Deixe-me com os corvos
3 Conversas
Notas iniciais
Antes.
Estava na metade do dia, o homem e a garotinha iam em direção a Garlate, cidade vizinha a Londrina, mais bela, maior e majestosa que está. Seriam longos quinze dias para chegar até lá, era uma das cidades mais próximas da aldeia, onde jazia agora casas vazias e cinzas empilhadas na praça. Os viajantes haviam saído fazia apenas quatro dias do local de partida, a noite se abrigavam no campo vazio e descansavam com o lençol das estrelas, às vezes, perto das colinas, se acomodavam em sua curva e acendiam a fogueira. De acordo com o andarilho, era perigoso se abrigar nos bosques, no meio do campo e em lugares abertos seria fácil avistar o inimigo, por isso o caminho que tomara demoraria mais a chegar até Garlate, seu modo de viajar era muito...singular. Talvez houvesse outro elemento envolvido, cidades e aldeias eram o que não faltavam, eles iam para aquela em especial, mas somente o andarilho sabia o motivo e não ousava dize-lo para a criança. Quando a noite chegava apenas a menina dormia, o andarilho ficava acordado vigiando e muitas vezes tentava consolar a garota, que dormindo, tinha pesadelos e ataques convulsivos. Provavelmente, dado pelo trauma ocorrido.
Agora subiam uma colina revestida pelo verde, o sol estava por alcançar sua posição final e se deitar. Ao redor poderiam ser avistadas mais colinas e montanhas colossais, pinheiros e diversas árvores muito a frente, e lisos campos com rasas poças d’água.
O andarilho caminhava na frente dando passadas largas mantendo sempre a postura, aquele desconhecido de certa forma encantava a pequena Lizzie que o seguia alguns passos atrás, ela ficava o observando por longos minutos erguendo a pequena aba do boné que fora forçada a usar para esconder os cabelos negros. A garota estava travestida de menino para que pudesse viajar facilmente, de início ela não gostou muito da ideia fazendo uma careta quando lhe foi proposto a vestimenta, o coitado do viajante teve de obriga-la e brigaram por bobices, até o momento ele se mantinha calado. Apesar de ter feito birra por causa de simples trapos, ela estava se sentindo muito confortável e mais livre, era incrível! Usava uma calça cinza de tecido gasto que deixava seus tornozelos descobertos, o fato disso foi que a calça era comprida demais, e foi um corte mal calculado que deixara mais curta do que deveria. Vestia uma blusa de lã grossa preta com gola alta chegando perto de seus lábios, por ser um pouco maior que a menina a blusa parecia mais um manto, chegava até a metade de suas coxas. Por cima estava preso um cinto na parte superior do umbigo, os pés se mantinham aquecidos com meias e sapatos comuns de meninos.
Ao notar que estava sendo observado, ele olhou para trás por cima do ombro, e como das outras vezes, encontrou orbes azuis fincadas em sua nuca, e como já acontecera nas outras vezes, a garota desviou seu olhar para o lado constrangida. O que ela achava tão interessante? Ela tinha o mundo inteiro ao redor para olhar e maravilhar-se, podendo esquecer o desastre de dias atrás, mas sua total atenção era dirigida somente para o homem que caminhava em sua frente a levando por uma estrada estrênua.
Expressando um meio sorriso, que poderia ser facilmente confundido com uma careta, ele voltou a olhar para o caminho. Suas feições robustas partilhavam do cansaço que sentia, seus lábios finos pareciam moldar a tristeza inclinados para baixo, seu nariz era longo e fino, olhos pequenos e melancólicos de um preto apagado, porém, tão incisivos e vivos. Seus cabelos iam de um loiro-claro a grisalhos. Tudo isso moldava um forte homem de quarenta e sete anos.
— Sabeis, a mocinha é bem forte para alguém de sua idade, quantos anos tem? — perguntou fingindo estar interessado em conversar.
— Farei seis, amanhã, — disse numa voz apagada, que não passou despercebido pelo senhor. — se eu fosse realmente forte...
— Não tem motivos para se lastimar, — cortou secamente a fala da menina. — não foi tua culpa.
Após alguns minutos de silêncio da parte de ambos, ele decidiu continuar a conversa:
— Para sua idade, — referia-se ao assunto anterior — fala bem a língua, mas se ouço bem, parece possuir um sotaque estrangeiro.
— Sim! Meu pai veio do norte das ilhas do ocidente, mamãe era professora na nossa aldeia, a única. Habituei-me ao modo que meu pai falava por passar grande parte do tempo com ele quando não estava nos campos, mamãe ensinou-me bem a língua já que não conseguia tirar o sotaque do papai de mim! — alegrou-se ao evocar a lembrança de seus pais, uma alegria passageira, logo se extinguiu e desapareceu.
Com os olhos marejados direcionados para o chão, deixava as lágrimas caírem, não fez esforços para seca-las com a manga da blusa. O andarilho se culpou de alguma forma, teria sido melhor não dizer nada. Palavras saídas de sua boca eram mal compreendidas pelo todo poderoso, tudo ao seu redor desmoronava quando falava, esta foi uma lição aprendida dolorosamente em seu passado desconhecido, por isso mantinha-se calado tanto o quanto podia. E agora que decidirá enfim cortar o silêncio faz a coitada da criança chorar!
Se aproximou da menina vagarosamente, ela se mantinha em pé no lugar dando leves soluços e gemidos. Pedindo para que se acalmasse se ajoelhou aos seus pés e encarou aquela pequenina que não notava sua presença, nem se quer o ouvia.
Vendo que nada adiantaria ele parou sua lamúria, deixou que ela chorasse até nenhuma lágrima restar. Seu rosto miúdo estava avermelhado e de sua boca escorria a baba. No meio de seus berros ela gritou arduamente:
— Quero mamãe e papai de volta! Quero agora! Agora...por favor...
Suas pernas ficaram bambas e com um pequeno esforço aprisionou sua tristeza no abraço que o estranho lhe oferecia. Ela berrava e deixava as lágrimas deslizarem. Ele a consolava e a protegia da sua angustia.
Com carinho levantou a pequenina sem esforço, acomodou-a em seu colo e continuou a viagem.
–--
A noite estava mais clara, as nuvens se dissiparam e somente restava a lua pairando no céu.
Deitada ao lado de uma fogueira dormia Elizabeth, sentado do outro lado o andarilho vigiava, enquanto deixava suas costas repousarem num tronco de árvore abatido. Estava frio. Por nunca precisar o homem não carregava cobertores, então, apesar de não ser necessário naquela noite iluminada, a fogueira foi uma boa ideia. Seus pensamentos estavam naquela garotinha que dormia fazia horas desde o fim da tarde, ela adormecerá no seu colo ainda chorando. Quão sortuda ou azarada seria ela por ter sobrevivido? O pensamento de que ela estava destinada para alguma coisa não saia de sua cabeça. E não só isso, apesar de tanta sujeira da estrada percorrida nunca virá criança mais bela, seus enormes olhos azuis lhe encantavam de tão serenos e inocentes que eram.
O vento soprava...
O vento soprava e com ele trazia o som de um “clak, clak”. Atento a tudo notou movimento a frente, era uma sombra pequena. O andarilho encheu a mão com um punhado de terra e jogou sobre a fogueira, logo depois a cobriu com um pano espesso para tentar fazer com que a fumaça não subisse. Pisadas rápidas e pesadas iam em sua direção, pegou a espada e com a postura baixa caminhou lentamente até aquele que corria desesperado para ele.
Cada vez mais próxima aquela sombra tomava forma de um javali, médio e gordo. O que fazia ali no meio do nada? Ele vinha da floresta adiante, porém, distante dos dois viajantes. Suas patas rápidas estavam por alcançar as duas almas.
O javali não percebeu o andarilho a sua frente que já estava preparado para o ataque. Sua respiração ofegante deu ar a gemidos graves que logo cessaram.
Retirando a espada que perfurara abaixo do pescoço do pobre animal, limpou-a passando no tecido da calça. Pegou a carcaça e levou para o pequeno acampamento improvisado que estava a três metros de distância. Abriu um saco pego rapidamente na bolsa e jogou bruscamente o animal morto dentro e o amarrou bem. Ao terminar encontrou novamente aqueles olhos azuis cintilantes lhe observando.
— O que ele lhe fez para mata-lo tão cruelmente? — perguntou triste pela morte do javali.
— Ele é carne e eu sou maior que ele! Precisamos de carne para sobreviver, assim a vida segue seu ciclo. – disse apenas, seco e áspero.
— Mas... — ia insistir, mas o outro lhe interrompeu.
— Até parece que não gosta de carne, com certeza já comeu. Devia estar feliz que amanhã teremos algo decente para comer! Estava cansado de pão e queijo, isso não é alimento para homens como eu!
Elizabeth distraidamente olhava o saco onde o animal residia morto, um pingo de sangue começava a se formar, logo depois uma gota, e depois um círculo vermelho. A pequena não continuou a conversa, se calou pelo transe que aquela cena lhe atingia.
Na floresta barulhos incomodavam o andarilho, ajoelhou e exprimiu os olhos para enxergar melhor. Fogo? Não, a floresta não estava queimando, não havia sinal algum de fumaça... Tochas! Eram tochas!
— Venha cá, depressa!
Bruscamente ele puxou a menina pelo braço e a manteve o mais próximo possível de si mesmo. Agachados na sombra do tronco era impossível vê-los do outro lado, mas qualquer um que chegasse a oito metros de distância veria a fogueira apagada e suas bagagens, a claridade da lua deixava a noite bem mais visível do que de costume.
Cautelosamente o andarilho ergueu a cabeça e novamente forçou a visão, já fora dos arredores da floresta, podia ver que homens com cavalos e tochas se amontoavam e pareciam discutir alguma coisa. Elizabeth seguiu o movimento e também olhava atenta para os senhores de cavalo, fazendo mais esforço que o outro para enxergar.
— Quem são eles? — sussurrando ousou perguntar para aquele que nem piscava encarando os, talvez, inimigos desconhecidos.
— Talvez sejam aqueles que caçavam o javali, por isso a fera entrou no campo e corria sem rumo para cá, deve haver mais daqueles homens na floresta, daqui só consigo ver quatro. — disse num tom mais baixo.
— Como o senhor pode saber? — perguntou curiosa com um tom de incredulidade.
— Veja bem, pequena, homens possuem costumes estranhos, se embebedam até não saber o próprio nome, vão ao bordel quando já possuem mulher em casa, caçam e caçam bêbados, brigam por sabe lá o que! Além de muitos outros mais peculiares que os anteriores. Por essas redondezas deve morar um senhor que gosta de passeios noturnos. É apenas um palpite. — falou como se fosse algo simples.
— O senhor é bem inteligente! Será que esse senhor não poderia nos ajudar?
— Inteligente não é bem como eu me dotaria, mas se a pequenina acha...bem, não, nem devemos se quer nos aproximarmos, vamos apenas seguir para Garlate.
— E por que não, senhor?
Hesitou em explicar o porquê, para isso seria necessário contar sua profissão que deveria ser mantida em segredo. Ninguém acolheria um caçador e uma criança órfã.
Quando você se sente seguro em sua casa e seu mundo gira em torno de sua cama até a próxima esquina da rua, não desconfiaria de uma residência instalada a distancias das cidades, mas, quando se conhece o mundo além da esquina tudo é possível. E era exatamente esse perigo que o andarilho não queria passar, ainda mais quando se está levando uma criança consigo que teve mais experiências com as abominações vampirescas do que os próprios cavaleiros do rei, estes que enfrentavam o verdadeiro monstro: o homem.
Erguendo a sobrancelha transformou sua feição numa careta que fez a pequena Lizzie esquecer daqueles cavaleiros noturnos e soltar um curto riso. Ao final do pensamento, ele enfim disse:
— Tu passaste por uma provação e graças ao amor de seus pais por vós estais vivas, não esqueça disso. Agora é preciso aprender a ter medo de tudo, inclusive de tua própria sombra. Existem homens maus e criaturas como aquelas que destroem aldeias e cidades, desconfie de tudo, Elizabeth.
Como se aquele simples conselho, aquelas palavras ditas tão facilmente por um estranho, resumisse seu passado e futuro, Elizabeth sentiu uma pontada no coração, um aviso de que deveria guardar para sempre com ela. Não somente isso, hoje conversaram mais do que nos dias anteriores, e pela primeira vez ela ouviu seu herói chama-la e lembrou-se do som que seu nome fazia na boca de outra pessoa.
Ela nada disse. Continuaram olhando para os cavaleiros montados nos cavalos, por sorte o cachorro que os acompanhava e farejava o rastro da caça seguiu por outro caminho levando todos para o lado ao contrário. Seu palpite estava certo. Quando enfim a última chama das tochas desapareceu, o andarilho e Elizabeth se levantaram, silenciosa ela obedeceu quando ele lhe disse para se arrumar para a partida.
— Vamos! — disse apenas virando e seguindo para a floresta.
— Por este lado? Mas aqueles homens não acabaram de entrar ali?
— Se continuarmos aqui seremos avistados, e se forem mais de cinco e ainda por cima com cavalos não conseguirei dar conta! É melhor irmos nos abrigar na floresta, pelo menos lá conseguiremos nos esconder.
Sem questionar ela o seguiu, não queria ver mais mortes, nem pensar em batalhas futuras, ver aquele que a ajudava perecer em uma luta seria seu fim, o melhor era obedecer à calada.
–--
Eles caminhavam apressados, quase corriam, ele não fazia barulho algum e ela tentava o máximo conseguir acompanha-lo. Quando chegaram na floresta o andarilho deu sinal para que a pequena ficasse perto e atrás de si, ele queria ter certeza de que não tinha mais ninguém ali. Elizabeth segurava firma a ponta do poncho, forçava a vista, mas não conseguia ver nada, aquelas árvores enormes impediam que qualquer luz adentrasse por entre as folhagens, o homem não parecia ter problema para isso. Aos poucos, sua visão finalmente foi se acostumando com a escuridão, era possível ver os fortes troncos das árvores, grama, gravetos e folhas no chão, a cada passo dado aquelas imagens ficavam mais densas.
Notou que havia percorrido uma boa parte da floresta quando ofegava e sentia sua garganta seca, até o momento o outro mantinha-se calado. Impaciente mesmo sem saber o porquê, questionou:
— Senhora, falta muito ainda?
— Está escuro demais para saber, a floresta deve ser grande, não escuto nada e não vejo sinais de luz, já devem ter partido..., mas, esse lugar de alguma forma me é familiar. — falava baixo, porém com o mesmo tom sério e calmo.
— O senhor costuma viajar bastante?
— Sim, meu trabalho exige.
— Provavelmente já passara por aqui então!
— Talvez..., em alguns lugares me apelidavam por causa disso, minha estadia não é duradoura, mas há cidades que vou frequentemente.
— É mesmo? Falando em nomes, o senhor ainda não disse o vosso...
— Não é necessário já que nós não iremos ficar muito tempo juntos, e para isso é bom não haver intimidade.
— Mas, o senhor sabe o meu, Elizabeth, apenas acho que seria justo saber o teu.
— Tu és apenas uma criança e não deve achar nada, só me escute e obedeça.
Esse jeito grosseiro que já notara no primeiro dia da partida lhe irritava de uma forma fumegante! Ela calou-se, pois, qualquer coisa que falasse iria parecer um animal sarnento e mimado.
Vendo que seu silêncio durara o suficiente e que ainda estavam caminhando por entre as árvores, ela decidiu falar.
— Sei que sou apenas uma criança, era a mais baixa de todas as outras na minha aldeia, apelidaram-me de pé de algodão, eu nunca vi um, e para falar a verdade nem sei se eles também já o viram. Apesar de todos caçoarem eu gostava, todos riam e eu também.... Já que não vai falar teu nome, senhor, conte-me ao menos vosso apelido!
Ele não respondeu. Ela esperou um pouco e receosa insistiu:
— Não ouviu, senhor? Desculpe se apareceu atrevimento...
De repente ele parou e a garota teria soltado uma injuria por quase ter tropeçado se o mesmo não tivesse exclamado um “shiu”.
O caminho a frente começava a clarear e Elizabeth achou que finalmente teria acabado de atravessar a floresta, quanto mais a luz se intensificava iluminava de tons laranja e amarelo os carvalhos, sons de galopes podiam ser ouvidos.
Com falha na voz o caçador gritou:
— Corra, garota! Corra agora!
Empurrada pela mão pesada do andarilho, Elizabeth começou a correr o mais rápido que podia, ele que vinha atrás por frações de segundos já se mantinha na frente da mesma e agora agarrava sua mão puxando-a para que fosse mais rápida. O medo tomava conta da menina que mesmo usando todo seu esforço para correr podia ouvir cada vez mais próximos os cascos dos cavalos. Gemia pela dor que o andarilho causava sufocando e apertando seus dedos, os galhos deixavam-lhe machucados, causando forte ardência e deixando fios de sangue, um especifico atingiu sua cabeça fazendo um corte leve, também arrancando o boné e liberando os cabelos negros.
O obvio acontecerá, foram arrastados para uma armadilha. Se não fosse isso, provavelmente o cachorro sentiu o cheiro da caça e voltou para a floresta. Mas, o andarilho tinha certeza de que não era nenhuma dessas opções, então o que?
Elizabeth tropeçou num dos galhos raspando com violência seus joelhos na terra, o ato fez com que o andarilho soltasse sua mão, um metro os separava, mas não dera tempo de socorrer a pequena, as chamas já os rodeavam.
Eram quatro homens, todos com armaduras menos um, este que desceu da sela de seu corcel negro e caminhou em direção a garota no chão. O andarilho observava enfurecido o movimento do desconhecido. A menina no chão olhava aquele que se aproximava, e mesmo com mechas atrapalhando sua visão percebeu o quanto o homem era belo. Ele usava trajes elegantes, calça justa preta, botas de couro da mesma cor, um paletó azul-marinho-escuro com uma calda escorrida atrás formando um W, nas mangas e na parte do pescoço saia um tecido fino branco, sua blusa.
Agachou-se e rapidamente, com uma leveza confortante, pegou a menina no colo. Ele a conduzia para seu cavalo, enquanto tirava suas fitas negras do rosto. Sem entender o porquê disso, ela aproveitava para ver mais de perto aquele que a carregava. Este possuía uma barba bem-feita, cabelos negros compridos até o ombro presos por uma fita azul, queixo quadrado, lábios finos, sua íris parecia ser preenchida pelo vinho mais escuro, eram olhos misteriosos e sedutores.
Colocou Elizabeth sentada na sela de seu cavalo e voltou sua atenção para o andarilho, dando um sorriso estonteante que mostrava seus dentes pálidos e bem cuidados.
— É um prazer reencontra-lo, senhor das montanhas!
— Igualmente, Solomon. Posso saber o porquê disso? — disse num tom questionador totalmente arrogante, mas mantendo a postura. O andarilho parecia conhecer o mais novo personagem da história.
— Uma das minhas sentinelas viu movimento na floresta, e eu, como sabeis, sou preocupado demais, vim ver por mim mesmo! — falou simplesmente sem alterar o tom calmo.
— Então não era vós que caçava a esta hora?
— Não, de modo algum, não tenho a mania de caçar animais, sei que sabes disto também. Pois bem, para onde estás indo?
— Não quero falar sobre isso com a garota ouvindo. — referiu-se a Elizabeth notando que ela estava lhe observando atenta.
— Vamos para a minha casa, lá conversaremos!
— Como não posso discutir convosco, façamos deste modo!
A criança e o homem foram escoltados para fora da floresta, os três soldados que acompanhavam o galante cavaleiro vinham atrás, na frente deles caminhava o andarilho, este não saia do lado do corcel negro, onde estava sentada a pequena Elizabeth, as rédeas eram puxadas por Solomon que não ousava fitar a menina novamente. Ao contrario dela, observou ele durante o trajeto inteiro.
Ao saírem da floresta, o que não demorou muitos minutos, chegaram num castelo sombrio rodeado por largos muros de rochedos enrolados por cipós de folhas. O local era iluminado por tochas, era bonito e elegante, mas a noite o deixava sinistro.
Uma sentinela ao perceber a chegada do seu mestre abriu o portão para a passagem dos seis indivíduos e, logo em seguida o fechou assim que todos entraram.
Agora.
Como costumeiro Deniel estava acordado assim que as luzes transpuseram o horizonte e barravam pelo vidro sujo da janela de seu quarto. Terminando de calçar as botas e vestir as mesmas roupas do dia anterior, foi até uma bacia com água e molhou o rosto áspero, encarou a si mesmo no reflexo que o espelho lhe permitia por segundos e, decidido, saiu do quarto para ir até a cozinha. Tinha fome. Fechou a porta atrás de si e olhou para o fundo do corredor, em especial, para a porta do quarto onde sua parceira provavelmente estava tendo bons sonhos. Pensou em acorda-la, mas era cedo para os padrões da majestosa criatura, era melhor não a incomodar, além do mais, não havia aparecido nenhum problema, por enquanto.
Virou-se e desceu as escadas causando leves rangidos, passou pela sala principal silenciosamente, esta, estava escura e apenas uma fraca luz vinda das janelas ajudava a enxergar o cômodo. Seguiu por um corredor e desceu três pequenos degraus, chegara na cozinha da hospedaria. As paredes eram cinzas, possuía duas longas mesas que ocupavam o meio da sala, algumas poucas cadeiras, vários instantes que enfeitavam a parede, cheias de pratos, taças, copos e talheres. A pia ficava era razoavelmente grande, havia apenas algumas panelas sujas colocadas ali para serem lavadas, do lado, uma bancada carregava legumes e frutas. Colocada no centro da parede, no final da cozinha, uma lareira ardia em chamas e para tudo não parecer tão solitário, uma jovem distraída estava ali, sendo iluminada pelas labaredas que pareciam chamar tanto sua atenção.
— Bom dia, senhorita. — sorriu galante para a filha mais velha dos L’arvergen.
Ela estava sentada ao lado da mesa em um banquinho, vigiava o caldeirão que cozinhava sobre as chamas enquanto se deliciava com um copo de leite quente. A aparição de Deniel a assustou mais do que deveria, logo respondeu:
— Bom dia, sr. Durand! — rapidamente ergueu-se e fez uma referência tímida, sem querer derrubou o copo meio cheio do leite que bebia nos pés, o que fez-lhe soltar uma careta de dor e um “ai” ao levar o joelho por reflexo na tabua da mesa. Deniel virou o rosto para o lado, mas não conseguiu conter uma gargalhada pelo momento cômico que fez a pobre coitada entrar apenas por estar ali.
— Desculpe sr. Durand, sou.... Desastrada! — abaixou a cabeça envergonhada e juntou as mãos na frente do avental — Não conte aos meus pais, por favor! — implorou apertando os olhos com força, não conseguia encarar o loiro.
— Claro, sem problemas. — disse simplesmente ao terminar a risada — apenas me sirva pão e um copo de vinho, depois limpe seu desastre!
O rapaz puxou uma cadeira esquecida no canto da parede e a colocou na ponta da mesa mais próximo de si, em seguida sentou-se e apoiou seu calcanhar direito no joelho esquerdo, cruzou os braços e começou a observar os afazeres da filha mais velha.
A moça ia de um lado para o outro, com uma aparente calma pegava o que precisava nos armários. Sentiu-se desconfortável ao notar com o canto dos olhos que o rapaz a observava, deixou-se corar e quase, por descuido, fez o copo com vinho transbordar. Ajeitando um pedaço de pão saído do forno, um prato de ferro com rodelas de queijo e a bebida numa bandeja, liberou uma pergunta tímida e audaciosa:
— O que observas tão atento, sr. Durand? — ela colocou a faca que usara para cortar o pão na mesa depois de limpa-la no avental, e pela falta da resposta prolongou sua pergunta — Diga o que olhais com tanto fervor? Pegou a bandeja e dirigiu-se para onde Deniel estava, repousou com cuidado em sua frente e o fitou curiosa pela resposta.
O loiro por um momento se perdeu nas linhas de seus lábios rosados, nas pinceladas em suas bochechas. Sardas, comum em ruivos. E a filha L'arvergen era uma belíssima ruiva de olhos negros. Os pais eram senhores simples de uma beleza humilde, a unica coisa que a filha puxara fora a coloração do cabelo do sr. L'arvergen. Quanta sorte!
Infelizmente, por não possuir mais dotes que esse, a filha não era tão disputada por senhores de grandes padrões como Mathieu gostaria. É uma pena.
— E-eu apenas estava a observando... Não há muito com o que se entreter por aqui. — gaguejou uma desculpa. Uma desculpa muito mal elaborada.
— Se é entretenimento o que procuras, saiba que numa hospedaria não irá encontrar nada. Deveis estar acostumado com bordeis, és um homem muito bonito para ser de uma só! — disse desgostosa sem alterar o volume da voz para ninguém a ouvisse, principalmente seus pais que brigariam com ela por insultar um cliente.
— O que quereis dizer com isso? — perguntou sem entender o motivo da raiva repentina.
— Deve estar na seca! Cherbyn não possui casas de noite para senhores de sua praxe. "Não há muito com o que se entreter", não sou brinquedinho de ninguém, sr. Durand! Conheço bem tua história em Londrina!
Parece que a moça possui um temperamento mais difícil que o do outro.
— Estais louca! — brandou levantando-se, mostrando uma grande diferença de tamanho entre ele e a anfitriã. — Entendeu o que eu disse completamente errado, não queria insulta-la, eu apenas... Como assim conhece minha história?
— Viajo para lá com meu pai para acertar as contas, como se fosse algo a seu respeito!
— Pois eu digo o mesmo! — não querendo prolongar mais aquilo e a enxaqueca que apareceria a qualquer momento, Deniel menos agitado ofereceu uma proposta de paz. — apenas... Vamos esquecer esta discussão. Eu peço o seu perdão, compreendeis errado a minha resposta. Não queria insulta-la.
— Não? — perguntou mais calma.
— Não! Quis dizer que, vê-la fazendo, preparando a refeição, deixou minha manhã plena, não é algo comum para mim, ver uma moça fazer trabalhos caseiros. Apenas expressei-me de modo errado.
Talvez tenham mais motivos para que a filha do sr. Mathieu não possua bons pretendentes...
— Então...
— Beatrice, tu estás ai!
Entrou na cozinha totalmente escandalosa. Esta era a sra. L'arvergen erguendo os braços e indo até a filha sem notar a presença de Deniel.
— Vá agora encontrar-se com Pierrot! O menino precisa de tua ajuda para trazer a encomenda que seu pai pediu para o sr. Pedro, vá depressa!
Vermelha e com fiapos do cabelo saindo do toucado mal ajeitado, a sra. L'arvergen ficou envergonhada ao ver o rapaz parado encarando o desespero desnecessário que colocava em seus gestos e palavras.
— Oh! Sr. Durand, tenha um bom dia!
— Bom dia, sra. — cumprimentou educadamente. Não fora preciso mais cortesias, no mesmo instante a mulher já disparava para fora da cozinha mais aflita do que entrará.
Completamente desorientado olhou para a filha L'arvergen esperando uma explicação.
— Mamãe esta assim, pois um de nossos clientes, talvez o mais rico que ja tivemos e com um lugar na corte, — disse como se fossem detalhes que não poderiam faltar. — chega na cidade em instantes, é costume dele sempre pedir uma sopa de ameixa com avelã. Aqui não temos a avelã e, bem, sr. Pedro é o único que a pede, então, para os meus pais isso não pode faltar! É sempre um desespero, da parte da minha mãe, claro, quando ele vem para a cidade. Também devemos possuir diversas tapeçarias para uma boa estadia em seu quarto, o homem sempre exige!
— Acho que entendo, ele deve ser alguém realmente importante, se o diz.
— Eu não acho...
— Não? — disse um pouco surpreso.
— Riqueza ou lugares na corte, mesmo que seja ao lado do Rei, não define a importância das pessoas. Ele é alguém muito amargo, é útil apenas para as despesas e... Meio que atrapalha elas quando vem. — notando que falara mais do que deveria, com os olhos esbugalhados fitou os de Deniel fazendo o rapaz dar outra risada.
Honesta e agitada. Ela lhe lembrava alguém que provavelmente dormia agora.
— Compreendo. Não se preocupe, seu segredo esta guardado comigo! Bem, se me permite, irei ter com minha parceira de viagem, iremos visitar o abade. Obrigado pela refeição.
Fazendo uma curta referencia dirigiu-se para a saída do comodo, antes que pudesse faze-lo, a ruiva disse timidamente:
— Eu lhe perdoo, sr. Durand!
Ele apenas sorriu e seguiu para o quarto de Elizabeth. Mas, antes que chegasse lá, via Lizzie saindo do quarto já arrumada. Ele ficara surpreso, não era costume da moça acordar essa hora, era algo realmente notável!
— Quem és tu?! As mulheres daqui são loucas e vós estais ficando igualzinha a elas! — ele riu, deixando a parceira desentendida do assunto.
— Tu que és o louco! Pare de delírio e vamos ver o abade Bernardo.
Seguida por Deniel, Elizabeth saiu da hospedaria e agora passeava pelas ruas da pequena cidade. Estas que estavam vazias e silenciosas, a maioria dos cidadãos ainda dormiam, apenas algumas pessoas, mercadores talvez, se ajeitavam para um novo dia de vendas e perdas, pois para ganhar é necessário perder primeiro, era uma lógica simples, mas que podia definir muitas situações. Janelas e portas iam abrindo uma a uma, o dia ficava mais iluminado e a cidade mais alegre com as pessoas em movimento.
Elizabeth olhava para frente e como sempre estava séria e quieta, Deniel percebera uma mudança no visual da companheira e acompanhou os detalhes pela trajetória. Sua saia fora substituída por calças justas, no lugar do colete agora estava um corpete de couro preto, por de baixo havia uma blusa branca com mangas longas de tecido fino, continuava usando as botas, agora por cima da barra da calça. Seu cabelo estava trançado, enfeitava a parte exterior da cabeça (acima da nuca) em formato de anéis negros.
— Estais bonita assim. — elogiou.
— Quer dizer que um visual puxado mais para homens me deixa bonita? — perguntou sarcástica.
— Apesar de combinar com sua personalidade, não foi isso que quis dizer. Sua beleza de mulher deixou o visual mais bonito, mais meigo talvez.
— Era preciso mudar, agora sim iremos pegar a estrada de acordo com o que o abade Bernardo for nos contar. Cavalgar por horas com um vestido torna-se incomodo na maioria das vezes, de fato, não fui feita para frescuras.
— Bem notado!
— Parece que estamos chegando...
Som de badaladas fortes eram ouvidas, os monges tocavam o sino do santuário. Grupos de pessoas começavam a aparecer para a missa, a maioria eram mulheres jovens e idosas. Todos se dirigiam calmamente para a oração, onde todas as impurezas eram contadas em sussurros em meio a favores e pedidos de salvação. A noite era o momento oportuno para esquecer os ensinamentos e entregar-se a qualquer que fosse o prazer, para quando chegasse a manhã, a hora da reza, tais atos sujos fossem levados tão facilmente como algodões ao vento.
Assim como os outros que iam para assistir a missa, Elizabeth e Deniel entraram pelo santuário, mas não se mantiveram ali por muito tempo, no final da sala havia uma porta pela qual entraram, sendo levados para um salão vazio. Um rapazinho foi de encontro a eles, e quando lhe disseram que procuravam o abade, o menino não tardou em leva-los até ele.
A sola de suas botas causavam ecos pelo mármore a medida que caminhavam de encontro a Bernardo. O menino ia na frente calado, atravessando portas e corredores, foram conduzidos por uma pequena escada bem afastada das outras salas, ela levava para o quarto do abade.
Parados em frente a uma porta de madeira escura, o menino deu três toques e entrou dando espaço para que os outros dois entrassem também. O lugar era pequeno com aparência de jaula. Havia uma escrivaninha, uma cadeira e a cama onde o abade estava deitado, o local era iluminado pela luz que emanava da janela aberta, a unica coisa alegre do recinto.
Após os visitantes se instalarem ali, o menino saiu e deixou os três sozinhos.
— Abade Bernardo, por Deus! O que tens? — Elizabeth perguntou preocupada.
— Febre, minha querida, não há com o que se preocupar. — falou impotente.
O homem velho, mas de coração jovem, tinha os cabelos grudados a testa pelo suor, seus lábios tremiam e mal conseguia manter os olhos abertos.
— Não há com o que se preocupar?! Estão tratando bem do senhor? — este era Deniel, era próximo do abade Bernardo que lhe dera muitos conselhos como amigo em sua infância.
— Sim, rapaz, aqui sempre me trataram bem, acontece que a doença está mais forte que a água benta! — ele deu um leve riso e continuou — Mas me digam, vós não viestes aqui para ver um pobre doente.
— Quer dizer que o senhor não sabe de nada?
— Minha filha, estou neste estados a duas semanas, não tem como eu saber de alguma coisa! — disse gentilmente — meu pai que mandou-os aqui?
— Não exatamente. — respondeu Deniel — estamos perseguindo uma caravana, ela veio pela estrada de Cherbyn, como nada entra nessa cidade sem o senhor saber, achamos que teria informações para onde ela esta indo.
— Não conseguem descansar dessa vida? — o abade perguntou sorrindo docemente.
Os jovens se entreolharam e riram.
— É quem somos, abade. Precisamos detê-los. — confirmou Elizabeth.
— Desculpem decepciona-los, mas nenhuma carruagem atravessou os portões de Cherbyn, creio que não tem como eu ajuda-los.
— Eu realmente achava que seguiríamos no encalço desses malditos!
— Acalme-se Deniel. Com certeza acharão a pista até quem vós perseguistes.
— Sim... Nós que nos desculpamos por incomoda-lo quando esta doente, abade. Pelo menos, sabemos que nada passou por Cherbyn, temos outros lugares para procurar agora. — disse Elizabeth sem mostrar a frustração pela visita perdida.
— De modo algum, fico feliz em receber amigos. Após esta caçada voltem para Cherbyn, gosto da companhia dos dois.
— Claro, não esqueceremos, até abade Bernardo!
Decepcionados voltaram para a hospedaria pelo mesmo caminho. Ao lado da entrada sr. Mathieu conversava com um homem, como era de seu perfil falava alegre e extravagante com os gestos, avistando Deniel e Elizabeth, apontou o dedo para a direção deles e o homem com quem conversava parecia agradecer. Já próximos, o sr. Mathieu foi o primeiro a falar.
— Bom dia, srta. Lefevre e sr. Durand. Este rapaz esta procurando pelos dois!
— Bom dia, sr. L'arvergen. E quem seria o cavalheiro? — perguntou Elizabeth.
— Este é filho do sr. Henrique, dono da padaria logo em frente, ele trabalha na guarda do portão da cidade, um jovem muito educado e dedicado! — Mathieu o descreveu como se fosse um item de venda.
Elizabeth o examinou por alguns segundos, o rosto lhe era familiar... Mas é claro! Era o guarda do portão que os mandaram para a hospedaria, como poderia esquecer?
— É um prazer rever-vos. — o rapaz ao lado do rechonchudo esbanjou uma curta referencia e sorriu para Elizabeth.
— Educado, é? — citou sarcástico o loiro que não aguentou se manter calado.
— Bem... — tossiu envergonhado — tenho algo a dizer-lhes que pode interessar. — voltou-se sério para os dois.
Elizabeth notando o quão atento mantinha-se o anfitrião na conversa cortou sua alegria.
— Pois então que diga! Mas, primeiro vamos entrar, a esposa do sr. Mathieu nos ira preparar um ótimo café para acompanhar a nossa conversa.
— Imediatamente! — exclamou o gordo — Matilda! Matilda, mulher, ferva a água! — gritava, enquanto voltava para dentro da hospedaria.
Os três fizeram o mesmo.
— Foi esperto, sr. Mathieu é uma ótima pessoa, mas sempre se intromete! — disse o rapaz — a proposito, sou Carlos Henrique, desculpe pelos modos de antes, dama Lefevre.
— Na nossa conversa não precisara de cortesias, sr. Henrique, apenas nos conte o que precisamos saber.
— Se é assim, apenas me chame de Carlos. — sorriu-lhe maroto, algo que Deniel não gostou.
— Se assim o prefere.
Elizabeth não notou o sorriso que ferveu os nervos do companheiro, simplesmente caminhou até a sala seguida pelos cavalheiros e sentou-se confortável na poltrona para esperar o que tinha a ser dito.
Continua.
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