Delilah

11 Desmoronando


Notas iniciais
Yo! Desculpem a demora em atualizar. Não tinha encontrado tempo para terminar o capítulo e confesso que fiquei sem inspiração numa parte. Tanto é que vocês poderão perceber que é a que parece mais meia boca.
Esse é, com alguma sorte, o penúltimo capítulo da fic.
Boa leitura.

“Você não está falando sério... Está?” Perguntou com todo o cuidado do mundo, como se o seu tom de voz tivesse o poder de influenciar na resposta.


“Estou falando sério.” Mas Alfred não mais o encarava. Como podia falar a verdade se não o encarava?


“P-Por quê?”


“Você não deveria estar perguntando isso, você sabe... Não sabe?”


De repente, como um flash, tudo fez sentido. Alfred sabia. Ele sabia de alguma coisa. A cabeça de Arthur começou a girar. Até onde ele sabia? O que ele sabia? Quem havia lhe contado e por quê? As únicas pessoas que conheciam em comum eram Francis e Matthew. Francis, ele não seria capaz, seria? Era muito mais provável que tivesse sido Matthew.


Mas isso não importava, importava?


“O que você sabe?” Sua voz cortou o som da chuva torrencial contra a lataria do automóvel.


“Você tem uma esposa.” – E um filho. As palavras de Natasha ecoaram em sua cabeça. Ele não ousou repeti-las. Na verdade, ele nem queria saber se eram verdade ou não. Estava feliz com apenas metade do conhecimento da realidade.


Arthur massageou as têmporas e sentiu que uma crise de moralidade se anunciava. Novamente, como havia feito desde o primeiro dia em que concordara com aquela estupidez, ele se questionaria o que estava fazendo, por que estava fazendo e como era incapaz de se arrepender de estar com Alfred. Que grande hipócrita.


“Eu quero a verdade, Arthur.” Alfred disse de forma suave. “Eu não estou nesse direito. Por Deus, eu sou tão ou mais hipócrita que você. Você não tinha a obrigação de me contar, eu sei. Mas eu preciso saber o que mais você não me disse.” Ele parou para respirar. “Senão eu não posso sentir que fui parte, mesmo que indesejada, da sua vida.”


“Você não é indesejado.”


Silêncio.


Arthur respirou fundo. E agora, ele perderia Alfred para sempre. Merecidamente, ele bem sabia.


“Eu tenho um filho.” Ele viu Alfred prender a respiração. Pensou em parar por ali, mas o americano assentiu, indicando que deveria continuar. “Peter tem 9 anos de idade, já sinto que está começando a se rebelar contra a autoridade do pai.” Seu sorriso foi repleto de ressentimento consigo mesmo, quase que nostálgico. “Mas é um garoto maravilhoso, sabe. Eu não poderia pedir por um filho melhor que ele. É uma vergonha que ele me tenha como pai.”


“Emily é minha esposa. O que eu disse uma vez sobre conhecê-la na universidade é verdade. Eu ainda era um calouro quando nos vimos pela primeira vez. Mas só começamos a namorar no último ano. Foi mais ou menos quando ela engravidou de Peter. Foi acidental, na verdade. Na época eu ainda não tinha certeza quanto aos meus sentimentos por ela. Eu a amava de verdade, como a grande amiga que ela foi e continua a ser para mim. Mas eu tinha acabado de terminar a minha conturbada não relação com Francis e eu estava confuso, confuso sobre o que eu tinha que fazer, sobre se era certo sentir atração por homens. Peter veio como uma bomba e uma salvação ao mesmo tempo para mim. E eu aprendi a amar Emily como minha esposa. Amei-a demais durante todos esses anos. Casamo-nos e alguns meses depois Peter nasceu. Ele foi uma verdadeira benção na minha vida. Eu o amo mais do que tudo. E pouco a pouco cuidar dele me permitiu acostumar com a vida de um homem casado. Um homem normal.”


“...”


Alfred sentiu algo familiar nos nomes citados pelo inglês, mas a bagunça em sua mente não lhe permitiu digerir normalmente suas suspeitas.


“Sabe, Alfred, eu cresci em uma família conservadora e tradicional. Tive três irmãos mais velhos, todos bem sucedidos em sua vida profissional e amorosa. Todos seguiram a tradição da família e se tornaram advogados exemplares. Eu, por outro lado, era a criança que gostava de unicórnios e tinha amigos imaginários. Segui outro caminho e escolhi a arquitetura. Você pode imaginar o que os meus pais acharam disso, não pode?”


Alfred engoliu seco e não respondeu. Ele continuava a não olhar diretamente para Arthur. Mas quando o fez, de relance, viu o canto de seus lábios contorcidos.


“Então pelo menos a parte da universidade é verdade.” Disse com um pouco de azedume.


“É.”


Silêncio.


“Você me odeia.” Não se sabia se aquilo era uma pergunta ou uma constatação.


Alfred negou com a cabeça, mesmo assim.


“Você é um babaca. Mas eu também sou. E simplesmente eu não consigo odiá-lo. Mas estou... Decepcionado. Confuso. Chateado.”


“Então...”


“Então.”


Lá fora continuava a chover.


“Você pretende dizer alguma coisa?”


“Não tenho nada a dizer.”


“Então estamos de fato terminados?”


“Acho que você me ouviu bem.”


“Então olhe para mim, git! Termine isso direito! Ao menos olhe nos meus olhos e me diga que acabou. Diga que você me odeia e que você nunca, nunca mais quer me ver. Que eu sou a pior das escórias, que mereço morrer sozinho. Diga isso para eu finalmente poder tirar essa assombração que é você da minha cabeça.”


“NÃO POSSO, OK? Você quer que eu diga todas essas coisas, mas eu não posso! Você não acha que eu quero dizer isso, hein? Que você não merece ouvir? Se eu PUDESSE eu já teria dito.” Ele rosnou. “Mas eu não consigo, merda.”


“Por que não?” Ele perguntou desolado. Não era digno nem das melhores, nem piores palavras de Alfred. O que era Arthur, afinal?


“Porque eu te amo. Você é o amor da minha vida. Eu nunca senti isso por ninguém, ok. E eu me sinto tão...” Ele deu uma risada sarcástica. “Traído.”


Arthur o encarou, sacudindo a cabeça, estupefato.


“Por favor. Não diga isso.”


“O que você quer que eu diga?” Perguntou secamente.


“Odeie-me. Por favor.”


“Acredite em mim, é o que eu mais quero.”


Arthur engoliu com dificuldades. Então era assim que as coisas terminariam. Da maneira mais amarga possível. Tudo isso porque elas começaram com o pé esquerdo. Porque elas sequer deveriam haver começado. Porque era tudo uma ilusão de que ele finalmente podia ser aquela pessoa que sempre quisera ser, mas que nunca pudera. Por que ele jamais poderia ter sido isso, já que havia sido covarde demais para temer a represália por suas escolhas. Era por isso que Arthur estava errado. Porque sentira dúvida e porque permitira que a dúvida o conduzisse ao longo de toda a sua vida.


O barulho da chuva começou a incomodá-lo. Ele fechou a camisa e o casaco e abriu a porta do carro.


“Aonde você vai?”


“Não seja estúpido. Eu não tenho mais razão para ficar aqui. Estou indo pra casa.”


“Está chovendo, eu te dou uma carona.”


Arthur colocou o primeiro pé para fora e negou com a cabeça. Tinha um sorriso amargo no rosto. Sabia que não podia ficar mais nenhum minuto com Alfred. Precisava reparar o dano. O dano que causara no americano, o dano potencial que causaria a Emily. O dano que causaria em Peter.


“Desculpe por ter mentido. Eu estava com medo.”


Ele saiu e bateu a porta, sem olhar para trás.


Decidiu caminhar, a despeito da chuva.


Não podia ir para casa naquela situação. Nem queria. Nem devia. Precisava pensar, refletir sobre o que fazer. Se aquela não era a hora, nenhuma seria.


O que seria da sua vida a partir de então?


Pensou que isso não tinha nada a ver com Alfred, mas na verdade, tinha tudo a ver. Lá no fundo, o inglês sabia que o tempo cuidaria de curar o seu coração partido. Mas essa era a menor de suas preocupações. Coração partido é uma tolice, sempre fora. Mas esse, em especial, despertou-lhe uma nova perspectiva. Ele poderia ter ido até Francis e pedido alguns conselhos, como habitualmente fazia. Mas dessa vez, sentia que não era o seu amigo o responsável por guiar suas decisões. Ninguém o era, senão ele próprio.


Mas o que poderia, o que deveria fazer? Chegar, beijar Emily e dizer que estava tudo bem, como sempre? Seria outra mentira que se acumularia nesses meses todos. Outro aspecto insuportável de seu caráter. A questão é se ele ainda era capaz de fazê-lo. Porque falar com Alfred daquela forma tão franca, contar-lhe toda a verdade, pareceu despertar-lhe do limbo da comodidade e da negligência.


Sempre fora covarde, isso desde pequeno. Tinha medo dos irmãos mais velhos, apesar dos constantes conflitos. Tinha medo da repreensão paterna, porque não era bom o suficiente. Tinha medo de fazer mal aos outros, mas por seu medo acabava fazendo. Tinha medo de si próprio e de suas escolhas, por isso sempre escolhia o caminho mais seguro.


Segurança. Não era isso o que sempre quis? O que tivera por uma década ou mais e que agora era fruto de seus próprios questionamentos?


Ele olhou para a aliança em seus dedos. Pela primeira vez nesse quase um ano de relacionamento com Alfred, ele se esquecera de tirá-la. Ele deslizou-a para fora de seu dedo e contemplou-a enquanto as gotas de chuva deslizavam pelo ouro reluzente. Sentiu lágrimas quentes descerem por suas bochechas e misturarem-se à chuva gelada. De repente, ele sabia o que deveria ser feito. Não poderia, nem conseguiria mais mentir para a esposa.


Restava-lhe uma alternativa.


–--


Matthew batia o pé, nervoso. Olhava para o relógio e de volta para fora, através da janela. Era quase meia noite e não tinha uma notícia sequer de Alfred. Não deveria estar assim preocupado. Seu irmão era crescido demais para cuidar de si mesmo.


Mas ele tinha aquela péssima sensação martelando contra seu peito.


Deu um pulo ao ver o carro parar na garagem e correu até a porta, ignorando o quão estranha aquela ansiedade toda poderia parecer se estivesse tudo bem.


Mas não estava.


Assim que Alfred entrou, ele desabou nos ombros do irmão. O abraçou com tanta força e necessidade que se a situação não fosse inusitada, Matthew o empurraria com medo de quebrar as costelas. Ele sentiu o irmão tremer e logo lágrimas quentes contra seu ombro. A realidade o atingiu como uma pedra.


“Meu Deus, Alfred, o que aconteceu?”


“A-Acabou, Mattie.” Ele soluçou. “Acabou.”


“Oh meu Deus, Alfred...”.


“O que eu fiz? Por que eu sugeri dar um tempo? Eu não queria isso.” Outro soluço. “Eu estou com raiva, Mattie, muita raiva. Mas eu o amo, o amo incondicionalmente. Eu não sei o que eu vou fazer a partir de agora. Eu realmente não sei.”


“O que você está dizendo? Você viveu a vida inteira perfeitamente sem ele. Você pode superar isso. Você...”.


Mas ele não podia. No momento que Matthew viu a expressão desolada do irmão – desolada de uma forma que ele jamais, em toda a sua vida, havia visto, com olhos e nariz inchados, bochechas coradas, lábios contorcidos e olhos tão marejados que mal conseguiam se manter abertos – Matthew se sentiu impotente. Inútil. Incompetente. Uma vergonha de irmão.


“P-Por favor, Alfred... N-Não chore. M-me desculpe.”


E ele começou a chorar também, aferrando-se ao irmão na tentativa de dar-lhe algum suporte.


Alfred não comentou sobre mais nada do que havia acontecido. Mas dessa vez, não precisava. Ele chorou mais ou menos desde que Matthew lhe sugeriu comer alguma coisa até finalmente ir dormir. Seu irmão não podia estar mais preocupado.


Quando acordou no dia seguinte, ele sentiu mãos ternas acariciarem seus cabelos. Ele gostava daquele toque. Parecia um daqueles agradáveis momentos que tinha a sós com Arthur, nos quais ele se deitava no colo do inglês para ganhar algum cafuné e atenção e eles ficariam ali, conversando, ou mesmo apenas curtindo um a presença do outro. Mas a realidade logo falou com Alfred: Arthur não podia estar lá.


Sentiu os olhos arderem um pouco quando tentou abri-los e uma sensação estranha no nariz. Sentiu uma onda de ansiedade se antecipar em seu peito. E se fosse Arthur? E se ele tivesse voltado, milagrosamente encontrado a casa de Alfred e agora tivesse vindo implorar para voltarem? Se, talvez, Alfred conseguisse fazê-lo se sentir um pouco mais culpado, eles até reatassem.


Abriu os olhos e uma forma embaçada surgiu a sua frente. Fez algum esforço para vê-lo.


“Kiku?”


“Seu irmão telefonou.” Ele esticou o braço até a mesa de cabeceira de Alfred e pegou seus óculos, estendendo-os para o amigo. “Ele não me disse nada, apenas que você precisava de mim aqui. E pelo que estou vendo” ele tocou o nariz ainda inchado do amigo. “Você deve estar.”


Alfred esfregou areia dos olhos antes de colocar os óculos.


“Tem a ver com Arthur, não tem?”


O amigo assentiu.


“Vocês terminaram?”


Alfred deu um risinho de desgosto.


“Terminar soa como se o que tivéssemos fosse algo concreto.”


“E não era?” Kiku não perguntou com inocência. Havia alguma certeza em sua voz, porque ele perguntou querendo mostrar para Alfred que estava enganado. Que o que tivera fora algo concreto até demais.


“Não tem como ter sido.”


O outro apenas meneou a cabeça.


“Como você está se sentindo?”


“Um pedaço de merda. Uma merda completa. Minha cabeça dói, meu peito dói, meus olhos ardem e meu nariz está levemente congestionado. Sinto falta dele e não faz nem um dia que nos vemos pela última vez. Você sabia que isso ia acontecer, não sabia?”


Kiku assentiu e Alfred cobriu o rosto com as mãos.


“O Feliks sabe?”


“Não. E ele não precisa, pelo menos por enquanto. Nós dois sabemos que ele pode falar um pouco demais nessas situações e na sua condição eu duvido que você ficaria confortável com isso.”


Alfred deu um pequeno sorriso.


“Obrigado.”


Apesar de todo o suporte de Kiku e de Matthew, aquela foi uma semana bastante difícil para Alfred. Com frequência ele se pegava com lágrimas nos olhos enquanto pensava em Arthur e era algo bastante constrangedor justificar isso para estranhos na rua ou para seu próprio irmão. Ele se concentrou ainda mais no trabalho como forma de se distrair e por isso era o primeiro a chegar e o último a sair. Esquecia o celular em casa de propósito apenas como artimanha para evitar cair na tentação de ligar para Arthur, porque apesar de haver apagado seu número da agenda, não o havia feito de sua memória. Eventualmente tomou coragem para falar a respeito com Feliks e o amigo lhe sorriu e assegurou que tudo terminaria bem no final – acrescentando que ele nunca havia ido com a cara daquele inglesinho metido a almofadinha mesmo.


Várias vezes ele se odiava por não conseguir culpar Arthur por tudo, porque a culpa não era dele mesmo. Quem tomou a iniciativa? Quem insistiu? Quem quis aquilo mais do que tudo porque se deixou consumir por empolgação e luxúria? Alfred era culpado e sabia bem disso.


Uma coisa que incomodou Alfred, mas que ele deixou passar, foi o fato de Kiku e Feliks estarem muito estranhos perto dele. Como se quisessem lhe falar alguma coisa, mas tivessem medo. Várias vezes um ou outro tentou iniciar a conversa, mas nunca conseguiam ir adiante, quer fosse pela conjuntura do ambiente, quer porque o americano não permitisse. Não era como se Alfred quisesse ouvir, de qualquer forma. Ele estava incomodado porque sentia que toda aquela maldita empresa o encarava com algo como dó. Até a recepcionista do térreo parecia ter alguma piedade no olhar.


O americano esticou-se em sua cadeira, suspirando de fadiga ao terminar de elaborar um último relatório. Sentiu-se ligeiramente orgulhoso da própria produtividade. Olhou pela janela e viu a si próprio refletido, em contraste com as luzes da cidade. Estava com uma aparência desgastada. Suas enormes olheiras não conseguiam se esconder atrás das lentes dos óculos e seu ar era de cansaço. Naquele mesmo dia Kiku e Feliks lhe telefonaram algumas vezes, mas ele não estava afim de atender. Olhou para o relógio e constatou que já passava das dez da noite. Talvez fosse hora de finalmente ir pra casa.


“Ou não.” acrescentou mentalmente quando ouviu o telefone tocar. Não conhecia o número, mas com alguma certeza já o havia visto mais de uma vez. Era um número estranho que sempre que telefonava Alfred não sentia vontade de atender, portanto apenas deixava tocar.


Mas de que adiantaria, se a pessoa continuasse a insistir?


“Alfred Jones falando.”


“Por que você não me atendeu antes?” Ele ouviu a voz sibilar no outro lado da linha.


“N-Natasha?”


“Telefonei a semana inteira!”


“Estive ocupado.”


“Com o quê, exatamente? Soube que você e o inglesinho terminaram.”


“Cale a boca. Quem te contou?” Rosnou.


“Então é verdade.” Ele praticamente pode visualizar o sorriso vitorioso dela.


“Estou desligando.”


“Espera! Sobre nossos planos...”


“Como você pode ver, não são mais problema meu. Adeus, Natasha.”


Antes que ela pudesse continuar, ele desligou. Ela tentou telefonar mais algumas vezes – muitas, na verdade. Mandou mensagens de texto, inclusive. Mas ele apenas desligou o celular, sentindo-se livre enfim para fazer o que lhe desse na telha.


Só que antes de ir embora ele precisava deixar os relatórios na sala da presidência, como de praxe.


Com a pasta em mãos ele caminhou na direção do elevador. E tomou um susto ao ver a porta se abrir e Feliks e Kiku, com uma expressão muito desesperada, se materializarem na sua frente.


“Oh meu Deus, ele está aqui! GRAÇAS A DEUS!” Comemorou o loiro.


“Alfred, por que você não atendeu o telefone?” Kiku parecia bastante preocupado.


“Não estava afim.” Ele deu de ombros e entrou no elevador, apertando o botão da cobertura. “Vocês vieram aqui só pra isso? Pra ver por que eu não atendia o telefone?”


Seus amigos trocaram olhares significativos.


“Na verdade, não...”.


“Alfred, onde estamos indo?”


“Eu preciso deixar isso aqui na sala da presidência antes de ir pra casa. Adiantei algumas coisas que eu tinha que fazer.”


“Não!” Feliks se adiantou. Ele parecia consternado. “Você não pode ir até a sala da presidência!”


“Por que não?” O americano arqueou a sobrancelha, começando a perder a paciência com os mistérios dos amigos. Se havia um problema, por que não diziam de vez então? “Vocês querem me explicar o motivo?”


Novamente eles se olharam. Kiku pigarreou.


“A coisa é séria. Na verdade, acabamos de confirmar.”


A porta do elevador abriu e Alfred deu um passo para fora. Feliks imediatamente o puxou de volta.


“Você quer se acalmar? Estamos tentando contar o que está acontecendo!”


“Por que eu não posso me livrar logo desses papeis?”


“Argh! Você não entende!”


“Acalme-se, Feliks.” A mão de Kiku o afastou de sua tentativa de conter o americano a todo o custo. “Alfred, se você está disponível a ouvir, não vamos tomar mais do que cinco minutos do seu tempo.”


Alfred assentiu.


“Vai, diz.” Feliks pressionou.


“Logo que aquele evento com aquela pessoa aconteceu, uns rumores que já corriam na empresa chegaram aos meus ouvidos.” Ele desviou o olhar, meio desconfortável. “Feliks não tardou a tomar conhecimento. Quisemos lhe contar, mas o seu estado de espírito na última semana não tem sido muito receptivo e sempre que víamos uma oportunidade, você ou qualquer outra pessoa a arruinavam.”


“O quê? Vai me dizer que todo mundo sabe que eu sou gay? Não dou a mínima.”


Kiku negou com a cabeça.


“Não é isso.”


“É o que então? Eu vou ser demitido?” A essa altura, Alfred já havia alterado o tom de voz. Sua cabeça doía, estava cansado de tanto trabalhar e sem paciência, porque sua vida pessoal já estava complicada o bastante pra ele se preocupar com fofoquinhas do trabalho. E se Ivan quisesse demiti-lo, ótimo pra ele. Que ele se virasse com aquela porcaria de empresa que Alfred nem gostava de trabalhar. Ele sabia que precisava sair dali, mas o contrário parecia acontecer: quanto mais ele tentava o seu desligamento da empresa, mais preso a ela ficava. Então se fosse demitido seria maravilhoso.


“Muito pelo contrário, Alfred.” Ele ouviu a voz alegre de Ivan cantarolar. Atrás dele vinha Toris e o magnata chinês Wang Yao, cuja única coisa que Alfred sabia a respeito era que o sujeito era um grande sócio do russo. “Você será promovido.”


O americano se virou, com a pura descrença escancarada em sua expressão.


“... A diretor-geral da filial de San Francisco.”

–--


“Por que vocês não me disseram antes?”


O tom de Alfred era magoado. Estava sentado no sofá da sua sala, cercado por Feliks, Toris, Kiku e pelo irmão.


“Como eu disse, nós tentamos.”


“Vocês deveriam ter gritado na minha cara!” Ele se sentia humilhado. Humilhado por ter seu futuro decidido à revelia de sua opinião e por ter sido incapaz de protestar. O sorriso cínico de Ivan e sua própria expressão de descrença ainda estavam frescas em sua memória e a cada flash o sangue de Alfred parecia ferver de raiva.


“E ia adiantar?” Feliks perguntou. “Desculpa, amigo, mas eu não me lembro de te ver esbanjando reação alguma ao que o Ivan disse. Se não te conhecesse, eu podia jurar que você estava de boa com essa promoção.”


“Você sabe que eu não estou.”


“Tenho consciência disso.”


“E que eu não posso simplesmente me demitir.”


“Eu sei.”


“Por que não?” Seu irmão perguntou.


“Ivan disse que se Alfred não aceitasse o cargo, faria algo que colocaria Toris em uma situação delicada. Provavelmente foi um blefe, mas surtiu efeito.” Kiku comentou, encarando o amigo. “Você sabe que ele estava mentindo, não sabe?”


“Será que estava mesmo?” Alfred grunhiu. “Não subestime o Ivan, Kiku. Ele é capaz de muita coisa.”


“O que ele possivelmente sabe de Toris que o permite chantageá-lo tanto?” Matthew se perguntou e Feliks e Alfred se entreolharam nervosos.


Seu plano ficou em aberto desde o acontecimento da sala da presidência. Nunca mais falaram a respeito. E agora a questão parecia ser central, mais uma vez.


Parecia.


Na mesma hora a campainha tocou. Kiku desencostou-se da parede e voluntariou-se para verificar quem era. Um ar de desconforto entre os dois colegas de trabalho passou despercebido por Matthew, que apenas parecia cogitar uma resposta à própria pergunta.


Todos ficaram um tanto surpresos quando Kiku apareceu na sala com Natasha logo atrás. Ela tinha algo nas mãos e parecia visivelmente insatisfeita. Lançou um olhar frio para Alfred, como se o acusasse de alguma coisa.


“Precisamos conversar.”


Alfred deu de ombros.


“Você pode falar.”


“... A sós.”


“Não tem nada que você tenha que me falar que não possa dizer na frente dessas pessoas, Natasha. Já chega dos seus segredos e do jogo que a sua família parece gostar.”


A mulher arqueou a sobrancelha, irritada por haver sido contrariada. Ela cruzou os braços ali mesmo onde estava e sacudiu a cabeça de leve e lançando para os demais presentes um olhar ameaçador. Kiku esgueirou-se para o corredor, enquanto Matthew e Toris se encolheram no sofá e Feliks tentou se ocultar atrás da cortina.


“Muito bem então. Você é um inútil.”


“Oh, que bom que você descobriu isso a tempo. Mas eu não vejo como isso é uma novidade.”


Ela jogou o jornal que carregava no colo de Alfred. Ele a indagou silenciosamente e o abriu, deparando-se com a manchete da primeira página.


“Parece que você não estava muito afim de acabar com o meu irmão, porque aparentemente outra pessoa o fez em seu lugar.”


Na manchete havia uma imagem dividida em duas: de um lado a foto de Ivan e do outro a de seu sócio Wang Yao. O texto em letra capital trazia a possibilidade de fusão entre a empresa do russo e a de seu sócio, com filial em Beijing.


“E daí? Isso não prova nada.”


“Isso explica muita coisa.” As atenções da sala se voltaram para Toris, que se sentiu ligeiramente coagido por isso. “Quero dizer, eu mal via o sr. Wang na empresa há alguns meses. Ele sequer frequentava as reuniões. E aí, de repente, ele começou a frequentar a sala da diretoria. E a vir mais vezes para os Estados Unidos. E teve aquele episódio que...”


“Aquele episódio...?” Natasha praticamente o ameaçava. Toris engoliu seco.


“Quero dizer, eu nunca pensei nada de errado depois daquele dia. Mas acho que foi por isso que o presidente começou a pegar no meu pé. Eu ouvi parte de uma conversa entre eles, sobre a transferência do Alfred e... Eu presenciei uma cena que não deveria.”


“Que cena, Toris?” Foi a vez de Alfred perguntar. “E então quer dizer que há muito tempo você sabia dessa transferência? Por que você não me contou?”


“Eu estava sendo chantageado! E o senhor Braginski me assusta. Ele é maníaco, quando quer, sabe? Você é uma das poucas pessoas ali que não tem medo dele.”


“Isso é verdade.” Kiku acrescentou apática.


“O homem é um sádico, totalmente.”


“Não falem assim de Ivan.” Natasha rosnou. “O que você viu, inútil?”


Toris se encolheu o que pode.


“Ele estava sobre o sr. Wang. Na mesa, quero dizer. Eu não consigo lembrar muito bem, mas era constrangedor. Tentei sair dali antes que me percebessem, mas não consegui.”


“Então... Você quer dizer que você nunca... Dormiu com o Ivan?” Feliks perguntou com uma ponta de esperança na voz. Toris se virou para ele e abriu a boca, visivelmente ultrajado.


“Eu NUNCA faria isso!” Seu tom era ofendido. “Eu posso me sentir coagido pelo sadismo dele, mas eu JAMAIS dormiria com outra pessoa, Feliks. Você me magoa insinuando que eu possa ter feito isso.”


Alfred bateu palmas e deu uma risada que ecoou no silêncio do recinto.


“Ótimo! Ótimo! Temos um final feliz, finalmente. Quer dizer então que todas as nossas suspeitas eram infundadas e que perdemos tempo acreditando numa ilusão. Mais uma pro meu rol, aliás.”


Os presentes se remexeram de forma desconfortável.


“Do que ele tá falando?” Natasha perguntou, mas ninguém respondeu.


“Agora que seu problema está solucionado, Natasha, acho que não temos mais negócios a tratar.” Ele se levantou do sofá e a tomou pelos braços, educadamente conduzindo-a até a porta. “Você está livre para ir.”


Ela lhe encarou de modo reprovador.


“Vejo que sim. Quer saber, garoto? Você é um inútil. Não consegue nem cumprir um acordo.” Ela deu um passo para fora, mas repentinamente se virou e se inclinou para o americano, com um sorriso cínico no rosto. “Vai ver que é por isso que aquele sujeito inglês te deixou.”


E assim, Alfred fechou a porta na cara da mulher.

–--


Arthur estava sentado no sofá, balançando a perna de modo inquieto, enquanto mordiscava o próprio polegar. Ele encarou o celular e depois a parede, pensando em como Emily demorava, apesar da seriedade com a qual ele a havia convocado.


Aquela semana não havia sido fácil na residência dos Kirkland. Havia um clima estranho no ar que até o jovem Peter havia percebido. Um ar triste, desagradável e sufocante. Era como se Arthur houvesse atingido o ápice de sua distância e finalmente contaminado a esposa com o comportamento apático. Eles mal se falavam quando se cruzavam, cada um com seu próprio olhar distante. Os beijos de boas vindas e despedida pareciam azedos e forçados. Tudo isso soando como um alarme da deterioração acelerada e incontornável de um casamento que um dia fora feliz, mas que desde o princípio estava fadado ao amargo fim.


Mesmo durante a noite, ainda nos primeiros dias após o acontecimento com Alfred, Arthur tentara abraçar a esposa e fazer algo mais, mas era como se nenhum deles tivesse mais vontade disso.


Eles tentaram manter Peter longe disso. Por isso, o pequeno passava agora cada vez mais tempo na escola, ajudando no asilo ou na casa de Francis. Tudo uma tentativa desesperada de seus pais para não fazê-lo presenciar o horror da apatia parental, para aliená-lo dos problemas e poupá-lo dos problemas dos adultos. A questão era: por quanto tempo?


Arthur passou a mão pelo cabelo de forma nervosa, repassando mentalmente tudo o que havia ensaiado sozinho ao longo daquela semana. Desde o dia que Alfred rompera com ele, o inglês havia tomado a decisão de contar tudo para Emily. Sem qualquer censura, tudo o que ela desejasse saber. Porque chegou a conclusão de que não poderia passar o resto da vida mentindo e porque, provavelmente, com o que já havia feito até ali, o dano arriscava ser irreparável.


Seu coração disparou quando ouviu a porta se abrindo e o som dos saltos da mulher contra o chão de madeira. Apenas pelo som ele supôs que ela pendurara o casaco e jogara as chaves na vasilha sobre a mesa do hall de entrada.


“Desculpa a demora, vi sua mensagem há pouco tempo. Deixei Peter no asilo com o amigo dele.”


Arthur assentiu, engolindo seco.


“Você queria falar comigo.” Ela constatou, com o tom vazio. Ela sabia – mais ou menos – o que estava por vir, porque não era idiota.


“Sim.” Ele lambeu os lábios ressecados. “Acredito que eu lhe deva algumas explicações... Sobre... Uh. Tudo.”


“Com certeza você deve.”


Emily se segurou para não berrar logo com Arthur. Para não pedir que ele a livrasse daquele peso no peito logo, dizendo se tinha ou não outra. Explicando o porquê de ela não ser mais boa o suficiente. Mas no lugar disso, ela apenas o encarou com alguma ansiedade estampada nas íris azuis.


“Eu acho... Que nós não podemos mais ficar juntos.”


Ao contrário do que ele esperava, ela não chorou. Seus olhos sequer marejaram. Ela apenas o encarou com o queixo apoiado na mão.


“Por quê?”


Arthur se desestabilizou um pouco. Ele havia simulado em sua mente todas as possíveis reações de Emily e suas próprias reações, seguro de que agiria conforme o planejado. Ele a encarou com alguma surpresa, pensando se ela estaria usando de toda a sua força para se sustentar ou se já havia, há algum tempo, se acostumado com a ideia.


Ele respirou fundo e reuniu toda a coragem que tinha. Já não adiantava mais esconder nada, não era o que havia decidido? Não voltaria atrás. Apesar de todo o pesar que se seguiria, de toda a tristeza que suas atitudes trariam, ele já havia errado o suficiente para continuar com sua confortável farsa. Era melhor que doesse de uma vez só, como uma faca que atravessa o coração. Ele tinha consciência do quanto às mágoas acompanhavam os relacionamentos. Era inevitável. Afinal, as pequenas tragédias são partes inerentes da existência humana.


Então ele falou. Desde o princípio, sobre sua pequena aventura telefonando para um programa de autoajuda da rádio e de sua pequena farsa. Da ligação de um sujeito que ele nunca viera a saber quem era, uma ligação tão estúpida e mal formulada, mas que lhe impulsionara a fazer tudo mais o que viria a ser feito posteriormente. Do sujeito que conhecera no restaurante e como, por impulso e por uma tentativa idiota de autoafirmação, aceitara o desafio que impusera a si mesmo. De como se envolvera a ponto de dissociar a realidade e o romance efêmero, de como tivera medo de encarar a verdade e perceber que o que fazia era algo passível de ferir os sentimentos de alguém que amava, de como se odiou, de como se aceitou, de como se sentia mínimo e de como tudo terminara, tão amargamente quanto aquele momento em que estavam os dois cônjuges sentados um em frente ao outro, encarando a verdade de um casamento que caíra na apatia e no desinteresse. Ele nunca citou o nome de Alfred.


Ele tinha lágrimas nos olhos. Porque no fundo, lhe doía aceitar que iria estraçalhar os sentimentos de alguém que ele de fato amava. Só não era da forma que esperava. Mas a culpa era toda sua, por não haver sido sincero consigo mesmo, em primeiro lugar, e com Emily, em segundo. Não era como se ele tivesse planejado, mas não era como se pudesse se eximir da responsabilidade. Mas essa é a maneira como as coisas funcionam, ele pensava. Enquanto as pessoas existirem, elas invariavelmente machucarão as outras. E não há nada que se possa fazer quanto a isso.


Ele se sentia triste quanto a Alfred também. Por não haver dado certo. Por havê-lo enganado tanto quanto enganara Emily e a si próprio. Arthur era um mentiroso e tanto.


Emily ficara calada, com o canto dos lábios contorcidos e um olhar vago. Primeiro ela tentou não ouvir, porque uma parte dela tinha esperanças que seus temores não fossem confirmados e que aquilo tudo fosse um pesadelo. Outra tentou entender o marido, porque ela não era besta. Desde a universidade, sabia do interesse de Arthur por homens. E um terceiro lado ficou com raiva. Seu orgulho estava ferido, muito ferido. Ela queria bater em Arthur, dizer coisas horríveis para ele. Ela queria que aquela agonia em seu peito a deixasse, que fosse toda de Arthur. Que toda a angústia que ela sentia recaísse sobre ele. Quando finalmente o encarou, seu olhar era de alguém que se sentia esfaqueado pelas costas. Arthur cogitara isso, só não imaginara que seria tão doloroso ver.


Mas ela não se desfez na frente dele. Ela não se permitiu a isso, e tampouco conseguiria. Porque a raiva, a sensação de traição, não haviam ainda cedido lugar a tristeza.


“Se é assim, eu não tenho mais nada a lhe oferecer. Esse é o fim ideal para nós dois.” Ela disse, com a voz trêmula. Todo o amor que achava que sentia por ele havia cedido lugar à raiva. “Se é assim que tem que ser, então que seja.”


“Então...”


“Está acabado, é isso o que você quer, não é? Então você pode ficar livre novamente.”


“Não fale assim.” A voz dele estava fraca, e cada palavra da mulher lhe atingia como uma pedra. “Você faz parecer que eu fiz de propósito.”


“E isso faz alguma diferença, Arthur? Diga-me: ser proposital ou não, isso muda o que você fez? Porque eu tenho certeza que não.”


Arthur abriu a boca para falar, mas Emily sacudiu a cabeça.


“Não fale. Você vai acabar fazendo mais besteira. Suas palavras não podem mais contra essa confissão.”


“Onde você vai?” Ele perguntou, ao vê-la levantar.


“Não é mais do seu interesse.”


Ela pegou as chaves da vasilha e saiu pela porta principal, batendo com tanta força que o porta-retratos com a foto do dia do seu casamento caiu no chão e trincou.