Declínio Das Trevas
6 Aprendiz
Notas iniciais
Os dias seguintes foram marcados por excitantes descobertas. Daniel procurava aproveitar ao máximo as explicações sobre fórmulas alquímicas, conjurações e palavras de comando que Alexander compartilhava. Anotava todo esse novo conhecimento em seu diário e relia essas notas até tarde da noite e só as punha de lado quando seus olhos não conseguiam mais manter-se abertos. Era um alívio. Os ideogramas em seus pulsos haviam desaparecido, assim como estavam muito gastos aqueles sobre sua cama e, por conta disso, era atormentado regularmente pelos piores pesadelos e o barão havia explicado que não poderia reparar as barreiras protetoras no momento, uma vez que estava em falta a tintura translúcida usada para esse feitiço. Sentia um compromisso ainda maior em dedicar-se aos estudos que, de uma maneira ou outra, iriam protegê-lo, nem que fosse pelo caminho mais mundano.
Ansiava tanto por novas lições que eram frustrantes os dias nos quais Alexander desaparecia, embora o barão afirmasse que, além de seus afazeres políticos e comerciais, estava lidando com o orbe, tentando extrair seus segredos, o que exigia muito tempo e dedicação. Daniel pensou algumas vezes em oferecer sua ajuda, mas pela maneira que Alexander o olhava quando estava prestes a dizer uma palavra, o arqueólogo mudava de ideia no mesmo instante.
Quanto acontecia tal incidente, Daniel desejava que essas impressões sobre o barão fossem apenas medo e criatividade pregando uma peça no jovem. Apesar de conhecer encantamentos milenares, não era possível que Alexander fosse capaz de ler mentes. Ou será que estava enganado?
Durante os dias em companhia do anfitrião, Daniel aprendeu que o castelo era muito maior do que havia imaginado e que escondia segredos e tecnologias que não havia sonhado em ver nem mesmo em sua industrializada terra natal. Alexander conduziu o jovem deslumbrado através de enormes corredores por onde canais de água moviam pesadas rodas e eram manipulados por comportas e tubulações. Além de servir ao abastecimento de Brennenburg, os canais desempenhavam uma função mecânica, movendo as engrenagens de uma série de contracepções envolvendo portas e diques, das quais Alexander parecia orgulhar-se muito.
– Não só das artes ocultas vive um homem, Daniel. Tenho um grande interesse por tecnologia e ciência também, como pode ver.
– São incríveis, bar... Desculpe-me. É um maquinário incrível, nunca vi nada assim, Alexander. – Daniel disse, lembrando que o homem mais velho havia dito que não precisava usar pronomes de tratamento formais e títulos de nobreza, pois havia sido recebido como a um amigo em Brennenburg.
– Então venha, vou mostrar o máximo da tecnologia desse século e a razão de possuir tantos motores hidráulicos e máquinas a vapor.
–§-
Daniel examinou com cuidado o que parecia ser um tipo de gaiola metálica sobre um profundo poço, suspensa por um conjunto de cordas e engrenagens. O barão estava parado ao lado da porta dourada da gaiola e esperava calmamente pelo veredito de Daniel.
– Trata-se de um mecanismo para conduzir plataformas através de níveis verticais. – Daniel disse, sentindo-se contente por poder mostrar a Alexander que não era completamente ignorante em relação a tudo que havia visto nos últimos dias. Porém, não pode evitar em esconder seu entusiasmo perante a uma máquina que havia visto apenas uma vez, em um passeio a Londres, quando inauguraram o primeiro modelo em toda a Inglaterra. Ouvira dizer que apenas o czar russo possuía um destes destinado ao uso pessoal, em seu Palácio de Inverno.
– Quer experimentar um passeio? – Alexander perguntou, piscando um olho para Daniel.
– Oh, eu... Adoraria! Não é perigoso, é? – Daniel respondeu, antes que pudesse medir suas palavras. Sentiu a face enrubescer na mesma hora. O barão riu e deu algumas palmadinhas nas costas do rapaz.
– Vamos logo, Daniel. – ele entrou na gaiola e estendeu a mão para Daniel, que embora um pouco receoso, também entrou no elevador, sendo guiado por Alexander – Segure-se bem, pode ser um bocado emocionante para alguém que nunca viajou verticalmente antes.
Após certificar-se que Daniel estava firmemente agarrado às barras da gaiola, Alexander fechou bem a portinhola e puxou uma alavanca que parecia quase emperrada. Daniel ouviu o barulho de alguma coisa pesada soltar-se e cair. Em seguida, foi a vez do som de correntes movendo-se através de algum tipo de tubulação acima da plataforma de embarque. A gaiola tremeu e, com um forte solavanco que Daniel sentiu reverberar por todo o corpo, começou a descer em alta velocidade.
Daniel agarrou-se instintivamente ao casaco de Alexander e escondeu o rosto contra o ombro do homem. A sensação de queda era desagradável, causava um aperto frio na altura do estômago e tontura.
– Ei, tudo bem com você? – disse o barão, quando a gaiola chegou ao fim da descida com uma freada abrupta. Daniel sentiu mãos firmes envolverem seus antebraços. – Ora, Daniel, você está lívido. Venha, sente-se ali naquela cadeira.
O arqueólogo percebeu que um copo de vinho havia sido posto em suas mãos. Bebeu um grande gole e então, para sua própria surpresa, riu como não fazia a tempos, embora suas pernas ainda estivesse trêmulas e um pouco vacilantes. Olhou para Alexander e ele parecia satisfeito com a reação do visitante à sua “sala ascendente”.
– Desculpe-me por tê-lo assustado, Daniel.
– Obrigado, Alexander. Na verdade, é divertido notar o próprio choque. Estou até me sentindo mais ativo após o susto. – ele olhou ao redor da sala ampla e escura onde estavam. Havia uma grande mesa, diante da qual estava a cadeira que ocupava e alguns barris próximos às paredes de pedras encaixadas. O lugar era cercado por quatro grandes portas de madeira. – Onde estamos?
– Bom, aquela porta em direção ao leste conduz a um estoque... – Alexander explicou. – E as demais levam à prisão.
Daniel fez uma expressão de surpresa.
– Masmorras, você quer dizer? Então, há prisoneiros lá dentro?
– Sim, Daniel. – Alexander explicou. Repentinamente o barão parecia um homem cansado e envelhecido. – Faz parte de minhas funções zelar pela justiça e aí residem criminosos que atormentaram o povoado de Altstadt e as proximidades de meu baronato.
O arqueólogo respondeu com um “oh” ligeiramente chocado e passou a olhar de modo apreensivo para as portas.
– Não se preocupe, possuo carcereiros e sua vigília é implacável. Ah, acredito que você teve o suficiente de aventuras por hoje. Vamos voltar e jantar. Aliás, a subida é bem mais suave, então não há o que temer.
Por toda a volta, Daniel acompanhou o barão em um silêncio contemplativo. Repreendia-se pela curiosidade mórbida em descobrir o que havia além daquelas portas.
Fale com o autor