Deixei o título pra depois.
1 Capítulo Único
Abri uma revista, apontei para uma palavra aleatória. E eu me pergunto: O que é uma Farmacopeia? Aposto que apenas mais uma dessas criações humanas cauterizantes. Em desânimo lembro de minha ignorância com as palavras, me sinto pulverizado. Talvez se não fosse tempo demais estudando Aldebarã e mais umas outras faculdades inalcançáveis, eu não teria dúvidas tão simplistas. Mas o complexo sempre me interessou um bocado mais. De repente, ouço meu nome sendo chamado pelo auto-falante do recinto onde eu folheava o tabloide em minha frente, sinto em minhas artérias a adrenalina que pulsa em meu coração, e ao receber meus exames, subitamente sinto meu sangue esfriar, quase como se virasse um coágulo. Irônico, talvez o resultado me fizesse precisar dum emético muito mais que a própria doença. Belo jeito de lidar com isso; ironia... O refúgio ao qual todo ser humano recorre quando tem sua fé abalada e suas fragilidades intensificadas. Contudo, minha fragilidade fora diluída pelos ensinamentos que tive com minha tia Amália, ainda carrego comigo o colar de marcassita que ela me entregou quando eu era apenas um jovem teimoso.
—Carregue-o consigo, e seja homem suficiente para perdê-lo! Desafiou-me em tom debochado.
Ainda hoje o trago, sorrateiro, onde chego, e agora, em lembrança à coragem que minha tia fez crescer dentro de mim, recordo dele em meu bolso… Uma moça me interrompe no corredor perguntando em tom constipado. -Você têm ûm lênçô? Tiro do meu bolso um guardanapo usado e o estendo em direção a moça. Reparo que em seu pulso havia uma pulseira com uns traçados peculiares. Reconheço a especificidade das amarras, se assemelhava às muçuranas indígenas. Talvez ela própria fosse indígena, ou assim como eu, carregasse um pertence ganho de um familiar. Hoje parece-me um dia para memórias, pois ao vê-la lembro-me também do dia que meu amigo se tornara um freire, e me contava de suas missões para catequizar indígenas. Pergunto-me como fora derrotar as crenças de sua família acerca do ateísmo e subjugá-las integralmente. Ao caminhar em direção a saída vejo-me diante de ruas agitadas, livro-me das pessoas entrando em becos que me levam a lugares inóspitos, vejo-me diante de casas abandonadas, ruas esburacadas, a defasagem toma conta do subúrbio. Perto de um rio, há uma fábrica de tecidos e algumas árvores que se tornaram secas e fragilizadas devido a concentração de metais pesados no solo dali. A imagem me trouxe lembrança das intoxicações alimentares que vira no jornal no dia anterior. Linhito, um desses minerais que nos esforçamos tanto para arrancar do solo, agora já exposto pela fumaça que sai pelas chaminés da fábrica, invade as casas e intoxica os moradores.
Me despeço desses pensamentos, e em enquanto caminho tento me concentrar em chegar em casa, tendo a deixar-me levar pela distração, o caos em minha mente me faz mais um andarilho sem rumo que um sonhador. No entanto, nunca almejei ser um homem imarcescível de qualquer maneira. Sempre tive claro em minha mente que a busca pelo sentido era um ideal pelo qual se lutar, muito mais que a cegueira por uma ideologia qualquer que mais sufoca que salva. Havia um pequeno arbusto de consciência que cultivei durante anos, hoje se tornou belo como uma angélica, porém não aqueles podados para ornar em pátios de castelos antigos, uma angélica selvagem crescida na mata. Ainda que as noções da maioria se assemelhem muito à uma floresta a se desertificar; Tudo morre, nada se salva.
Ao chegar perto de casa, vejo uma cena inusitada, há um esquilo escalando para subir em uma janela, paro para observá-lo, ele pula sobre umas caixas para alcançar uma pequena sacada, se pendura após o pulo e consegue subir, assim que chega próximo a janela que almejava, uma vassoura o empurra para trás, o fazendo cair. Sua agilidade fora boa o suficiente para não se machucar na queda, porém sua honra fora ferida, o esquilo saindo de cabeça baixa me fez fabular sobre as frustrações que nos limitam na vida, por mais que fábulas sejam para crianças (e crianças não frustram com o mesmo sentido) sinto-me vendo uma inovação no conceito. Talvez estivesse disposto a tunelar um caminho para o animalzinho mais tarde, dessa forma ele teria alguma distração de sua existência vazia e incoerente. Me pus a fazer uma lista mental das coisas que necessitaria ao passo em que entrava dentro da casa. Desisto da ideia após lembrar que esquilos são mais arborícolas do que escavadores. Tomo um banho, ponho-me vestes, pego minha pena, tinteiro e mata-borrão, umas folhas de papel e começo a escrever sobre este dia, vejo que irá me faltar tinta e subo pelas escadas chegando na sobreloja fechada de minha tia, supro-me de suficiente tinta e começo a escrever. Interrompo o texto com uma punhada na mesa. Faltam-me palavras para descrever todo meu extraordinário cotidiano, busco-me um livro para inspirar, vejo então sobre o balcão um breviário que pertencia a um dos livros de minha vó, me pergunto como fora parar ali. Atravesso o escritório onde estava a escrever, ultrapasso o mastro que usava de decoração e pego o livro em mãos. Sinto sua textura, a forma como algumas das páginas já estavam mais desgastadas por terem sido mais frequentadas que as outras. Algo na forma como os livros se modificam mesmo após sua publicação me atraía. Paro o livro numa das páginas, aleatoriamente, aproximo meu rosto ao livro para sentir seu cheiro. Antiguidade. Eis aí uma obra a ser apreciada. Leio aquela folha como se fosse a sorte do dia. Volto a escrever após tomar minha dose de inspiração, começo a navegar pintando cores de realismo no papel em que escrevo, ao terminar de contar meu atípico cotidiano, sinto-me esmaecido como se as cores com que pintei tivessem saído de mim mesmo. Meus pensamentos desordenados iriam desarmonizar minha escrita se não tomasse cuidado, portanto escrevia com a cautela dum bicho que se preparava para atacar a presa. Sutil e cuidadoso, como se qualquer ruído fosse um estardalhaço. É necessário saber o momento certo de fazer-se ser ouvido, para que assim te ouçam e te escutem.
Retiro dos textos uma frase para enfeitar o título, seguro minha pena, copio e aspeio a frase: “Memórias levam-me a lugares que já passei, é normal não se sentir seguro?”, penduro-a em meu mural de anotações desorganizadas. Ainda teria que desenvolver a ideia, no entanto, o faria em outro momento; um em que -de preferência- o fardo de minha consciência não me doesse tanto. Por sorte, ainda tinha uma boa dose de uma garrafa de gim velha que estava poupando havia alguns anos. Talvez esse fosse o momento certo para abri-la. Agora que a dor de tantas perdas o batia forte, saber que era o último de sua linhagem o contaminava com profunda melancolia, seu teto desabava e o álcool o fazia derramar em prantos poças de tristeza nos escombros que caiam. O gosto amargo da bebida não se comparava com o sabor de sua angústia. Sentia-se culpado. Sabia que algumas coisas são maiores. E manter a linhagem era muito maior que qualquer outro desejo pessoal e egoísta de ceder à solidão. No entanto, como poderia passar adiante um fardo desses? Ainda que se visse como um verme autocentrado, não pensava ter capacidade de tal ato. Talvez o pior defeito da inexistência de Deus e leis universais fosse exatamente esse: repousar a força de nossas próprias escolhas sobre nossos ombros. Somos pessoais mesmo tentando não ser, e vice-versa.
Em dias como este, em que meu desânimo atinge o seu mais alto pico, sinto-me diante de uma plataforma, com uma corda atada ao pescoço, e a única força que mantém meus pés fixos na madeira frágil é um sentimento de esperança, de que talvez as mesmas forças que me colocaram de forma contundente aqui, me tirem ileso. Uma pancada ao longe me força a sair de minha retrospecção melancólica. O vento soprava forte, mesmo dentro da casa, buscando passagem através das janelas escancaradas mesmo sem ser convidado. Vidro cai ao chão e se quebra. Quiçá aquele não seria um aflato do próprio universo demonstrando seu cansaço quanto à nossa importuna humanidade. Fecho a janela e antes de recolher os destroços do vidro espalhado, ligo a minha velha TV, coloco em um canal de notícias em busca de compreensão sobre o que acabara de acontecer, uma moça franzina apontava para um painel que mostrava ondas de vento em direção a costa de Molwene, dizia que um repentino furacão se aproximava, nomeavam-no Caos, será um sinal? Será que fora forjado para mim um destino que eu não pudesse escolher? E o que os outros teriam a ver com isso?... Com tantas perguntas, apenas recordo-me do dom de minha ignorância, visto que a onisciência teria um alto custo [será que valeria mesmo tudo isso ou seria apenas mais uma coisa a ser superestimada?]. As cenas seguintes deveriam ser censuradas para não manchar de sangue toda a reflexão tomada, digamos que eu fora vítima de uma horrorosa catástrofe que destruiu toda uma cidade (talvez mais que isso), redijo estas palavras de meu túmulo para todos aqueles cujo maldito fado não tenha triunfado.
[O QUE LINCOLN QUIS DIZER COM DEPRESSÃO?]
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