Deixe a neve cair
27 De volta à Rússia
Notas iniciais
Despedi-me das Selecionadas e de minha família rapidamente depois do almoço. Robert exibia um sorriso deveras presunçoso enquanto me abraçava.
— Nunca imaginei que chegaria um momento em que você abaixaria a cabeça por algum motivo, mas o dia chegou — ele aumentou o sorriso. — Tudo graças ao Dimitri, acho que deveria mandar-lhe um buquê de flores em agradecimento mais tarde.
Lancei-lhe um olhar irritado.
— Pare com isso.
Robert sorriu, frio como um cubo de gelo.
— Boa viagem, irmãzinha. Feliz ano novo.
— Para você também. Tente não fazer essas meninas quererem sair correndo.
Sua expressão azedou.
— Estou fazendo um bom trabalho com elas.
Dei de ombros.
— Pare de agir premeditadamente, só deixe as coisas irem e veja de qual delas você gosta mais.
Ele riu relutantemente e se afastou.
— Você faz parecer mais fácil do que realmente é.
revirando os olhos fiz uma última reverência antes de partirmos para o hangar.
Dimitri, eu o rei Ivan e a comitiva russa entramos no jato branco e eu e Dimitri continuamos no silêncio de horas — desde que eu havia o informado que voltaria para a Rússia.
Eu estava debruçada sobre alguns papeis de anotações. A ideia que Marian Kodak tinha me dado de brincadeira — suspender a pena de morte através de um plesbicito — havia criado uma ideia fixa em minha mente. Eu sabia que poderia fazer aquilo.
Claro que com a ajuda de Dimitri teria sido feito em cinco segundos, mas ele não estava mais falando comigo.
Como se para reafirmar meus pensamentos, o príncipe da Rússia suspirou pesadamente.
Eu o ignorei como havia feito durante boa parte do dia depois que o informei que voltaria para a Rússia com eles.
— Não, você não vai — Dimitri cruzara os braços e me encarara com uma expressão obstinada. — Eu não vou permitir.
— E desde quando Vossa Alteza tem que me permitir algo ou não? — eu replicara ultrajada.
Sua expressão se alterara ligeiramente, ficando ameaçadora.
Tive que usar toda minha força de vontade e mais um pouco para não me encolher; eu havia imaginado Dimitri como um cavalo arisco que podia detectar qualquer sinal de fraqueza.
— Desde que que é para o meu país que você planeja viajar.
Eu sorrira mordazmente.
— Seria uma pena se o rei em pessoa tivesse me convidado para voltar à Rússia.
Sua expressão mudara rapidamente e, por um segundo, pensei ter visto o mais puro choque em sua face misturado com algo que parecia apreensão e raiva, talvez. Ele não gostara do meu pequeno trunfo.
— Vou falar com o meu pai sobre isso — prometera furioso. — O seu lugar é aqui, com a sua família, comemorando com seus pais e irmão, com as moças que você queria tanto conhecer.
Suas palavras pintaram uma imagem em minha mente: eu com uma taça de champanhe brindando o ano novo com Robert, papai e mamãe rindo e me abraçando pelos ombros. Kristine se agarrando com algum guarda ali perto.
Eu sacudira a cabeça. Não, o quadro não estava completo. Faltava uma parte que despedaçaria meu coração ficar longe no novo ano.
Quando viu que eu não diria nada, e sorrindo triunfantemente por isso, ele fizera uma mesura irônica.
— Dimitri? — chamei quando ele se preparava para me dar as costas. Ele encarara-me, irritado. — Se você está cansado da minha companhia, poderia simplesmente ter dito me vez de se agarrar a desculpas frágeis e idiotas para me manter afastada.
E, pela primeira vez, eu lhe dera as costas.
— Isso está insustentável! — Dimitri explodiu de uma vez. A voz estava baixa, mas, depois da minha intensa concentração introspectiva, parecia um tiro de espingarda em uma paisagem calma.
Eu me atrapalhei e deixei alguns dos meus papeis quase em branco deslizarem pela mesinha até o piso acarpetado da aeronave.
Dimitri pegou alguns e me entregou com uma expressão entre solícita e furiosa.
Tomei-os um pouco mais rudemente do que deveria de suas mãos.
— O que está insustentável?
— Isso! Toda essa palhaçada. Você odeia a Rússia, odeia o clima e estava louca para voltar à Illéa!
Encarei-o.
— Acho melhor deixá-los conversarem a sós — rei Ivan murmurou em russo para seus conselheiros com uma expressão estranhamente alegre e eles rumaram para a parte mais à frente da aeronave, embora não pudessem de afastar muito de nós.
— Você está ficando maluco, Dimitri? Eu quis voltar para a Rússia. Gosto do país e gosto de você e de seu pai! — encarei-o. Minha voz estava se elevando perigosamente e eu a controlei para não gritar com ele. — Preferiria passar o ano novo em Illéa? Claro que sim, mas vocês não estariam lá, não estaria completo. Você é cego, por acaso?!
Ele me olhou implacável como gelo.
— E você não poderia ficar em Illéa e voltar para a Rússia depois? Não, tinha que voltar para testar minha paciência com tudo que está acontecendo.
Eu o encarei.
— Você é impossível!
Ele bufou.
Nunca havia visto Dimitri agindo assim, ele parecia possuído e ficou de cara amarrada por um bom tempo, como um idiota.
Rei Ivan apareceu algum tempo depois de seu exílio e sussurrou com o filho, que o deu uma resposta em russo claramente muito fria.
Franzi a testa para ele.
— Maravilha — sussurrou com ironia. — Tudo o que eu precisava.
— O que foi?
— Minha família está aqui — informou, menos rude que antes mas ainda obviamente furioso. — E o dia só piora.

Assim que descemos no hangar russo, me arrependi do vestido de seda que usava. Ele era perfeito para o clima de Illéa, mas nem um pouco para o clima em Moscou.
Dimitri tirou o casaco do terno preto e o colocou sobre meus ombros.
— Obrigada — sussurrei e ele sorriu tenso.
— Meus tios estão aqui porque o Parlamento está em recesso e tanto eu quanto meu pai estávamos fora — explicou sem emoção. — Meu tio é o filho mais novo de meu avô, então é o líder de estado nessas circunstancias. Eles organizaram a nossa festa de recepção. Não dê ouvidos à minha tia.
Fiz menção de perguntar sobre a última observação mas ele fez um gesto com a mão para que eu esperasse um pouco para comentar o assunto.
Entramos na sala que equivalia ao que era Grande Salão em Illéa, onde algumas pessoas estavam paradas aguardando e alguns garçons andavam a esmo.
O grupo que nos aguardava era distinto. Havia um homem mais ou menos da idade do rei Ivan que o abraçou entusiasmado, uma mulher magra e alta que o cumprimentou com dois beijos em cada bochecha e três adolescentes. As duas garotas — praticamente idênticas, com exceção da cor dos olhos — beijaram as faces de Dimitri e o rapaz apertou sua mão com seriedade e se inclinou pra beijar a minha.
— Olá — murmurei.
A garota dos olhos azuis se inclinou beijou-me com entusiasmo nas bochechas.
— É bom conhecê-la — disse com aquele sotaque forte e lindo dos russos. — Jamais imaginei ver Dimitri com uma garota, ainda mais tão… íntimo — seus olhos passaram por nossas mãos dadas e pararam no casaco sobre meus ombros.
Olhei rapidamente para ele que deu de ombros, relaxado com o comentário. A outra garota, que tinha olhos pretos como o primo, beijou-me nas bochechas também, porém de forma que me pareceu fria.
— Essas são Kira e Sasha, respectivamente e esse é…
— Demiyan, o insignificante — completou com um mau-humor fingido o rapaz. — Não acredito na sorte do Dimitri de casar com uma gata como você.
Acho que fiquei vermelha como o meu vestido.
Dimitri passou um braço ao redor de minha cintura, puxando-me contra si com um pouco mais de força que o estritamente necessário.
— Comporte-se, garoto — ralhou, mas havia afeto em seu tom, como um irmão mais velho.
Demiyan sorriu. Ele era o primeiro russo que eu conhecia que não tinha problemas com isso. Ele tinha duas covinhas, o que ajudava a fazê-lo ter um ar ainda mais jovem, embora não pudesse ser muito mais novo que eu.
— Demyian! — repreendeu a mulher. Ela então me olhou de cima a baixo. — Ela é um pouco gorda, está seguindo a dieta de Katherina?
— Tia! — Dimitri exclamou mortificado.
— Não dê ouvidos a essa velha matrona, princesa Layla — disse o homem. — Sou Alexander Serov, irmão mais novo do rei.
Inclinei-me para ele depois que beijou minha mão.
— É um prazer conhecê-lo.
— O prazer é meu. — Ele me olhou com intensidade. — Apesar de Demyian só dizer bobagens, ele tem razão. Dimitri não poderia ter uma noiva mais adorável.
Ouviu-se um claro “Humpf!” vindo de sua esposa.
— E essa adorável mulher é minha esposa Yeva — continuou como se nada tivesse acontecido.
— Bem, vamos dar início à festa? — Ivan ofereceu gesticulando para um dos garçons de branco se aproximar.
— Sim perfeito, quero um copo de vodca com pouco gelo — a mulher disse alteando a voz imperiosamente.
— Entendo o que quis dizer — sussurrei para Dimitri e ele tocou meu ombro, solidário. Nossa discussão de mais cedo parecia jamais ter acontecido em razão da sua tia que era gentil como um coice de girafa.
— Sempre podemos fugir um pouco da festa sem ninguém perceber — ofereceu.
Abri um sorriso enorme para ele.
— Estou contando com isso — sussurrei e ele também sorriu.
Dimitri me levou para um canto mais afastado do salão enquanto a pequena orquestra começava a passagem de som.
— Sua tia é sempre assim? — perguntei baixinho, sem querer ser indelicada, mas já sendo.
Ele fez careta.
—Desde que consigo me lembrar. Ela adorava fazer comparações pouco lisonjeiras entre Yuri e eu. Pequeno, magrelo e atrevido demais esse Dimitri! — imitou em falsete.
Engasguei.
— Pequeno?
Dimitri deveria ter pelo menos um metro e oitenta centímetros de altura e era musculoso e esguio. Ele não era pequeno.
Ele deu de ombros.
— Ela nos comparava quando éramos crianças, eu era muito jovem. Uma vez minha mãe quase a expulsou — ele suspirou. — Pena que ela sempre foi gentil demais para fazer isso.
— Eu gostaria de ter conhecido sua mãe, ela parece ter sido muito boa. E seu irmão…
Parei de falar no mesmo instante. Sua expressão ficou extremamente sombria quando mencionei seu irmão. Eu e minha boca grande. Dimitri não gostava de ser lembrado de seu passado.
— Eles gostariam de você — respondeu, rígido.
— Eu disse besteira, não disse?
Dimitri tentou sorrir, mas não conseguiu.
— Não, eu só… osp roblrmas que eu mencionei mais cedo, durante hum…
— Nossa discussão — eu o ajudei.
— Isso. Os problemas envolvem minha família, em especial meu irmão.
Peguei sua mão e apertei.
— Se quiser compartilhar comigo tudo bem, se não tudo bem também.
Dessa vez uma pontinha quase minúscula de sorriso apareceu.
— Não agora.
Os primeiros convidados foram chegando e perdi a oportunidade de falar com Dimitri enquanto cumprimentávamos os amigos do rei.
O salão já estava quase cheio e eu estava sentada imprensada entre a tia de Dimitri e sua prole.
— Então, Layla, o que você tem achado do Dimitri? — Demyian perguntou chamando minha atenção para si.
Sorri para ele.
— Eu gosto muito de Dimitri, ele é uma pessoa fantástica. Muito inteligente, gentil… — Não concluí o pensamento.
— Sim, se você gosta de caras amarradas ele é uma ótima pedida. Mas se você quer o melhor que o clã Serov pode oferecer...
— Gosta gosta ou só gosta? — Kira, a dos olhos claros, perguntou cortando o irmão.
— Eu gosto gosto do seu primo — corei de forma óbvia.
— Que lástima — murmurou Yeva para si mesma.
— Ora, o Dimitri é o futuro rei, é claro que vai querer uma rainha bonita e legal como a Layla — Kira disse para a mãe.
— Ele só pode receber a coroa depois que se casar — comentou Sasha falando pela primeira vez. Sua voz era clara e grave.
— Não é — interpôs o irmão. — Se o rei abdicar, o trono passa para o próximo homem na linhagem da família, no caso o Dimitri.
— Por quê o assunto é eu usar ou não a coroa? — Dimitri estava com uma expressão grave.
— Por nada — respondi sorrindo.
Sua expressão suavizou e ele estendeu-me o braço elegantemente.
— Quer dançar?
Assenti aceitando sua mão.
A próxima música era uma valsa e Dimitri guiava com muita tranquilidade enquanto minha cabeça se apoiava em seu peito.
— Você parecia constrangida — explicou conduzindo-me em giros amplos.
Eu sentia os olhares sobre nós, mas me recusava a olhar ao redor, mantendo o olhar fixo no rosto diante de mim
— Tão óbvio assim?
— Bastante — murmurou.
Eu ri baixinho.
Quando a música acabou Dimitri me puxou para o outro extremo do salão, longe da sua família.
— Você realmente detesta a sua tia, não é?
— Tão óbvio? — Ele repetiu o que eu havia dito.
Sorri e assenti.
— Ela é uma pessoa difícil de lidar. Gosto muito de meus primos e de meu tio, mas se a família é um pacote só…. dispenso.
Fiz que sim com a cabeça, entendendo seu ponto de vista sempre prático.
Um homem de cabelos escuros se aproximou de nossa mesa. O rei Ivan se inclinou para Dimitri e sussurrou em seu ouvido, ele me encarou enquanto ouvia atentamente o pai com o rosto tenso e assentiu rapidamente.
— Eu já volto — sussurrou para mim e seguiu o rei por uma saída discreta. Não acho que alguém tenha reparado.
Minutos depois outra pessoa sentou a meu lado.
— Chaaato — disse Kira suspirando.— Odeio esses eventos, você não?
Dei de ombros.
— Estou me sentindo deslocada, mas é interessante ver as diferenças entre a Rússia e Illéa.
Ela concordou com a cabeça.
— Muito diferente, ouvi dizer. Lá as acompanhantes são consideradas inferiores, aqui elas são parte da nata da sociedade; nós russos bebemos muito, você só está no champanhe. E você não para de sorrir.
— Isso é ruim? — ergui uma sobrancelha.
— Não sei — admitiu, olhando para a pista de dança monotonamente. — É estranho, com certeza.
Ficamos em silêncio por um tempo.
— Dimitri vai dançar com a Sasha — ela bufou indicando os casais se dirigindo à parte central do salão.
— Mamãe forçou ele a tirar a Sasha. Ela começou a falar sobre moral e costumes de casar com russas e ele puxou a Sasha só para não ter que ouvi-la — Demyian brotou a nosso lado com um copo em cada mão. Ele piscou para mim pressentindo que eu estava pensando que ele era novo demais para se embebedar tão obviamente. — Isso é para você — estendeu-me o copo.
— Dispenso.
Ele sorriu e sentou à mesa também.
— Vou ali, acho que quero ficar bêbada e me agarrar com o primeiro cara que aparecer pela frente — Kira disse levantando-se.
Meu queixo literalmente caiu enquanto ela deslizava para longe.
— Não dê ouvidos à ela, Kira não vai sair por aí transando com qualquer cara — ele fez uma cara pensativa. — No máximo eles vão dar uns amassos em algum corredor.
Eu ri.
— Você é o primeiro russo com senso de humor que eu conheço.
Ele também riu.
— Isso aí! E todos acham que eu fui trocado na maternidade por isso.
Demyian era muito engraçado, ele contava histórias sobre o clã Serov, sobre a infância com o irmão de Dimitri.
— Todos ficamos tristes com aquela coisa do Yuri — disse, pesaroso. — Ele seria um grande rei. Era um primo muito bom e um irmão maravilhoso para o Dimitri e os dois eram muito ligados.
Assenti.
— Dimitri ainda fica meio… irritado com o assunto — comentei jogando verde.
— Ele não gosta do tema, isso é fácil de entender. Mas esqueça o Dimitri — ele deu um peteleco no ar. — Fale-me de você.
Eu ri da sua atitude.
— Princesa de Illéa, fotógrafa e teimosa — inclinei a cabeça em uma leve reverência e ele riu.
— Demyian, sua mãe está te chamando — Dimitri disse bruscamente aparecendo por trás de mim.
O garoto revirou os olhos.
— Só porque estou me divertindo... Bem, teremos tempo para isso mais tarde — e piscou para mim. — Até mais, Layla.
Dimitri estendeu-me a mão em um convite silencioso e me levou para fora, onde o vento chicoteava nossas peles. Eu tremia mesmo com o seu casaco a meu redor.
— Se divertindo?
— Bastante, seu primo é muito engraçado — sorri.
Ele cruzou os braços casualmente.
— Humm…
— O que foi? — provoquei. — Está com ciúmes?
Ele me ignorou.
— Sobre o que estavam falando?
— Muitas coisas — dei de ombros não querendo dizer que eu usei seu primo para me contar sobre seu passado, aquilo era como um dizer que eu não confiava em Dimitri, o que não era verdade. Totalmente. — Mas agora que não tem nada para me distrair acho que vou me jogar de um penhasco.
— Como seu noivo, é meu dever evitar que esses pensamentos entrem em sua mente — ele ergueu uma sobrancelha. — O que posso fazer para evitá-los?
Me beijar, me contar qual o problema, porque você anda tão estressado…
— Só fica comigo, Dimitri — pedi baixinho.
Ele pegou minha mão e a beijou delicadamente.
— Não tinha a intenção de fazer o oposto.
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