Deleitar-se Com o Pecado

1 O Colégio Interno


Eu estava no banco de trás, olhando pelo vidro do carro. Já não adiantava falar mais nada pra ela, eu já havia forçado um choro há duas horas e não funcionou. Os argumentos que eu usei não faziam mais sentido nem para mim. “mãe, eu tenho meus amigos, minha escola...” a quem eu queria enganar? Eu tinha vários colegas, mas só tinha dois amigos em Manhattan, o David e a Geórgia. Na verdade, só a Geórgia. Eu e o David não nos falávamos desde que eu o espanquei há uns meses, quando ele fez aquela merda. Acho que, em parte, é por isso que agora eu to indo para essa droga de colégio interno. Disseram que esse lugar não é especificamente para adolescentes “rebeldes”, mas a maioria dos jovens que estão lá tem um histórico com drogas, violência e só Deus sabe o que mais, e, obviamente, um garoto de 15 anos que bate no melhor amigo até quase matá-lo, não poderia ficar fora dessa.

Ela olhou pra mim pelo retrovisor e comentou algo sobre Boston ser um belo lugar, mas eu não prestei muita atenção, a sujeira no vidro estava bem mais interessante, porém ela começou a falar em um tom mais alto, me obrigando a ouvir:

­– Ora, Austin. Melhore essa cara! Você só irá ficar aqui por um tempo, até que você... Bom, até que digam que melhorou.

– Cala a boca. – eu disse, fingindo não dar à mínima, mas eu dava e não aguentei ficar só nisso – Caralho, você vai me deixar na porra de um colégio interno e quer que eu melhore minha cara? É assim que as vadias resolvem os problemas hoje em dia? Despachando-os para longe e agindo como se estivesse tudo bem?

– É melhor você calar essa boca antes que eu dê um tapa em sua cara! Pare de ser dramático, ok? Lá não é nenhum inferno! – Ela deu uma conferida no GPS – Acho que já estamos chegando.

Depois de alguns minutos a gente chegou. Era um lugar bem grande. Havia cerca elétrica concertina por todo o muro e portão. Era literalmente uma prisão.

A gente entrou no lugar e eu pude ver melhor como era. Até que tinha bastante grama, isso é bom. Mas os alunos estavam todos uniformizados, isso e mau. Alguns estavam comendo em umas mesinhas redondas de concreto, uns correndo, outros conversando, mas os que me chamaram mais atenção foram os que estavam fumando, pois eu pensei que fosse proibido, aí vi uma freira se aproximando deles e, quando a notaram, saíram correndo. Eu sorri, mas na verdade foi hilário. A maioria deles parecia ter mais ou menos minha idade.

Já dentro do prédio foi difícil subir as escadas com minha mala pesada. MEU DEUS, por que eles não colocaram um elevador nessa porra? Só naquele prédio havia seis andares. Felizmente só precisamos subir quatro para ir à sala do diretor.

Os corredores eram largos e tinham estatuas e estantes cheias de troféus. Eu me senti em uma espécie de Hogwarts reformada, menor e sem magia. (Ou seja, chata.)

O diretor e minha mãe ficaram conversando sobre o colégio, ele disse que era um lugar com valores extremamente cristãos, por ser um internato católico. Depois começaram a falar sobre mim, mas eu não estava mais ouvindo. Havia um mural atrás dele, com fotos de uns garotos e umas garotas, que eu imaginei que fossem alguns dos alunos mais problemáticos. A plaquinha na mesa dizia “Sr. Moore” e ao lado tinha um radinho que tocava musica country em um volume bem baixo. Imaginei que ele vinha do Texas ou algo do tipo.

– E então, Austin? Está pronto para estudar no colégio? – Disse o Sr. Moore, com um sorriso meio forçado.

– Fala como se eu tivesse escolha. – Eu nem tinha a real intenção que eles ouvissem, mas ouviram. Ele começou a me falar que o lugar era muito agradável e mais um monte de merda.

Quando ela finalmente foi embora, (após me dar um beijinho rápido na testa) ele me entregou a chave do quarto e pediu à uma freira, que passava pelo corredor, que me acompanhasse, e fomos para o prédio dos dormitórios masculinos. Meu quarto era o C-27, no terceiro andar. A porta já estava destrancada, eu entrei e a freira foi embora. Havia um beliche sem lençóis e uma cama separada totalmente desarrumada, assim como o resto do quarto, que tinha calça, cueca, meia, todo tipo de roupa espalhada pelo chão. Era um cômodo espaçoso, tinha uma estante cheia de livros e uma escrivaninha ao lado da cama, com varias coisas em cima.

Eu estava desfazendo a mala quando um garoto entrou. Ele era um pouco mais alto que eu e bem magro. O cabelo, castanho e ondulado, ia até seus ombros. Usava uniforme, assim como todo mundo la fora e seus dois braços eram cheios de tatuagens.

– Uh... Prazer, meu nome é Ian – Disse ele, estendendo a mão – Você deve ser o aluno novo, certo?

– É meio obvio. ­– Eu disse, em um tom baixo – Meu nome é Austin.

– Bom– Ele estava de costas, procurando algo em meio àquela bagunça no chão ­– Eu me esqueci que você viria hoje, talvez eu arrumasse um pouco o quarto se tivesse lembrado...

Acho que aquele “talvez” era pra valer porque ele não parecia estar preocupado em arrumar agora.

– Aqui está você – Disse ele, se referindo a um maço de cigarros, depois tirou um e colocou atrás da orelha. Virou-se para mim, com cara de surpreso, como se tivesse esquecido que eu estava ali – Uh... A gente costuma ficar encostado na estátua do cara do bigode, fica perto do bebedouro, aparece la se quiser.

– “A gente” quem? – perguntei.

– A única panelinha, nesse colégio, pela qual vale a pena lutar para entrar – Ele sorriu

– Não curto esses grupinhos, mas se você já está me chamando para participar não deve ser bem uma panelinha...

– Na verdade foi só por educação. – Ele colocou um cigarro na boca e o acendeu. – Mas pode aparecer se quiser – Ele sorriu novamente e saiu do quarto.

Terminei de arrumar minhas coisas e sai também.

Notas finais
Se gostarem deixem um comentário para eu saber se devo ou não continuar, valeu!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.