Declínio Das Trevas
10 Láudano
Notas iniciais
Bom, já que vocês dois falaram disso nos comentários, vou dar uma explicação básica sobre o que está acontecendo.
No jogo, Daniel acorda no castelo sem lembrar de nada, apenas com um recado dele mesmo dizendo que é para matar o Alexander. A situação é realmente desesperadora, porque depois de tomar a poção de amnésia (que é rosinha mesmo haha, tem gotas dela no chão) ele lembra apenas do próprio nome e que vivia em Mayfair. Durante o jogo, você encontra notas do diário do Daniel, tem flashbacks e o rapaz, por causa do orbe, consegue "ouvir" memórias de outras pessoas, dos prisioneiros do castelo, de alguns servos e dos prisioneiros.
Esse orbe, e isso é revalado ao longo dos flashbacks e dos textos nas telas de loading (que são influenciados por suas ações no jogo) é uma esfera mística que o nosso arqueólogo encontrou em um túmulo na Argélia (perdoem se escrever Algeria, a culpa é dos gringos que escrevem dessa maneira) e que contém poder absoluto. Os orbes (o que o Daniel achou não é o único, o Alexander possuia um em pedaços) são protegidos esse espírito guardião referido como The Shadow, que está perseguindo Daniel por ter profanado seu lugar de descanso.
O orbe do Daniel estava quebrado quando ele achou, mas percebendo que trtava-se de algo incomum, decidiu levar as peças consigo. Ele começou a ser atormentado por pesadelos na viagem de volta e, quando chegou em Londres, recebeu a notícia que seu companheiro de expedição que havia ficado na África tinha morrido. Depois disso, morreu também um geólogo a quem Daniel mostrou as peças e mais outros dois professores. O rapaz estava em pânico e mandou cartas para vários especialistas. A única resposta que recebeu vinha desse barão prussiano, Alexander, convidando Daniel para vir ao seu castelo, onde poderia ajudar o jovem (e o Daniel é bem jovem mesmo, do jeito que o jogo deu as pistas, ele não deve ter mais que 22 anos). Após receber a carta de Alexander, Daniel tem um tipo de epifania e consegue montar o orbe que tinha em mãos. Depois disso, ele chega em Brennenburg e realmente coloca toda sua confiança nas mãos de Alexander, que não perde tempo em impressionar Daniel com a riqueza do castelo, seus conhecimentos e oferta de proteção irrestrita, inclusive aquele diálogo em que o Alexander diz que vai fazer os pesadelos do rapaz pararem está em um dos flashbacks. Paro por aqui pois se contar mais, darei spoilers!
– Eis a farsante que aceita fingir ser a amada do homem solitário. – disse Alexander, entregando a Daniel uma pequena ampola de vidro. – Vou ensinar a ministrá-la e, quando você precisar de mais, basta pedir. Prefiro guardar essas substâncias em meu gabinete pessoal.
Daniel concordou. Examinou a ampola. Reconheceu a letra de Alexander no rótulo.
– “Tintura de Ópio. Láudano.” – o rapaz leu. Puxou a rolha com cuidado e sentiu um cheiro característico, que já havia experimentado antes. – Espere, não é isso que damos aos animais antes de dissecá-los? Não é um veneno?
– É o veneno mais terrível, se dosado incorretamente. – falou Alexander. Além do frasco, havia trazido também um livro muito velho, cujas páginas estavam roídas por traças e quase soltando do encadernamento dourado. Ele virou as folhas amareladas com cuidado, até encontrar o capítulo que desejava compartilhar com Daniel. – “Láudano é obtido através da diluição das sementes do ópio em álcool. Sua cor lembra a ferrugem e seu gosto é extremamente amargo. É um narcótico potente devido à alta concentração de morfina e o melhor medicamento para tratar a dor. O médico Paracelso foi o primeiro a dissolver o ópio em álcool e nomeou sua descoberta a partir do verbo latino laudare, louvar.” O que interessa a nós são os principais efeitos colaterais da droga, “euforia e sedação” nas palavras do autor. Justamente o que você precisa. Está disposto a tentar?
Daniel permaneceu em silêncio, seus olhos fixos na caligrafia fina do rótulo da ampola. Era um pouco perturbador que fosse o mesmo líquido usado para dopar as amostras do laboratório. Ainda que fosse um veneno, não era possível que o barão oferecesse láudano a Daniel se fosse tão perigoso assim. Olhou para Alexander:
– Eu preciso dormir. – disse, apertando o frasco na palma da mão.
E Daniel dormiu. Alexander explicou que, ao deitar-se, o rapaz deveria beber uma certa quantia de gotas, não mais que vinte e cinco. Segundo ele, isso seria o suficiente para induzir um sono tão profundo, que sua mente não ficaria exposta a pertubações externas e nem aos próprios temores.
– Alexander, que livro antigo é esse? – Daniel murmurou, percebendo a consciência abandoná-lo quase milagrosamente logo após empurrar o líquido amargo pela garganta.
– Trata-se um manual escrito por um alquimista. Seu nome era Agrippa.
Daniel ainda ouviu a própria voz tentar responder ao barão, mas apenas conseguiu produzir sons sem sentido, pedaços de palavras que nada significavam. As cores do quarto misturaram-se em uma profusão vaporosa e avermelhada. Todos seus sensos foram levados à deriva em um mar de calmaria milenar. Depois da calma absoluta, nada mais.
Os moradores de Alstadt caminhavam pelas ruas de terra batida. Trabalhavam duro, carregando galões de leite, cestas de ovos e fardos de feno. Algumas crianças corriam atrás de uma carroça. Era um dia ensolarado e não havia motivos para aflições. Daniel andou um pouco por entre os aldeões, apenas para notar que era ele o único ser em movimento e também que sua presença era invisível naquele lugar. As pessoas eram figuras cinzentas e pouco expressivas, fantasmas com faces genéricas vagando pelo cenário campestre. Seus risos e vozes estavam lá, mas pareciam ser ecos rondando o ambiente e, de forma alguma, eram produzidos pela multidão de gente.
“Que estranho.” Daniel pensou. Então vozes baixas e muito distintas sobrepuseram o murmúrio fantasmagórico. O rapaz as seguiu e encontrou dois homens vestidos à moda do Renascimento discutindo entre si. Nenhum deles pareceu perceber a aproximação de Daniel.
“Johann, perdoe-me, meu caro aprendiz.” disse o homem mais velho, seu rosto parcialmente escondido pelo capuz de suas vestes. “Eu tive que me esconder. Estava com medo. O guardião do orbe poupou minha vida, mas acreditei que ele poderia voltar caso ousasse acionar novamente a relíquia.”
“Aceito seu pedido de perdão, querido mestre.” Johann respondeu. Era um homem atarracado, de olhos e cabelos muito escuros. Vestia-se de maneira elegante, com roupas coloridas e uma gola bufante. “Ainda assim, Agrippa, tenha em mente que passei os últimos dez anos procurando por você! Saiba também que reuni uma pequena coleção das relíquias e livrei-me do guardião!
Agrippa sorriu para seu antigo pupilo.
“Seu talento é nato, Johann. No momento em que conheci você, previ que um dia você seria capaz de superar-me.”
Johann fez uma reverência, porém ainda havia preocupação em seu semblante.
“Não consigo aceitar que você prefira depositar sua confiança naquele barão, ao invés de mim!”
O homem mais velho riu, em seguida pediu para que Johann falasse mais baixo, pois sua última frase atraiu a atenção de algumas pessoas. Então os dois homens começaram a andar pela rua principal e entraram em uma travessa conduzindo a um beco mais discreto. Johann obedeceu Agrippa sem discutir, mas havia cruzado os braços na frente do corpo e sua face expressava franco descontentamento com seu velho professor.
“Diga-me, mestre, por que aquele mago descuidado e não eu?”
“Alexander é um bom homem.” disse Agrippa, o que fez Daniel espantar-se. Se as roupas daqueles homens indicassem a verdade, seria estranho que estivessem falando do atual barão. “E um grande pesquisador das ciências ocultas. Além disso, Johann Weyer, não perdoaria a mim mesmo se o Ritual falhasse e você morresse.”
“E, por acaso, seu Ritual falhou?” Johann perguntou, amargurado.
“Sim.” disse Agrippa, fazendo a expressão de Weyer transformar-se em choque no mesmo instante. “Nós banimos a Sombra, mas o orbe está em pedaços. O jovem Alexander ainda não acordou.”
“Agrippa, você devia ter dito antes! Você está bem? O que eu devo...”
“Fique fora do caminho.” Agrippa falou, assustando seu aprendiz. “O barão estará de pé em breve e nós veremos o que pode ser feito. Você tem responsabilidades agora, Johann. Vá cuidar de sua família e de suas próprias pesquisas. Se for necessário, chamarei você.”
“Eu não...” Johann começou a dizer, então pareceu mudar de ideia. “Pois bem. Vou embora.”
Johann afastou-se do homem mais velho em passos largos. Quando ele desapareceu em meio aos aldeões, Agrippa baixou o capuz, revelando um rosto cheio de cicatrizes. Apoiou-se no muro mais próximo, parecendo ferido e abalado.
“Meu tempo esgota-se, Johann e você não precisa ver isso...” ele murmurou para o espaço vazio que Weyer havia deixado.
–§-
Daniel despertou lentamente, incomodado com a claridade que a cortina não havia sido capaz de bloquear. Esfregou os olhos e levantou. Havia acordado sentindo-se como se estivesse resfriado e sofrendo de falta de ar. Estava ciente que a redução respiratória fora causada pelo láudano, conforme Alexander havia alertado. Espreguiçou-se e inspirou profundamente, recobrando seu ritmo respiratório normal. Afastou as cortinas da cama e achou graça em seu braço dormente e leve dor de cabeça, sinais de que havia dormido mais do que deveria. Não descansava assim a dias. Tentou, em vão, lembrar de um sonho. Tudo que vinha a sua mente eram impressões borradas, mas isso também foi motivo de grande contentamento, pois queria dizer que havia extirpado aquilo que provocava pesadelos medonhos, dos quais ele sempre lembrava com detalhe.
Andou manhosamente pelo quarto, satisfeito em ter perdido a noção das horas. Sequer tinha muita certeza do que havia acontecido na noite anterior. Eu estava exausto e tive mais um pesadelo sobre minha infância e sobre a Sombra. Alexander ouviu meu sofrimento e manteve sua promessa que faria com que esse tormento parasse. Eu bebi o láudano e dormi. Tão estranho, parece ter passado tanto tempo... Será parte dos males que a droga causa em meu organismo?
Daniel pensou no quanto o barão havia sido realmente cortês, pois Daniel havia chorado aos soluços na frente do homem. Isso poderia ter levado a uma situação terrivelmente constrangedora, mas Alexander demonstrou ser compreensivo. No momento em que o arqueólogo teria merecido apenas críticas por sua fraqueza, havia sido reconfortado. Alexander o fazia sentir-se seguro com a atitude solicita e firme, dispondo-se a ajudá-lo quando não havia mais esperança.
O jovem homem distraiu-se de tal reflexão ao notar a presença de uma banheira circular por trás de um biombo decorado com motivos orientais. Era feita de madeira e estava cheia de água quente com ervas perfumadas. Daniel sorriu e despiu-se das vestes de dormir, agradecido pela gentileza inesperada.
Daniel encostou-se na borda da bacia e deixou que a infusão de água e ervas tratasse dos músculos amortecidos pelo longo período de sono. Encontrou um pote com sabão de cinzas deixado em uma mesa próxima e lavou bem o cabelo, muito satisfeito com o banho luxuoso. Brennenburg é um lugar maravilhoso. Será que se pedir ao barão, ele me deixa ficar como seu aprendiz por tempo indeterminado?
Uma noite inteira de sono causou tal bom humor em Daniel, que quando finalmente terminou de arrumar-se, também tendo feito a barba e aparado o cabelo diante do espelho ao lado do armário, estava assobiando. Viu suas anotações sobre a mesinha de cabeceira e lembrou que havia deixado alguns trabalhos laboratoriais por fazer.
Deixou o quarto e seguiu para o laboratório, fazendo tilintar a chave que Alexander havia lhe confiado no ritmo de uma marcha britânica. Não viu sinal do barão, mas começava a habituar-se com as longas ausências do homem. Acenou para um serviçal caminhando nas sombras da adega, mas seu cumprimento foi ignorado. Daniel deu de ombros e entrou na sala repleta de experimentos.
Sentou-se à bancada, diante do terrário onde restavam apenas dois répteis. Daniel já não sentia remorso algum em sacrificar as criaturas, nem nojo de seus órgãos internos. Na verdade, quando pegou a prática do corte, passou a achar interessante abrir os corpos com cuidado e tentar identificar os órgãos principais, ainda que não entendesse muito de anatomia. Escolheu um dos animais e enfiou a mão no terrário para pegá-lo.
– Ah, fique quieto! – Daniel reclamou, quando a criatura contorceu-se tentando escapar das mãos do rapaz. Esticou a mão livre para pegar o frasco do que agora sabia ser láudano e pingar algumas gotas através da goela do animal. Isso é um pouco bizarro, não é? Será correto medicar-me com a mesma substância que põe fim à existência dessas criaturas? Creio que não estou em posição de fazer julgamentos morais, mas perturba-me imaginar que poderia estar no lugar delas. – Que... Ai!
O animal mordeu o dedo de Daniel, que o soltou no mesmo instante, temendo que a criatura espirrasse veneno na ferida. O lagarto correu pela mesa, derrubando vários equipamentos, então saltou para o chão e fugiu para dentro do alçapão no chão do laboratório. Daniel correu atrás dele e aterrissou de joelhos, em frente da grade metálica, bem a tempo de ver a cauda verde desaparecer por entre as barras.
Ouviu o corpo do réptil bater no fundo do poço, agitando a água. Então, o lagarto guinchou e Daniel ouviu a água ser esparramada como se uma criatura muito maior tivesse rastejado para dentro do poço, vinda através de um túnel.
– O que m... – Daniel tentou ver o que estava acontecendo dentro do fosso, mas era demasiadamente escuro. A coisa avançou contra o réptil e Daniel ouviu um som terrível de uma mandíbula estalar-se e mastigar o pequeno animal. Novamente um corpo pesado fez a água trepidar. O som de seus movimentos era cada vez mais distante, até que o único barulho restante era um burburinho quase inaudível de gotas pingando.
O rapaz levantou devagar, seus olhos fixos no alçapão. Pegou a lamparina a óleo usada para iluminar a bancada e a aproximou do buraco. As chamas fizeram brilhar as paredes de pedra molhada, mas não revelaram a presença de sinal algum de qualquer criatura. Tentou levantar a grade, mas esta havia sido fixada no chão e só cederia se fosse quebrada com uma marreta.
Sentou em uma cadeira e ficou encarando a chama trepidante da lamparina. Será que o lagarto havia apenas fugido e todo o resto havia sido uma ilusão causada pelo láudano? Não, isso seria atribuir mais efeitos ao remédio do que ele realmente causa. Massageou a fronte em um ponto que havia recomeçado a latejar, causando uma leve dor de cabeça.
"Ou será que isso é real? Quem sabe o que se esconde nas profundezas de Brennenburg?"
– Alexander?! – Daniel respondeu, olhando ao redor. Estava sozinho no laboratório, mas tinha certeza que estava ouvindo um risada tão baixa que parecia vir do interior de seu crânio. Algo estalou no corredor formado por duas prateleiras. Daniel agarrou a lamparina e foi verificar, sentindo-se muito apreensivo.
Quando botou o pé no corredor, foi obrigado a agarrar-se à prateleira mais próxima, seus pensamentos sendo embaçados pela tontura. Ficou cego por um instante, então ouviu vozes vindas da região da bancada que havia acabado de deixar.
"Então, você conseguiu aprisionar a criatura, Alexander? Precisamos descobrir como extrair a saliva dela." disse uma voz masculina adoentada, estranhamente familiar.
"Ah, descobrirei uma maneira. Você irá viver, Agrippa." disse outro homem, cuja voz imponente Daniel sabia pertencer a Alexander.
Daniel notou fantasmas de pétalas de rosas espalhadas no chão quando a escuridão deixou seus olhos. Sacudiu a cabeça e, relutante, retornou à mesa de experimentos, onde evidentemente não havia nada vivo além do último lagarto dentro do terrário.
“Agora que isolei meus sonhos, essas coisas vem me atormentar nas horas em que estou desperto?", Daniel lamentou. Não era a primeira vez que ouvia o nome de Agrippa e tinha certeza que Alexander havia mencionado tal nome em algum momento durante a noite anterior. Há algo a mais, por que tenho uma forte impressão que conheço esse homem?
Lamentou por ter sido tão curto seu descanso, apenas um breve momento para que respirasse fundo antes de afundar novamente nas águas revoltas desse pesadelo vivo. O pavor da eminência da obliteração e a sensação de ser constantemente vigiado por um inimigo impiedoso e invencível haviam retornado com toda sua força avassaladora. Durante o caminho através dos corredores labirínticos, considerou que seria preferível enlouquecer pelo ópio que deixar-se tomar pela Sombra.
–§-
Daniel caminhou sem rumo através dos corredores térreos de Brennenburg. Pretendia chegar às escadas e procurar por Alexander na biblioteca ou nos aposentos do barão. Desejava encontrar a figura alta e protetora do dono do castelo, ouvir por sua voz grave que aquele tormento terminaria em breve. Deu-se conta que não sabia onde o homem estava e o lugar era grande e labiríntico, então era quase certo que tratava-se de uma busca vã. Não sentia vontade de retornar ao laboratório, estava assustado e não queria incentivar mais visões permanecendo sozinho naquele lugar.
Tampouco queria retornar ao seu quarto, onde seria impossível não deixar-se tentar pelo frasco oferecendo uma dose de sono sem sonhos. Incerto do que deveria fazer, Daniel sentou no degrau da escadaria no centro do saguão, sentindo-se aninhado pela iluminação azulada do ambiente. Toda aquela luz fazia o jovem pensar em um conforto redentor, o protegendo da presença opressiva que insistia em tentar alcançá-lo. Tampou os ouvidos com as mãos, porque era atormentado por essa voz onipresente, chamando-o para dentro da escuridão fria. Falava de podridão e pesados grilhões ferindo o pulso de um prisoneiro milenar.
– Alexander, por favor... – Daniel murmurou, sentindo dores crescentes na têmpora.
Da mesma forma que surgira, a presença sinistra enfraqueceu de súbito. Notas límpidas, como se fluídas através do brilho azul, roubaram a atenção de Daniel. Tratava-se de uma música cintilante e viva, embora seus acordes denotassem um desespero persistente. Havia uma força aterradora na perfeição que as notas eram tocadas. A melodia era estranha, não poderia ser comparada a qualquer peça de música produzida no mundo material.
Daniel levantou e deixou-se guiar pelo som. Conforme adentrou os corredores do andar superior, as notas tornaram-se mais altas. Ainda que fosse a primeira vez que a ouvia, sentia como se tivesse conhecido essa música por toda a vida. Ela fazia com que sentisse falta da pequena casa em Mayfair e lembrasse do olhar acalentador de sua mãe falecida. Daniel surpreendeu-se. Achou que não possuísse mais lembrança alguma da mãe. Deixou-se enlevar pelas memórias queridas e, quando deu por si, estava em um dos amplos salões decorados de Brennenburg.
Alexander estava tocando piano distraidamente. A percepção de que as notas eram algo humano – E o que mais poderiam ser? – trouxeram Daniel de volta a realidade. Como nunca havia percebido a existência de um ordinário piano de parede no salão que um dia certamente recebeu comissões de nobres prussianos? Já havia passado por ali algumas vezes e nunca dera-se conta de tal detalhe. O instrumento trivial produzia, ainda assim, a música mais bonita que Daniel já ouvira. Observou atentamente o barão e imaginou se a expressão dele não continha a mesma nostalgia que Daniel sentira a pouco.
Finalmente um último acorde dramático, como um suspiro de despedida, foi tocado. Alexander olhou para Daniel daquela forma intensa e arrebatadora. O arqueólogo entendeu que deveria aproximar-se.
– Olá, Daniel. – Alexander o saudou, apontando em seguida para uma caixa dourada sobre o piano. – Que bom que você apareceu, tenho um presente para você.
Daniel agradeceu, sentindo uma onda de calor aflorar nas maçãs do rosto. Pegou a caixa e abriu com cuidado.
– Oh, delícias turcas! Muito obrigado! – o rapaz falou, reconhecendo os cubos de goma cristalizada. Havia experimentado tal regalo apenas uma vez na vida, em uma passagem pelo consulado britânico em Constantinopla, no início da expedição arqueológica e muito antes que tanta tragédia acontecesse. – Por que?
Alexander riu e fechou a tampa do piano. Apoiou um cotovelo na superfície de madeira e encarou Daniel, parecendo divertir-se com a expressão do rapaz.
– Porque você passou por muitas provações e você parece tão solitário nesse mundo que nada me custam algumas gentilezas. Além disso, acredito que o láudano terá um sabor menos desagradável se acompanhado por um doce.
– Obrigado, Alexander. Como posso retribuir?
– Conte-me se o sedativo funcionou e sua noite foi calma e reparadora. Você parece... abalado.
Daniel suspirou e achou melhor procurar uma cadeira.
– O opiáceo funcionou perfeitamente, Alexander. Eu era outra pessoa quando acordei e não é possível expressar o quanto estou agradecido. Porém, eu estava no laboratório e presenciei algo muito estranho.
Alexander ergueu levemente o queixo e ouviu com atenção a narrativa de Daniel sobre as circunstâncias do desaparecimento de um dos répteis.
– Ora, Daniel, não acredito que você deixou sua imaginação iludir você dessa forma. – o barão comentou quando o jovem terminou de contar. – Sei que você viu muitas coisas, que você entrou em contato com forças sobrenaturais que desafiam seu entendimento, mas garanto a você que os túneis desse castelo não abrigam criatura nenhuma além de ratos.
O barão ainda perguntou, em um tom misterioso e ligeiramente divertido:
– Você andou comigo pelas galerias subterrâneas, caro aprendiz. Havia algo de monstruoso lá?
Daniel hesitou, envergonhado. Se contasse sobre a visão entre as prateleiras e aquela voz estranha, falando em sua cabeça, Alexander o consideraria louco. Ou talvez dissesse que era uma artimanha da Sombra, torturando sua presa, tentando alcançar o jovem.
– Não. – o jovem respondeu à pergunta de Alexander. – Eu não devia ter me exaltando tanto.
– Brennenburg é um lugar antigo e cheio de ruídos, então é compreensível que uma pessoa em sua situação reaja dessa maneira. Apenas tente acostumar-se e tenha sempre uma lamparina por perto, se o escuro prejudica sua sanidade.
Houve um silêncio momentâneo entre os dois homens.
– Você quer... voltar ao laboratório? – Alexander perguntou vagamente.
– Acho que por hoje não. – disse Daniel. Um leve arrepio percorreu sua espinha ao imaginar-se voltando sozinho para o laboratório. – Não quero parecer intrometido, mas você poderia tocar mais um pouco? Isso se não estiver interrompendo nada mais importante!
– De modo algum. Será um prazer. – Alexander respondeu. Fez um floreio no ar com a mão esquerda e aprumou-se com elegância diante do instrumento musical. Tocou uma valsa muito encantadora. Não era de uma ordem sobrenatural como a música anterior, mas algo sobre a forma como Alexander a tocava, seus dedos dançando impecavelmente sobre as teclas... As notas pareciam quase obscenas aos ouvidos do jovem, um murmúrio de prazer subitamente abafado e que deixava a ansiar por mais dos dedos que o causavam. Quando Alexander dedilhou as notas finais, Daniel sentia o rosto em chamas.
– Beethoven. – disse o barão. – Creio que você... – um meio sorriso torceu a boca fina de Alexander quando os olhos dele examinaram a face corada de Daniel. – ...já saiba o nome dessa valsa?
– Não! – Daniel exclamou, contendo a palavra “desejo” que, buliçosa, brincava na ponta de sua língua. Eram apenas músicas, como podia deixar-se influenciar dessa maneira? Alexander certamente tocava com excelência, mas não era apenas talento e prática que permitiriam uma pessoa reproduzir música daquela maneira. – Eu, oh, não queria... Onde você aprendeu a tocar assim?
– Tive muito tempo para praticar, creia. – Alexander falou, fazendo Daniel sentir como se seus pensamentos tivessem sido devassados e perguntar-se se sua mente era um livro aberto para aquele homem. – Você gostou muito da primeira sonata, não gostou?
– Sim, ela era tão... única. – Daniel respondeu, aliviado que Alexander tivesse iniciado um novo assunto. – Era como se me contasse uma velha história muito querida, da qual se recorda depois de tanto tempo. Não é possível trazê-la de volta, mas ainda assim, ela permanece. Oh, você poderia tocar de novo?
– Receio que não será possível.
Daniel franziu a testa, sem entender. O barão explicou:
– Ah, meu rapaz, você acabou de dizer a razão.
Fale com o autor