Deitei-me com os Lobos
1 Sansa
Notas iniciais
Não aguentava mais os tormentos pelos quais tinha que passar. Como havia sido tola ao achar que estava apaixonada pelo monstro à sua frente.
– Olhe para ela! — Joffrey gritou mais uma vez, e Sansa não se permitiu chorar.
Vendo que não havia escolha, olhou. Olhou a cabeça de seu pai em uma estaca nas muralhas do Castelo. Papai, me perdoe, pensou.
Era tudo culpa sua. Ela que havia insistido à mãe que fizesse Ned aceitar esse matrimônio, pois acreditava amar o príncipe. Mas agora o odiava, e odiava todos aqueles cujo sobrenome fosse Lannister. Seu sangue clamava por vingança, mas não sabia como a faria. Era impotente em Porto Real e sabia disso.
Mesmo com a morte de seu pai, ainda estava presa ao casamento com Joffrey.
A cabeça de seu pai estava ensanguentada e a pele um tanto verde. Havia insetos voando sobre ela.
– Por quanto tempo tenho que olhar? — Se perguntou, sua voz trêmula.
– Por quanto tempo eu quiser que olhe. — Respondeu o Lannister mimado. — A próxima cabeça será a do seu irmão Robb, senhora. Pedirei que entregue-a diretamente até você.
Aquilo fez seu coração gelar e, em seguida, a encheu de raiva. Parecia que seus órgãos estavam ardendo. Cada membro de seu corpo desejava matar Joffrey.
– Ou talvez ele me entregue a sua. — Respondeu, e se arrependeu no mesmo instante. Essa sua frase poderia custar sua cabeça.
Joffrey olhou para Sansa, de princípio, confuso pela reação da Stark.
– Minha mãe me ensinou a nunca bater numa dama. — Disse depois de alguns instantes. — Sor Boros. — Disse o nome do guarda e, de repente, uma mão de aço acertou seu rosto com todas as forças. Por um momento, Sansa ficou sem ar.
Covarde, pensou. O Rei não passa de um covarde. E eu estou presa a ele até o fim dos meus dias.
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Todas as noites antes de dormir pensava no seu pai e na sua irmã. Arya, me perdoe por tudo, pensou. Deveria ter brigado menos com você. Onde você está, minha irmã?, se perguntava, com o peito apertado.
Rezava para os Deuses não deixarem que mais nenhum horror ocorresse com sua família. Que Robb vencesse a guerra, que Arya estivesse bem. Isso a acalmava um pouco, mas mesmo assim se permitia chorar baixinho.
– Senhora Sansa, acorde, por favor.
Seus olhos estavam inchados pelo choro e, ao acordar, vislumbrou sua aia, uma mulher loira de olhos azuis cujo sempre esquecia o nome.
– O que você quer? — Perguntou, enquanto bocejava. Sua cabeça latejava por ter dormido chorando, como todas as noites.
– A Rainha pediu para que a levasse até a Sala do Trono. O Rei Joffrey tem um anúncio.
Joffrey. Só de ouvir o nome já dava arrepios na espinha de Sansa. Ela acenou com a cabeça e se levantou, permitindo que a aia a ajudasse a se trocar e a escovar os cabelos.
Finalmente pronta, foi andando até a Sala do Trono, onde há um tempo antes havia se ajoelhado e pedido misericórdia por Ned Stark. E então ele me deu a cabeça de meu pai, dizendo que isso era misericórdia, se lembrou e, involuntariamente, enquanto andava, fechou suas mãos em punho, tentando conter sua ira.
Sentou-se em uma das cadeiras e esperou. Quando Joffrey chegou e sentou no Trono ao lado de Cersei, nem sequer olhou para ela.
– A Casa Tyrell se juntou ao Rei verdadeiro, Joffrey Baratheon. — Anunciou Meistre Pycelle. — E agora, para selar ainda mais essa nova aliança, o Pequeno Conselho quer fazer uma proposta ao Joffrey e à Mance Tyrell, pai de Margaery.
Cersei Lannister se levantou e andou alguns passos à frente, fazendo com que seu vestido vermelho e dourado, as cores de sua Casa, desse a impressão que estava flutuando.
– Gostaríamos de unir você, meu filho e legítimo Rei, à Margaery Tyrell, se assim for de desejo seu e do pai da mesma.
O coração de Sansa gelou. Então não me casarei mais com Joffrey?, pensou, se segurando para não sorrir. Uma pontada de felicidade e esperança iluminaram seu coração.
Mance Tyrell se levantou imediatamente, seu rosto apresentava surpresa, porém satisfação.
– Se for do desejo de minha filha, eu concedo.
A garota chamada Margaery se levantou logo em seguida. A mesma usava um vestido azul e verde com um decote que ia até quase o umbigo. Sansa percebeu que a mesma era incrivelmente bela.
– Ouvi histórias sobre sua coragem e beleza, Rei Joffrey. Me apaixonei por você à distância, adoraria ser sua esposa.
Joffrey apenas escutava e uma ruga de preocupação havia aparecido em uma de suas sobrancelhas.
– Ouvi histórias sobre sua beleza também, senhora Margaery. Gostaria de poder seguir meu coração, mas já estou comprometida à outra. Fiz um voto sagrado de que casaria com Sansa Stark.
Ouvir seu nome fez seu coração bater mais rápido. Não!, quase gritou. Não recuse, por favor. Não recuse.
– Isso não será um problema. — Interrompeu Cersei, com um sorriso no rosto. — Conversamos com o Alto Septão e ele disse que você está liberto de seu juramento. Sansa Stark era filha de Ned Stark, um traidor. Seu irmão Robb está planejando uma guerra no momento em que conversamos aqui, na Sala do Trono. Não sabíamos a índole da família Stark quando o Rei jurou se casar com a filha mais velha deles. Então, Joffrey, meu querido filho, você está livre de tal voto.
Joffrey sorriu e Sansa nunca havia se sentido tão aliviada em toda sua vida.
– Os Deuses são bons. Posso seguir meu coração! É claro que me casarei com você, senhora Margaery Tyrell.
A platéia vibrou com a resposta de Joffrey, inclusive Sansa, só que internamente. Sorriu por um instante e, depois, se conteve. Preciso mostrar que estou magoada, se lembrou.
Analisou a futura Rainha, Margaery. Seus cabelos castanhos caíram em seus ombros brancos e nus e chegavam até quase sua barriga. A mesma a olhou de relance, e Sansa ficou hipnotizada pelo olhar castanho da mesma.
Atordoada com essa confusão de sentimentos, desviou rapidamente. Uma garota tão bela, refletiu. E se casará com uma criatura tão monstruosa. Sentiu pena da garota, mas logo se recompôs. Antes ela do que eu, concluiu.
Essa noite, ao deitar na cama, estava muito feliz, sorridente. Ingênua da maneira que era, achou que todos seus problemas estavam acabados, sem saber que, estavam apenas começando.
Respirou fundo e fechou os olhos. Essa noite não chorou e tampouco teve pesadelos.
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