Delir

1 Único


Notas iniciais
A história surgiu depois de um sonho que tive.

E em meio ao delírio mais profundo de minha alma; eu o via, eu o sentia.

Eu o amava.

Estava de volta a sala iluminada por velas. O vento frio de primavera adentrado as janelas e fazendo meu corpo todo se arrepiar.

Em meio a escuridão eu o ouvir rir; rir de minhas fraquezas humanas.

— Vocês humanos são tão adoráveis. — Sua voz retumbou por meus ouvidos, ecoando pela sala e fazendo as chamas dançarem nas velas. — Sempre se arrepiando, estremecendo... Morrendo...

Eu não o respondi, apenas aguardei, sentindo meu corpo estremecer e arrepiar como ele havia dito antes.

Tão humano, tão natural.

Sua presença imponente se impôs ao meu lado, e inspirei fortemente, inalando seu perfume único que fazia cada parte de meu ser clamar por ele.

Clamar por mais.

O aroma almíscarado de morte e todos os toques de flores.

Senti-o serpentear os braços por minha cintura lentamente, levando-me para si e me vi envolvendo seu pescoço.

Eu não tinha medo ali, reservas ou inseguranças. Eu não tinha nada ali, apenas o que sentia e isso era o bastante.

Com outro riso, começou guiar-me lenta e suavemente através da sala, em uma dança que apenas nós dois conhecíamos.

Um segredo que jamais fora contado.

Sua respiração gelada e pesada se misturou à minha quente e suave, denunciando tudo que havia de diferente entre nós dois.

Dois seres, um despido de viver e outro pulsando em vida.

Eu não saberia dizer quem ele era, eu já havia tentando incontáveis vezes descobrir, mas era impossível e de certo modo, eu adorava todo aquele mistério.

A música suave de algum cantor que eu desconhecia reverberava por toda a sala, trazendo a letra e a melodia aos meus ouvidos. Trazendo todo seu significado e o atirando sobre mim, pesando sobre meus ombros.

Apoiei o queixo ao seu ombro e sua fragrância única inebriou-me, fechei os olhos buscando conforto e aproveitando aquela sensação por um momento.

— Eu gosto de estar aqui. — Revelei e senti seus dedos frios apertarem minha cintura com força em resposta.

— Gosta de se sentir em perigo? — Brincou, mas seu tom era firme e isso fez um arrepio correr por meu corpo.

— Eu não tenho medo de você. — Respondi, decidida.

Não era de todo verdade. Apesar de meu corpo desejar ardentemente aquele homem, eu o temia. Sabia que ele não era humano e suas habilidades eram grandes, podendo me matar facilmente. Mas por algum motivo, ele jamais o fez.

Eu continuava voltando, por que ele continuava me chamando. Sussurrando em meus sonhos e na escuridão dos meus aposentos.

— Não devia estar aqui, pequenina. — Havia ternura em sua voz naquele momento.

E ternura era algo que eu raramente ouvia soar por seus lábios. Ele era cheio de escárnio, piadas maliciosas e zombarias. Nunca fora de gentilezas, nunca fora de ternura.

Tentei levantar o rosto para ver seu rosto, mas a luz das velas que pouco a pouco se apagavam me deixavam ver apenas o contorno de seu rosto e as sombras que dançavam nas nuances de seus olhos.

Olhos de um azul celeste. Tão brilhantes quanto o céu ao amanhecer. E tão profundos quando o oceano em dias de tempestade.

— Por que não? — Questionei.

— Você sabe o motivo, só se nega a aceitar.

É, eu sabia.

Sabia desde o princípio. Desde a primeira noite que me chamou em meus sonhos. Desde o primeiro sussurro que ouvi na escuridão.

Eu sabia.

Mas negava.

Ficamos nos encarando por um longo momento.

Tão longo que se tornou uma eternidade.

Mas bastou segundos para seus lábios se unirem aos meus.

Não seria o primeiro beijo trocado.

Mas o último.

Seus lábios eram gentis e frios, mas traziam o gosto de sangue e morte. E, apesar de tudo, retribui o beijo com desejo e voracidade ciente do que estava para acontecer.

Senti como se minha vida estivesse sendo sugada por ele pouco a pouco.

Por que, aquele sangue era meu e era a minha morte que se aproximava.

E logo, deixei de existir. Sendo resumida a um monte de ossos secos em uma sala oculta e jamais encontrada.

Por que meu pecado não começou quando trocamos o primeiro beijo, mas quando ele me chamou para aquela sala com um sorriso nos lábios.

Notas finais
Delírios de uma mente febril
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