Delilah
9 Más intenções
Notas iniciais
Por favor, não entendam meus atrasos como falta de respeito ao leitor, eu sei como é chato ver que uma fic não é atualizada há séculos, mas realmente não tem combate quando as tarefas da universidade apertam x.x
Divirtam-se e boa leitura!
Feliks batia o pé no chão impacientemente. Seus braços estavam cruzados em seu peito e seu cenho levemente franzido. Descruzou os braços, sentou-se no sofá, mas a adrenalina não permitiu que ficasse ali por mais de dez segundos. Em um pulo, ele começou a andar pela sala, estressado como um animal enjaulado. Ele somente pareceu mais aliviado quando o seu celular tocou.
“Ai meu Deus, Toris, por que foi que você demorou tanto a ligar?”
Ele ouviu um riso baixinho do outro lado da linha.
“Me desculpe, eu estava resolvendo uns assuntos pendentes do trabalho.”
Feliks arqueou a sobrancelha, desconfiado.
“Em pleno sábado de manhã? Isso não é, tipo, trabalho do Alfred? Seu posto não é tão alto a ponto de você levar trabalho para casa no final de semana.”
Toris imaginou perfeitamente a cena de Feliks com sua expressão de desdém por essas pequenas discordâncias e com a mão na cintura para enfatizar seu ponto.
“É, eu sei, mas...”
“Espera! Você não está me dizendo que o presidente Braginski tem alguma coisa a ver com isso, está?”
Toris se engasgou do outro lado da linha.
“Eu não me lembro de ter dito iss...”
“Eu sabia!” O grito de Feliks foi tão repentino que Toris precisou afastar o telefone do ouvido. “Aquele russo idiota anda te ameaçando!”
“Não, Feliks, ouça...”
“Eu vou te ajudar.” A determinação na voz do loiro chegava a ser comovente. “Eu vou te ajudar a sair dessa, Toris.”
Antes que o aludido pudesse tentar qualquer outra pretensão de resposta, Feliks desligou o telefone decidido a agir imediatamente. Vestiu o casaco, pegou as chaves de casa e do carro e saiu pela porta da frente.
Sem nenhum trânsito, ele não levou mais que quinze minutos para chegar a casa em que Alfred morava com o irmão. Pegou o celular e ligou para o número do amigo. Precisou esperar uns bons oito toques para que finalmente o outro atendesse, com uma óbvia voz de quem havia acabado de acordar.
“Estou aqui na sua porta.” Anunciou Feliks.
“Cara,” A pausa do outro lado da linha sinalizou o bocejo. “O que foi?”
“Temos que entrar em ação.”
Alfred suspirou, bocejou novamente e tentou processar o que o amigo lhe dizia.
“Toris está trabalhando em pleno sábado de manhã! Penso que isso tem a ver com nosso suspeito.”
Feliks permaneceu na expectativa, aguardando a suposta resposta que deveria receber de Alfred. Em vez disso, após uns dois minutos de silêncio na linha, ele viu a maçaneta da porta da frente girar e o americano surgir de peito nu, trajando apenas uma calça de pijama com estampas de naves espaciais.
“São sete e meia da manhã.” Constatou mecanicamente. Seu rosto ainda estava inchado por haver acabado de acordar.
“O que quer dizer que você deveria estar de pé há muito tempo para o trabalho, mocinho!”
“É sábado.”
“Para o seu cargo, não existem finais de semana.”
“Tenho permissão para chegar às nove.”
“E daí?”
“...”
Eles ficaram se encarando por exatamente um minuto até Alfred desistir e suspirar resignado.
“Vou tomar uma ducha.”
“Ótimo!” Feliks bateu palminha entrando atrás de Alfred. “O Matthew está acordado?” Perguntou ao sentir o tentador cheiro de waffles pela manhã.
“Vai saber.” O Alfred sonolento ainda não dava a mínima. E Feliks também não. Ao ver que o amigo andava quase em modo automático para o banheiro, resolveu fazer companhia para o irmão dele na cozinha. E era isso que Alfred gostava em Feliks. Ele não era assim intrometido com todo mundo, claro, precisava criar intimidade com a pessoa. Mas também não era o tipo de hóspede que dava trabalho e por isso não era um problema quando ele aparecia espontaneamente em sua casa. Na maior parte das vezes, Feliks falava, falava e continuava a falar sobre qualquer coisa sem importância. Não fazia muita questão de receber uma resposta nem de parar para pensar se estava, de fato, sendo ouvido pela outra parte.
Alfred gostava de duchas após acordar. Normalmente, ele era uma pessoa relativamente bem humorada pela manhã e não tinha problemas para se levantar a qualquer hora que fosse. Mas o excesso de sono daquela manhã em específico tinha um quê de responsabilidade de Arthur. E Alfred sorriu, com os olhos fechados e um singelo sorriso no rosto, diante das lembranças da noite anterior. Tão distraído estava que não se importou com o fato de haver se esquecido de mudar da água gelada para a água morna, muito embora a temperatura da água lhe estivesse tocando a pele como centenas de milhares de cubinhos de gelo, causando arrepios não muito agradáveis.
Ao menos isso lhe poupava de quaisquer chance de ficar animado se lembrando da noite anterior.
Na cozinha, Matthew, trajando seu avental quadriculado e com uma espátula na mão, se via obrigado a aturar o blábláblá de Feliks com um pequeno sorriso resignado no rosto. Talvez ele fosse uma das poucas pessoas que, de fato, prestava atenção em tudo o que o outro falava. O assunto da vez eram as novas blusas quadriculadas da moda.
“... Que, particularmente, eu acho uma gracinha, mas muito manjado. Quero dizer, você sai na rua e topa com alguém com a blusa exatamente igual à sua. Ou pior, você sai com os amigos e todos estão com uma blusa quadriculada. Nessas horas eu me pergunto: isso é o quê? Um rodeio ou algo assim?”
Matthew concordou com a cabeça e entregou o prato com seus famosos waffles para o loiro, cujos olhos cintilaram diante da comida.
“Graças aos céus que um de vocês tem tato na cozinha, porque, que o Alfred me desculpe, ele tem um péssimo gosto para comida!”
Nisso Matthew se via obrigado a concordar. Não que o irmão tivesse muita frescura com comida, mas sua alimentação era invariavelmente não muito saudável. Pizza, hambúrgueres, frituras e tudo mais eram a regra para o estômago insaciável de Alfred.
“Ei, Matthew, eu sei que você é o tipo calado e tudo mais, mas diz aí.” Feliks se aproximou do outro com um ar conspiratório. “Como estão as coisas entre o Alfred e aquele amante inglês dele?”
Matthew quase se engasgou com o suco e dedicou a Feliks um olhar consternado. Ambos ficaram se encarando por alguns segundos e Matthew teve plena certeza de que Feliks optou por ignorar seus pedidos silenciosos para não tocar no assunto.
“Eu acho que estão bem. Alfred chegou bem tarde ontem.” Respondeu, rezando para que a resposta agradasse seu interlocutor curioso.
“Mesmo? Esse cara não perde tempo, hein.”
Matthew arqueou uma sobrancelha sem olhar para Feliks, mas não respondeu. E agradeceu pelo outro não insistir com um assunto tão desconfortável.
Alfred apareceu na porta da cozinha uns cinco minutos mais tarde, vestido para o trabalho. Sem cerimônias, sentou à mesa e pegou um prato com waffles para si. Ele achou o comportamento do irmão um tanto quanto estranho, como se ele estivesse profundamente incomodado com alguma coisa, mas seu bom senso lhe indicava que, desta vez, seria melhor deixar quieto.
“Vamos indo, Feliks.” O outro assentiu, engolindo o último pedaço de seu café da manhã. Ele agradeceu a Matthew pela hospitalidade e recebeu um pequeno sorriso e um aceno com a cabeça em retorno.
“Vamos no seu carro, já que você se deu ao trabalho de vir aqui e tudo mais.” Sorriu Alfred.
“Quem vai voltar de ônibus é você, então por mim tudo bem.”
Alfred deu de ombros e tomou seu lugar no banco do passageiro, sentindo-se perfeitamente a vontade para ligar o som. O trajeto até o trabalho foi bastante tranquilo e Feliks passou a maior parte do tempo cantarolando as músicas que tocavam.
Quando chegaram, Feliks informou Alfred do plano, o qual o americano suspeitava, fora elaborado no percurso até ali.
“Eu vou até o cubículo do Toris, dar uma averiguada em alguma coisa. Você procura saber se o presidente está por aqui.”
O americano não contestou. Não estava muito afim de bancar o detetive pelo prédio, então perguntou para uns dois colegas de trabalho se eles sabiam se o presidente viera trabalhar e as respostas que obteve foram negativas. Foi até sua sala, ligou o computador e deixou a pasta sobre o sofá. Imediatamente, percebeu a pilha de papeis sobre a sua mesa e gemeu em descontentamento. No topo havia uma pequena nota em um post it indicando que aqueles papeis eram os relatórios da última semana que deveriam ser entregues a Ivan. Provavelmente representavam a tentativa de alguém de repassar a tarefa para outra pessoa, por temor de ir pessoalmente a sala do presidente.
Alfred bufou e grunhiu: “Estagiários...”
Aproveitando que já estava ali e que aparentemente Ivan não estava no prédio, ele pensou que seria muito interessante deixar os relatórios na sala da presidência antes que pudesse topar com o sujeito. Vangloriando-se de sua genialidade, ele praticamente esqueceu a tarefa que lhe foi atribuída por Feliks e se direcionou ao último andar.
O peculiar andar da presidência era repleto de fetiches de Ivan. Ao contrario dos demais andares, não havia um corredor que conduzia a diversas salas ou a um espaço comum. O único corredor dali, ornado com fotos dos presidentes antigos, levava diretamente à pomposa e enorme porta em mogno puro da sala de Braginski. Para Alfred, aquele lugar lembrava até demais o cenário de um filme de terror. E ele não gostava nem um pouco de estar ali.
Engoliu seco e bateu levemente na porta. Ao não receber resposta, esperou e bateu mais uma vez, para se assegurar que de fato não havia ninguém ali dentro. Finalmente, girou a maçaneta e entrou por sua conta e risco.
Há uma porção de razões pelas quais as regras básicas de etiqueta e educação indicam que alguém deve bater antes de entrar em algum recinto e até aquele dia Alfred as seguia sem realmente pensar nessas razões. O americano tinha consciência, é claro, que bater na porta era, antes de tudo, um meio de anunciar que algum intruso se aproxima, portanto todos no interior daquele recinto devem parar o que estão fazendo se isso for algo impróprio e constrangedor.
Mas era de Ivan Braginski que estamos falando. O peculiar e excêntrico bilionário russo Ivan Braginski. E com alguma certeza, para ele pouco importava as normas de etiqueta.
E por isso, quando Alfred adentrou a sala da presidência, precisou abafar um som de surpresa. De fato, ele não esperava encontrar Toris, sim, Toris, o amor de infância de Feliks pelo qual atualmente o descendente de polonês estava movendo mundos e fundos, inclinado sobre a estupidamente grande mesa, como se verificasse alguns papeis, com Ivan prendendo-o entre seu corpo e o móvel. Uma das mãos do presidente segurava o queixo de Toris e a outra apoiava-se sobre a mesa. Sua boca estava muito próxima da orelha do outro e Alfred pode, com algum esforço em razão da pouca iluminação da sala, perceber que Toris tremia.
O americano lançou um olhar mortífero ao seu superior. Internamente, sua mente trabalhava com a cena que havia acabado de presenciar, sem deixar de prestar atenção no sorriso cínico que se desenhava no rosto de Ivan.
Alfred pigarreou para tentar esconder sua irritação e o incômodo.
“Vim trazer os relatórios da última semana. Estavam sobre a minha mesa.”
“Muito bem. Deixe-os bem aqui.” Ivan sinalizou o local onde sua mão livre encontrava apoio. “Vejo que você chegou mais cedo que o normal hoje, Jones. Devo presumir a existência de alguma razão em especial para esse feito?”
Alfred franziu o cenho e com toda a sua impertinência ignorou o superior. Ele olhou de relance para Toris, que mantinha o olhar fixo na mesa. Mas ainda sim, podia-se perceber o pânico em seus olhos. No mínimo segundo em que seus olhares se cruzaram, o americano leu em seus lábios algo como ‘não é o que você está pensando’. No entanto, Alfred nem sabia o que pensar.
As mãos de Ivan o seguraram pelos pulsos.
“Você não deveria ser tão mal educado com o seu chefe.”
“Não tenho nada a dizer.”
E ele saiu da sala, decidido a não comentar com Feliks o que havia presenciado, consternado demais para colocar seus pensamentos em ordem e decidido a tomar alguma atitude.
USUK
Matthew suspirou não uma, mas duas, três vezes. Apesar do jogo de hóquei na TV, seu olhar parecia perdido em outro mundo. Nem mesmo o seu suco favorito merecia sua atenção. Era como se estivesse em um universo paralelo, alheio das pequenas coisas que aconteciam ao seu redor. Tudo porque seu irmão, seu estúpido, inconsequente e desgraçado irmão, graças à sua nova aventura no mundo real, agora o preocupava horrores.
Nunca tivera complexo de irmão. Na realidade, houve uma época em que o que mais queria na vida era se ver livre da influência destruidora do irmão. Porque Alfred sempre fora assim, efusivo, inconsequente, espontâneo e até mesmo cruel. E Matthew, por outro lado, passou a vida sendo bonzinho demais, ou passivo demais, para se destacar.
Mas os problemas familiares unilaterais do irmão de Alfred não eram fortes o suficiente para afastar o zelo com o bem-estar daquele com quem crescera junto.
Tudo começou quando Francis permitiu – sim, permitiu – que seus estúpidos amigos trancafiassem Alfred com aquele inglês no quarto. Claro, porque se não o tivessem feito, Alfred jamais teria decidido seguir com aquela loucura. Ou pelo menos, não teria se envolvido tanto. Era o que Matthew queria pensar que poderia ter acontecido, mas lá no fundo, ele sabia que o irmão iria até o inferno se precisasse, se estivesse realmente fascinado pelo tal de Arthur.
A verdade era que jamais tiveram a coragem de conversar a respeito disso. Alfred bancou muito bem o irmão protetor e ciumento quando chegou em casa com a notícia que Matthew namorava Francis. Armou o maior escândalo, disse que Matthew era tolo e inconsequente e que sairia ferido, porque provavelmente aquele sujeito era um pervertido. E quando o irmão questionou em que Alfred se baseava para afirmar aquilo, ele se calou. Foi quando Matthew percebeu que os ciúmes que seus olhos transmitiam não eram direcionados a ele. Preferiu manter aquilo para si, pois sabia que o irmão negaria tudo veementemente e da maneira mais cínica possível. Mas continuava a ser triste, porque lá no fundo, Matthew sentia profunda inveja da dedicação que o irmão empregava naquele seu relacionamento ilusório. Queria se sentir tão protegido quanto Arthur parecia ser, gostaria muito que alguém com a mesma dedicação de Alfred se dispusesse a amá-lo. Tinha Francis, mas não sabia até que ponto o namorado estava envolvido emocionalmente com ele, tudo porque Matthew sabia bem demais como ler as outras pessoas.
Nunca foi dito, nem mencionado, mas Matthew tinha a impressão que Arthur – sim, de novo Arthur – tinha um lugar especial no coração de seu namorado. Porque mais de uma vez, ele viu a expressão inquieta de Francis quando Arthur telefonou choramingando por causa de Alfred. Porque mais de uma vez, em um momento que era para ser só deles, ele ouviu da boca de Francis que aquilo tudo o preocupava demais.
Por isso era que a cabecinha de Matthew estava ocupada demais com preocupações fundadas e infundadas para se distrair com o jogo na TV.
Suspirou outra vez e ficou brincando com o suco quente, girando o copo rápido o suficiente para que o líquido ameaçasse sair, mas não o suficiente para que de fato derramasse. Por certo, aquilo não duraria muito.
Alfred abriu a porta escandalosamente, como sempre, aliás. O que tirou a concentração do jovem sentado na sala e fez com que ele derramasse uma boa parte do suco em si mesmo.
“Obrigado, Alfred.” Murmurou para si, vendo suas roupas encharcadas.
Ignorando o chamado do irmão, Matthew se levantou, sequer se predispondo a desligar a TV, e subiu para seu quarto para trocar de roupa. De repente, toda a angústia anterior se esvaiu e ele se lembrou do quão irritado estava com as atitudes de Alfred quando ouviu a voz do irmão ecoar pelo corredor, agora bem próxima de seu quarto. Cansado, passou a mão no rosto e massageou as têmporas.
“MATTIE” Ele berrou desnecessariamente. “Eu estava te procurando por toda a casa! Porque não respondeu?”
Porque não queria. “Porque estava aqui no quarto me trocando, Alfred.”
“O que aconteceu? Por que você está todo sujo assim?”
Matthew rolou os olhos.
“Nada demais, derramei um pouco de suco.” Ele esperava algum comentário sem graça da parte do irmão, mas para a sua imensa surpresa, o outro apenas assentiu, quase compreensivo.
“Você está bem, Alfred?” Arqueou a sobrancelha.
“Sim, por quê?”
“Nada. O que você quer?”
Alfred caminhou até a cama do irmão e ali se fez à vontade. O irmão se sentou em uma poltrona em um dos cantos do quarto, pensando que talvez daquela vez o assunto fosse longo.
“Diga, Mattie, você lembra do Braginski?” Perguntou, adquirindo um ar mais sério.
“Aquele russo ridiculamente grande que você odeia e que por peça do destino é seu chefe?”
“O infeliz mesmo.”
“O que tem ele?”
“Pode ser que ele esteja causando problemas ao Feliks, e eu preciso ajudá-lo.”
“Alfred, você quer ser o herói de novo?”
“Isso também, mas...” Ele sacudiu a cabeça como se estivesse decepcionado consigo mesmo. As cenas de mais cedo não abandonavam a sua mente. “A realidade é que eu tenho uma dívida com ele.”
“Uma dívida?”
“Sim. Foi ele que conseguiu um meio de eu encontrar o Arthur.”
Matthew se remexeu de maneira desconfortável, claramente incomodado pela simples menção a Arthur. Bem que ele suspeitara do súbito interesse de Feliks pela relação de Alfred.O que normalmente passaria despercebido por seu irmão, ele apostou. Mas Matthew muitas vezes o subestimava. Apesar da longa convivência, deixava-se enganar pelo jeito ingênuo, alegre e até mesmo idiota de ser do mais jovem. A personalidade de Alfred era uma armadilha, porque sua perspicácia transcendia a capacidade de uma pessoa ordinária de percebê-la. Tudo ou quase tudo o que ele fazia era consciente, calculado e arquitetado para um fim específico. E sendo suas atitudes todas tão pré-estabelecidas, sua capacidade de perceber as mudanças no ambiente era da mesma forma aguçada.
Ele pigarreou, sentando-se na cama do irmão com as pernas cruzadas. Chegara o momento de deixar de protelar e conversar a respeito daquilo. Alfred percebia que o irmão não se sentia tão à vontade com a ideia de ele estar se relacionando com Arthur e queria – precisava – entender a razão.
“Algum problema, Mattie?”
“Não.” Mentiu descaradamente. “Nenhum.”
“Por que você não gosta do Artie?”
“Eu nunca disse que não gostava.”
“Bom, você obviamente demonstrou.”
“Eu não o odeio.”
“Então?”
Parcialmente surpreso com a sagacidade do irmão e parcialmente irritado com a insistência, Matthew se levantou e começou a andar pelo quarto como um leão enjaulado. A tonalidade de sua voz, sempre calma apesar do turbilhão interno, soava como se narrasse uma história para uma criança dormir.
“Eu não odeio Arthur. De fato, eu sequer o conheço, a não ser de vista e pelas histórias que ouço sobre ele. Mas isso tudo de vocês terem um relacionamento sendo ele casado me incomoda muito, sabe? Eu tenho medo que no final, você saia machucado. Eu sei que você é adulto e tudo mais, mas eu me preocupo. Você é meu irmão, afinal.”
Matthew se sentiu mais leve, como se tivesse se livrado de toneladas de preocupações e culpa acumulados. Pelo menos de parte deles. Ele esperou uma resposta compreensiva, ou mesmo repreensiva da parte do irmão, mas diante do seu silêncio, levantou a cabeça, preocupado.
A expressão de Alfred era de choque, terror e surpresa, se tudo isso pudesse, no mesmo momento, se encaixar em uma pessoa só. A situação daquela manhã, polêmica o suficiente para deixar o americano tão pensativo, nem de longe se equiparava ao que ele acabara de escutar. Matthew engoliu seco, repassando mentalmente o que acabara de dizer, na esperança de encontrar seu erro. E, ao percebê-lo, levou a mão à boca.
“Você disse casado?”
“E-Eu...”
“Acho que você se enganou, Mattie.” Alfred levantou a cabeça, com as íris azuis-celestes fitando o irmão intensamente. “Arthur tem uma namorada, mas não é casado. Ele nem usa aliança.”
Matthew não sabia se era prudente continuar com aquilo. Ele já vira Alfred daquele jeito, claro. Aconteceu com toda e qualquer revelação bombástica que lhe foi feita, em maior ou menor intensidade. Às vezes ele ficaria apenas estático, tentando não acreditar no que ouvira; às vezes desatinaria a chorar ou mesmo a explodir de raiva. E era dessa última situação que Matthew tinha medo.
Ele olhou bem nos olhos do irmão, engoliu seco e tomou sua decisão.
Fale com o autor