Delilah
2 Apaixonado por um conceito
Notas iniciais
Enquanto Alfred acordava desesperadamente atrasado, no outro canto da cidade Arthur jurava para si mesmo, mais uma vez, que nunca mais ingeriria alcool.
Ele acordara realmente mal naquela manhã, sendo o seu primeiro contato do dia feito com o vaso sanitário do hotel. E mal teve tempo para curtir a dor de cabeça e o celular já tocava como se sádico fosse.
Ao checar o número, deu um pequeno gemido e jogou o aparelho para o outro lado da cama.
Ainda continuava a se sentir miserável, afinal, uma ressaca como aquelas não acontecia havia alguns anos. Mas não era como se aquilo fosse o pior. Não, de fato, a pior parte era ele se lembrar de tudo o que acontecera na noite anterior. Desde a bebedeira solitária no bar até o momento em que teve a brilhante ideia de ligar o rádio. Brilhante, claro. Arthur nunca fora do tipo impulsivo então o que explicava o ímpeto de telefonar para aquele programa – idiota, diga-se de passagem – para desabafar o seu maior segredo, que guardava há sete chaves? O quão estúpido da parte dele foi fazer aquilo? Talvez bem mais estúpido do que dormir com Francis na universidade, e isso porque naquela vez Arthur havia abusado ainda mais do alcool.
Mas então teve aquele sujeito. Obviamente, um pirralho empolgado, só pelo tom da voz. Um pirralho que provavelmente ouvia aquele tipo de programa toda noite. Mas por que as coisas que ele dissera o perturbaram tanto? Por que Arthur sentiu como se estivesse sendo despido, desprovido de suas barreiras, sem sequer dar o seu consentimento? Por que ele estava contente com a atenção, acima de tudo?
E lá estava aquele telefone que não parava de tocar.
Arthur verbalizou um palavrão censurável antes de finalmente atender. É como dizem: falando no diabo...
"O que você quer, Francis?"
"Honhonhon. Então você ainda está vivo? Admiro sua resistência ao álcool, mon chèr."
"O quê? É por isso que você me perturba a essa hora da manhã, frog?"
Ele ouviu um risinho do outro lado da linha.
"O quê?"
"Você não está em casa, não é?"
"Mas é claro que não, cheguei de viagem ontem e eu... Mas o que isso tem a ver com você, afinal?"
Outro risinho irritou Arthur.
"Pare de rir e vá direto ao ponto, for god's sake!"
"Pardon, mas é que eu nunca imaginei que você fosse o tipo de que se assumia em rádio nacional. E ainda por cima com um pseudônimo tão estúpido como Anglaterre. Não sei se estou decepcionado ou divertido. Ou os dois."
"... O-o que...COMO VOCÊ OUVIU?"
Arthur estava mortificado. Mortificado, no mínimo. Agora ele definitivamente seria motivo das piadas do francês pro resto da vida.
"Com meus dois ouvidos, mon ami. O que me surpreendeu bastante foi, na verdade, a bela lição de moral que você recebeu daquele idiota que se auto-proclamou Amérique. Bem patriótico, não só da parte dele, claro."
Arthur levou a mão às têmporas e depois aos cabelos loiros, desgrenhando-os ainda mais ainda.
"Eu. Não. Acredito. Nisso."
"Hoho, acredite. Mas não se preocupe, Emily estava com Michelle ontem à noite e mesmo que não estivesse, acho que o programa não faz muito o tipo dela."
"Eu teria de me matar se ela tivesse ouvido."
"Eu não consideraria uma hipótese tão drástica quanto essa, mas você estaria bem encrencado. Mas ela não ouviu. Então está tudo bem."
"Nem tudo."
"Como?"
"Eu dei o número do meu celular. Você sabe, pra produção do programa."
Um curto silêncio se fez do outro lado da linha.
"O quê? Você é louco?"
"Eu não estava em posição de negar alguma coisa, tá legal?"
"Hm. Se você não conseguia negar nada, teria sido muito mais produtivo se você tivesse vindo pra cá em vez de ficar sozinho aí onde quer que você esteja."
"Argh. Ew. Não, obrigado. E pra sua informação, estou no hotel do aeroporto e agradeceria se você não comentasse com a Emily que cheguei ontem à noite. Você sabe, pra evitar perguntas."
"Minha boca é um túmulo, mon ami. Mas eu tenho mais uma pergunta."
"O que é agora?"
"Por que você disse que Emily era a sua namorada?"
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Alfred grunhiu incoerências enquanto sua mão buscava o celular que repousava em algum lugar sobre a mesa-de-cabeceira, na esperança de calar o despertador do aparelho. Quando finalmente conseguiu, ele se percatou do horário.
8:15h.
Oito horas e quinze minutos.
O sol já estava mais do que alto, os passarinhos já não cantavam mais e o som das buzinas nos engarrafamentos era a melodia que ele podia ouvir ainda com uma orelha grudada no travesseiro. Era também a hora em que deveria estar, pontualmente, como todo bom profissional, no trabalho.
O que proporcionalmente significava à situação de: se Alfred não criasse asas imediatamente, isso só queria dizer uma coisa: estava atrasado. Muito atrasado. Como pode não escutar o alarme das sete?
Oh, claro, a noite anterior.
Ele secretamente desejava ter uma razão um tanto mais plausível para o atraso, como ressaca ou qualquer outra coisa do gênero. Mas não. Não bastasse haver demorado mais tempo do que de costume para chegar em casa – por causa de um programa de rádio dos mais medíocres – mal conseguira dormir pensando naquele tal de Inglaterra. Ele pensou em tudo: em como o sujeito deveria estar se sentindo, provavelmente ainda nem sabia do seu comportamento da noite anterior, ou se não estivesse bêbado o suficiente para esquecer, mortificado. Ele pensou em como o sujeito deve ter pensado sobre o que ele disse, secretamente desejando saber se o conselho fora bem recepcionado. Ele se sentia uma colegial neurótica assim, definitivamente. Ele pensou se o cara estaria acordado, pensando como ele. Pensou em tudo isso em uma madrugada.
Então é, em suma, por isso que ele estava atrasado.
Apesar disso, Alfred chegou relativamente rápido ao trabalho. O trânsito cooperou bastante ou talvez ele recebesse algumas multas em casa no fim.
"Whoa, Alfred! Melhor você ter uma ÓTIMA explicação pro chefinho. Você não devia perder tanto tempo nesses bares por aí, sabe."
Feliks era um jovem americano descendente de poloneses e um de seus colegas de trabalho mais próximos. Um sujeito no mínimo muito esquisito, com toda a história de pintar a unha e usar roupas femininas quando saíam casualmente. Entretanto, tinha um bom coração, mas uma boca tão grande quanto a de Alfred. E era um dos poucos ali no trabalho capazes de aturar pacientemente a personalidade incisiva e até mesmo egoísta do americano.
"Ele está aí?" Perguntou o recém-chegado com verdadeira preocupação na voz.
Feliks o encarou durante algum tempo, fazendo suspense e depois riu um pouco escandaloso.
"Para a sua sorte não está. Ele ligou dizendo que se atrasaria, mas não disse o motivo. Ele nunca diz mesmo."
Alfred suspirou, aliviado, desabando em sua cadeira.
"Ainda bem." Murmurou mais para si mesmo do que para o colega.
Feliks sorriu, com um quê de malícia e sentou-se na mesa de Alfred.
"Onde você esteve ontem à noite?"
"Em casa. Insônia."
"Você tem certeza?"
"Sim. Estou com cara de quem está com ressaca?"
"Não. Você bebeu?"
"Não."
"Então?"
Alfred suspirou, apoiando o queixo na mão.
"Feliks, a gente pode ficar obcecado por um conceito?"
O aludido se ajeitou, fitando Alfred como se ele, de fato, fosse um objeto de estudo deveras precioso.
"Não. Mas eu não sei o que você quis dizer mesmo. Explique."
"Argh, nem eu entendi o que eu quis dizer." Grunhiu o loiro, escondendo a cabeça em baixo dos braços.
"O negócio é que eu fiquei até tarde ontem escutando um programa de rádio..."
"Alfred-san, você chegou enfim."
Um homem de aparência oriental e gestos polidos adentrou o cubículo de Alfred com as mãos abarrotadas de pastas e papeis. Ele olhou de Feliks para Alfred e deste para aquele novamente. Kiku era japonês e vivia nos Estados Unidos desde a adolescência. Estudara na universidade com Alfred, foi seu colega de quarto e se tornou melhor amigo, apesar dos traços de personalidade ridiculamente distintos entre eles. Kiku era uma pessoa altamente calma, educada, paciente e calada enquanto Alfred era exatamente o seu oposto.
"Kiku." Saudaram em uníssono.
"Alfred está psicopateando um conceito de um programa de rádio, seja lá o que for isso."
"Que tipo de programa?" O recém-chegado perguntou de maneira curiosa, repousando seus papéis sobre um espaço vago na mesa de Alfred.
Alfred suspirou.
"É um programa daqueles que a pessoa liga, fala de seus problemas e depois os ouvintes opinam."
Feliks e Kiku se entreolharam.
"Cara, eu totalmente não sabia que você era o tipo que ouvia esses programas. Eles são totalmente idiotas."
"Alfred-san, isso não parece você."
"Ahhh, eu sei!" Choramingou enterrando ainda mais a cabeça entre os braços. "Mas, é que... Eu não consegui dormir por causa dele." Fez um bico.
"Do programa?" Perguntou Kiku.
"Não, do Inglaterra."
"O quê? Mas o que diabos é Inglaterra? Alfred, você, tipo, não bateu a cabeça, bateu?"
"Não, não! Ouçam. Eu voltava pra casa ontem quando estava passando esse programa na rádio, nem lembro o nome do programa, mas enfim. Daí quando eu ia mudar de estação, esse cara totalmente bêbado telefonou pra lá. Ele tinha uma voz muito engraçada, meio anasalada, provavelmente por causa da bebida, não sei. E um sotaque inglês muito forte. Pareceu engraçado rir dele no começo – qual é, ele era inglês e estava bêbado! Tão bêbado a ponto de ligar pra um lugar desses..."
O silêncio e a atenção dos ouvintes incentivou Alfred a prosseguir.
"E aí ele simplesmente começou a falar da namorada, eu na hora pensei que ele havia levado um chifre, mas não. Ele falou do quanto ele gostava dela e tudo mais, mas então BUM! Ele disse, em rede nacional de rádio, que era gay. E aí as pessoas começaram a telefonar e a dar uns conselhos totalmente idiotas, aí eu me irritei com a mulher e telefonei, me identifiquei como América e falei um monte de coisa pra ele que eu nem sei se ele entendeu – ou vai se lembrar. E depois eu não consegui dormir pensando em como a situação dele é complicada, Deus, ele parecia tão sozinho." Alfred gemeu a última parte de seu discurso, soprou um fio de cabeço que caía em seu rosto e forçou a bochecha contra o material frio da mesa.
Feliks e Kiku permaneceram estóicos enquanto estudavam Alfred. Feliks foi o primeiro a romper o silêncio.
"Então você, tipo, realmente ligou pro programa?"
Alfred assentiu, sentindo-se miserável.
"E usou o codinome de América? Por que, tipo, o cara usou Inglaterra e por que você totalmente ama o seu país?"
Alfred assentiu novamente.
"Alfred-san, você é gay?"
"N-NÃO! Q-quero d-dizer... Não! Por Deus, Kiku, por que isso tão de repente?"
Kiku cruzou os braços e encarou o amigo.
"Não há outra explicação plausível para uma história como essas ter lhe abalado tanto."
"Não me abalou!"
"Alfred-san, eu lhe conheço desde o primeiro dia de aula da universidade e sinto informar que dividimos o mesmo quarto por quase quatro anos, o que felizmente contabilizou um acréscimo considerável em uma convivência que completará oito anos um mês após o seu aniversário. Acredite em mim, eu sei dizer quando você se deixa abalar por alguma coisa."
Alfred fez bico, mas quando se preparou para replicar, foi interrompido.
"Mas você não precisa se preocupar com esse detalhe trivial. Eu sei que você provavelmente não gostou da minha insinuação, mas não creio que eu esteja equivocado, muito embora respeitarei sua escolha se você preferir me contradizer. Feliks é o gay mais indiscreto da empresa e um grande amigo seu. Heracles, do cubículo oito, também é gay. Lovino Vargas do almoxarifado, também o é, e ainda namora o melhor amigo do irmão mais velho do chefe do nosso setor, chefe esse que, por acaso, também é gay. Como você pode ver, você conhece mais gays do que imagina."
Um silêncio constrangedor se instalou no local.
"Ludwig é gay?" Perguntou Feliks incrédulo e boquiaberto desde que Kiku iniciara o seu ponto.
"Você não sabia?" Kiku virou-se para o loiro. "Ele namora o irmão mais novo do Lovino Vargas, irmão esse que é, por acaso, a razão pela qual está atrasado hoje."
Alfred encarava Feliks com a boca entreaberta.
"O quê?" Perguntou o último.
"Você é gay?"
Kiku suspirou e Feliks piscou algumas vezes.
"Eu não pareço ser? Todo mundo diz que eu pareço ser. Porque eu pinto as unhas e todo esse jazz."
"Eu não... Tinha parado para pensar nisso."
"Mas eu sou."
"Ah."
"Alfred-san, você é muito denso."
"Vamos supor que eu seja gay." Alfred fez uma careta. "Por que isso geraria necessariamente uma obsessão por um bêbado que se auto-denomina um país e que eu sequer conheço?"
Um pigarro alto chamou a atenção dos três amigos.
"Sinto interromper a conversa, senhores," Disse Ludwig um pouco corado e parecendo altamente desconfortável. "Mas eu preciso repassar as tarefas do dia para o Sr. Jones, se vocês não se importam. Receio que vocês deverão deixar a conversa sobre... Er... As opções dele para depois."
Feliks permaneceu muito tempo encarando o chefe, com a boca entreaberta e um olhar espantado, até que finalmente Kiku o empurrasse para fora do cubículo de Alfred. Quando os dois caminhavam na direção de seus próprios cubículos, Feliks cutucou Kiku e cochichou em seu ouvido, mais parecendo que temia ser descoberto por alguma espécie de conspiração.
"O presidente B-Braginski é gay?"
Uma gota de suor escorreu pela testa de Kiku.
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Alfred apoiava-se em seu carro, assoviando uma música enquanto brincava com a chave. Estava diante de uma enorme casa localizada em um bairro de classe média alta da cidade havia dez minutos. Um vento gelado acariciava suas bochechas enquanto ele fitava o céu sem estrelas. Não tardou para que seu par romântico da noite, a bela, mas assustadora, Natasha, surgisse no portão da frente, acompanhada pelo irmão mais velho e presidente da empresa onde Alfred trabalhava, Sr. Ivan Braginski. Alfred o cumprimentou e abriu a porta do carro para a acompanhante que, sem esboçar um sorriso sequer, despediu-se do irmão e acomodou-se no automóvel.
"Cuide bem da minha irmã, Sr. Jones. Divirtam-se" A primeira sugestão parecia uma ameaça ao mesmo tempo em que a segunda deixava transparecer um quê de alívio em sua voz.
O caminho até o restaurante que Alfred escolhera fora, no mínimo, desconfortável. Alfred havia escolhido o melhor de seus CDs, com o auxílio do irmão, Matthew, na esperança de agradar a acompanhante. Da mesma forma, o carro havia sido lavado e cheirava a alfazema. Mesmo a roupa de Alfred – uma camisa social branca, com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, e uma calça preta – não pareceram surtir efeito na moça. Alfred começou a imaginar o motivo de ela o haver forçado a sair com ela, em primeiro lugar.
No restaurante não foi muito diferente. O silêncio de Natasha – quebrado no máximo com monossilabos como sim, não, hn, e tá – começou a preocupar Alfred. Apesar da comida estar boa, da música ambiente estar agradabilíssima e de Alfred havê-la presenteado com uma rosa, o máximo que conseguira fora um 'obrigada', meio seco.
Caminharam pelo parque durante alguns minutos, Natasha com uma mão no braço de Alfred e ainda muito séria. No caminho, cruzaram com um casal que ia na direção do restaurante do qual haviam acabado de sair. Uma bela moça loira de cabelos curtos e olhos azuis, em uma tonalidade um pouco mais escura que o azul-celeste de Alfred, andava de mãos dadas a um homem, somente alguns poucos centímetros mais alto do que ela, e que tinha no rosto uma expressão neutra pela qual Alfred se mostrou profundamente curioso. O que mais lhe chamou a atenção no sujeito foi, contudo, o verde-esmeralda de seus olhos.
Alfred se sentiu internamente aliviado quando finalmente chegou a hora de deixar Natasha em casa. Curiosamente, ela o beijou na bochecha, por iniciativa própria, o que fê-lo crer que não havia feito besteira, afinal.
No meio do caminho de volta pra casa, Alfred percatou-se de algo grave: esquecera a carteira no restaurante. Amaldiçoando-se pela idiotice e esperando que alguma boa alma a houvesse entregado ao gerente, ele adentrou o local meio nervoso, corado pela corrida que fizera do estacionamento até ali e com a respiração meio ofegante. Dirigiu-se ao balcão e perguntou pelo gerente para a pessoa que ali estava, que se escusou para chamá-lo. Batendo os dedos de maneira nervosa na superfície de madeira, ouviu uma voz exaltada, uma voz que não lhe era estranha e cujo sotaque britânico fazia-se pesado.
"É a segunda vez que peço para o prato voltar! Eu pedi peixe com batatas, não lagosta! O seu garçom parece não entender muito bem isso! God, eu estou há uma hora nessa enrolação, vocês acham que não tenho mais o que fazer?"
Alfred virou-se, com a boca entreaberta e o olhar atento, na direção do homem loiro, irritadiço e de proeminentes sobrancelhas que esbravejava no balcão há menos de dois metros dele. O mesmo com quem havia cruzado mais cedo e cuja voz familiar ainda martelava em sua cabeça.
"Não pode ser." Murmurou incrédulo para si, sem se aperceber do enorme sorriso que se desenhava em seu rosto.
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