Deixe-me com os corvos
1 Caçador ou Caçado?
Notas iniciais
Antes.
Um homem de família humilde estava voltando do campo junto com outros colegas trabalhadores, todos iam para a vila que já não estava muito longe, voltariam para suas casas e beijariam suas belas esposas que serviam o jantar para os filhos. Todos os dias eram assim, calmos e pacatos, de uma simplicidade que ninguém se queixava, era uma vida boa. Boa demais.
O sol agora se escondia por entre as colinas que rodeavam aquela vila, o perigo chegava com a noite. Rapidamente as donas de casa pegavam as tabuas e pregos, junto com o martelo entregavam para seus bravos maridos que com toda a brutalidade criavam barricadas improvisadas nas janelas e portas, tudo era questão de tempo.
No meio de todo aquele martelar um homem de cabelos grisalhos corria para chegar a tempo em sua casa, ele ficara por último para guardar o rebanho e mantimentos da vila, ninguém sabia que aqueles seres demoníacos chegariam tão rápido, tudo estava previsto para o próximo dia, e nisso eles vacilaram.
Com um estrondo forte a porta se fechou e com movimentos mecânicos já pregava as tabuas na porta.
— Querido, o que aconteceu? — perguntou sua mulher que segurava uma pequena garotinha no colo que dormia calmamente. — eu já dei de jantar para Lizzie, seu prato está na mesa, vá comer e deixe isso comigo!
— Não! Já é tarde, eu vi sombras atravessando os bosques, não há mais tempo! — terminou colocando a última tabua e virou-se para sua mulher que o olhava horrorizada. — Escute Margo, vocês não podem ficar aqui, tabuas e pregos não vão afasta-los...Nós não iremos resistir, aquela primeira vez que fomos atacados eram apenas maltrapilhos, servos ordenados para causar terror, agora quem vêm são os chefes, nosso fogo e estacadas funcionaram daquela vez, mas agora...Agora não há esperança de sucesso!
— Então...Morreremos hoje?
— Não, se tudo correr bem, será apenas uma morte que nossa família ira suportar, vocês duas precisam ir se esconder! — disse se aproximando, pousou as duas mãos no ombro da mulher e a olhou firmemente. — Eu sei o que você irá dizer, mas Lizzie precisa de uma mãe...
— E de um pai também! — Gritou tentando segurar as lágrimas teimosas que insistiam em sair, naquele momento ela queria parecer forte, mas quando a única saída é perder o amor... O que se pode fazer?
O homem abraçou as duas, tão forte e calorosamente, como se fosse a última vez, o ultimo abraço... A mãe e a filha ocupavam o peitoral daquele homem enorme e másculo, ele sacrificaria tudo por sua família. Fitando um ao outro, se deixaram levar para um beijo que se prolongou pelo momento, aquele também seria o último. Agora as lágrimas dos olhos de Margo escorriam deliberadamente.
Gritos. Portas e janelas sendo quebradas. Acabaram de chegar.
Separando daquele beijo apaixonado, olharam-se espantados. Então, para acalmar a mulher que começaria a chorar de novo a qualquer momento, ele deu um sorriso descontraído, reconfortante, e com um gesto colocou uma das mechas do cabelo de Margo atrás de sua orelha.
— Agora vá! Esconda-se no porão!
— Por favor! Não! Tudo menos isso, Arnaud! Deus, porque!?
— Margo... Por mim, por nossa filha, esconda-se e sobreviva!
Os gritos se aproximavam, eles estavam mais perto.
— Rápido! Eles já estarão aqui em instantes.
— Eu te amo... Arnaud.
Após um beijo desesperado, ambos se separaram. Por uma última vez Arnaud sorriu para sua família.
— Eu também a amo. Tome conta de Elizabeth.
—--
Com a pequenina no colo ainda dormindo, caminhou para o fundo da casa onde estava a cozinha, em baixo da mesa destrancou uma porta que imitava o piso do chão, acendeu uma vela e desceu as escadas. Antes de voltar para fechar a entrada do esconderijo certificou-se de deixar a pequena Elizabeth bem escondida e coberta, ela colocou a criança numa fresta na parede, assim que ia fecha-la novamente com a madeira, Lizzie a olhava sonolenta.
— Mamãe, onde nós estamos? Porque está tão escuro?
— Amor, você pode fazer um favor pra mamãe? — A pequena fez que sim com a cabeça, então Margo prosseguiu. — vamos brincar de esconde-esconde, tem uns homens que vão entrar aqui daqui a pouco para brincar com a gente, mas para que a brincadeira dê certo você tem que ficar quietinha, tudo bem?
— Tudo bem mamãe, mas porque você não entra aqui comigo? Podemos ficar juntas enquanto brincamos!
Segurando uma lágrima que ia escorrer a mulher disse: não tem espaço para mim, a mamãe é maior que você, eu vou ficar bem aqui, assim eles não irão te achar, ta? Agora fica em silencio e não se mecha, meu amor. A mamãe te ama. — beijou a testa da filha e terminou de colocar as tabuas da parede que esconderia Elizabeth.
Margo não queria admitir, mas sabia que aquele esconderijo não era o bastante, ela ficaria ali para que não houvesse suspeitas, assim, a unica que eles iriam procurar seria ela e Elizabeth estaria a salvo.
Um silêncio tomou conta da casa, Arnaud que estava no piso superior se preparava para o pior, pegou sua velha escopeta e deixou com a mira apontada para a porta. Ele estava pronto.
Vozes eram ouvidas do lado de fora: senhor! Ainda temos esta casa aqui! A última pelo que parece.
"Arrombe logo de uma vez!" Após esta frase chutes e socos eram dados contra a porta que tremia... De repente parou, como que sem paciência, a porta foi arrancada de suas dobradiças de uma só vez, madeiras e pregos voaram junto com ela.
Dois rapazes — um mais velho e outro mais jovem, — com roupas elegantes, porém gastas, adentraram na casa, suas bocas e mãos estavam sujas de sangue.
Então, o mais velho se pronunciou para o lado de fora: é apenas um homem, o resto de vocês pode terminar o serviço, nós ficaremos com este aqui!
— Vampiros imundos! Saiam da minha casa se não...
— Se não o que? Sr. mortal, o que você pretende fazer com essa arma? Causar furos em nossas roupas não é o suficiente para nos matar. — dizia irônico aparentemente o mais velho dos dois, este possuía cabelos castanhos, lábios finos, e um nariz longo e torto.
Arnaud que com toda a sua força tomou coragem, apontou a escopeta para o vampiro que lhe dirigia a palavra e atirou acertando na região do estomago.
— Maldito! — enfurecido cuspiu uma quantidade de sangue no chão.
— Isso que dá ficar conversando com a comida. — falou o outro que até então estava calado, este por sua vez, era mais baixo que o companheiro e sua aparência era ainda mais juvenil.
— Pode ficar com ele Georgio, o infeliz usou balas de madeira, se tivesse acertado mais acima já não estaria mais entre nós! Preciso de alguns segundos para tirar as partículas.
— Como quiser.
Seu rosto era completamente sem emoção alguma, ele avançava devagar na direção de Arnaud, que temendo um ataque recuava na mesma velocidade do primeiro. Georgio, que era como o outro o tinha chamado, possuía olhos negros e profundos, totalmente assustadores. Em segundos ele desapareceu da visão de Arnaud e de repente reapareceu em sua frente, agarrando o pescoço do homem o jogou para o chão e ainda o apertando fitava o desespero que crescia em sua face, aquilo fez o vampiro sorrir.
A diferença entre ele e o homem eram imensas, Georgio parecia apenas um garoto de quinze anos, sua forma física comparada a de Arnaud diria que ele não possuiria forças para tal, mas ele era um vampiro, um monstro como todos os outros que invadira a vila daquelas pessoas inocentes.
— Me largue, imundo! Você queimara no inferno! Solte-me aberração... — o homem que se contorcia desesperadamente nos braços daquele pequeno "rapaz", empalidecera ao ver os olhos do inimigo torna-se vermelho sangue.
A pele da sua bochecha se esticava de uma forma anormal enquanto ele abria a boca mostrando suas presas enormes, rapidamente se fincaram no pescoço do homem, que após segundos, parou de se mexer.
O vampiro levantou-se normalmente, passou a mão sobre as mangas da blusa num gesto mecânico, parecendo que estava tirando pó de sua roupa, virou-se para o companheiro e disse:
— Vamos, Teo?
— Ainda falta a mulher do sujeito, as ordens foram bem claras: ninguém pode viver.
— Ah sim... — deu um suspiro lembrando do que lhe fora ordenado. — Afinal, para que mandaram nós para um lugar como este? Destruir é tão desnecessário...
— Mesmo assim você o faz com prazer, apenas não questione, vamos!
Os homens; se é que podemos chamá-los de homens; reviraram a casa por inteira até encontrar a passagem para o porão. Encontraram uma mulher no meio do cômodo com uma vela no chão e segurando uma faca, ela tremia de medo diante daquelas figuras ensanguentadas.
— Esse tipo de escória sempre tem as mulheres mais bonitas! Olha só que belíssima dama! — disse Teo curvando-se em forma de referência direcionada para Margo. — É um prazer, com certeza!
— Onde está meu marido? O que fizeram com ele?!
— Digamos, minha dama, que ele partiu dessa para melhor, meu amigo o tratou direitinho.
O olhar da mulher caiu sobre Georgio. Imóvel, sem emoção, como era o normal do garoto.
— Uma criança... Tu és apenas uma criança! Imundos! Nem os mais jovens de nós escapam, como... Como vocês podem fazer isso?!
Em brandos ela caiu de joelhos no chão soluçando quase sem folego. Sem paciência, Teo se aproximava da vítima, ele se agachou bem próximo dela e afagou seus cabelos.
— Ei, ficai calma, logo você encontrara seu marido. — disse ele ironizando seu tom carinhoso.
Rapidamente a mulher pegou a vela e afundou-a com força no olho do vampiro que deu um gemido de dor, levantou-se com uma agilidade desconhecida para ela e subiu correndo as escadas.
— Parece que esse casal adora vos causar estragos. — disse Georgio aparentemente calmo.
— Ela não ira muito longe!
Margo correu para a entrada da casa, encontrando o corpo do seu marido inerte no meio da sala. O tempo parecia ter parado para ela, não ouvia mais os gritos das famílias sendo massacradas, somente escutava o seu coração que dava fortes marteladas contra seu peito, podia sentir a dor tomando conta de todo o seu ser. Então o vento soprou de onde já estivera uma porta, esbarrando no rosto molhado de lágrimas de Margo a despertando daquele transe, a mulher desorientada caminhou na direção do leito.
— Arnaud... Meu amor, minh'alma! — soluçou por um filete de voz, uma voz que não parecia ser sua, rouca e melancólica.
Ela ajoelhou-se perto do homem, que minutos atrás era forte, valente, caloroso...vivo. Em sua mente ele continuaria a ser aquele homem por quem se apaixonou, agora, ela morreria com ele. Elizabeth estava a salvo, eles não pareciam ter suspeitas sobre sua filha, então, pegando a faca posicionou sobre seu pescoço. Antes de fazer qualquer movimento, nenhuma forma de escapar surgiu em sua mente, aquela era a única opção, pelo menos ela estaria junto de Arnaud em outra vida.
Ah! Mas como ela queria ver sua doce Lizzie crescer, ver ela e Arnaud rindo juntos, o pai brigando por causa de rapazes que chamariam sua atenção, e aqueles momentos reconfortantes de mãe e filha. Ela não veria sua pequena Lizzie crescer, não saberia que tipo de pessoa se tornou, mas vendo seu lindo amor sem vida ao seu lado, Margo não possuía mais forças, Arnaud era sua força e, agora, ele se foi.
As lágrimas que escorriam no liso rosto da mulher pareciam ácido escorregando pelas bochechas e afundando para queimar seu interior, eram lágrimas de ódio. Nunca em sua vida sentira tanta raiva assim! Ela odiava os vampiros, todos eles! Se ela não fosse uma simples mulher, usaria seu último suspiro para exterminar esses monstros, mas ela era frágil e fraca, nada poderia fazer... E assim que os dois vampiros apareceram, um corte rápido foi o que bastara.
Agora.
Meia noite, a hora preferida dos monstros atacarem.
Uma forma esguia caminhava rapidamente por entre as sombras das casas e dos becos, parecia perseguir alguma coisa, alguém mais veloz que ela. Sua caçada terminou no meio de um pátio totalmente vazio, com apenas duas carroças que estavam reservadas ali e um poste que não conseguia iluminar nem a metade do local.
— O que você acha que irá ganhar me seguindo? A esta hora da noite mocinhas já deveriam estar na cama.
A garota se virou, ela trajava uma longa capa com um capuz que escondia muito bem seu rosto, porém suas roupas de mulher a delataram facilmente, um colete e um cinto que prendia sua saia na altura da cintura e mesmo assim chegava até os pés.
— Caçadora não atrapalhe meus planos, se eu quisesse matá-la já estaria feito, e pelo que vejo vos não tiveste tempo de se aprontar para uma luta.
— Deixarei que vá se me revelar seus planos, vampiro! Estava apenas de passagem, mas sua presença me fez permanecer na cidade. — falou com firmeza.
— Deixara eu ir? Como se eu o precisasse, é apenas uma jovem tola. Aliás, eu também estava de passagem, agora mesmo estava indo embora da cidade, mas percebi que me perseguia, então decidi brincar um pouco com a falta do que fazer.
O vampiro possuía um bom físico, sua fisionomia era de um homem de quarenta anos, alto, cabelos ruivos penteados para trás, olhos que pareciam cansados, porém guardavam um vigor misterioso, lábios nem muito finos ou grossos, e uma barba bem-feita que rodeava sua boca.
Ele se aproximava da moça, que estava parada no mesmo lugar, não por estar com medo, ela esperava por isso.
— Onde está seu líder, cavaleiro?
— Ah você sabe, liderando. — parou a um metro de distância da jovem mulher.
— Sua vinda aqui não tem haver pelo fato de que o rei logo estará aqui, não é? Vampiros ainda tentam fazer parte da monarquia? — Zombou.
— Não, nós já não nos importamos tanto assim com a política dos humanos. Admito que no passado tentamos, porém, salvar humanos de humanos tornou-se cansativo, tudo o que vocês fazem é guerrear por um pedaço de terra. Então, posso confirmar com toda a certeza da minha existência que não vim aqui para ter com o rei. Como vos sabeis tão bem, vampiros precisam se alimentar, e se não fosse pelo lanche de agora a pouco eu já a teria possuído.
— Tsc! Imundo! — ela pegou uma pequena estaca de madeira que deixara no bolso da saia, e assim que ia se jogar contra o vampiro ele desapareceu...
Um ruído veio de trás, mas era apenas um velho bêbado que acabara de chegar no local e desmaiara por ali mesmo. Ela estava sozinha. Aquela perseguição foi uma total perda de tempo.
A caçadora dando por vencida, retornou para a hospedaria que se alojou, todos dormiam em Londrina e ela precisava de um descanso assim como os outros. Chegando em seu quarto alugado despiu-se e se encolheu debaixo das cobertas.
—--
— Elizabeth, acorde!
Sons de batidas fortes eram ouvidas pelo quarto, porém, a moça deitada apenas resmungava.
— Irei entrar! — Pronunciou-se a voz.
A porta então se abriu, o quarto foi recebido por um rapaz que aparentava estar na casa dos vinte e cinco anos de boa estatura e porte físico, possuidor de valentes olhos verde-musgo, cabelos loiros dourados e lábios finos, sua aparência era realmente vigorosa. O mesmo trajava uma blusa de lã que era abrigada por um colete preto, uma calça do mesmo tecido do colete, estreita, mas não justa, e botas de couro que nas solas estavam sujas de lama.
— Elizabeth se apronte, por favor! O padre nos espera na igreja, mandarei que tragam seu café para o quarto. — Dizia esperando alguma resposta, mas não houve nada. O rapaz caminhou para a janela e a abriu, revelando fortes raios de sol.
— Deniel, você não imagina a sorte que tem por eu estar sem minhas armas. — o mensageiro da manhã então se virou, encontrando uma moça nua sentada na cama o olhando com desprezo. — Faça o favor e pegue meu vestido, está jogado em algum lugar.
Ela se levantou revelando um corpo curvilíneo, seios de um tamanho natural que se enquadrava perfeitamente ao corpo, coxas não muito grossas e uma pele alva. Seus longos cabelos negros pareciam passear pelos ombros e pela cintura quando caminhava, suas íris eram preenchidas por um belo azul-marinho-escuro.
— Acha que sou uma empregada? Se apronte e vamos logo! — saiu enfurecido do quarto deixando uma Elizabeth incompreendida, talvez essa raiva momentânea seja pelo fato dele estar completamente embaraçado pela atitude vil de sua companheira.
Ela colocou o colete que usara noite passada, amarrou com força para que não se soltasse, então vestiu uma nova saia de um tom creme e com o cinto prendeu em sua cintura. Calçou um par de botas quase iguais às de Deniel, a única diferença era que estas eram de um marrom escuro. Agora que estava pronta saiu de seu quarto, no corredor trombou com a empregada que trazia o café, apenas pegou um dos pães da bandeja e o mordiscou continuando seu caminho para o estabulo da hospedaria.
No estabulo encontrou o rapaz vermelho e segurando a rédea dos dois cavalos.
— Finalmente! A senhorita já se aprontou? — Dizia no mesmo tom bravo de agora a pouco.
— Meu querido Deniel, se não queria me encontrar nua era melhor ter me deixado dormir! Mas ora, que homem fica bravo por ver uma mulher sem as roupas? Até parece que nunca viu uma!
— Você não poderia entender, Elizabeth, seus modos são tão porcos que, eu se quer acho que você poderia ser uma mulher, acontece que apenas me surpreendi pelo fato de realmente o ser! — Ele começou a rir ao notar que deixara a outra brava soltando injurias e maldições para o mesmo. — Já chega, Lizzie, não se recorda do que lhe disse? O padre está nos chamando, parece que um dos seus servidores encontraram algo importante. Anda! Leve você mesma essa tua égua, comigo ela não consegue se aquietar. A igreja não é longe, mas mesmo assim sinto que devemos levar os cavalos.
— Está bem então. — tomou as rédeas de Morgane, o cavalo mais atencioso e dedicado, totalmente apegada a Elizabeth.
Os dois saíram e seguiram para igreja para ter com o padre.
Nessa época as igrejas, mesmo não gostando da ideia de matar; diga-se de passagem, pois os mais sábios dos padres ainda ditava "É necessário o mal para um bem maior!"; montaram uma organização para caçar as abominações que feriam os inocentes e roubavam suas terras, haviam experts em exorcismos, lobisomens, pragas e vampiros. Deniel e Elizabeth estavam mais acostumados com a última opção, e por isso eram tão bons no que faziam: matar vampiros. A igreja então acolheu essas duas pobres almas para serem discípulos de Deus, para que curem seu passado e salve o futuro de pessoas que passam nas garras desses seres sedentos por sangue.
Os dois estavam em Londrina para resolver um caso de uma família que fora atacada e o corpo do marido sumiu, a esposa suspeitava que o tinham transformado em um vampiro, porém, Deniel e Elizabeth passaram dias procurando de acordo com as informações que lhe foram passadas, mas nada foi encontrado, o morto-vivo já estava longe, e já era tarde demais. Quando se transformado em vampiro não há cura, e ambos os dois caçadores sabiam que mesmo encontrado o corpo ambulante fariam dele cinzas, assim como todos os vampiros que já mataram.
—--
Na igreja.
Os dois companheiros caminhavam encolhidos por uma espécie de túnel, estavam sendo guiados por Berto, o servo do padre José IV que pediu para que viessem vê-lo. Chegando ao fim do túnel, os três desceram por uma escada íngreme e pequena, a escada os levara para um tipo de pátio em baixo da terra, era iluminado por varias tochas e algumas lamparinas, Berto que segurava uma vela a apagou e guardou no bolso da calça para usa-la novamente quando fosse subir. No recipiente haviam várias pessoas trabalhando, como: ferreiros, cientistas, médicos, todos sendo ajudados por frades em treinamento, alguns que estavam lá também eram caçadores apenas de passagem.
— Vamos, o padre José esta logo ali! — Berto fez sinal para que o seguissem, o padre não estava muito longe, estava ao lado do ferreiro Luís, que estava encarregado das armas de Deniel e Elizabeth.
Ao perceber a chegada dos três, padre José IV fez um sinal da cruz para cada cabeça abençoando-os e por fim disse: finalmente chegastes companheiros!
— Olá padre, afinal, do que se trata esse encontro? — disse Elizabeth indo direto ao ponto.
— Direta como sempre minha cara Lizzie! Pois eu vou tratar de dizer já! Bem, ontem a noite, quando dera o sinal de recolher, Berto ainda estava na rua, ele disse que passeava aos arredores dos muros da cidade e como sempre o portão estava fechado para nossa segurança. Mas havia uma caravana muito suspeita de escravos que dirigia para lá escoltada com mais ou menos oito soldados... — antes que o padre continuasse Deniel foi quem interrompeu.
— E nenhum dos soldados da muralha e da escolta viu o jovem Berto?
— Ora, sou um cara muito esperto! Me escondi muito bem nos galhos de uma das árvores que estava por lá! — relatou confiante.
— Pois bem, deixai-me continuar Deniel!
— Como quiser. — suspirou o rapaz sem nada mais a dizer.
— Um dos soltados da escolta fez um sinal para que o portão da cidade se abrisse e a ponte se abaixasse, rapidamente o fizeram, e as carruagens com escravos seguiram seu caminho. — o padre terminou o relato e cruzou os braços.
— E? Apenas isso? — disse Deniel eufórico. — É apenas uma encomenda, o que nos interessa?
— Deixe a cabeça trabalhar um pouco, — buffou o padre José. — quem faz uma encomenda no meio da noite? Não sei nas outras cidades, mas aqui o comprador sempre esta com sua mercadoria! Os únicos que passaram pelo portão foram os soldados e as carruagens, onde estaria o chefe deles? A menos...
— A menos que este não queira ser descoberto, — interrompeu Elizabeth. — mas são apenas escravos, porque toda a precaução?
— Exatamente minha cara Lizzie! Aprenda um pouco com ela rapaz! — dirigia-se para Deniel.
— Realmente, não havia passado pela minha cabeça. — Admitiu Deniel.
— Mas padre, somos caçadores de vampiros, o que o senhor acha que... — antes que terminasse a fala, prosseguiu com seu pensamento, então Elizabeth lembrou-se do encontro da noite passada. — Será que alguém está fazendo negócios com os vampiros? Afinal...
— Sem conflitos, sem desespero, sem casas queimadas e sua comida na hora e segura! — Terminou Deniel que já sabia o que passava na cabeça da companheira.
— Vocês pensam rápido, eu tentei fazer que Berto entendesse o que me contara, mas o menino demorou quase uma vida inteira! — Falou o padre dando um pequeno riso que fez o garoto ao seu lado ficar vermelho.
— Maldito! Então era isso que aquele ruivo viera fazer aqui! Conferir a mercadoria e ir embora, como eu pude deixar ele ir! — Cruzou os braços enfurecida olhando para o chão tentando encontrar alternativas.
— Lizzie? Você se encontrou com um vampiro? Como me deixou fora disso? — Perguntou Deniel com uma confusão no olhar, porém no timbre de sua voz havia preocupação.
— Ele era uma pessoa nova na região, claro que fiquei com suspeitas dele! Então o persegui ontem quando já passava do toque de recolher... Ele me levou na direção oposta das carruagens, por isso não vi nenhum movimento! Fui completamente enganada. — Confirmou com prontidão, não acreditara que se deixara levar tão facilmente, era isso o que o morto-vivo queria.
— Está tudo bem, Lizzie. Agora temos quase certeza de que houve mesmo uma negociação com esses demônios. É preciso que vocês cheguem a tempo onde a mercadoria será entregue e salve aqueles pobres coitados! Enquanto isso, contatarei alguém para que descubra aqui dentro os envolvidos nessa negociação. Luís lhes dará tudo o que for necessário, tomem cuidado! Não posso perder dois fieis dedicados. — Então, como na chegada, o padre fez o sinal da cruz e abençoou os dois caçadores, e com o Berto saiu do local.
— Vejo que vocês têm uma caçada e tanto pela frente! — disse Luís que estivera ali o tempo todo apenas ouvindo a conversa. — Nunca vi algo igual nos meus anos trabalhando para o padre José, acreditam mesmo que há um vampiro exportando escravos para serem devorados?
— Sim, mas não um vampiro, é provável que seja um humano fazendo negócios com essas aberrações! — Abrandou Deniel com a certeza na voz.
Luís fez um sinal da cruz e em voz baixa uma prece. O homem que tinha papel de ferreiro era alto e forte, quase do tamanho de um armário, possuía uma barba grossa castanha e olhos vivos, tinha a aparência de um brutamontes, mas quando se falava de vampiros ou lobisomens o coitado tinha mais medo do que uma mulher enfrentando sozinha essas abominações. O que não era caso de Elizabeth, apesar de mulher, já começou a se acostumar com a vida de caçadora, ganhos e perdas, estas ultimas que eram maiores do que as primeiras, ela tinha que se conformar, era uma vida difícil, que por vingança a acolheu completamente.
Após pegarem seu pequeno armamento e alguns mantimentos, saíram do patio e fizeram o mesmo caminho para saída, Deniel era quem os guiava com uma tocha numa das mãos. O túnel os tinha trazido de volta para o fundo da igreja, passaram pela porta que dava para o lado de fora onde os cavalos estavam amarrados em um galho de arvore.
Acomodaram suas bolsas na cela dos animais e a galope dirigiram-se para o portão da cidade de Londrina.
—--
— Para onde você acha que a carruagem esta indo? — falou Elizabeth para o companheiro que galopava lentamente ao seu lado, já fora dos muros de Londrina a garota sentia-se a vontade para perguntar.
— É difícil saber, esta estrada nos levara para uma pequena cidade pertencente a Londrina, cujo líder de lá é o abade Bernardo, filho do padre José IV, lá recolheremos informações, alguém pode ter visto essa carruagem e os soldados, afinal, armaduras fazem barulhos tanto quanto cavalos! Chegaremos lá ao anoitecer, espero que um pouco antes, nós dois temos o costume de atrair desgraças. — deu um pequeno riso pela verdade dita tão crua numa hora dessas, Elizabeth o acompanhou dando um sorriso triste que passara despercebido pelo amigo.
Continua.
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