Delphi
4 Capítulo 4
Notas iniciais
No quarto escuro de carpete marrom, onde um berço feito de madeira e ouro era a única mobília, uma menininha dormia mergulhando em sonhos profundos. Ela dava passos firmes pisando em grama fofinha, do mesmo verde que os matos que se via pela janela do quarto. Brincava e corria na companhia de cobrinhas prateadas, similares às do quadro da casa de Salazar que decorava a parede acima do berço. Ela estava puxando o rabo de uma das cobrinhas quando um passarinho manchado, igual ao que pousou na janela no dia anterior, curvou-se para ela. Sem grandes esforços a menina subiu nas costas da ave e juntas voaram pela imensidão azul rumo às fumaçinhas brancas misteriosas.
Crack. Um estalo alto fez o sonho se dissolver como tinta em água. Augurey acordou um pouco assustada. Demorou poucos segundos para reconhecer o barulho. Mama! a menina ergueu a coluna, agarrou a borda do berço e firmou os pezinhos no cochão mole. Sorria mostrando os novos dentes que nasceram. Isso até reconhecer a pessoa que estava presente. Os lábios dela desencurvou-se juntando um no outro novamente. Para o pai Augurey não podia sorrir. Aprendera tal lição em uma noite escura como todas as outras.
Voldemorte se aproximou lentamente do berço fixando os olhos rubis nos desprezíveis azuis da menina. Augurey nunca esticava os bracinhos pedindo colo para um adulto, outra lição muito bem aprendida. A pouco tempo atrás o pai costumava ir vê-la com mais frequência, junto com a mamãe. Em uma dessas vizitas Augurey teve a audácia de lhe pedir colo. No instante seguinte uma dor excruciante, que se tornaria conhecida dali em diante, convulsionou cada um de seus neurônios durante dois segundos. Nunca implore. O ensinamento saiu dos lábios do homem assim como as lágrimas involuntárias dos olhos da menina.
Rapidamente, após algumas punições de dor, Augurey aprendeu que quem as causavam era o próprio pai através do curioso artefato que sempre carregava em mãos. Dessa forma ela temia errar diante dele. No quarto naquele momento, ela permanecia em pé no berço apenas aguardando o que viria a seguir.
— Como se machucou? — O lorde perguntou com sua voz estranha. A qual não assustava a menina. Ela jamais identificaria anormalidade na voz ou na aparência daquele que era seu pai, pois o conhecera assim. Augurey mirou o homem tentando compreender a pergunta. A muito se esquecera que um corte, no momento fechado, enfeitava seu lábio inferior.
Com demasia paciência, não tão comum, o lorde puxou a varinha do meio das vestes e apontou para o ferimento repetindo:
— Como se machucou?
A menina balbuciou qualquer coisa e indicou com um dedo o objeto no chão. A adaga sega dos Blacks, presente de Bellatrix, estava jogada no carpete. Voldemort apontou a varinha para a direção indicada por Augurey e com um feitiço não verbal trouxe a adaga até ele. A analisou e constatou um pouco de sangue seco na lateral do metal.
— Colocou na boca? — Perguntou e a menina acenou afirmativamente — Sinceramente, esperava mais de você — Disse com certo desprezo que foi facilmente sentido por Augurey.
Consequentemente os olhos azuis abaixaram e encararam Nagini se rastejar no chão, mais envergonhados do que deveriam para a idade .
— Entretanto, a culpa não é toda sua — O lorde reparou que o machucado estava limpo e cicatrizando, mas Rowle jamais deveria deixar que seu Augurey se ferisse.
A menina voltou a encarar o pai e quase sorriu, porém se lembrou que não podia. Voldemort apontou a varinha para corte e com um aceno rápido a curou. Foi então que algo lhe chamou a atenção. Ele levou uma mão lentamente na direção da menina. Por reflexo, Augurey fechou sua pequena mão cheia de dedinhos entorno da dele. O lorde paralisou o movimento no mesmo instante e encontrou seus olhos com os da filha antes de sussurrar imperativo:
— Não me toque.
Com medo da punição, ela obedeceu de imediato. A mão gordinha o soltou e voltou se acomodar na borda de madeira do berço.
Para o gosto do lorde, Augurey vinha se provando um objeto de fácil controle. Em um misto de satisfação e orgulho de si mesmo, Voldemort terminou a trajetória da mão até o ombro da menina. De lá retirou um fio de cabelo. Longo demais para pertencer a Augurey e escuro demais para ser de Rowle. Ele observou o fio com uma expressão indecifrável. Toda a satisfação e o orgulho foram embora naquele segundo. Imediatamente ele deu as costas para o berço e se pois a caminhar para fora do quarto acompanhado por Nagini.
— Papa — Augurey chamou, mas foi ignorada. Então tentou outro — Nagi.
Nagini voltou para trás se rastejando até a frente do berço e ergueu o corpo até ficar da altura do rosto da menina. Mostrou a língua e a criança riu esticando as mãos para acariciar o animal. A cobra deixou ser tocada não por carinho, mas sim porque Augurey ordenou que deixa-se. Qualquer ofidiglota podia controla-la.
Não muito longe do quarto, pés gélidos e pálidos caminharam pelo corredor do segundo andar sem fazer barulhos. Desceu as escadas no mesmo resoar e chegou à sala onde Rowle lia um livro calmamente. A mulher tinha ouvido o barulho da aparatação, mas imaginou que seria a senhora Lestrange.
— Rowle — O lorde a chamou em fio de voz que fez a mulher tremer inteira e se levantar de um pulo deixando o livro cair no chão.
— Mi-mi lorde! — Balbuciou ficando de frente para ele e abaixando o olhar.
— Bella esteve aqui? — Ele perguntou sem rodeios.
— Quase toda noite, mi lorde — Rowle se segurava para não tremer a cada palavra.
Voldemort pairou um pouco pensativo. Encarou a mulher em sua frente como se ela pudesse lhe fornecer a resposta para sua dúvida. Nesse mesmo instante, Nagini veio rastejando pela escada para o desespero de Rowle que possuía infinita aflição da criatura.
— Por quê? — A voz fria e anormal ecoou buscando a atenção da mulher.
Rowle encarou seu mestre não sabendo o que responder. Afinal era óbvio o motivo de Bellatrix sempre visitar a menina. Com receio de pronunciar em palavras as sentenças, a mulher abriu e fechou a boca varias vezes antes de dizer:
— Eu não sei, mi lorde.
A respiração do homem saiu barulhenta pelas narinas, a cobra sibilou e Rowle segurou a vontade de dar alguns passos para trás. Um longo silêncio caiu sobre eles. A mulher permaneceu onde estava torcendo as dobras da camisola, o lorde paralisou com seus pensamentos e Nagini ficou rastejando de um lado para o outro causando um som de atrito entre o corpo áspero e a madeira.
— Ela estava machucada — Voldemort quebrou o silêncio por fim.
Rowle arregalou os olhos temerosa e entre gaguejos começou a se explicar:
— E-ela se cor-tou com a adaga. E-eu não esta-va perto, quan-do-do vi corri pa-para socorrer...
Voldemort ergueu a mão de uma vez fazendo Rowle fechar os olhos esperando pela maldição. Ela não veio, então foi abrindo os olhos vagarosamente. O lorde não lhe apontava a varinha e apenas havia feito o movimento brusco para que a serva se calasse.
— Eu não me importo — Declarou fixando as rubis vermelhas na mulher — Você deve cuidar dela. É tudo o que tem que fazer para eu lhe dar o que quer — Deu um passo na direção dela — Você quer honrar a sua família, não?
— S-sim, mi lorde — Ela respondeu tremendo da cabeça aos pés.
— Quer ser tão digna quanto seu irmão foi, certo? — Nagini se enroscou nos pés do dono, feliz.
— Sim.
— Quer ser uma bruxa, Euphemia? — Voldemort pulou a cobra entre os pés e deu mais um passo ficando a centímetros dela.
— Quero! — Rowle respondeu decidida sem encará-lo diretamente.
— Estou lhe dando a oportunidade. Basta cuidar da criança — Ele aproximou-se mais e sussurrou perto do rosto da mulher que fechou os olhos.
Euphemia sentiu ele se afastar e em seguida escutou o estalo. A tutora da cria das trevas abriu os olhos, soltou a respiração e jogou o corpo no sofá relaxando-se ao constatar que o lorde não estava mais presente. Demorou alguns minutos para recuperar o ritmo dos batimentos cardíacos.
Assim que se sentiu melhor Euphemia levantou um pouco o rosto e acabou encontrando o quadro do irmão na parede. Ele sorria envolto por um cachecol verde e prata, por vezes acenava. Rowle olhou para ele com desprezo e bufando tomou o rumo para o quarto. Precisava de uma boa noite de sono.
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