Delphi
7 Capítulo 7
Notas iniciais
As estrelas brilhavam na madrugada escura. Augurey dormia no chão, uma vez que Euphemia não voltou ao quarto novamente para coloca-la no berço. O corpinho doía contra o carpete duro, mas ela não pudera evitar cair no sono. Antes de adormecer ela sentia o estômago se contorcer como nunca antes. Beirava à dor que lhe corroia por dentro dando vontade de chorar, mas papai lhe ensinou que jamais deveria.
A chave da porta girou com um estralo e uma fresta abriu-se. Augurey dormia tão profundamente que só despertou quando sentiu os braços da tutora a envolver. Sonolenta a menina se agarrou no conforto do colo da mulher que sempre lhe cuidou. Euphemia acariciou os cabelos negros da menina e sussurrou quase carinhosa:
— Hora do banho.
Com o corpo mole e os olhos meio fechados, Augurey só deu por si quando foi depositada na banheira. A água mais gelada que o de costume a fez arrepiar e querer vestir as roupas novamente, mas Euphemia a segurava com força e começava a lhe passar o sabonete. Em um determinado momento a mulher paralisou suas ações, deixou o sabonete de lado, apoiou uma mão nas costas e uma no peito da menina.
— Vamos...molhar o cabelo — Euphemia disse hesitante mais para si do que para a criança.
Sem dizer nada e familiarizada em molhar o cabelo daquela maneira, Augurey apenas deixou-se ser deitada na banheira até a água lhe cobrir o rosto. Geralmente demorava dois segundos no máximo para umedecer os cabelos e logo a tutora a erguia. Mas dessa vez não foi rápido. Em baixo d'água a menina sentiu o pulmão apertar e aos poucos um pânico instintivo crescer. Tentou levantar, mas as mãos fortes da mulher a segurou no lugar. Não demorou para todas as bolhas de ar deixarem sua boca e narinas. Augurey começou a se debater em desespero. Ela agarrou no pulso de Euphemia, que a prendia pelo peito no fundo banheira, e tentou puxa-lo em vão.
De olhos fechados, a mulher mantinha a menina em baixo d'água e segurava as lágrimas. Sentiu necessidade de respirar fundo e em seguida girou o pescoço para o lado. Entreabriu os olhos e pode ver as pernas da menina batendo no fundo e nas bordas da banheira, jogando água em todas as direções e criando bolhas de ar na superfície. Voltou a fechar os olhos, uma lágrima escapou e ela precisou respirar fundo outra vez. Após alguns minutos o debater desesperado de Augurey começou a perder forças. Só mais um pouco Euphemia percebeu que já não precisava de tantos esforços para segurá-la. Foi então que ela respirou fundo e sentiu o ar faltar. Abriu a boca, mas não conseguia respirar. O coração acelerou, uma forte dor de cabeça lhe atingiu, os membros ficaram fracos. Ela abriu os olhos e encontrou os azuis da menina sob a água, quase fechados. Praticamente por instinto, Euphemia soltou a criança, se jogou para trás caindo em uma poça de água e tentando respirar.
Assim que se viu livre, a menina, apesar do corpo mole, conseguiu segurar com uma mão na borda da banheira. Com esse braço puxou-se para cima. Quando o rosto saiu da água ela repirou doloridamente e se apoiou com os dois braços na lateral de porcelana branca. Ofegante e com a visão turva, Agurey nem notou o exato momento que Euphemia saiu do banheiro e desceu correndo as escadas. A mulher abriu desesperada os armários da cozinha onde mantinha um estoque de remédios e até mesmo de poções. Procurou por um frasco específico, mas não o encontrou. Revirou três vezes cada vidro. Nada.
Aceitando que não possuía o que procurava, Euphemia afastou do armário e escorou na mesa da cozinha. Permaneceu um tempo olhando para o nada e então, de súbito, endireitou-se. Adiantou-se até o hall de entrada pegando seu casaco e sua bolsa, saiu da casa. A primeira rajada de vento que tomou a fez lembrar que estava toda molhada, mas não se importou. Pegou um ônibus no final da rua e voltou duas horas depois com uma sacola de farmácia e as roupas secas.
A mulher entrou na casa e foi direto ao banheiro, mas Augurey não estava lá. Caminhou até o quarto da menina e ficou apreensiva ao constatar que a menina também não se encontrava ali. Euphemia verificou no próprio quarto e não pode deixar que a ideia da menina ter sumido lhe agradasse. Todavia, pouco tempo durou o contentamento. Augurey dormia no sofá da sala, sem roupas e tremula de frio. A mulher deduziu, obviamente, que ela fez o caminho sozinha até o local. Euphemia agachou ao lado do sofá e acariciou os fios pretos, secos e despenteados da menina. Os grandes olhos azuis se abriram sonolentos e miraram a mulher com confusão. Euphemia sorriu, tirou o casaco e jogou sobre o corpo tremulo da criança.
— Está com fome? — Perguntou ainda acariciando os cabelos negros.
— Tô — A voz da menina saiu cansada. Mesmo com tanto sono a fome gritava mais alto e ela não pode recusar.
Euphemia foi até a cozinha, pegou o leite na geladeira, um copo limpo, tirou o remédio rotulado "bromidrato de fenoterol" da sacola, com uma faca retirou o plástico conta-gotas na borda do frasco e despejou todo o líquido no copo de leite. Ela encarou por alguns segundos o copo, incerta. O que aconteceu mais cedo vinha-lhe a mente. Ele te fez prometer... Se lembrou, mas logo a ideia foi jogada para longe.
— Com ele morto a promessa não tem valia — Segurou o copo com as mãos tremulas — Me senti mal, porque não sou uma assassina de sangue frio.
A mulher foi de encontro a menina. Augurey adormeceu novamente no sofá, mas assim que foi acordada e viu o copo de leite avançou para ele faminta. Levou o vidro gelado até os lábios e Euphemia a ajudou beber até a última gota. Em seguida foi pega no colo pela mulher e levada até o quarto do lado do banheiro: o quarto da tutora.
Euphemia depositou a menina, coberta apenas pelo casaco, na cama de casal e deitou-se ao lado dela. A observou atentamente por longos minutos até que Augurey começou a dar os primeiros sinais: soar frio e tremer. A mulher levou uma mão ao peito da menina e sentiu o coração acelerado. Euphemia não sabia dizer quando exatamente também começou a sentir o coração acelerar, a visão ficar turva, a cabeça pesar e o corpo tremer. Tudo que lembra é que envolveu Augurey e a aconchegou em seus braços pelo resto da noite enquanto balbuciava:
— Não. Não. Não...
A noite prosseguiu calma e alheia aos problemas mundanos. Ela veio e se foi dando lugar ao sol nascente que invadiu pela janela do quarto de Euphemia. Os raios solares mirou insistentes nos olhos da mulher e a acordou de um sono profundo. Ela suspirou e ao se remexer sentiu algo em seus braços. Afastou um pouco e encarou por segundos o rostinho de Augurey. Você poderia ter um nome melhor Euphemia levou uma mão ao rosto de anjo e acariciou uma bochecha. A menina estava quente e por conseguinte viva, porém, mesmo assim, a mulher achou melhor conferir o pulso. Assim não houve mais dúvida. Euphemia ergueu o corpo sentando no cochão e analisou a criança dormindo.
— Como você conseguiu? — Murmurou retoricamente para si mesma. Suspirou alto e passou as mãos pelo rosto.
Ela levantou e foi tomar um banho. Quando voltou a menina estava acordada e brincava distraidamente com a estampa floral do travesseiro. Euphemia foi até o guarda-roupa e se vestiu. Ela olhou uma última vez para a menina brincando e abriu uma gaveta repleta de vestidinhos caros comprados por Bellatrix. Pegou um vestido azul escuro cheio de detalhes em renda e decorado na gola com pedrinhas de diamante. Euphemia caminhou até a menina e a vestiu. Depois pegou uma escova na penteadeira, voltou à cama e penteou delicadamente os cabelos da menina que já quase caia-lhe nos olhos. Assim que terminou, Euphemia a pegou no colo e desceu para a cozinha. Sentou-a em cima da mesa e sem se afastar, com um braço de cada lado dela, começou a falar com uma voz mansa:
— Sabe, você não deveria estar viva, mas para a minha sorte está — A mulher encarou a cadeira ao lado para conseguir continuar, tamanha era a intensidade de atenção que recebia da menina — Seu pai me fez prometer que eu sempre cuidaria de você, na verdade foi mais uma espécie de voto, eu acho. Lembro dele me dizendo que se algo acontecesse a você eu também iria sofrer. Sinceramente não achei que poderia ser tão literal. Enfim, não sei que tipo de magia é essa, eu não estudei muita magia na minha vida, mas acho que não vou arriscar novamente — Euphemia encarou a menina e não conseguiria dizer se ela a entendia ou não — Delphi... era assim que Bellatrix te chamava, não?
Euphemia pensou ter vistos um brilho de reconhecimento transpassar nos olhos azuis da menina. Suspirou, a pegou no colo e caminhou em direção à sala. No caminho continuou:
— O seu futuro é uma grande desgraça, Delphi. E infelizmente estou entrelaçada a você. Acredite não estou disposta a morrer por quase nada nesse mundo, muito menos por você — Euphemia sentou em uma poltrona e ajeitou a menina no colo a fazendo deitar em seus braços — Então seremos nós duas daqui em diante... Olhando assim você não parece tão ruim, se quer saber.
A mulher aconchegou melhor Delphi nos braços e acariciou um bracinho por cima do tecido do vestido enquanto observava os traços delicados do rostinho. Nunca admitira antes o quanto ela era bonita para um monstro. Suspirou profundamente e jogou a cabeça para trás.
— "Nada muda, Rowle" — As palavras de Lestrange lhe veio a mente e não pode evitar pronuncia-las em alto e bom som. Após alguns minutos de silêncio voltou-se para Delphi que agora brincava com um dos diamantes do vestidinho — Bem, com tanto ouro pelo menos viveremos em uma casa melhor.
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