Delirium

1 Delirium - Único


Notas iniciais
Hey Walkers!

Se você chegou até aqui, quero te parabenizar, e agradecer, pela coragem de embargar comigo nessa aventura maluca e vertiginosa.

Delirium é uma oneshot toda especial, porque foi criada para a minha amiga Flavinha Walker, como presente de um amigo secreto muito louco fizemos no nosso grupo de Whats.

Flávia, eu espero mesmo, mesmo, mesmo que você goste e que a fic tenha tudo que você esperava kkkkkkk eu quis fazer algo que fosse digno das nossas loucuras e principalmente dos seus assuntos aleatórios.

➞ Essa história é uma fanfic The Walking Dead, e além de Alice Frenzy e Caputo, os outros personagens não me pertencem (mas gosto de fingir que sim)

➞ Comédia com conteúdo 18+ explicito, se você se ofende com esse tipo de linguagem e cenas, talvez essa não seja uma história pra você.

➞ Altas doses de no sense, já estejam avisados.

➞ Trilha Sonora sugerida: "Wonderland" - Taylor Swift

➞ Se passa na entre a terceira e a quarta temporada da série.

➞ História de capitulo único, também postada no Nyah e Spirit

Boa leitura e bem-vindos ao delírio mais no sense de The Walking Dead

"Nós encontramos o País das Maravilhas
Eu e você nos perdemos nele
E a vida nunca foi tão ruim, mas também nunca foi melhor..."
Wonderland — Taylor Swift



— Delirium —

Existem poucas coisas na vida que eu sempre considerei prazerosas: uma cerveja bem gelada em uma noite quente, acompanhada de um cigarro aceso; uma boa caçada no outono, quando o clima é ameno; e, por fim, ouvir uma moto roncar, enquanto sinto o vento no meu rosto...

Ter a terra devastada por mortos-vivos impossibilitou um desses prazeres e transformou o outro. Não era mais possível tomar uma cerveja gelada, eu teria sorte se achasse um maço amassado de cigarros... Caçar ainda era prazeroso, no entanto era perigoso na mesma medida, além dos animais serem cada vez mais escassos.

Todavia sentir o vento no meu rosto, enquanto pilotava uma moto, ainda era possível. Ainda era bom.

Talvez por isso eu gostasse de ir cada vez mais longe nas rondas, eu dizia que era apenas para reconhecer terreno, mas na verdade era somente pelo prazer da viagem...

Estávamos estabelecidos muito bem na prisão, tínhamos recolhido os remanescentes de Woodbury há alguns meses e as coisas estavam prosperando, tínhamos uma horta e até porcos. Cada pessoa colaborava como podia. Era o mais próximo de paz que tivéramos desde que toda aquela merda tinha começado.

Obviamente nem tudo eram flores, estávamos no apocalipse zumbi, não em um conto de fadas. Rick tinha desistido da liderança e das armas para ser fazendeiro, até aí tudo bem, talvez ele precisasse mesmo de umas férias depois do Governador...

Aquele maldito tinha desaparecido sem deixar rastros, procurei por algum tempo e Michonne ainda o fazia, mas nem sinal dele. Enquanto isso, a vida e a morte seguiam seu rumo e os errantes se acumulavam nas nossas cercas.

Era uma boa vida, mas com ressalvas. No entanto se eu fosse colocar todo na balança era uma vida bem melhor do que a que eu tinha antes...

Era uma manhã ensolarada aquele dia, o verão estava mais abafado e úmido que o habitual, mas isso não me incomodava realmente. O vento batia no meu rosto e eu acelerava ainda mais a motocicleta apenas pelo prazer de ouvir o motor roncar.

Estava sozinho na estrada, era uma missão de reconhecimento apenas, eu tinha escolhido uma cidade aleatória nos arredores e então deixara a prisão sozinho, prometendo voltar em no máximo algumas horas.

Rick não gostava que eu fosse tão distante, afinal isso me fazia ficar mais tempo fora. Ninguém gostava disso na verdade. No entanto, naqueles últimos meses aquelas missões de reconhecimento tinham gerado um ótimo resultado.

Eu marcava os pontos em que valia a pena voltar, analisava os riscos e fazia o reconhecimento do terreno, então voltava para a prisão e reunia um grupo. Isso fazia a missão mais segura e mais rápida, diminuía o perigo para todos.

Então, por mais que Rick, Carol, Hershel e todos os outros não concordassem plenamente com as minhas viagens, eles tinham que admitir que era um plano eficiente.

Antes eu em risco, do que qualquer outro do grupo.

Meu destino naquele dia era um centro comercial ao sul da prisão, uma viagem de algumas horas. Eu tinha saído ao raiar do Sol e já estava na metade do caminho naquela altura. Carregava o básico comigo, a crossbow, uma mochila com alguns suprimentos jogada nos ombros, uma faca de caça e uma arma carregada. Era tudo que eu precisava.

Após mais uma hora na estrada eu tive que parar, o caminho por onde eu pretendia seguir estava bloqueado por uma grande árvore caída na pista, contornar de moto era impossível por causa do terreno íngreme nas laterais, eu até conseguiria empurrar a moto com algum empenho, mas dando uma olhada rápida no mapa notei que havia um segundo caminho possível há alguns quilômetros dali.

Eu teria que passar sobre uma ponte, mas ainda assim me pareceu uma opção melhor. Cerca de vinte minutos depois eu já estava em frente a construção.

Não era uma ponte antiga, uma estrutura firme e bastante cumprida passando sobre águas agitados. As chuvas inesperadas de verão tinham enchido ainda mais o rio, que seguia seu fluxo com uma correnteza quase violenta.

Mas não me importei com isso, apenas olhei rapidamente se a ponte era segura e acelerei um pouco mais para passar por entre os carros que estavam abandonados ali.

Estava na metade do caminho, quando um animal saiu do meio de um dos carros e entrou na minha frente. Mal tive tempo de ver que era uma capivara, virei o guidão para o lado esquerdo por reflexo e tudo aconteceu tão rápido que eu sequer consegui ver se atingi o bicho ou não...

A moto bateu no metal de proteção da ponte e, por causa da velocidade, eu fui lançado para frente. Tentei me segurar em qualquer coisa que fosse, mas tudo em vão, foram longos segundos em queda livre, antes do meu corpo atingir a água fria.

O impacto foi violento e dolorido, me deixou totalmente desnorteado, mas eu ainda acreditei que podia me firmar e sair dali.

Tentei me impulsionar pra cima, mas a correnteza era mais forte que eu e começou a me arrastar. Procurei algo em que pudesse me segurar, uma pedra, um galho, qualquer coisa... porém, com a visão embaçada e a água se forçando para dentro dos meus pulmões por minhas narinas, ficava complicado ver ou mesmo pensar com clareza.

Eu não era um mau nadador, sabia me virar muito bem, contudo não havia como nadar no meio da correnteza, senti que meu corpo era arrastado, por mais que eu fizesse força para evitar.

Passei a concentrar meus esforços para não submergir, o rio era fundo e eu não tinha firmeza para os movimentos, por isso a pressão da água constantemente me puxava para baixo. Tentei me manter respirando, mas essa simples tarefa ficava mais difícil a cada segundo, porque, quanto mais longe a correnteza me arrastava mais forte ela ficava. Me livrei da mochila em minhas costas, mas não da crossbow.

Seria burrice abrir mão da minha principal arma, quando eu sabia que a de fogo não funcionaria por um bom tempo por estar molhada...

Tentei novamente chegar à margem, mas meus esforços me colocaram em uma armadilha quando a correnteza ficou mais violenta e eu fui jogado contra algumas rochas. Senti o impacto no meu corpo primeiro, a dor aguda veio acompanhada de um barulho que naquele momento eu não soube se era apenas uma de minhas flechas se partindo, ou se era um dos meus ossos.

Não tive tempo pra pensar nisso, a correnteza me jogou contra as rochas novamente e dessa vez não fui capaz de impedir que minha cabeça atingisse uma pedra. Tudo rodou, perdi todo o senso por um instante e meu corpo submergiu. A escuridão veio aos poucos e então não havia mais nada...

────── ✗ ──────

Eu não saberia dizer qual sentido recuperei primeiro, talvez tenha sido o tato, quando senti algo muito próximo do meu rosto e reagi violentamente, pensando ser um errante.

Tudo rodou, senti a vertigem me causar enjoo e uma dor aguda vinda de várias partes diferentes do meu corpo...

Assim que consegui focar os olhos notei que não havia errante algum ao meu redor, no entanto tive a nítida impressão de ver um animal pequeno fugir mancando para a floresta.

Era uma capivara?

Okay, não era possível que fosse a mesma capivara... A menos que o animal tivesse caído no rio e sido levado pela correnteza junto comigo.

Que seja, não era importante.

Olhei ao redor tentando me situar, eu estava na margem lamacenta do rio, ao meu redor havia apenas uma floresta silenciosa e desconhecida... Aquilo não era bom.

Meu corpo doía, costas, costelas, pernas e principalmente a cabeça. Toquei aquele local e notei que havia um ferimento. Isso explicava minha tontura.

Quanto à perna, minha calça estava rasgada na altura da panturrilha direita e notei que havia um ferimento aberto ali.

Merda. Maldita Capivara!

Me movi com dificuldade por causa da dor, e chequei minhas costas; a crossbow ainda estava ali, infelizmente parte das minhas flechas tinha se perdido. Eu teria que usar as poucas que sobraram com sabedoria, pelo menos até conseguiu voltar para casa ou fazer outras.

Demorou um pouco para que eu conseguisse me colocar de pé, tive que ignorar totalmente a dor e a tontura pra isso.

Dei uma boa olhada ao redor, eu não saberia dizer quão longe a correnteza tinha me levado, mas minha situação não parecia muito boa. Não encontrei minha mochila em lugar algum, o que me deixava com a faca de caça presa ao meu cinto, a crossbow com poucas flechas e uma arma molhada com o pente carregado.

Era ruim, bem ruim, principalmente porque o ferimento na minha perna claramente precisava de pontos e talvez o da cabeça também. Eram os piores, a dor no corpo devia ser apenas contusões leves causadas pelas batidas nas pedras. Eu esperava que fosse só isso.

Notei que o Sol estava a pino, o que me fazia pensar que eu tinha ficado um bom tempo desacordado. Suspirei, sabendo que eu devia estar bem longe de casa e que voltar seria uma tarefa longa, tortuosa e perigosa.

Jogar o ar tão rápido para fora dos meus pulmões e aspirá-los de volta me fez perceber que eu tinha engolido muita água. Meus pulmões estavam cansados, doloridos, eu sentia isso toda vez que respirava mais forte.

Ótimo, será que algo mais pode dar errado?

Me aproximei da água com passos mancos e lavei meus ferimentos, percebendo que eu realmente precisava de um curativo no da perna. Rasguei um pedaço da minha própria camisa e amarrei ali, era o melhor que eu podia fazer naquele momento.

Depois do curativo improvisado olhei ao redor, tentando decidir para que lado seguir. Eu podia voltar por onde eu vim, mas eu não sabia o quão longe estava do local do acidente e eu precisava de recursos que talvez não encontrasse tão próximo ao leito do rio.

Decidi me afastar um pouco rumo a floresta, eu estava em uma planície e terrenos como aquele eram propícios para cabanas de caça. Qualquer lugar que eu pudesse encontrar alguns suprimentos e talvez um kit de primeiros socorros ou, no pior dos casos, ao menos uma mochila e algumas garrafas para armazenar água.

Fui mancando naquela direção, ignorando o som que meus sapatos encharcados faziam e preparado para qualquer errante que pudesse me surpreender pelo caminho. Notar os mortos primeiro seria minha única vantagem, afinal eu não tinha flechas o bastante e minha perna não estava colaborando...

Eu tinha andado alguns metros, quando ouvi um farfalhar entre as folhas, preparei a crossbow e apontei naquela direção, apenas para ver aquele bicho gordo e de pelo curto sair do meio da vegetação.

Era mesmo uma capivara, pelo tamanho não era adulta, ela se assustou comigo e correu mancando para o outro lado. Presumi que era a mesma capivara da ponte, estava molhava e ferida, de alguma forma devia ter caído comigo no rio.

Pensei em atirar uma flecha na maldita, mas ela se embrenhou no mato e me pareceu apenas um esforço inútil. Era melhor poupar minhas forças.

Segui por uma trilha na floresta, o mato tinha crescido por toda parte, mas ainda dava para notar um caminho ali. Às vezes, enquanto andava, eu podia ouvir o animal entre a folhagem, quase como se estivesse me seguindo.

Besteira, capivaras não são cachorros, elas não seguem ninguém... resmunguei mentalmente, continuando meu caminho.

A dor e tontura cresciam a cada passo, então quando finalmente avistei uma cabana ao longe eu suspirei aliviado.

Não era exatamente um bom lugar, as portas estavam destruídas e as janelas quebradas, claramente tinha sido saqueado.

Entrei na cabana e o cheiro de mofo e podre invadiu minhas narinas, havia um corpo ali, bem no chão, já totalmente decomposto. Seja quem fosse o cara tinha morrido com um belo tiro na cabeça.

Revirei o lugar e não encontrei nada de útil, apenas uma mochila que mais parecia um saco e algumas garrafas de plástico vazias. A pessoa que tinha entrado ali levara tudo.

Tudo bem, eu já tinha me virado com menos...

Decidi voltar e começar a subir o caminho do rio de volta para casa, afinal a única certeza que eu tinha naquele momento era que se eu caminhasse ao contrário da correnteza eventualmente chegaria a ponte da qual eu caíra e dali poderia voltar para a prisão.

Se eu teria forças para caminhar até lá com a minha perna ferrada era uma outra história...

Estava seguindo em direção a porta, passando pelo corpo no chão, quando notei uma mudança no assoalho abaixo dos meus pés. Era algo sutil, apenas um dos pisos soltos, mas foi o suficiente para chamar minha atenção.

Eu conhecia bem demais cabanas como aquela e a mania que seus donos tinham de esconder suas ilegalidades no chão.

Empurrei um pouco o corpo para o canto, fazendo uma careta involuntária para o cheiro e o tanto de bichos que saiu dele. Mas assim tive acesso ao piso e pude tirá-lo do chão.

Como pensei, era um esconderijo, um que o cara morto usava para colocar drogas; erva e pó, ambos apodrecidos e embolorados pela umidade, no entanto havia um frasco de remédio e uma arma com três balas. Não era muito...

Guardei a arma na parte de trás da calça, pelo menos aquela não estava molhada e me ajudaria em qualquer emergência.

Depois disso examinei o frasco de remédio, o rótulo fora arrancado e substituído por uma etiqueta branca onde estava escrito com letras garrafais: “Benzidamina”. Eu não fazia ideia do que aquela bosta era.

Abri o frasco e cheirei os comprimidos brancos. Tinham cheiro de remédio velho, nada diferente do habitual naqueles dias.

Remédio, é remédio... Dei de ombros, enfiando três comprimidos na boca e os engolindo no seco. Qualquer coisa que ajudasse a dor era melhor que nada.

Guardei o frasco na mochila e estava pronto para dar o fora dali quando lembrei que não tinha checado o corpo. Encarei a carne decomposta e fedida, mas decidi que talvez valesse a pena...

E valeu, encontrei um maço de cigarro com um único filho solitário, nada de isqueiro por perto... Mas cigarro é cigarro.

Deixei a cabana minimamente satisfeito, não fora uma perda de tempo total afinal de contas.

O caminho de volta para a margem do rio, no entanto, pareceu muito mais longo e cansativo. Imaginei que o tempo de caminhada, a dor e a tontura eram os motivos para isso. Minhas roupas incomodamente molhadas estavam mais pesadas, assim como meus sapatos.

Eu odiava aquilo.

Chegando ao rio, enchi as garrafas de água e respirei fundo, encostando em uma árvore. Eu estava cansado, o tipo de cansaço que me deixava mole. Olhei para o céu e tudo rodou, o brilho do Sol me cegou por um momento... Eu sabia que não devia, mas resolvi parar por um segundo debaixo da sombra convidativa daquela árvore.

Seria apena uma pausa, eu não podia ficar muito, logo teria fome, a dor podia piorar, e o ferimento tinha que ser tratado devidamente. Tomei um longo gole de água, com mais alguns comprimidos.

Apenas dez minutos, disse a mim mesmo, enquanto procurava por duas pedras secas, com as quais eu pudesse fazer uma pequena fogueira, apenas para acender meu cigarro.

Demorou mais que o normal, por conta da dor e da tontura que me desconcentravam, mas depois de alguns minutos um punhado de folhas secas ardia em chamas e eu tirei o maço da mochila velha, foi nesse instante que ouvi o farfalhar das folhas e mal tive tempo de alcançar a crossbow e a mesma capivara de antes apareceu.

Parei de me mover, o animal olhou para mim com olhos assustados por alguns instantes e então seguiu para a água em passos um tanto mancos.

Não era uma capivara adulta, embora também não fosse um filhote, seu tamanho deixava isso claro. Observei o bicho beber água pensando se atirava minha flecha, aumentava um pouco a fogueira e almoçava capivara assada. Era justo, já que a maldita tinha sido responsável pelo meu acidente...

Como se soubesse o que eu estava prestes a fazer, o animal se virou na minha direção, focou os olhos perfeitamente redondos em mim e piscou algumas vezes, se aproximando devagar, enquanto seu focinho quadrado farejava o ar.

Mirei melhor, notei que ainda estava um pouco tonto, mas pisquei algumas vezes e firmei a mão me preparando para atirar... Puxei o gatilho da crossbow e... eu errei!

Observei a flecha atingir o chão quando a capivara se esquivou para o lado rapidamente.

— Qual é, irmão?! Você ‘tá querendo me matar, cara? — A voz grossa chegou aos meus ouvidos e eu olhei ao redor rapidamente.

Não tinha mais ninguém ali...

Eu certamente estava ouvindo coisas, só podia. Pisquei algumas vezes, balancei a cabeça e preparei outra flecha.

— Sério mesmo, cara?! Tu me derrubou no rio e agora vai me dar uma flechada? Que homem sem honra... — A mesma voz criticou e... espera, era a capivara falando?!

Olhei para a cara do animal, que me encarava de volta com certo cinismo. Não era possível!

Não pode ser, capivaras não falam... pensei, enquanto passava a mão no rosto e sacudia a cabeça como quem quer se livrar de um pensamento ruim.

— Deve ser insolação... — Falei comigo, enquanto alcançava uma das garrafas e molhava o rosto, dando um longo gole na água depois disso.

Respirei fundo e voltei a encarar a capivara, parecia um bicho normal, certeza que a voz era fruto da minha imaginação.

— Qual foi, mano? Perdeu o cu na minha cara? — Daquela vez eu vi o bicho mexer a boca e tudo. Deus do céu!

— Isso não é possível... Não mesmo! — Balbuciei, custando a acreditar no que os meus próprios olhos estavam vendo.

Tinha algo muito estranho e errado acontecendo ali, joguei mais água na cara tentado acordar de qualquer transe que eu estivesse.

— Vocês humanos são sempre assim, burros e céticos. — A capivara me respondeu. Sim, ela me respondeu! — Vai ver foi por isso que destruíram o mundo.

Aquilo só podia ser algum tipo de bruxaria ou coisa do próprio capiroto.

— Cala a boca, Capivara maldita, ou eu vou atirar em você! — Ameacei com a crossbow em punho.

Eu não estava com medo, óbvio. Mas convenhamos que uma capivara falante não era algo normal não. Não era coisa de Deus.

Com um chupa-cabra eu podia lidar, mas uma capivara falante era surreal demais.

— Você atirou em mim antes de eu abrir a boca, cara, eu ter falado foi o que impediu você de atirar outra vez. — A praga peluda retrucou toda cheia de si.

Caralho! Que loucura é essa?

— Eu devo ter batido a cabeça muito forte, é isso. Só pode ser isso. — Falei pra mim mesmo, tentando colocar um pouco de sanidade e lógica naquela bizarrice toda.

— Deve mesmo... — A capivara concordou. — Bateu a cabeça quando nasceu, por isso é tão mal diagramado.

A desgraçada riu de mim! Pior que uma capivara falante era uma maldita capivara debochada.

Tentei processar aquela bosta toda, talvez eu estivesse sonhando, ainda me afogando no rio e alucinando. Era isso. Só podia ser isso...

A coisinha demoníaca veio andando na minha direção e eu já não sabia se atirava, afinal não era real, matar ou não matar aquele animal idiota não faria a menor diferença.

— Eu fico com isso, valeu! — Ela saiu correndo com meu maço de cigarro entre os dentes avantajados.

Meu cigarro solitário tinha acabado de ser roubado por uma capivara. Tive que rir daquela babaquice, porque até para um sonho aquela merda estava ridícula.

No entanto, sonho ou não, aquele cigarro era meu. Nem mesmo no meio de uma alucinação eu deixaria um bicho qualquer me roubar.

— Volta aqui sua capivara endemoniada! — Ordenei, me colocando de pé com um tanto de dificuldade, jogando a mochila velha nas costas e começando a correr atrás do animal.

Não foi uma perseguição fácil. Tentei acertar uma flecha na capivara, mas eu obviamente ainda estava tonto, isso explicava minha total incapacidade de acertar o bicho.

Pra piorar, a maldita seguia para o lado oposto do que eu queria ir, rio abaixo, se afastando do meu destino, porém naquele momento eu estava cego demais pela raiva para pensar de forma racional.

Por sorte a capivara maldita também estava com a perna machucada, então na menor oportunidade pulei sobre ela e rolamos um pequeno barranco.

A perseguição piorou ainda mais minha dor e a tontura, mas pelo menos peguei meu cigarro de volta.

— Credo, cara, eu só ia mastigar um pouco do tabaco, como você é egoísta. — Ouvi o animal resmungar.

— Não fale comigo, você não é real. — Ordenei, deitado no chão tentando recuperar meu fôlego.

— Sou real o bastante para roubar seu cigarro. — A resposta veio afiada, quase como se fosse uma criança mal-educada.

Passei a mão pelo rosto suado e neguei algumas vezes, percebi que rolar pelo chão tinha estourado minhas garrafas de água, soltei um palavrão qualquer e enfiei mais dois comprimidos na boca, a dor e a tontura eram um grande problema, por isso achei que aumentar a dose do remédio ajudaria.

— É tudo coisa da minha cabeça, devo ter batido muito forte nas pedras. — Disse a mim mesmo, abandonando as duas garrafas estouradas ali e jogando a mochila vazia nas costas, enquanto me colocava de pé.

— É isso que você ganha por tentar me atropelar. — A capivara retrucou com um ar debochado.

Eu não conseguia acreditar que aquela merda estava acontecendo comigo.

— Eu não tentei te atropelar, você pulou na minha frente! — Declarei, dando os primeiros passos para voltar ao meu rumo.

— Típico dos humanos, massacrando a natureza e colocando a culpa nos outros... — A criaturinha ainda jogava indiretas, vê se pode...

Revirei meus olhos e tentei não dar bola, por mais que eu estivesse muito irritado com a situação, não fazia sentido dar atenção para aquela loucura toda.

— Tanto faz, você não é real capivarinha, adeus. — Joguei a mão no ar e virei as costas.

— Capivarinha?! — A criaturianha respondeu irritada com a voz grossa, vindo atrás de mim com seus pacinhos mancos. — Capivarinha?! Eu sou macho, cara! Meu nome é Caputo!

Acabei rindo, nem sei dizer se foi de nervoso ou porque achei graça no nome do animalzinho, mas então me dei conta que aquilo tudo era loucura demais.

— Foda-se. Você não é real, não preciso saber seu nome. — Retruquei, irritado comigo mesmo, apenas querendo voltar para a prisão.

Meu corpo doía, a cabeça latejava e a porcaria da perna me atrapalharia no caminho de volta com certeza.

— Você não é real, não é real... blá blá blá. — A capivara começou a imitar meu sotaque. —Parece uma vitrola riscada. Eu não sou real, mas aqui está você falando comigo, correndo atrás de mim, querendo me matar depois de me atropelar e me jogar no rio. Você só diz que eu não sou real pra você não se sentir culpado, cara. Isso magoa sabe, eu sou...

Respirei fundo, engolindo outro comprimido e não conseguindo acreditar que aquela merda de alucinação me seguiria até sei lá quando. Continuei caminhando, até que ouvi um barulho diferente do som ambiente da floresta

— Cala a boca! — Murmurei exasperado, porque com a porcaria da capivara idiota tagarelando daquele jeito eu jamais conseguiria escutar.

— Que ultraje! Você não... — Fiz um sinal violento para o meu companheiro, ou melhor, minha alucinação.

— Tem alguém por perto. — Comentei para mim mesmo e me abaixei entre as folhagens, seguindo o som que eu ouvia.

— Se eu não sou real, porque eu tenho que calar a boca? Ninguém vai me ouvir, certo? — Eu não aguentava mais escutar aquela maldita voz, capivara maldita.

Preferi ignorar, talvez assim a maldita alucinação passasse sozinha, continuei seguindo pela floresta, era um tipo de música, como se alguém estivesse cantarolando, não dava pra saber direito porque esse som se misturava com o que parecia uma cachoeira.

Logo eu vi com clareza, era mesmo uma cachoeira, se abrindo no meio da floresta, formando uma piscina natural. Me movi silenciosamente entre as árvores e então vi quem era a pessoa cantarolando.

Uma garota, seus longos cabelos loiros grudados em seu corpo molhado, mas não tive muito tempo de pensar no que eu estava vendo, porque é claro que a capivara idiota começou a tagarelar:

— Puta merda! Olha isso, cara! — A empolgação veio acompanhada de um longo assobio. — É uma deusa! Uma deusa das águas. Uma deusa maravilhosa prontinha para parir os seus filhotes! Você é muito sortudo cara!

Revirei os olhos e preferi ignorar, eu tinha claramente uma situação mais grave ali. Depois dos problemas em Woodbury encontrar uma pessoa era sempre tenso, não dava pra confiar, mesmo em uma garota que aparentemente estava apenas se banhando.

— Saía da água devagar. — Ordenei, preparando minha crossbow e saindo de entre as árvores. — Eu não vou te machucar.

— É assim que os humanos chamam as fêmeas pra acasalar? — A Capivara perguntou, vindo atrás de mim, como um grude. — Meio rude... Eu gosto.

A garota se virou na minha direção e eu finalmente pude ver seu rosto com clareza, era jovem, por volta dos vinte talvez e, mesmo naquele momento, não dava pra ignorar que era muito bonita, com seus lábios carnudos e olhar marcante. Suas orbes eram uma mescla perfeita de azul e verde, e ela me encarou de queixo erguido, nada intimidada com minha presença.

— Isso é exatamente o que você diria se fosse me machucar, não é? — Ela retrucou e sua voz era melodiosa de um timbre agradável e levemente rouco.

— Ui, ela é respondona! As melhores são. — A capivara pareceu muito empolgada, mas eu ignorei o comentário, apenas dando um passo para mais perto, vendo uma mochila e algumas roupas na margem.

— Tem um grupo com você? — A encarei por trás da crossbow, sem amenizar em nada meu tom de voz.

— Se você não vai me machucar, por que ainda está apontando uma flecha pra mim? — Ela ignorou minha pergunta, assim como tinha ignorado minha primeira ordem.

Percebi que seria o tipinho difícil, e só desejei que ela não me desse problemas, a última coisa que eu precisava naquele momento era um confronto direto, seja lá com quem fosse.

— Eu não quero te machucar, mas isso não significa que eu confio em você, você ainda pode me atacar pelo que eu sei. — Retruquei sem me deixar intimidar e a garota realmente começou a sair da água.

— Com o que? Com o meu sutiã? — A loira devolveu perspicaz e seu comentário me fez focar em seu corpo.

Quer dizer, seria impossível ignorar aquele corpo, mesmo que eu quisesse. Eu costumava me comportar com o grupo, mas a verdade é que eu não era de ferro, e crescendo com Merle eu já tinha visto todo tipo de mulher, e aquele tipo era muito raro...

Vestia apenas uma pequena lingerie azul, contrastando com sua pele branca, o que evidenciava suas curvas que pareciam esculpidas pelos anjos. O tipo de mulher que só se vê nas revistas, mas que eu sempre pensei que era coisa falsa, feita por computador.

Dei dois passos para trás, com os olhos ainda nela que também mantinha os olhos fixos em mim, mostrando que não se intimidava fácil.

Me abaixei ao lado da mochila, ainda com a crossbow erguida.

— Vista-se. — Ordenei, jogando as roupas pra ela.

— Definitivamente não é assim que se conquista uma garota, você é péssimo nisso, cara. — A capivara mostrou que ainda estava ali e continuou me enchendo o saco.

Percebi que a garota também via o animal, mas obviamente não ouvia a criaturinha falando, ou seja, era mesmo uma alucinação da minha parte. Pelo menos a capivara realmente existia, eu não estava tão louco assim...

A loira se enfiou em suas roupas, uma calça jeans rasgada e uma blusinha simples, o tipo de coisa normal pra um apocalipse, mas que nela parecia muito mais... Desgraça de menina bonita, merda.

Queria desviar os olhos dela, mas eu não podia baixar a guarda e sabia disso, ou seja, mantivemos o contato visual por todo tempo em que ela se vestia, o que era constrangedor e ao mesmo tempo mexia com a minha cabeça de um jeito que eu não gostava.

— Você está sangrando. — Ela apontou um dos meus ferimentos.

— Não é nada. — Respondi no automático e foquei no que importava ali. — Você tem um grupo, ou não?

— Você tem? — Ela lançou de volta, como se aquilo fosse algum tipo de conversa casual.

Ótimo, era o dia da loucura na minha vida!

— Apenas responda minha pergunta, garota! — Ordenei irritado, mas ela não pareceu impressionada.

— Por que? — Jogou de volta, enquanto prendia o cabeço para cima.

— Porque sou eu quem tem a flecha apontada pra você. — Devolvi ameaçador, erguendo um pouco mais a crossbow.

Ela riu de canto, não parecia ter um pingo de amor à vida.

— A flecha com a qual você não vai me machucar? — Retrucou, erguendo uma sobrancelha, de um jeito que a deixava realmente com cara de garota de revista.

— Eu definitivamente gosto dela. — A capivara lançou xeretando a mochila, o que de fato era uma boa ideia.

— Não parece nada... — A garota comentou, novamente olhando para o meu ferimento, mas eu desconsiderei, focando na mochila e revirando as coisas atrás de uma pista sobre ela ter ou não um grupo

Não tinha muito ali, uma arma sem munição, uma garrafa de água, algumas roupas, uma faca de caça. Nada de diferente do que devíamos carregar naqueles tempos. Porém achei pouca coisa para alguém que parecia tão despreocupada, ou seja, ela de fato tinha outro lugar.

Eu não sabia dizer se era uma comunidade e um grupo, mas ela tinha um lugar certamente.

— Nunca te disseram que é falta de educação mexer nas coisas dos outros? — Cruzou os braços contrariada e então revirou os olhos.

— Aí, lindinha, ele não tem educação nenhuma não, meu anjo. — Ouvi a capivara resmungar e tentei ignorar para não responder e parecer o maluco que fala com um bicho, mas não pude deixar de lançar ao tal “Caputo” um olhar muito irritado.

Percebi que a loira tinha a atenção em mim, como se me analisasse por um momento, focou os olhos no meu ferimento uma vez mais e então negou algumas vezes, revirando os olhos como se tivesse acabado de decidir alguma coisa.

— Tem uma cabana aqui perto, tem umas coisas minhas lá, tipo um kit de primeiros socorros. — Declarou, apontando um ponto ao sul, casual demais para que eu não desconfiasse.

— Uhu! Ela já está te chamando para a casa dela, acho que ela quer fazer filhotes. — Caputo começou a cantarolar, rodeando minhas pernas.

Percebi que a loirinha tinha os olhos na capivara, mas não tinha a expressão de quem ouvira um animal falando, apenas a feição de quem vê um animalzinho adorável.

Revirei os olhos para aquela bobagem e foquei na proposta que ela tinha acabado de deixar no ar.

— Ou tem uma bela armadilha lá. — Retruquei perspicaz.

Ela riu sem humor, negando e respirando fundo.

— Entendi, você é uma dessas pessoas paranoicas e com problemas de confiança. — Moveu os ombros como se não se importasse realmente. — Eu é que devia estar com os dois pés atrás com você; você está com as minhas coisas, minhas armas, me rendeu, tem o dobro do meu tamanho e toda essa pose de machão mal-encarado... — Enumerou sem muita paciência. — Mas que seja. Quer deixar esse ferimento aberto até que inflame o problema é seu.

Jogou uma das mãos no ar e deu alguns passos em direção as árvores, sem se importar com minha crossbow ainda erguida.

— Faça bom proveito das coisas, moço. — Apontou a mochila com um movimento de cabeça. — Até nunca mais.

E então me deu as costas. Pensei por um segundo na minha próxima atitude, mas resolvi que o melhor era deixá-la ir.

— Ela está indo embora! — Ouvi Caputo gritar em um tom do desespero. — A deusa maravilhosa mãe dos seus filhotes feios está indo embora, cara! Reage!

Pulou na minha calça, mas eu espantei a capivarinha no mesmo instante, reconsiderando dar uma flechada naquela alucinação maluca. No fim respirei fundo e deixei pra lá, tinha coisas mais importantes para me preocupar, cedo ou tarde a aquela loucura acabaria.

— Sabia que você era burro, mas não pensei que você fosse tão burro assim. — Caputo resmungou e eu ignorei totalmente.

Minha perna ardia e meu corpo estava dolorido como se eu tivesse levado uma surra, engoli outro comprimido e coloquei meu plano em ação, caminhando para dentro da floresta, seguindo o rastro da garota, torcendo para que a capivara endemoniada ficasse para trás.

— Você deixou a deusa maravilhosa ir embora e agora vai correr atrás dela? — Obviamente não tive tanta sorte, Caputo veio atrás de mim com seus passinhos mancos. — Você é estranho, cara.

Revirei os olhos e prossegui com a atenção nos rastros evidentes, tomando cuidado para não ser emboscado.

— Eu preciso do kit, mas não sei se posso confiar nela, não sei se ela tem um grupo ou uma comunidade. Então vou seguir o rastro pra ver o que descubro. — Expliquei de forma prática e só então reparei a besteira daquilo. — Droga, porque eu estou falando com você?

Resmunguei irritado, apressando meu passo como se isso pudesse deixar a capivara para trás.

— Acho que você percebeu que eu sou seu único amigo, cara. A gente tem uma história forte, isso cria uma conexão, sacou? — Caputo também apressou o passo, vindo atrás de mim cheio de empolgação.

Revirei os olhos para a capivara, pelo que devia ser a décima vez, e prossegui devagar, com minha atenção em todos os detalhes que me cercavam.

— Isso aí, belezinha, o Humano Mal Diagramado e o Caputão Lindão juntos rumo ao cantinho do nheco-nheco. — Tentei ignorar a cantoria ridícula, mas era impossível. — Isso vai ser legal, cara, confia em mim.

— Meu nome é Daryl! — Declarei irritado, afinal se eu tinha que aguentar toda aquela loucura, então pelo menos que eu pudesse me livrar daqueles apelidos ridículos.

— Daryl? — A capivara riu como se eu tivesse acabado de contar uma piada. — Que tipo de pais horríveis você teve pra te colocarem esse nome?

Prendi o ar no limite da minha irritação e esfreguei a fronte tentando me controlar e não explodir de ódio.

— Que tipo de pai horrível você teve pra te chamarem de Caputo? — Lancei de volta, cheio de sarcasmo.

Caputo se calou por três segundos e eu pensei que aquela maluquice toda finalmente tinha acabado, engano meu, estava só começando...

— Nossa, cara, assim você me magoa, poxa. Meus pais morreram devorados por errantes antes de me darem um nome, todos comidos, só eu sobrevivi. Escolhi o meu próprio nome, porque não tinha ninguém lá pra escolher pra mim. — A capivara desatou a choramingar em uma ladainha sem fim que estava atrapalhando minha concentração.

— Sinto muito pela sua família. Agora, por favor, cala a boca, eu preciso me concentrar. — Tentei colocar um fim em tudo aquilo.

— Onw... Eu sabia que você tinha um coração, Big D. Vamos ser amigos pra sempre, não se preocupe. — Caputo pareceu um gatinho se esfregando em mim.

Respirei fundo, tentando conter minha irritação, mas ao menos a capivara calou a boca, já era um começo.

Continuei pela floresta, o rastro não era nada difícil de seguir, o problema eram as dores e a tontura persistente, fora o frio estranho que me abatia aos poucos. Mas talvez fossem apenas minhas roupas molhadas...

Segui a trilha por mais alguns quilômetros, até que notei uma cabana na floresta, uma daquelas casas de caça, simples, feita de madeira. Não vi movimentação de primeira. Por isso me aproximei um pouco mais.

As duas janelas do lugar estavam com os vidros quebrados, então pude ver os fios loiros passando rapidamente.

Dei a volta por trás da cabana, andando pé ante pé para não fazer qualquer barulho, minha intenção era me aproximar um pouco mais, de forma que eu pudesse ouvir qualquer outra presença lá dentro.

Provavelmente eu teria êxito nisso, se a capivara endemoniada não tivesse corrido na frente e entrado na cabana, isso tirou toda minha vantagem e de certo revelou minha posição, pois trinta segundos depois havia uma faca na minha garganta, quando a garota loira me puxou para dentro e me imobilizou contra a parede.

— Então você é o tipo que gosta de espiar, não é? —Ela estreitou os olhos exalando irritação e eu pude sentir a lâmina fria na minha pele. — Isso te deixa excitado por acaso?

— Acho que isso é o começo de uma grande história de amor. — Caputo cantarolou fuçando em tudo ali pelo chão.

Minha cabeça rodava e meus ferimentos latejavam, tive certeza que meu estado era o motivo para a garota ter me rendido tão rápido. Tentei procurar algo para dizer, eu não gostava de ser acusado injustamente, muito menos daquele tipo de coisa.

A garota continuava com a faca na minha garganta, um braço no meu peitoral, me prendendo na parede usando o peso do corpo para me manter ali, já que estava sutilmente inclinada na minha direção. Nossos olhos estavam fixos uns nos outros... Ela tinha olhos azuis límpidos e salpicados de verde, um pouco repuxados nos cantos; olhos de felina.

Droga, a menina era mesmo muito bonita.

— Eu não estava te espiando, estava te seguindo pra saber se você é confiável. — Joguei de volta de forma rude, mas isso não a intimidou em nada.

— Ele é muito lerdo pra saber dos prazeres do voverysmo, meu anjo. Acredite em mim. — A Capivara comentou como se pudesse mesmo ser ouvida, mas sequer ganhou um segundo de atenção.

— É basicamente a mesma coisa. — A garota retrucou, sem recuar ou mudar a postura ameaçadora.

Contudo, pra ser honesto, eu não conseguia me sentir ameaçado de fato, era apenas uma menina tentando se proteger e eu realmente não acreditava que ela fosse perigosa.

Ou talvez fosse apenas o fato dela ser muito bonita e eu um tanto idiota...

— Não é, são intenções totalmente diferentes. — Devolvi, tentando ser menos rude.

Vi que ela ficou em dúvida sobre acreditar em mim ou não, foi quando tive certeza de que a garota de fato não queria me machucar.

— Eu trouxe as suas coisas de volta, só preciso do kit médico. — Ergui as mãos em forma de rendição.

Ela piscou duas vezes, parecendo ponderar a situação, seus olhos ficaram em mim todo o tempo até que eu desviei o rosto, porque de alguma forma algo nela me afetava.

Era a maldita beleza, com certeza era, caras como eu só veriam mulheres como aquela em revistas, e eu tentava ser o oposto de Merle em todo que dizia respeito a interação com o sexo oposto, mas a verdade é que eu estava bem longe de ser de ferro.

A loira deu um passo para trás finalmente, mas manteve a faca erguida.

— Se você tentar alguma coisa, eu vou arrancar suas bolas e dar para a sua capivara comer. — Ameaçou de modo firme.

— Eca! — Caputo resmungou imediatamente. — Não mesmo, obrigado!

Tentei não revirar os olhos para a capivara e acabar logo com tudo aquilo.

— Eu não pretendo te machucar, é só você não bancar a esperta comigo. — Joguei de volta, afinal: loirinha saída de uma revista ou não, eu jamais baixaria minha guarda pra ninguém.

— Ui, o clima ‘tá esquentando! — A capivara idiota voltou para perto de mim. — Manda ver garanhão.

Contive um suspiro irritado para minha alucinação dentuça e vi a loira se afastar em direção a uma bolsa jogada no chão.

A cabana era muito pequena, um banheiro, uma cozinha minúscula separada do cômodo principal por uma mureta e então o dito cômodo, um quarto/sala sem qualquer luxo, com um sofá-cama velho, uma lareira, uma cômoda e uma poltrona destruída, nada mais.

Cambaleei até o sofá, me jogando ali e sentindo todo meu corpo protestar de dor, minha roupa molhada incomodava, mas era o de menos naquele momento, a pior parte com certeza era a tontura.

— Não tem muita coisa, mas espero que ajude. — A garota me estendeu a pequena caixa metálica.

— Ela ‘tá totalmente na sua cara, vai por mim. — O entusiasmo da capivara destoava totalmente do ambiente, porém tentei me convencer que era apenas uma maldita alucinação. — É só você colocar o pau pra fora que tá no papo.

— Cala a boca! — Ordenei no impulso.

— Eu não disse nada. — A garota respondeu me olhando como se eu fosse louco.

Merda!

— Não é com você que eu... — Tentei procurar uma explicação plausível, enquanto alternava meu olhar entre a loira e a capivara. — Esquece.

Fiz um gesto displicente com a mão e decidi focar em abrir a caixa de primeiros socorros para tratar meus ferimentos.

— Você ‘tá muito estressado, certeza que é falta de dar umazinha. — Caputo lançou e eu reprimi um rosnado que se formou no fundo da minha garganta.

Não tinha muito na caixa; linha, agulha, gaze, esparadrapo e só, não haviam remédios, o que era péssimo, então apenas engoli mais alguns dos que eu trouxera e rasguei parte da minha calça para assim ver o ferimento da perna.

Estava pior do que eu imaginei. Decidi começar limpando as lacerações menores primeiro.

— Então você é o tipo que fala sozinho? — A garota perguntou, me entregando uma garrafa de vodca. Não tinha álcool para os ferimentos, então improvisar era a melhor solução.

— Sozinho? Ele ‘tá falando comigo sua mocreia! — Aparentemente Caputo estava ofendido, não que eu me importasse. — Esquece ela, Big D, não vale a pena. Vamos ser eu e você conta o mundo, amigos pra sempre.

Suspirei, bebendo um gole de vodca antes de jogar um pouco sobre um dos aranhados menores e não respondendo nem a garota nem a capivara.

— Suponho que todo mundo fale sozinho nesse ponto. — A loira deu de ombros antes de se encostar na janela. — Coisas do fim do mundo.

— Fingida! — Caputo acusou irritado e começou uma série de reclamações que eu tentei não ouvir, por isso engoli outro comprimido com um tanto de vodca.

Aquela merda ardia, tanto na minha garganta, quanto na porcaria dos ferimentos.

Notei que a garota tinha os olhos azuis esverdeados fixos em mim, era estranho e intenso e por algum motivo me deixava desconfortável.

— Então você realmente não tem um grupo? — Perguntei apenas para quebrar o clima estranho.

— Parece que eu tenho um? — Ela respondeu dando de ombros.

Não. Não parecia. E essa constatação me trouxe uma outra questão: como aquela menina havia sobrevivido todo aquele tempo sozinha?

Okay que a loira não era nenhuma criança, muito pelo contrário, mas ainda assim... tínhamos um grupo, um lugar fixo, gente preparada, e mesmo com todas essas vantagens ainda era bem complicado.

Uma parte de mim estava curiosa, mas para saber eu teria que perguntar e isso exigia conversa demais... eu não era um cara dado a longas conversas.

Me ocupei de continuar lidando com meus ferimentos da melhor forma possível e a garota desviou o foco de mim para prestar atenção no pequeno animal endiabrado, que ela não podia ouvir, mas estava resmungando sem para entre nós.

— Qual o lance com a capivara? — Apontou com um meio sorriso divertido.

— Agora ela quer me bajular. — Caputo bufou, emitindo um som que não chegava a ser um rosnado. — Não dá trela pra ela!

— Resolveu me seguir do nada depois que quase me matou. — Dei de ombros preferindo focar em outro ferimento pequeno antes de cuidar do grande em minha perna.

— Ei! — A capivara corrigiu aos gritos. — Já disse e a história não foi bem assim não. Achei que já tínhamos entrado em um consenso sobre isso, meu chapa!

Pelo menos minha alucinação dentuça desviava minha atenção da dor, porém naquele momento eu tinha quase certeza que preferia dor e silêncio.

— Parece improvável que uma capivara fofinha dessas tenha qualquer possibilidade de matar um homem do seu tamanho. — A loira riu e moveu para perto da capivara, agindo como se a coisinha feia fosse algum tipo de animalzinho de estimação.

— Olha lá, agora ela resolveu me bajular, pra ganhar minha confiança de novo. — Ouvi Caputo resmungar, mas ignorei. — Manda mais meu anjo, ‘tá funcionando!

A garota parou ao lado da capivara e observou o animal atentamente.

— Ela está machucada. — Comentou neutra e esticou a mão para acariciar os pelos marrons da capivara. — Tudo bem, neném, não vou te machucar.

Vi a loira segurar o animal no colo como se fosse um bebê frágil que precisa de cuidados e revirei os olhos.

— É isso, Big D., a deusa maravilhosa ‘tá apaixonada por mim. Você perdeu! — Caputo exclamou alegremente. — Ela vai ter os meus filhotes agora.

Enquanto eu tentava manter minha sanidade e cuidava dos ferimentos menores vi a garota cuidar da pata da capivara com zelo e capricho, como se estivesse mesmo tratando de alguém.

Foi um inferno ter que aguentar a cantoria de Caputo sobre todas essas baboseiras e isso tirou tanto minha concentração que a garota já estava de volta na pequena sala depois de lavar as mãos e eu ainda tentava me entender com o ferimento grande na minha perna.

— Eu posso te ajudar com isso se quiser. — Ela declarou depois de me observar por alguns minutos.

— Eu consigo sozinho. — Resmunguei rudemente, mesmo sabendo que a localização do ferimento deixava um pouco complicado lidar com ele sem ajuda.

— Não disse que você não consegue. — Vi a loira revirar os olhos e então se sentar ao meu lado. — Só disse que posso ajudar. Vai ser mais fácil.

Tirou as coisas da minha mão e jogou uma grande porção de bebida alcoólica sobre o meu ferimento, cuidando de todos os passos do curativo como se isso fosse algo corriqueiro para ela.

— Ela me confunde, Big D. quem ela ama? — A capivarinha continuava falando sem parar, mas eu preferi focar na ardência persistente do meu ferimento do que ouvir aquela voz irritante.

— Então... — A garota loira puxou assunto de forma casual, me estendendo a garrafa de bebida para continuar focada no corte em minha perna. — Vai me dizer seu nome?

— É ela te ama, ela quer passar o resto da vida com você, é isso. — O resmungar incessante de Caputo prosseguia, mesmo que eu não desse mais atenção. — Okay, eu perdi.

— Daryl... Daryl Dixon. — Respondi, engasgando um pouco por causa da dor que percorreu meu corpo quando a garota atravessou minha pele com a agulha para dar o primeiro ponto.

— Muito prazer senhor Dixon, eu sou Alice Frenzy. — Ela devolveu ainda em um tom casual, quase como se quisesse me distrair.

Alice Frenzy, eu repeti o nome mentalmente e combinou muito mais do que eu esperava com a loira.

Seus movimentos eram leves e limpos, os pontos estavam alinhados e perfeitos de uma forma que eu nunca faria.

— Você é boa nisso, onde aprendeu? — Perguntei, um tanto surpreso com aquela destreza.

— Meu pai era bombeiro, minha mãe enfermeira, então... — Ela deu de ombros, se levantando para olhar o ferimento na minha cabeça.

Isso explicou um pouco de sua personalidade prestativa, alguém que vinha de uma família que ajudava as pessoas provavelmente herdaria isso, no entanto era admirável que o estado caótico do mundo não tivesse tirado essa qualidade de Alice.

— Obrigado. — Agradeci meio sem jeito quando ela finalizou o último curativo.

— Ain que lindos, vou chorar de emoção. — Caputo nos assistia como se fossemos algum casal de televisão. — Agora beija ela logo!

— Sabe como é, o mundo acabou, estamos em extinção agora. Temos que ajudar uns aos outros. — Alice deu de ombros e sorriu, como se aquilo não fosse nada demais.

— Nem todo mundo pensa assim. — Devolvi neutro, me ajeitando no sofá, sentindo todo meu corpo doer com o movimento. As costelas incomodavam demais, a cabeça latejava sem parar e as roupas molhadas grudavam no meu corpo de um jeito irritante, mas ter parado com o sangramento da perna era um progresso.

— Eu sei... — Alice concordou comigo e também se ajeitou no sofá, encarando o nada por alguns momentos. — Tragédias tiram o pior das pessoas.

Nos encaramos por alguns segundos e concordamos mutuamente, como se nós dois tivéssemos visto o pior do mundo e compartilhássemos disso.

— Big D. e Alice sentados em um sofá velho se bei-jan-do. Primeiro vem o amor, depois vem o casamento e então vem o neném sentado em um carrinho. — A capivara idiota ia de um lado para o outro da sala enquanto cantarolava.

Lá fora um raio cortou o céu e só então eu notei como o tempo havia fechado repentinamente. De certo uma tempestade se aproximava.

— Sua capivara é muito animada. — Alice riu, e eu notei que mesmo seus dentes eram perfeitos. Se eu visse a foto daquela garota em qualquer lugar diria que ela não era real.

— É uma idiota. — Resmunguei, revirando meus olhos para a capivara, que parou no mesmo momento.

— Olha o respeito, meu irmão! — Ouvi a resposta malcriada e Alice permaneceu alheia, encarando a capivara como se fosse algum tipo de animal fofinho de estimação.

Se ela pudesse ouvir aquela praga, duvido que estaria sorrindo daquele jeito.

— É um macho, se chama Caputo. — Assim que as palavras saíram da minha boca eu notei que tinha acabado de dizer uma idiotice completa. Merda, qual é o meu problema?

— Você deu o nome de Caputo pra sua capivara? — Os olhos perfeitamente azuis esverdeados de Alice se voltaram para mim e ela sorriu abertamente, minha cabeça rodou, eu não saberia dizer se era por causa do acidente, ou se por causa do impacto que a beleza daquela garota causava. — Deixa eu adivinhar, é porque ele é uma Capivara e é muito puto?

Eu franzi as sobrancelhas confuso, porque jamais na vida teria pensado naquilo, mas o próprio Caputo já estava aos berros.

— Ela entendeu meu nome! — Ele mexia o focinho quadrado freneticamente. — Aí, meu santo Capivarildo, você tem que casar com ela, Big D, ela é perfeita!

— Esquece, nem sei porque falei isso... — Revirei meus olhos de frustração e me movi um pouco, o que fez com que eu emitisse um grunhido de dor, mesmo sem querer.

Alice me encarou analítica enquanto eu me levantava e então se levantou também.

— Eu já volto. — Avisou, se afastando em direção a cozinha.

Não dei importância a isso, me aproximando da janela no mesmo instante que outro relâmpago cortava o céu e as primeiras gotas grossas de chuva começavam a cair violentas.

— ‘Tá ficando preto lá fora... — Caputo estava quase colado em mim, mas isso sequer me causou qualquer susto. Pelo visto eu estava me acostumando com a minha alucinação tagarela.

Eu não via a hora daquela bizarrice acabar.

— Tira a camisa. — Tive que me virar para ter certeza que tinha ouvido mesmo aquelas palavras.

Alice me encarava naturalmente, tinha acabado de colocar uma vasilha com água e uma toalha ali do lado.

— Nossa, assim no seco? Não vai nem oferecer um comes e bebes primeiro? — Caputo deu indícios que também tinha ouvido aquele absurdo. Se bem que ele era uma alucinação minha, então claro que ouvíamos as mesmas coisas. — Assim que é bom, vai fundo, Big D.! Mostra o seu Darylzinho pra ela!

Tentei sacudir a cabeça para colocar as ideias no lugar e voltar para a realidade, porque eu certamente estava ouvindo coisas.

— Eu vou ver suas costelas. — Alice apontou casualmente e então eu entendi melhor a situação.

Ela tinha notado que eu estava com dor nas costelas ao me observar.

— Não precisa, é melhor eu ir. — Falei, alcançando minha crossbow no chão e me dirigindo para a porta.

— Não! — Caputo parecia em desespero. — A gente não saí daqui antes de você fazer filhotes da deusa maravilhosa, ‘tá decido já!

Alice franziu levemente as sobrancelhas e deu um passo para trás olhando pela janela.

— Está chovendo, essas tempestades de verão são perigosas e você está ferido. — Ela declarou, como se fosse a situação mais óbvia de todas. — Achei que a gente já tinha passado dessa fase de desconfiar um do outro. Não precisa fugir.

— Eu não estou fugindo! — Retruquei irritado. — E eu te conheço faz uma hora, não é tempo bastante pra passar de fase nenhuma.

— Acho que você está fugindo sim, ‘tá fugindo da deusa maravilhosa, porque ela é muito bonita. — Caputo declarou, como se fosse o senhor de toda a razão do universo. — Você tem medo de mulher bonita, Big D.?

Tentei não dar ouvido a todas aquelas bobagens e foquei em Alice que dava de ombros do jeito mais descontraído possível.

— O mundo acabou, as coisas acontecem muito rápido atualmente. — Ela respondeu minha grosseria com uma dose de simpatia e bom-humor e isso me desarmou totalmente.

A desgraçada era mesmo muito bonita.

Merle sempre disse que mulheres bonitas demais, cedo ou tarde se tornariam um problema dos grandes...

— Cara, ela ‘tá tão na sua! — Caputo cantarolou e eu revirei os olhos me aproximando de Alice alguns passos.

— Eu posso fazer isso sozinho. — Falei, me referindo as costelas, então peguei o pote com água e a toalha, me dirigindo para o banheiro.

— Você é burro! — Ouvi a capivara tagarela resmungar, enquanto Alice dava um passo para trás e me cedia passagem com um sorriso divertido no rosto.

De alguma forma pensar em ficar sem camisa na frente dela me deixou muito desconsertado.

Me tranquei no banheiro e cuidei das costelas o melhor que eu pude. Eu daria qualquer coisa por roupas secas, mas isso era impossível no momento, então voltei a vestir minha camisa molhada e sentei no sofá velho outra vez, enquanto Alice mantinha os olhos na janela, atenta ao movimento do lado de fora.

Estava frio e escuro, mesmo que ainda não fosse fim de tarde. Caputo se encolheu em um canto e eu tomei outro remédio, torcendo para que isso levasse a tontura e os calafrios embora.

Acredito que acabei cochilando por um bom tempo, porque quando abri os olhos novamente a noite tinha caído totalmente e a lareira estava acena, embora Alice estivesse parada na mesma janela.

Apreciei o silêncio que tomava conta da cabana e torci para que as alucinações tivessem ido embora naquele curto cochilo, mas a capivara continuava ali, dormia perto da lareira, nesse caso tudo que eu podia fazer era torcer para que quando o animalzinho acordasse não houvesse mais uma voz irritante vindo dele.

Alice tinha os braços cruzados no peitoral da janela e rabiscava formas no vidro quebrado e embaçado pelo frio. Eu tirei uns segundos para analisar sua figura e, quanto mais a olhava, mais tinha a sensação que ela era quase irreal.

Sua imagem parecia uma fotografia tratada exaustivamente para que não houvesse qualquer defeito ou falha. Era quase irônico que alguém tão perfeita tivesse sobrevivido naquele mundo horrível. Alice destoava de toda a destruição que nos cercava, aquele mundo grotesco certamente não combinava com ela.

Me movi sutilmente e isso a vez notar que eu estava acordado. Virou o rosto na minha direção e sorriu de forma singela, antes de voltar a observar a paisagem morta e encharcada do lado de fora.

— Você acha que ainda tem uma salvação? — Perguntou como se fosse apenas um pensamento alto. — Para o mundo, eu digo.

Suspirei, ajeitando minha postura e pensando por um momento, enquanto alcançava outro comprimido e engolia. Além da tontura estava muito frio.

— Eu não sei, honestamente, prefiro não criar esperanças e viver um dia de cada vez. É mais prático pensar que tudo que temos é agora. — Dei de ombros como se não fosse realmente importante.

A verdade é que nunca criei esperanças sobre a vida. Nunca fiz planos para o futuro ou coisas assim. De um modo ou de outro, minha vida sempre foi sobre o “agora”.

— É uma boa filosofia de vida. — Alice comentou neutra e seus olhos vieram na minha direção.

Havia uma certa melancolia em suas orbes azuis esverdeadas, algo escondido em suas íris límpidas, quase como se fosse um mistério que implorava para ser desvendado.

— Quando tempo faz que está aqui? — Perguntei, apenas para preencher o silêncio que por um segundo me pareceu pesado e incômodo.

Alice me deixava intimidado e desconfortável, não de um jeito ameaçador, mas era como se houvesse um certo magnetismo nela e isso me parecia perigoso. Ela era atraente demais para a minha sanidade.

— Não muito, dois dias talvez, eu não costumo ficar muito tempo no mesmo lugar, cedo ou tarde os mortos aparecerem. — Sua resposta provou que Alice era bem mais sensata do que eu tinha imaginado. — Eu só continuo andando, como eles. Um passo de cada vez.

Me calei por alguns minutos, pensando se eu estaria sendo precitado em acatar a decisão que passou por minha mente. Mas Alice era prestativa e parecia boa, já havíamos acolhido pessoas por muito menos.

— Posso te fazer três perguntas? — Comecei com o processo usual, era isso que fazíamos antes de chamar qualquer pessoa para a prisão.

— É algum tipo de jogo? — Alice pareceu confusa e interessada ao mesmo tempo.

— Quantos errantes você já matou? — Fiz a primeira pergunta e isso a vez franzir as sobrancelhas.

— Você ainda conta? — Sua risada foi um tanto triste. — Eu contava no começo, pensava que guardaria cada rosto, pensava que me assombrariam para sempre, com o tempo se tornou tão natural quanto matar baratas, já nem sei mais quantos.

— Quantas pessoas você já matou? — Fiz a segunda pergunta e os olhos de Alice deixavam transparecer toda a sua confusão.

— Essa é uma pergunta sinistra. — Ela retrucou rindo de canto. — Nenhuma.

— Por que? — Fiz a última pergunta.

As perguntas eram para medir a capacidade de sobrevivência de alguém, além de ser um indicativo se tínhamos um assassino maníaco ou apenas um sobrevivente em mãos.

Pessoas que matavam por nada eram perigosas, pessoas que se apegavam aos costumes e comportamentos antigos também. Era preciso se adaptar ao novo mundo, sem se deixar corromper por ele.

— Você é estranho, Daryl Dixon. — Alice parecia confusa com minhas perguntas, mas intrigada o bastante para dar continuidade a conversa. — Eu acho que tive sorte... Quer dizer, eu vi coisas ruins acontecerem, pessoas mostrando o seu pior lado, amigos matando amigos, mas eu nunca tive que sujar minhas mãos e depois eu fiquei sozinha e só... acho que tive sorte de não cruzar com as pessoas erradas.

— É, você teve... — Concordei com o ponto de vista realista que ela tinha das coisas e estava pronto para falar da prisão, mas fui interrompido.

— Mas e você? Quantas pessoas já matou? — Ela perguntou casualmente, dando continuidade a nossa conversa.

— Você não gostaria de saber... — Neguei algumas vezes e por impulso me coloquei de pé.

Eu não era o tipo que conseguia ficar parado muito tempo, essa coisa de sentar e ter uma conversa longa era um tanto estranha pra mim, eu precisava me movimentar, mas certamente não pensei muito bem antes de levantar tão rápido, porque tudo ao meu redor ficou preto e rodou.

— Você está bem? — Quando me dei conta Alice já estava ao meu lado me amparando, com as mãos no meu braço.

— É, foi só uma tontura. — Respondi, dando um passo para trás.

Me surpreendi quando, sem aviso, ela tocou minha testa com as costas das mãos.

— Você está ardendo de febre. — Alice constatou e parecia realmente preocupada.

— Eu estou bem. — Fiz um gesto displicente com a mão esquerda e tentei me afastar dela.

— Não está, não. — Ela foi enfática e seu tom firme era um tanto teimoso. — Suas roupas estão encharcadas ainda, você vai acabar pegando uma pneumonia. Você tem que tirar.

Levei dois ou três segundos para ter qualquer reação, e tudo que eu consegui foi soltar um murmúrio qualquer e fazer um gesto displicente com as mãos. Não haviam roupas secas disponíveis e a ideia de ficar nu, ali naquela cabana tão pequena, quando eu estava sozinho com uma mulher como Alice, me deixava muito desconfortável, ao mesmo tempo que parecia fazer tudo ao redor girar.

Ela deu as costas para mim e seguiu até outra mochila jogada em um canto, tirando uma manta bem fina dali e jogando na minha direção.

— Eu falo sério, Daryl. — Seu tom era firme e praticamente profissional. — Seus ferimentos devem ter infeccionado, por isso a febre, isso baixa seu sistema imunológico, se você pegar uma pneumonia agora, vai acabar morrendo. Tira as roupas e fica perto da lareira.

A garota era o tipo mandona, quis ser rude, mas a verdade é que ela estava certa, eu não estava bem; tontura e calafrios, isso sem contar a dor. Passar uma noite inteira com aquelas roupas molhadas não ajudaria, no entanto eu podia colocar tudo para secar perto do fogo e me enrolar na manta.

Era uma questão de sobrevivência, não era horas para pudores.

Alice viu que eu acataria sua sugestão e me deu as costas, seguindo em direção a pequena cozinha adjacente, não sei dizer se fez isso para me dar privacidade, mas a verdade é que agradeci internamente.

Me despi, colocando as roupas perto da lareira e puxando o sofá para me aproximar do fogo enrolado na coberta fina. Estava mais frio do que eu esperava, eu não saberia dizer se aquilo era o prenuncio de que um inverno rigoroso estava a caminho, ou se era apenas um indicativo que eu de fato não estava bem.

Alice mexia em algo na pequena cozinha adjacente, porém eu estava tão desconfortável naquele momento que preferi não focar minha atenção nela. Mantive os olhos no crepitar do fogo, como se houvesse algo muito interessante para ser admirado ali.

Logo reparei que meu queixo batia freneticamente por causa dos calafrios gelados que dominavam meu corpo. Respirei fundo e tentei relaxar, não era um friozinho de fim de noite idiota que me derrubaria.

— E aí amigão, qual o grilo? — Só notei que Caputo havia acordado quando ele repousou aquele focinho quadrado ao meu lado no sofá. — Você está nu? Credo! Espera, já rolou a putaria e ninguém me avisou?

Arrumei a manta e suspirei profundamente, tentei manter minha paciência intacta, afinal gritar com a capivara tagarela só me faria parecer um louco.

Se é que ouvir um animal falante já não fosse loucura o bastante...

Alice retornou para a sala pouco depois e parou ao meu lado, me deixando ainda mais constrangido. Puxei um pouco mais a manta, como se isso fosse fazer alguma diferença.

— Eu fiz um chá, não tem açúcar, mas... — Ela me estendeu uma caneca fumegante, parecendo nada incomodada com o que eu vestia. Ou melhor, com o que eu não vestia.

— Obrigado. — Murmurei aceitando a caneca.

Alice se sentou ao meu lado com outra caneca nas mãos e isso fez todo meu corpo enrijecer automaticamente.

Engoli em seco, era como se eu não pudesse me desligar do fato de que estávamos tão próximos e de que a manta sobre o meu corpo parecia deixar a situação toda muito indecente.

Encarei o chá em minha caneca, um líquido fumegante e esverdeado que eu não tive qualquer desejo de provar, mas o fiz, apenas para ter algo que justificasse aquele silêncio, já que Alice também bebia calada, com os olhos azuis esverdeados presos no fogo.

— Por que as coisas estão estranhas assim? O que você fez de errado, Big D.? — A voz de Caputo era um misto de incômodo e alento. Era melhor que o silêncio, isso até eu lembrar que era apenas uma alucinação.

O animal parecia medir cada um dos nossos movimentos analiticamente, e isso tornou a situação muito pior, pelo menos pra mim.

— Mano esse clima está estranho, diz alguma coisa ou beija ela logo de uma vez. — Tentei ignorar o que ele dizia e pigarreei para abafar aquela maldita voz irritante.

Merda de alucinação.

Isso está horrível. — Alice riu com uma careta, depois de tomar o primeiro gole de chá.

— Não é a melhor coisa que já tomei, pra ser honesto. — Comentei casualmente e isso a fez rir mais.

Alice tinha uma risada gostosa e contagiante que acabou levando um pouco do clima estranho embora e com isso eu me permiti relaxar.

— Vocês humanos são muito estranhos. — Caputo resmungou nos encarando, e uma vez mais eu o ignorei totalmente.

Vi a Capivara chata se afastar um pouco e deitar perto do fogo.

Alice por sua vez, acompanhou o animal com os olhos, até que sua atenção foi consumida pelas chamas. Ela ficou calada por alguns minutos, como se estivesse em algum tipo de debate interno.

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Nesse meio tempo eu acabei engolindo outro comprimido daquele remédio desconhecido junto com o chá horrível. Eu só queria que meu corpo parasse de tremer, que a dor amenizasse e que a cabeça deixasse de latejar.

— Acho que tem um mercado alguns quilômetros rio abaixo, talvez tenha algo útil lá, você precisa se alimentar. Principalmente se continuar engolindo comprimidos como se fossem balinhas. — Alice comentou, virando um pouco o corpo na minha direção. — Amanhã eu posso descer até lá e achar alguma coisa.

Me surpreendeu a forma casual dela tratar aquilo, como se já tivesse decidido me ajudar e ficar ao meu lado.

Mas, de certa forma, eu não tinha decidido algo parecido também?

— Então... Sobre isso... — Comecei, convencido de que era mesmo a coisa certa a fazer. — Eu tenho um lugar.

Alice franziu levemente as sobrancelhas, um tanto surpresa com a minha revelação.

— É um lugar seguro a leste daqui. Grades, suprimentos, remédios. — Expliquei arrumando um pouco mais a manta, quando um vento frio entrou pela janela quebrada. — Somos um bom grupo, gente descente que se uniu para sobreviver. Você pode vir comigo, não tem mais que ficar pulando de lugar em lugar sozinha.

Caputo ergueu a cabeça, novamente interessado em na nossa conversa.

— Uh! Um pedido de casamento, agora sim vi vantagem. — Tentei não revirar meus olhos para a capivara intrometida. — É assim que se faz, Big D. Garante a mãe dos teus bebês feios, porque não tá fácil a vida.

— Você tem um grupo... — Alice murmurou e então se calou pensativa.

Seus olhos azuis esverdeados se tornaram indecifráveis, talvez eu tenha visto um reflexo de melancolia ali, mas logo se foi. Alice levou apenas três segundos para lidar com a minha revelação, eu notei quando ela decidiu o que faria, mas nenhuma resposta saiu de sua boca.

Nenhuma pergunta ou comentário.

Talvez eu devesse ter achado essa inércia de interesse estranha, mas a verdade é que na minha mente não havia qualquer outra resposta que não fosse “sim, eu vou com você”.

Afinal ninguém recusaria um lugar seguro em tempos como aqueles?

Meus pensamentos ficaram perdidos quando outra rajada violenta de vento sobrou pingos grossos de chuva para dentro do pequeno cômodo em que estávamos. Eu instintivamente me encolhi um pouco mais na manta, tentando ignorar o tremor do meu corpo que vinha acompanhando de calafrios.

— Quando chegarmos no nosso novo lar eu vou querer uma cama bem quentinha e comida da boa. — Caputo declarou, como se tivesse sido convidado. — E é bom dizer para os seus antigos amigos que eu é que sou o seu melhor amigo agora!

Não fui capaz de conter uma risada debochada e um revirar de olhos, e isso atraiu a atenção de Alice, ela franziu as sobrancelhas para minha reação sem sentido e eu preferi deixar como estava e fingir que não tinha acontecido. Mesmo assim os olhos azuis esverdeados continuaram em mim, fixos, um misto de interesse e curiosidade que me deixava tenso e desconcertado.

Arrumei um pouco mais a manta e foquei na janela, como se houvesse algo muito interessante nas gotas de chuva que estravam pelas vidraças quebradas.

— Você está tremendo. — Alice constatou e só então notei que ela estava certa.

— Eu estou bem. — Desconversei, era quase ridículo que eu tremesse, sendo que eu estava suando.

Alice tocou minha testa sem aviso, me pegando totalmente desprevenido. Sua mão estava fria, mas era macia e o perfume natural de sua pele era embriagante.

— Não, você não está. — Ela foi firme. — Está com febre.

Ela se arrastou no sofá para ficar mais perto, e se enfiou debaixo da coberta. Meu corpo todo tencionou, plenamente ciente daquela proximidade perturbadora.

— O que você está fazendo? — Questionei, tendo que disfarçar a rouquidão repentina na minha voz.

— Eita, é agora que a coisa vai esquentar! — Caputo exclamou tudo alegrinho.

Mas a atitude de Alice havia me deixado tão desnorteado que sequer consegui me irritar com a capivara falante.

— Estou aquecendo você. Todo mundo sabe que o melhor jeito de fazer isso é com calor humano. — Alice respondeu pratica e eu não sabia se me sentia aliviado com a explicação, ou ofendido com isso.

— O Daryl vai transar. O Daryl vai transar... — Caputo certamente tinha entendido outra coisa.

Eu quis responder alguma coisa, qualquer coisa, mas as palavras tinham se perdido em algum lugar no fundo da minha garganta e minha mente parecia em curto, apenas meu corpo estava plenamente ciente da proximidade de Alice.

Ficar nu, debaixo das cobertas com uma garota bonita, naquela situação não era exatamente normal... Com certeza não era.

— Meu trabalho aqui está concluído. Ponto para o Caputo! — A capivara idiota comemorava como se tivesse ganhado a copa do mundo. — Vai lá, Big D.! Fode tudo. Eu vou esperar na cozinha, pra te dar alguma privacidade para os pombinhos.

E assim o animalzinho inoportuno saiu com sua risadinha abafada, deixando a sala em silêncio.

Por um lado, agradeci a escuridão lá fora, a lareira acesa não iluminava muito, o que era bom para evitar me sentir ainda mais exposto, mas por outro lado era ruim, porque deixava o clima ainda mais íntimo.

A pele de Alice roçando na minha era algo perturbadoramente excitante, e eu queria não estar tão focado nisso, mas era impossível de ignorar, o perfume dela era inebriante. Fechei os punhos como se isso pudesse conter meu desejo repentino de afundar meu nariz no cabelo dela apenas para sorver aquele aroma como um drogado.

— Você tem família te esperando nesse lugar que falou? — A voz de Alice era pouco mais que um sussurro.

Uma parte minha ficou imensamente feliz por todo aquele silêncio ser preenchido, enquanto a outra ainda achava muito estranho conversar com alguém naquela situação constrangedora em que estávamos.

Eu podia simplesmente me afastar, ou sei lá, mas a verdade é que em momento nenhum eu fiz isso, talvez porque eu não quisesse fazer.

— Amigos. — Respondi tentando se natural. — Mas certamente são melhores que mais da metade da família que eu tive.

Alice emitiu um “hum”, em concordância, parecia interessada, ou só queria matar o tempo.

— Então nada de filhos ou... esposa? — Ela ergueu os olhos na minha direção e eu queria ser idiota ou cego para não notar a intenção por trás daquela pergunta.

Eu levei dez segundos inteiros para responder, dez segundos nos quais eu debatia comigo mesmo sobre a resposta. Era um daqueles momentos onde sabemos exatamente o que pode acontecer a seguir...

Uma parte de mim sabia que expressar desinteresse deixaria tudo mais simples, principalmente porque a garota era boa e merecia um lugar seguro como a prisão, ou seja, conviver com ela seria complicado e constrangedor se eu não falasse a coisa certa naquele momento.

Mas minha outra parte sequer sabia o que “desinteresse” significava naquele momento, porque ah, sim, eu estava interessado, mesmo que jamais fosse dizer isso em voz alta, nem sob tortura.

— Não tem ninguém. — Respondi, contrariando todo meu bom-senso, mas preferi ser honesto. — Esse tipo de complicação não é segura hoje em dia. Gosto de coisas simples.

Alice sorriu de um jeito que eu só poderia descrever como enigmático e eu desejei saber o que ela estava pensando de verdade.

— Você é esperto. Nada melhor do que simplificar as coisas. — A resposta me deixou um pouco confuso. Que porra aquilo queria dizer?

Certamente a tontura, dor de cabeça e a merda toda do acidente estavam me deixando ainda mais burro...

Os olhos de Alice ainda estavam em mim, quase predatórios eu diria. Sempre gostei de pensar em mim mesmo como um caçador, mas naquele momento ficou claro que eu era a presa, Alice não era uma caçadora, ela era a própria armadilha e eu caí assim que a vi no rio, porque a verdade é que desde aquele momento eu não quis mais escapar dela. Todo o resto foram desculpas.

Ou talvez fosse apenas a porra do tesão falando mais alto. Porque afinal eu não sou de ferro.

Ela sorriu de uma forma que fez meu corpo formigar, era um misto perfeito de doçura e sedução. Na verdade, se eu não estivesse vendo Alice com os meus próprios olhos eu certamente não acreditaria que ela era real...

— Você não devia fazer isso. — Adverti, antevendo os próximos eventos. Estava no ar, só um idiota não notaria.

Quis que Alice desconversasse, dissesse que não sabia do que eu estava falando ou algo assim...

Mas será que eu quis isso mesmo?

De toda forma, ela não parecia afim de fingir ou jogar, era direta, seu olhar dizia tudo. Seus sapatos já estavam jogados no chão e eu a senti tirar a calça jeans por baixo da coberta. Seu próximo movimento foi passar a perna esquerda por cima do meu colo e montar em mim, um joelho de cada lado meu corpo.

Caralho.

Minha sanidade começou a fazer uma linha cronológica tentando entender em que momento ela tinha decido que faria aquilo, ou que queria aquilo. Afinal, por que uma garota como aquela daria qualquer atenção para um cara como eu? Toda aquela situação pareceu irreal e improvável.

Mas afinal o mundo estava tomado por mortos andando por aí, isso por si não era prova que mesmo o irreal e improvável podia ser possível?

— Tudo que temos é o agora, lembra? — Alice me respondeu, tirando a blusa e o sutiã com um movimento ágil. Seus seios saltaram diante dos meus olhos, iluminados pela pouca luz que vinha da lareira.

Foda-se a minha sanidade!

Antes da blusa de Alice tocar o chão minhas mãos estavam nela, meu corpo se moveu para frente e eu a puxei para mim sem qualquer delicadeza. Meus dedos se emaranharam nos fios dourados e macios antes que nossos lábios se chocassem com violência.

Alice tinha gosto de hortelã e morango, era doce e refrescante de uma forma quase irreal. Sua pele era seda na ponta dos meus dedos, e seu toque era fogo na minha pele.

Suas mãos estavam por meu peitoral e braços, indo e vindo, passando pelo pescoço e ombros, explorando os músculos que se contorciam conforme o tesão se alastrava por minhas veias como veneno.

Eu podia sentir os seios dela roçarem em mim conforme nos movíamos em um ritmo que parecia coordenado. O beijo era visceral, sem controle, apenas desejo puro e instinto, como se fossemos dois animais procurando por algo enraizado em nosso amago.

Todo o meu sangue parecia fluir direto para minha virilha, era uma tortura prazerosa. As coisas ao redor pareciam acontecer rápido demais, como se o desejo nos consumisse de dentro para fora. Alice escorregou a mão direita pelo meu abdômen e encontrou minha ereção, segurando-a sem qualquer pudor.

O vai e vem dos dedos ágeis me levava do seu ao inferno em um ciclo infinito e profano, era uma loucura inebriante.

Minhas mãos encontraram os seios de Alice ao mesmo tempo que meus lábios conquistaram seu pescoço. Os gemidos eram eróticos e isso tornava nossos movimentos ainda mais frenéticos. Eu provei a pele dela com a ponta da minha língua, deixando um rastro quente de desejo até seus seios, antes de rodear os bicos entumecidos. As unhas de Alice arranhando minhas costas eram a prova do tesão que nos dominava por completo.

Ela se arrumou no meu colo, encaixando nossos corpos, e eu pude sentir cada centímetro meu penetrá-la devagar, preenche-la por completo.

— Porra! — Exclamei, sentindo todo meu corpo em êxtase e segurando a cintura de Alice, mantendo-a parada sobre mim por um segundo, apenas para apreciar aquela sensação.

Ela tinha as mãos nos meus cabelos, puxava os fios exigindo um beijo que eu não tardei em dar. O corpo dela se mexia nesse ritmo, em sincronia com nossos lábios, até que eu enchi as mãos com sua bunda e passei a ditar o ritmo das estocadas, cada vez mais rápido e forte.

Eu podia sentir o prazer se acumular ao nosso redor denso e inegável, por causa dos sons que emitíamos. Não tinha qualquer controle ali, era apenas instinto e tesão. Os movimentos eram quase violentos.

Era irresistível sentir Alice rebolar em cima de mim e ouvi-la chegar ao ápice foi como a gota d’água para que eu perdesse o controle e gozasse também.

Foi rápido, visceral e inesquecível. O tipo de coisa que acontece uma vez na vida ou apenas em sonhos. Fui fugaz, talvez eu devesse ter prolongado o momento, no entanto foi uma loucura perfeita.

A última coisa que me lembro antes de adormecer é de nossos corpos ofegantes e suados, e da pele de Alice na ponta dos meus dedos....

────── ✗ ──────

Eu não sei dizer se o que me acordou foram os raios irritantes de sol forte entrando pela janela, ou se foram os murmúrios do lado de fora. Só sei que minha cabeça rodava, como se o mundo todo fosse um carrossel. Estava tonto e um tanto desnorteado, mas não de dor, era quase uma ressaca como se eu tivesse tomado um grande porre.

Quase caí do sofá, mas logo me coloquei em pé, a crossbow estava ao alcance das minhas mãos e eu sabia que não teria muito tempo até que as pessoas donas das vozes me surpreendessem, por isso quando a porta se abriu eu já tinha a flecha preparada e teria atirado, se não tivesse reconhecido aquele rosto imediatamente.

— Daryl! — Rick Grimes exclamou em um misto de alegria e alivio. — Graças a Deus!

— O que aconteceu? Você está bem? — Glenn Rhee entrou logo atrás, com uma arma em punho, olhando de um lado para o outro, se certificando que eu estava sozinho.

Eu estava sozinho. Essa informação ecoou por minha mente de forma vagarosa.

— Achamos sua moto tombada na ponte, você preocupou a gente. — Maggie Greene foi a próxima a entrar, também armada e atenta.

Mas minha atenção estava apenas parcialmente nas três pessoas ali, baixei a crossbow e dei um passo para trás deixando que meu corpo encostasse no sofá. A realidade ao meu redor começava a fazer um pouco mais de sentido conforme as lembranças voltavam.

Olhei para o meu corpo e percebi que eu estava vestido, coisa que eu não me lembrava de ter feito na noite passada. E eu me lembrava de muitos detalhes interessantes da noite passada...

— Eu sofri um acidente, e caí no rio. Mas estou bem. — Respondi um tanto distante, olhando ao redor enquanto procurava por Alice ou pela capivara infernal que era responsável por tudo.

— Foi complicado achar você, sem você pra rastrear você. — Glenn contou, rindo como se fosse alguma piada, mas eu não consegui achar nenhuma graça.

Minha cabeça ainda estava um tanto confusa, era como acordar de um daqueles porres que o Merle me obrigava a tomar. A noite passada era um tanto etérea na minha mente, como um sonho muito real do qual se lembra todos os detalhes.

— Eu falei que esse tipo de viagem era ariscada. — Rick comentou naquele tom de xerife.

— Você falou... — Concordei, olhando ao redor e vendo que a cabana estava exatamente igual a noite passada, mas não havia nenhum sinal de Alice ali, nem mesmo as coisas delas estavam em parte alguma.

— O que foi? — Rick estreitou as sobrancelhas, acompanhando meu olhar através do pequeno cômodo.

— Tem uma garota comigo. — Respondi, sentindo que a dor no corpo estava voltando em ondas.

— Uma garota? — Rick repetiu entre confuso e incrédulo.

— Loira, olhos azuis esverdeados, dessa altura, cara de menina de revista. — Gesticulei enquanto explicava. — Ela se chama Alice.

— Ele estava mesmo dizendo que conheceu uma garota bonita? — Escutei Glenn murmurando para Maggie.

— Foi o que eu ouvi. — A filha mais velha de Hershel respondeu divertida e eu bufei qualquer coisa quando desviei os olhos dele.

— Vamos dar uma olhada ao redor. — Rick fez um movimento circular com o dedo, pedindo para que o casal rodeasse a cabana.

Tentei me levantar também, mas tudo rodou por causa da maldita sensação de ressaca.

— É melhor você ficar sentado aqui. — O xerife aconselhou antes de sair também.

Muito a contragosto voltei a me sentar, a dor dos ferimentos tinha diminuído bastante e a cabeça só rodava por conta da sensação de ressaca, que certamente vinha dos comprimidos que eu tinha engolido durante todo o dia anterior. No geral eu estava melhor.

Respirei fundo e me coloquei de pé devagar, assim a tontura não me atingiu novamente. Eu podia sentir os pontos na minha perna repuxarem conforme eu dava alguns passos pela cabana, mas não era nada que eu não pudesse suportar.

Encontrei o frasco de remédios jogado em um dos móveis, porém não havia mais comprimidos, então o deixei por ali mesmo. Olhei ao redor e de fato não havia qualquer sinal de Alice, o que era estranho.

Um arrepio percorreu meu corpo quando me lembrei da noite passada, mas não me deixei ser levado por isso. Era apenas sexo, e sexo casual não era exatamente uma novidade para mim.

Mesmo que fosse o tipo insanamente inesquecível de sexo.

Estava parado encarando a lareira já apagada, perdido nas lembranças bem vívidas do corpo de Alice, quando a capivara endemoniada passou correndo em direção a porta.

— Hey. Caputo. — Chamei, vendo que o bichinho tentava encontrar uma brecha, como se estivesse fugindo. — Onde está a Alice?

Deu um passo na direção do animalzinho e ele pareceu aterrorizado com minha proximidade.

— Ficou tagarelando na minha cabeça todo esse tempo e agora não vai falar nada? — Lancei irritado.

Caputo emitiu um tipo de rosnado fraco, como se me ameaçasse e então passou correndo por debaixo das minhas pernas, fugindo para um lugar qualquer.

— Capivara idiota. — Resmunguei, irritado comigo mesmo por ser tão idiota.

Pelo visto as coisas tinham voltado ao normal e eu não estava mais ouvindo vozes, isso era bom, é claro, afinal eu não queria ser o maluco que ouve uma capivara falante, mas ao mesmo tempo era um tanto inoportuno naquele momento em que eu precisava de informações.

Eu meio que tinha acostumado com o tal Caputo.

— Certeza que seu nome nem é Caputo. — Murmurei em um meio resmungo, cruzando os braços e revirando os olhos para toda aquela loucura.

— Com quem você estava falando? — Rick abriu a porta naquele mesmo instante.

— Deixa pra lá. — Movi os ombros de forma displicente.

Glenn e Maggie entraram logo em seguida, e eu vi Caputo passar por eles e sair fugido porta a fora.

— Aquilo era uma ratazana? — Maggie deu um pulo para o lado.

— Uma capivara. — Respondi neutro. — Foi por isso que sofri o acidente.

Preferi não entrar em detalhes, ou contar toda a loucura que aquela história envolvia. Depois de verem que eu não falaria muito mais que aquilo os três acabaram se conformando.

— Não achamos nada, não tem qualquer sinal de ninguém. — Rick informou depois de trocar um olhar com Maggie e Glenn.

— Impossível, ela estava bem aqui. — Apontei perdendo um pouco da calma.

— Talvez ela tenha ido embora. — Glenn sugeriu um tanto incerto e isso me causou ainda mais irritação.

Impossível a menina ter sumido assim do nada, alguma coisa devia ter acontecido com ela, Rick e os outros não deviam ter procurado direito.

— Como ela era mesmo? — Ouvi Maggie perguntar, enquanto eu me preparava para sair.

— Loira, olhos, azuis... — Comecei a explicar sem muita paciência.

— Diria que ela era muito bonita? Tipo como a mulher dos seus sonhos? — Maggie questionou como se soubesse de algo que eu não sabia.

— O que? Não! Era só uma garota. — Respondi entre irritado e ofendido. — Que tipo de pergunta estúpida é essa?

Sim, ela era exatamente como a mulher dos meus sonhos, mas é claro que eu não precisava dizer isso em voz alta.

— Eu acho que sua amiga “Alice” não era real. — Maggie declarou com uma nota clara de certeza na voz, e isso atraiu a atenção de todos. — Ela era uma alucinação.

Estava pronto para retrucar quando a garota lançou o frasco de comprimidos vazio na minha direção.

— Benzidamina. — Ela repetiu o nome rabiscado na embalagem. — É um anti-inflamatório de tarja vermelha, que pode causar alucinações em doses altas, era uma das coisas que o pessoal da faculdade usava pra chapado. — Explicou, movendo os ombros de forma casual e vi que escondia um sorriso. — Quantos você tomou, Daryl?

Fiquei irritado com o tom que ela usava, e pensei em mandar todo mundo se ferrar, mas no fundo eu estava preocupado com o rumo que aquela conversa estava tomando.

— Alguns... — Respondi como se fosse algo sem importância. Óbvio que eu não precisava dizer que tinha tomado o frasco todo em menos de vinte e quatro horas.

— “Alguns” comprimidos vencidos de Benzidamina seriam o bastante para criar uma garota “cara de menina de revista”. — Maggie explicou e dessa vez ela e Glenn reprimiram o riso.

Tive o impulso de avançar naqueles dois abusados, mas Rick pousou a mão no meu ombro e lançou um olhar sério para o casal, isso fez com que eles mudassem a postura.

— Teve outros sintomas? Tontura. Ouviu vozes, talvez? Suor em excesso... — Maggie começou a perguntar de um jeito profissional.

Eu cruzei os braços irritado e não dei o braço a torcer, mesmo que em minha mente tivesse respondido “sim” a todas aquelas perguntas.

Ouvir uma capivara falante já devia ser prova o bastante, não é?

— A garota estava aqui, ela era real! Ela me ajudou com os curativos. — Retruquei de forma rude, porque eu não podia admitir para mim mesmo que tinha sonhado com tudo que tinha acontecido na noite passada.

Era real, eu sabia que era. O gosto de hortelã e morango de Alice ainda estava na ponta da minha língua.

— Você podia ter feito sozinho, considerando que a garota sumiu sem deixar rastros, acho que considerar que ela não seja real é viável. — Rick usou um tom apaziguador. — Você sofreu um acidente, tomou remédios...

Contive minha irritação e dei as costas para todos eles.

— Tanto faz! Vamos pra casa. — Joguei irritado, saindo porta a fora tentando não mancar a casa passo.

Claro que eu nunca diria que meu envolvimento com Alice tinha sido muito maior que alguns curativos. Eu ainda podia sentir a textura da pele dela na ponta dos meus dedos, era como se o perfume dela estivesse impregnado no meu nariz. Não podia ter sido apenas uma alucinação, podia?

— Acha que ainda é muito cedo pra fazer piadas sobre o fato do Daryl ter imaginado uma namorada? — Ouvi Glenn murmurar para Maggie enquanto caminhávamos em direção a estrada, onde havia uma caminhonete parada com minha moto em cima.

Pensei em xingar o casalzinho piadista, mas honestamente estava de saco cheio demais para me dar ao trabalho.

— Acho que se você presa sua vida, daqui cem anos ainda vai ser cedo demais pra essa piada. — Maggie sussurrou de volta e o olhar dos dois caiu sobre mim.

Se eu pudesse atirar naqueles abusados, juro que teria feito isso, mas me limitei a encará-los com meu pior olhar.

— Acho que você está certa... — Glenn respondeu rapidamente, e então subiu na caminhonete.

Deixei que os três fossem na cabine e me acomodei na caçamba, assim fui vendo a paisagem se afastar enquanto a caminhonete andava.

Talvez Rick e os outros estivessem certos, talvez Alice Frenzy fosse uma ilusão apenas, por qual outro motivo tudo aquilo teria acontecido entre nós? Uma garota daquelas não daria bola para um cara como eu... mesmo no fim do mundo...

Além disso, se ela fosse real, por que teria fugido? Por que abrir mão de um lugar seguro?

Respirei fundo e decidi deixar toda aquela maluquice de lado. Garotas perfeitas e capivaras falantes... que idiotice, claro que era uma alucinação.

Era tudo culpa da capivara idiota!

Enquanto ria ironicamente daquela merda toda pude ver um animalzinho de pelo castanho parado entre as árvores... acenando pra mim?

Pisquei duas vezes e esfreguei os olhos, mas quando voltei a olhar para as árvores a capivara não estava mais lá.

— Foi só impressão, é isso! — Disse para mim mesmo, me ajeitando para olhar para o outro lado.

Meus olhos bateram no curativo em minha perna, um curativo perfeito, levantei o algodão e dei uma olhada nos pontos delicados costurados na minha pele. Pontos que minha mão calejada jamais teria a destreza de fazer...

Será mesmo que Caputo e Alice Frenzy foram apenas um delírio?

Notas finais
E agora o que fica é o questionamento: Foi real ou não foi? O que vocês acham?
Será que o Daryl tava precisando tanto de um amigo e uma "namorada" que inventou os dois?

Eu espero mesmo que vocês tenham gostado (principalmente você Flávia) ou que ao menos a história tenha tirado umas boas risadas de vocês.

Obrigada por me acompanharem nessa aventura louca!
Beijos e até a próxima oportunidade.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!