? Porquê? Todos tinham. Porque ela não? Confuso, o ruivo fechou o cenho.
Entendendo o silêncio do demônio a sua frente como um “sim”, Ino bateu as mãos em comemoração.
_ Ótimo! Olha, não se preocupa okay? Assim que chegar em Konoha pretendo arrumar um emprego e quando tiver uma grana, outro lugar para ficar. Te prometo que não vou incomodar e todas as despesas que eu tiver lhe pago depois. – concretizou a loira, vendo a areia que ocupava o banheiro se abaixar.
O ruivo não sabia o que pensar nem mesmo o que poderia dizer. Deveria expulsá-la de lá? Era o que havia dentro de si gritava. No entanto, uma parte de si gostaria de saber até onde aquela loira seria capaz de ir, e, porquê, não temia-o. Estava perfeitamente acostumado a ser temido e ignorado. Ela era a primeira a tratá-lo como... Alguém normal. Não sabia se isso era bom ou ruim, porém, o intrigava. Assim como toda a figura dela a sua frente.
_ Onde fica a cozinha? Estou morrendo de fome! Você não? – questionou Ino, aproveitando do recuo da areia para sair do banheiro e ir em direção as escadas, que julgava ser no primeiro andar a cozinha. Realmente, a loira estava com muita fome. Havia caminhado por horas para encontrar aquele local.
Ela agia como se estivesse em sua casa. Era a afirmação mais convincente que rondava a mente de Gaara, que automaticamente a seguiu.
Encontrando por fim a cozinha, a Yamanaka a adentrou já abrindo um dos armários, a procura de algo instantâneo e rápido para se comer. Enquanto o ruivo parado a porta, só sabia observá-la, tentando decifrá-la.
_ Nossa há quantos mil anos você não faz compras?! Isso está vazio!!! Vejamos... Macarrão instantâneo... E... Biscoitos. – se manifestou Ino, indignada com a ausência de comida na casa. Pegando o pacote de biscoitos sabor chocolate, fechou todas as portas que abriu nos armários. _ Vou ficar com esses biscoitos mesmo... Vamos deixar aquele macarrão para jantarmos mais tarde. – decretou a loira, sentando-se na enorme mesa antiga do recinto.
Abrindo o pacote e servindo-se uma boa quantidade dos biscoitos, Ino deu-se conta que ele ainda estava ali, escorado a entrada da cozinha, imóvel, semelhante a uma estátua, a olhá-la. Desconfortável por estar devorando a comida alheia, a loira estendeu o pacote na direção do ruivo, que parecia não compreender o gesto dela.
_ Não vai querer? – perguntou Ino, olhando-o.
Novamente, o ruivo não moveu um dedo ou proferiu uma palavra.
_ Deveria viu! Você não me pareceu muito bem agora a pouco. Vem, senta aqui. – chamou a estrangeira, soando de modo desarmado e convidativo.
Seguro, o ruivo seguiu em direção a mesa, sentando-se a frente da loira, que estendeu-lhe mais uma vez o pacote de biscoitos. Então era exatamente daquela maneira que tinha de mostrar-se? Não detendo medo dele? Fácil, pensou Ino. Entretanto, ao cruzar seu olhar mais uma vez ao dele, o fácil tornou-se difícil. Não fazia a mínima idéia do que se passava por aquela mente, e porque ele não dizia uma só palavra... Estava mais do que claro que ainda havia muito, muito a percorrer antes de saber algo de concreto com relação a ele. Todavia, aquela tarefa não seria tão árdua como havia suposto. Ele não mostrava-se agressivo ou muito menos correspondia as expectativas de ser o que imaginava.
Ino sorriu de canto. Talvez cumprir a primeira etapa da missão não seria tão maçante.
XXX
Terminando de arrumar o balcão para abrirem a lanchonete para o jantar, Hinata apertou a fita azul que prendia-lhe os cabelos azulados. Logo seu alvo estaria ali e finalmente poderia iniciar sua missão. Não sabia exatamente nada sobre sua aparência física. Tudo que tinha conhecimento era através do pouco que Ayame havia revelado a ela. Nos relatórios todas as explicações resumiam-se ao demônio dentro dele, porém, nada além de sua idade e nome para ajudar-lhe ou ter um parâmetro do que esperar dele. Falante, comparecia todos os dias àquela lanchonete e morava em uma casa distante de Konoha. Era o que Ayame tinha lhe dito. Falante... Aquela característica surpreendia a Hyuuga. Era distinta do padrão de um hospedeiro e não compreendia que motivos ele poderia ter para falar demais. Talvez... Falar fosse o meio que ele deveria ter encontrado para superar sua realidade.
_ Hinata! Vamos abrir! – avisou docemente Ayame, saindo da cozinha do estabelecimento e passando pela Hyuuga, que assentiu de cabeça e colocou-se atrás do balcão.
Ayame abriu as portas da lanchonete e em seguida, voltou para seu posto ao lado de Hinata no balcão. Ansiosa, a estrangeira de olhos perolados apenas torcia para que ele chegasse logo. Uzumaki Naruto. Seu alvo.
_ Bem... Agora é esperar os clientes, que devem estar saindo do trabalho no campo agora. E aquela coisa do Naruto, que sempre pede o mesmo prato. – descontraiu Ayame, rindo levemente.
“O mesmo prato?” perguntou-se Hinata.
_ Qual prato? – interrogou a Hyuuga.
_ Lamén. Lamén de porco. – respondeu a moça local, observando a entrada da lanchonete.
Lamén de porco? Hinata riu discretamente. Ele era mesmo um poço de surpresas. Como se tivesse as características de um garoto da metrópole. Iria então contribuir para sua missão, ela mesmo iria preparar o prato tão adorado por ele.
XXX
Sakura caminhava a passos lentos ainda pelas ruas que compunham o chamado Distrito Uchiha. Nenhuma pessoa e nenhum sinal expressivo de Uchiha Sasuke, o demônio que deveria assassinar. O início da noite caía ávido e a Haruno podia sentir notavelmente a brisa gelada tocar-lhe o rosto e balançar-lhe os cabelos rosados. Por todas as vias, estava prestes a retornar ao hotel. Não pretendia tocar de casa em casa pertencente a família dele até encontrá-lo. Poderia gerar suspeitas e tudo que ela desejava era um encontro pelo qual pudesse argumentar um “acaso”, para soar impessoal e sem qualquer motivos prévios. Sabia que ele deveria ser muito inteligente. Por tudo que as moças da cidade haviam lhe informado a seu respeito, inferir uma inteligência era o mais sensato a se fazer, o mais provável.
Outra vez, admirou as belas e altas casas daquelas ruas. Como Karin havia dito mais cedo na loja de roupas, eram mesmo imperiosas. De arquitetura distinta das demais casas da cidade e com resquício de sofisticação. Era uma pena que uma família tão cultural houvesse sido desgraçada em um atentado. Não fazia idéia do que poderia ter gerado a tragédia, mas certamente tinha relação com o espírito amaldiçoado que habitava o único sobrevivente.
Ao dar mais uma passada, a rosada assustou-se de leve. Um trovão. Um súbito trovão fizera-se presente sem haver chuva.
_ Não acha que é tarde demais para uma moça, estrangeira, caminhar sozinha por ruas desertas? – uma grave voz chegou aos ouvidos de Sakura, que virou-se surpresa. No entanto, a voz não vinha de lá.
A sua frente, Sasuke a observava buscar por ele olhando na direção oposta. Havia pulado de sua janela. Aquela moça estava a intrigar-lhe caminhando tão lentamente e por tanto tempo por suas terras. Virando-se novamente, Sakura enfim deparou-se com uma pessoa. Era ele. Uchiha Sasuke. Todas as descrições que lhe foram feitas cabiam naquele rapaz.
Como ele havia chegado ali? Os cabelos repicados e de cor tão forte como ébano misturavam-se a pré-escuridão da rua, e os olhos ônix dele encaravam-na com inexpressão, em contrapartida a sua postura, fechada e forte, indicando autoridade.
_ Não se essa moça estrangeira estiver perdida... – inventou Sakura, não apresentando medo ou algo derivado. Era racional, esperta e altiva, e tais características surpreenderam o Uchiha, que jamais ouvira voz feminina tão segura antes.
Riu de canto. Ela era incomum. Não apresentava nada igual as moças de Konoha e tinha um leve humor inteligente na face.
_ A onde pretende chegar? Quer ajuda? – ofereceu Sasuke, dando alguns passos à frente.
_ Não costumo aceitar ajuda de estranhos entende? Enquanto não me disser seu nome nada feito. – disse a Haruno, gesticulando de forma que se supunha que ela não sabia ou não tinha idéia alguma de quem era a pessoa a sua frente.
_ Uchiha Sasuke, e o seu? – perguntou Sasuke, intrigando-se com mais um elemento nela, antes imerso pela falta de luz. Seus olhos. Eram de um verde tão valioso como pedras de esmeralda. Com o mover da lua, finalmente pôde vê-los.
_ Haruno Sakura. – afirmou Sakura, estendendo a mão em cumprimento.
O Uchiha aceitou o cumprimento, apertando a mão da Haruno, que assustou-se mais uma vez com um raio que cortou repentinamente o céu. Observou-o, ele tinha um pequeno curvar no canto dos lábios, então estava certa? Era mesmo obra dele aquelas coisas? Mas como? Seria uma intervenção do espírito amaldiçoado? Do demônio dentro dele?
_ Como soube que era estrangeira? – indagou Sakura, para inibir seu rápido espanto e para colocar-se no papel de desentendida.
_ Apenas pela cor de seus cabelos... Jamais a vi por aqui. – respondeu Sasuke. _ Onde está hospedada?
_ Ah, em um hotel no início da cidade. – falou a Haruno, começando a caminhar na direção que o Uchiha já se deslocava.
XXX
Hinata abaixava atentamente o fogo do antigo fogão na cozinha da lanchonete. Estava praticamente pronto. Será que ele aprovaria? Bom, sempre soubera cozinhar razoavelmente bem, seu primo nunca havia reclamado dos doces que fazia nos finais de semana ou dos pratos que preparava quando chegava um pouco mais cedo da agência nos dias de semana. O que, particularmente, não era um hábito da Hyuuga. Sorriu. O aroma do lamén que fizera seguindo as instruções de Ayame estava pairando por toda a pequena cozinha.
Uma antiga memória veio a mente de Hinata e seu sorriso tornou-se mais expressivo. Em um dia corrido quando resolveram dormir na casa de Sakura, havia acontecido o maior desastre culinário da história, julgava a Hyuuga. Sakura e Ino por pouco não colocaram fogo em toda a cozinha e o cozido preparado pela Haruno caiu do décimo andar do prédio onde estavam. Sem falar na torta de chocolate de Ino que teve o mesmo destino por acidente, quando as duas trombaram na cozinha por um molho derramado ao chão.
Era por essas e outras que Sakura jamais as chamou para um programa que envolvesse culinária caseira.
_ Hinata!!! O lamén está pronto? – indagou Ayame do lado de fora, porém, a voz da moça era bem audível para Hinata, dentro da cozinha já desligando a chama abaixo da panela de lamén.
_ Sim!! – exclamou a Hyuuga colocando duas luvas protetoras muito simpáticas, feitas a mão pela mãe de Ayame, que era costureira.
“ Ele chegou!” pensou Hinata, ansiosa. Tudo tinha que ocorrer corretamente. Não fazia idéia de como poderia aproximar-se dele se não pelos laméns. Não fazia muito o tipo de Ino ou Sakura que costumavam estabelecer diálogos mais convincentes com as pessoas e driblá-las fácil com as palavras. Era uma agente experiente, mas, com certeza, seu talento era mais aguçado em finalizar missões.
Abrindo a porta movediça com o apoiar das costas, Hinata saiu da cozinha levando a tigela de lamén de porco nas mãos.
_ Hey Ayame!!! Qual é?! Cadê meu lamén?! – uma voz masculina estridente gritou próxima ao balcão e a Hyuuga direcionou imediatamente seus olhos perolados ao balcão e, por um breve momento, perdendo parte das forças com que carregava o lamén.
Já impaciente sentado em frente ao balcão, Naruto suspirou. Nova funcionária. Estava prevendo tudo: ela faria seu lamén errado e, como se não bastasse tudo isso, ainda atrasava. Só podiam estar brincando com ele! Ajeitando o casaco laranja e preto que trajava, o loiro se virou ao sentir um perfume doce, seguido pelo aroma de seu costumeiro lamén.
Não deixou de sorrir, o aroma da refeição estava ótimo! Foi quando colocou os olhos azuis sobre a figura que o trazia, sorrindo gentilmente ao pôr o prato a sua frente. Ela assemelhava-se a uma verdadeira boneca. Pele tão alva e de aparência macia e frágil como porcelana. E os olhos... Curiosamente perolados.
Perolados? O loiro permitiu-se sorrir mais. Nunca havia visto coloração de olhos mais estranha. Entretanto, lembrava-lhe a lua. A lua que contemplava todas as noites em busca de respostas... Respostas que falhavam-lhe no destino.
_ Aqui está, perdoe-me o atraso. – pronunciou-se Hinata, soando serena.
Analisando a voz calma e baixa da nova funcionária da lanchonete, assim como sua aparência, o loiro concluiu que ela só poderia ser estrangeira. Nunca havia visto alguém parecido com ela em Konoha.
_ Não se preocupe com isso! – disse Naruto, animado com a excelente aparência da comida.
Hinata sentou-se no banco atrás do balcão, permanecendo de frente para Naruto. Olhando-o, era como se sua surpresa não tivesse fim. Ele era um rapaz detentor de uma aparência radiante, jovial e olhos determinados. Por um pequeno instante, duvidou consigo mesma se ele tinha mesmo um demônio dentro de si. Abaixo do pescoço, um brilhante colar esverdeado pousava no casaco alaranjado com tiras em preto. Laranja... Uma cor divertida demais para alguém como ele. Aliás, os cabelos loiros e o sorriso belo que ele possuía deixava-o ainda mais surpreendente. Sorriso... Ele sorria bastante. Como era tão alegre e tão vívido? Curiosa, Hinata olhou na extensão da lanchonete. Ayame estava na cozinha.
_ Foi você que preparou isso? – indagou o loiro.
Receosa por um momento, Hinata afirmou de cabeça. Será que ele não havia gostado?
_ Meu Kami-sama isso está divino!!! Parabéns!!! Está melhor que o da Ayame! – exclamou Naruto, eufórico e não deixando de alfinetar a velha amiga, que adorava, mais adorava mais ainda deixar brava.
Sorrindo aliviada, Hinata tratou de agradecer ao elogio:
_ Obrigada.
_ Sério, para uma novata e estrangeira você acabou de deixar muitas dessas moças daqui a estaca zero. – comentou Naruto, admirado com a maneira pacata de ser da Hyuuga.
_ Você parece mesmo entender de laméns... – opinou Hinata, tentando focar-se na primeira etapa da missão e conseguir algumas informações sobre ele e conquistar-lhe a confiança.
_ Muito!!! Pode apostar! – falou Naruto, gesticulando, extrovertido. _ Está aqui em Konoha há muito tempo?
_ Não... Cheguei faz poucos dias... Sou de Tóquio, estou passando uma temporada por aqui. – respondeu Hinata, observando-o comer.
_ Eu sou daqui. E por mais que muitos prefiram a metrópole, eu gosto desse lugar. – revelou o loiro, sendo ouvido atentamente por Hinata.
_ É mesmo um lugar bonito e calmo... – completou Hinata, gentil.
Os minutos, aos poucos, foram se estendendo e, sem notar... Hinata esteve a conversar com seu alvo, Uzumaki Naruto, em um diálogo agradável e tão tranqüilo como aquela noite, cuja brisa fria não os afetava pelo ambiente aconchegante da lanchonete. Ora palpitando no assunto ora retornando a cozinha para realizar os pedidos por encomenda, Ayame se movia por todo estabelecimento. Não vieram muitos clientes e os poucos atendidos por Hinata mostraram-se satisfeitos com a sutileza da Hyuuga, que fora chamada pelo Uzumaki diversas vezes na noite. Como ela bem sabia, o loiro falava bastante e parecia contentar-se com alguém que lhe ouvisse com atenção. Ele viva sozinho, os pais morreram cedo e agora, tinha mais certeza que sua hipótese a respeito de ser tão falante estava correta. Ele apreciava a atenção e isto, do ponto de vista de Hinata, chegava a ser comovente. Ali estava sua chave para conseguir a confiança do loiro, porém, ele era mesmo um rapaz divertido e tão otimista que... Chegava a ser admirável se não possuísse uma criatura maligna no corpo.
XXX
Ino desligava o chuveiro. Havia feito o macarrão instantâneo e diga-se de passagem, havia ficado bem comestível. Entretanto, assim como os biscoitos, o ruivo não comera. A mente da loira estava repleta de perguntas e mais perguntas... Ele ainda não havia dito uma palavra e já supunha que ele poderia até ser mudo. Ele permanecera todo aquele tempo a observá-la. Cada passo, cada gesto, cada expressão. A Yamanaka sentia-se deslocada, jurava que ele iria colocá-la para fora dali desferindo agressões ou algo do tipo, porém, como já havia notado, ele não era nenhum pouco agressivo e... De certo modo, aparentava ser inocente. Tinha expressão reclusa e impassível, porém, uma aura de menino. Um menino ferido. Ainda não saia-lhe da cabeça o que estava havendo com ele no momento em que adentrou aquela casa... O fato do demônio contido nele alimentar-se de sangue veio a cabeça da loira. Seria isso? O corpo dele poderia ter alguma reação a isso? Enrolou o corpo molhado a tolha branca que havia pendurada sobre um gancho na lateral do banheiro. Deveria ser dele.
Suspirando, Ino lembrou-se um detalhe discutido com Sakura mais cedo: roupas. Havia dito que comunicaria-se com a Haruno, porém, já eram praticamente dez da noite e sabia que Sakura não iria deslocar-se até aquela vasta propriedade escura. Teria de dormir com alguma camisa dele. Saindo do banheiro, a loira caminhou descalça até a primeira porta do corredor, onde no momento, era visto a única luz acesa da casa. Ele deveria estar lá.
Sentado ao chão do quarto, Gaara tremia. Todo aquele dia estava sendo muito além de incomum. Não sabia o que deveria fazer, não sabia se ela gostaria que ele falasse ou não alguma coisa. Ela não sabia quem ele era. E se ele a machucasse? E se ela soubesse? Iria embora? Ouviu os passos dela aproximarem-se e logo a avistou, enrolada em sua tolha e com os cabelos úmidos.
Ao vê-lo encolhido no canto do quarto, Ino sentou-se na enorme cama de casal que ocupava o centro do cômodo. Ele estaria passando mal outra vez? Olhou-o, sendo seguida pelo mesmo ato da parte dele. Não, ele não aparentava passar mal, no entanto, parecia assustado. Sorriu na tentativa de animá-lo. Em seu lugar, outros homens estariam mais atentos ao seu corpo do que assustados. Levantou-se novamente e se dirigiu até a única cômoda do quarto, onde achou uma camisa preta que iria servir bem a ela. Já vestindo sua calcinha roxa, a loira retirou sua toalha sem importar-se com a presença do ruivo a observá-la. Ele não faria nada. Vestiu a camisa preta e deitou-se na enorme cama.
_ Não vem? – indagou a loira, sorrindo.
XXX
A passadas ritmadas pelas ruas de Konoha, Sakura e Sasuke sentiam a brisa da alta noite. Os fios rosados da estrangeira deslocavam-se e os olhos ônix atentos a imagem ao seu lado observavam-na com uma atenção nunca precisa antes.
_ Está com fome? Eu quero dangos. – decretou o Uchiha, em tom imperial e não como uma proposta.
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