Várias histórias envolvem uma criança órfã, seja de pai ou de mãe, pois isso abre grandes possibilidades. A criança pode ser filha de um deus, uma bruxa, nephilim... Pode ser várias coisas, e não há nada nem ninguém que poderá negar quem ela é.

Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo.

Eu não conhecia a minha mãe. Facilmente, eu poderia ser uma semideusa. Na verdade, eu considerei essa possibilidade por um bom tempo, mas nunca enfrentei um monstro, e nenhum sátiro veio por mim.

Além do mais, dificilmente a minha história de vida estaria escrita em um livro. Isso seria surreal demais até para mim.

Eu morava na orla da praia. Nem preciso dizer que era o meu lugar favorito. Eu odiava como ia até o mar, e voltava cheia de areia, mas isso não tirava o encanto que as ondas tinham sobre mim.

Inclusive, o meu nome (Delamare) significava “vinda do mar”. Pelo que parece, foi escolhido pela minha mãe, antes que ela sumisse.

As coisas mudaram um pouco, para mim, quando o meu pai decidiu que passaríamos as minhas férias escolares em alto mar. Pescaríamos, aproveitaríamos a vista, e voltaríamos, depois de alguns dias.

Quando o meu pai decidiu descansar um pouco, eu entrei no pesqueiro. A gente não o usava há muito tempo, então estava cheio de caixas e poeira. Como eu não tinha alergia, achei melhor resolver isso de uma vez. Foi procurando entre aquelas caixas que encontrei um livro velho.

Era um livro de histórias mitológicas, mas parecia dar grande destaque à história dos selkies.

— Embora comparadas às sereias, as selkies são criaturas que vivem como focas e podem aquirir a forma humana — murmurei, enquanto passava os olhos pelo texto.

— Dela!

Deixei o livro cair, ouvindo como o meu pai me chamava ao longe.

Desde quando ele tinha tanto interesse pelas lendas escocesas?

Se eu contasse a qualquer pessoa que eu estava realmente considerando que aquilo fosse verdade, me internariam em um hospício sem pensar duas vezes.

Talvez fosse a minha crescente necessidade de explicar o fato de que minha mãe abandonou o meu pai, deixando-o apenas uma criança para cuidar.

Já tinha escutado como mães agiam como pais, mas era raro ouvir de pais que tomavam o papel de mães para com seus filhos. Além do fato de que nunca vi meu pai ter interesse por outras mulheres, como se esperasse que ela voltasse.

Parei de escutar o seu chamado, abri novamente o livro, procurando apenas por uma coisa: um nome.

Passei as páginas com os dedos, sentindo como eles se tornavam escorregadios pelo suor.

Talassa.

— Dela! — meu pai chamou-me novamente.

Xinguei mentalmente, fechando o livro, e jogando-o em uma das caixas.

— O que está fazendo? — perguntou-me, quando fui para fora.

— Só estava limpando — respondi.

— Deixe que eu faço isso! Tem muitas coisas para carregar — ele coçou a cabeça, nervoso.

— Certo — murmurei, não querendo que ele ficasse desconfiado.

Senti seu olhar sobre minhas costas, enquanto eu me afastava, em direção à praia.

Diferente de mim, meu pai tinha alergia à poeira. Portanto, ele ficou com uma espécie de resfriado perto da época em que íamos zarpar. Teríamos que esperar mais um tempo...

Eu ia pescar com meu tio todos os dias. Às vezes, pegávamos bons peixes. Algumas outras vezes, pegávamos coisas desagradáveis, como lixo. Eu esperava que essas idas me distraíssem do que li, mas nada conseguia tirar-me aquilo da cabeça.

Estava caminhando entre as pedras da praia, quando vi uma pele de foca, escondida por baixo de tufos de areia. Olhei ao redor, sentindo como meu coração acelerava. Só podia ser alguma brincadeira.

Peguei a pele, era como se o mar me chamasse cada vez mais.

— Largue isso!

Ninguém precisava me dizer para que eu soubesse.

Aquela mulher era Talassa. O nome escrito no diário de meu pai.

Podia ter vários selkies naquele mar, mas eu tinha certeza de que era ela. Tinha várias das minhas feições, eu poderia passar um tempo admirando-a e comparando-a comigo.

— Delamare — ela disse, quase cautelosa.

— Por que nunca voltou? — perguntei, ainda com a pele em minhas mãos.

— Eu não podia!

— Podia sim! Selkies voltam para brincar com seus filhos, de tempos em tempos. Mas você nunca veio!

— Seu pai iria me capturar novamente!

— Fala como se ele fosse um sequestrador! O que tem de tão bom na droga desse mar que você sequer é capaz de permanecer com sua família?

— O mar chama a ti também, eu sei.

— Eu jamais abandonaria o meu pai.

— Eu nasci no mar, Dela. Eu abandonei minha família, quando vim para cá.

— Nós nos tornamos sua família! Isto não é certo!

Talassa negava com a cabeça, olhando-me com pena, como se eu não fosse mais do que uma garota ingênua.

— Devolva-me a pele! Eu preciso voltar! — ela exigiu, começando a ficar nervosa.

— Por que está tão nervosa? — perguntei — Não é como se ela fosse reagir comigo.

— Mas é claro que não! Você não é uma selkie!

— Sou filha de uma.

— Isso não quer dizer nada!

— Então não vai ser problema se eu me envolver com isso.

— Delamare, não!

A única coisa que sei é que, de um segundo para o outro, tudo mudou. Minha mãe observava-me com o olhar apavorado. Apesar de sentir um certo pânico, eu segui os meus instintos, e eles me obrigaram a ir para o mar.

Eu não sabia como sair daquela forma. Mas, de qualquer jeito, eu não queria voltar ao normal.

Se eu saísse, ela pegaria a pele novamente, e sumiria, para nunca mais voltar.

Sabia que meu pai me amava, mas também sabia que ele sentia a falta dela, mesmo que tivesse sido apenas uma noite, um dia ou uma semana juntos.

A verdade era que eu me sacrifiquei para que meu pai fosse feliz mais uma vez.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!