Deceptions
11 InCerteza.
Notas iniciais
Estava até conseguindo relaxar, mas sua paz não durou por muito tempo. Não se passaram nem dois minutos e ouviu batidas na porta. Levantou-se da cama, irritado novamente.
– O que quer, hein!? – Kanda gritou, antes de abrir a porta com violência e se deparar com seu general mentor.
– Yuu-kun, vamos conversar um pouco... – Tiedoll entrou no cômodo, sentando-se na cama do pupilo.
– Tsc, o que quer? – Ele fechou a porta com uma expressão menos irritada, arriscaria dizer um pouco arrependido por ter gritado com o General. – Veio me passar sermão, é?
– Por que estavam brigando daquele jeito, Yuu-kun?
– Não é da sua conta, velho.
– Ah Yuu, você é sempre tão agressivo com as pessoas! Aconteceu alguma coisa na missão?
– Não. – Uma sensação ruim o tomou por ter lembrado daquela cena. Devia ter feito uma expressão estranha, pois o mais velho pareceu perceber algo.
– Tem certeza? Você não é de sair batendo em alguém sem motivos, mesmo com o gênio que possui.
– Ele me atacou primeiro!
– Verdade? Não parece muito com algo que o Lavi faria sem nenhum motivo...
Silêncio. Kanda abaixou o olhar.
–... Ou ele teve um motivo?
–... Não foi nada.
– Yuu-kun...?
– Foi só porque eu briguei com o Moyashi... – Seu tom de voz abaixou e ele ainda não olhava diretamente para o mais velho.
O General fez uma expressão meio confusa. Não conseguia ligar um fato ao outro. Afinal, mesmo que Allen fosse o melhor amigo do Bookman Junior, não fazia muito sentido para ele que Kanda tivesse arranjado confusão com o ruivo por uma briga com Allen. Tiedoll também ouvira do Supervisor que seu pupilo e Allen Walker estavam namorando, mas ainda assim não ligava os fatos.
~x~
Tocou a face ainda vermelha do murro. Suspirou profundamente cansado daquela situação tensa que estava vivendo dentro da Ordem. Não era um bom momento para ser encontrado por alguém, escorado pelos cantos do jeito que estava. Mas suas pernas pareciam não obedecer, assim como suas costas se ajeitavam melhor na parede em que estava encostado. Afundou a cabeça entre os braços que estavam apoiados nos joelhos. Ainda teria que contar a Allen sobre a suposta “conversa” que ele tinha tido com Kanda, mas não sabia como.
– Lavi?
– Ah, oi Allen. – Ele levantou o olhar para ver o amigo de pé ao seu lado. Allen já tinha passado na enfermaria e estava com alguns curativos no rosto.
– O que houve com... – Ele franziu o cenho, expressando dúvida, mas logo percebendo a resposta. –... Foi o BaKanda, né? – Ele falou sério. Suspirou. Allen viu que o amigo ia tentar dizer algo, mas logo o interrompeu. – Olha, eu vou falar com ele. E desculpa por mais cedo, eu estava meio surtado. Acho que foi a falta de sono somada ao estresse.
– Eu não devia ter acertado um murro nele. – Lavi murmurou mais para si mesmo do que para o amigo, que acabou por não ouvir.
– Bom, eu vim na verdade pra dizer que eu vou sair em missão mais tarde. – O albino viu o olhar do outro levantar-se novamente, curioso e um pouco confuso. – Então pode deixar que eu vou ter uma conversa séria com o BaKan...
– Espera. Vocês... Acabaram de voltar de uma missão e...
– É, eu sei. Mas parece que o Inspetor-Geral Rouvelier não se importa muito com isso. – Allen resolveu se sentar no chão ao lado do outro. – Afinal, ele só quer se ver livre de mim mesmo. – Ele suspirou, enquanto recostava a cabeça na parede, fechando os olhos.
– Vão... Só vocês dois? – Talvez o ciúme na sua fala tivesse saído um pouco evidente demais, mas não o suficiente para o outro perceber.
– Não. O Krory e um finder vão também. Por falar nisso, você já entregou seu relatório?
– Ainda não, tenho que terminá-lo. Você já?
Allen assentiu com a cabeça. – Bom, eu ainda tenho que arrumar as coisas e vou tentar descansar um pouco antes da viagem. – Ele se levantou do frio chão de pedra.
– Certo. Eu vou terminar o relatório de ontem.
Lavi também se levantou e cada um dos exorcistas seguiu para seu próprio quarto.
~x~
O silêncio ainda reinava no quarto de Kanda. O General Tiedoll continuava lá, sentado na cama estreita, tentando fazer com que seu pupilo falasse alguma coisa consigo, porém sem sucesso. Decidiu então retomar a iniciativa.
– Yuu-kun... Você realmente ama o Allen-kun?
– Q-quê?! – Ele corou um pouco, olhando confuso para o general.
– Sinceramente... – O general tirou os óculos e pousou-os em cima do colo. – Não parece que você gosta tanto assim dele.
– Isso não é da sua conta, velho. – Kanda desviou o olhar para o lado.
– Você não parece apaixonado de verdade.
– Eu... Gosto dele. – Os orbes azuis se desviaram para baixo, meio indecisos, ariscos. Kanda não se sentia muito seguro dos próprios sentimentos naquele momento. O olhar questionador do General sobre si se intensificou.
– Você não me parece muito certo disso.
Kanda não teve tempo de pensar em alguma resposta, pois ambos ouviram um barulho originário da porta. As batidas foram seguidas por uma voz insistindo para que a porta fosse aberta. O General Tiedoll levantou-se e foi até a ela para atendê-la.
– Sim? – Ele perguntou com sua voz suave de sempre.
– Kanda Yuu está sendo solicitado para ir em missão esta tarde, às duas horas em ponto, para a França, juntamente com Allen Walker e Arystar Krory III. – O funcionário da Central avisou, inclinando a cabeça para dentro do quarto a fim de achar o referido exorcista. Ao ver o japonês concordar com a cabeça, ele foi embora.
– Bem, eu vou indo então, Yuu. Cuide-se na missão. – O mais velho sorriu-lhe e se retirou do cômodo, fechando a porta atrás de si.
O moreno ficou olhando fixamente por alguns segundos para o lugar por onde seu mestre havia saído, ainda pensando nas suas palavras: “Você não me parece muito certo disso”. A essa altura, ele mesmo concordava com o mais velho; não fazia a menor ideia do que sentia mais por qualquer um que fosse.
Lembrou-se que o agente tinha informado que Allen iria junto para a França. Não que estivesse muito afim de conversar com ele, mas talvez fosse uma oportunidade para falar com ele e esclarecer o que realmente estava acontecendo entre eles os dois porque, depois do episódio da missão anterior somado a briga que teve com Lavi pela manhã, ele não tinha mais certeza se ainda poderia se considerar namorado de Allen. Algo no ruivo também o atraía, o deixava confuso quanto ao que sentia por seu namorado e estava começando a mexer com ele. Decidiu arrumar logo as coisas necessárias para a viagem, tentando distrair seus pensamentos um pouco.
Não muito longe dali, após terminar e entregar o relatório da missão da noite passada, Lavi permanecia na biblioteca, três livros e dois jornais espalhados na mesa em que estava sentado. Algumas folhas de papel e canetas também jaziam sobre a superfície de madeira.
O livro que tinha em mãos, diferente dos outros que estavam espalhados, não se tratava de guerras, acontecimentos importantes na história da humanidade ou descobertas científicas. Era um livro sobre uma aventura fictícia, com um herói como personagem principal, e os amigos que o ajudavam em sua busca. Ele não tinha lido o livro com a capa meio gasta e nem pretendia lê-lo, mas seu título interessante havia lhe chamado à atenção quando procurava por um dos livros sobre acontecimentos históricos que teria que estudar. Ele folheou as páginas amareladas por conta do tempo, não prestando muita atenção nas palavras impressas.
– Essas drogas sempre têm um final feliz. – Resmungou, fechando o objeto e pousando-o meio afastado de si. – É tudo tão fácil pra eles. Parece que esses escritores nunca viram como as guerras de verdade são.
Lembranças de todas as outras “vidas” que já teve, de todas as batalhas e conflitos que já tinha presenciado. Das lutas que estava vivendo, do sangue espalhado pelos campos de batalha, dos corpos sem vida caídos pelos cantos das cidades e vilarejos destruídos. Não era um momento da vida do ruivo que ele iria apreciar ler um conto de daqueles com um final feliz, onde o lado do bem conseguia derrotar os vilões sem sofrer metade do que ele e o resto dos exorcistas sofriam.
Ele achou melhor voltar ao trabalho. Apenas fazia algumas anotações, apontando o mais importante de cada livro e dos jornais. Terminou por volta do meio dia. Como não tinha tomado café da manhã, ele não pôde ignorar o almoço. Lavi guardou o material em seus devidos locais e seguiu para o refeitório.
Após pegar seu almoço com Jerry, ele procurou onde sentar-se. Antigamente, sentavam os quatro em uma mesa só e, por mais fechado que Kanda fosse, era um tempo tão agradável que eles podiam passar todos juntos, conversando ou contando alguma coisa interessante sobre as missões ou fazendo piadinhas sobre como o Link parecia ser o cãozinho do Inspetor-Geral Rouvelier, sempre muito próximo a ele – até demais, na opinião de Lenalee.
Mas agora, eles não podiam mais fazer isso. O clima pesado que cada vez mais se intensificava entre eles os afastava lentamente. Ele viu Kanda em uma mesa acompanhado de Lenalee e Chaoji. Allen estava em outra mesa, um pouco longe da deles, sentado com Miranda e Krory. Lavi decidiu se sentar com Allen e os outros.
Eles conversaram um pouco, mas logo o silêncio tomou conta da mesa. Allen e Krory tiveram que sair logo após terminarem por conta da missão, deixando Lavi, Miranda e Bookman que, ao ver seu aprendiz ali resolveu juntar-se a ele, sozinhos. Como Kanda saiu quase na mesma hora que eles, Lenalee e Chaoji se juntaram aos outros. Depois de conversarem mais um pouco, todos se levantaram e saíram do recinto. Os três exorcistas e o finder designados para a missão já haviam partido.
Bookman resolveu dar o resto do dia de folga para Lavi, mas não sem antes dar uma voadora nele, seguida de uma grande bronca, por ter se metido em confusão e arrumar um olho roxo. Lavi apenas revirou os olhos e saiu para respirar um pouco o ar fora das paredes da Central.
O ruivo caminhou pela área externa ao grande prédio da Central, pensativo. Ele definitivamente não deveria ter comprado briga com Kanda. Sentia-se, em parte, culpado. Não deveria ter abordado o amigo com aquela violência, chegou já gritando com ele. Eles deveriam ter conversado como duas pessoas civilizadas. Mas o ciúme que tinha de Allen se misturou ao sentimento que foi vê-lo com medo de Kanda, tudo ao mesmo tempo, quase fazendo com que sua cabeça explodisse, não dando muito tempo para ele raciocinar muito antes de agir.
Suspirou profundamente, passando uma das mãos pelo cabelo e fechou os olhos, tentando relaxar. Aquele ciúme não era certo. Ele não gostava de se sentir assim em relação ao seu melhor amigo, achava isso tão errado, mas não conseguia simplesmente esquecer o samurai. E também não conseguia ficar feliz com a ideia de que Kanda e Allen poderiam fazer as pazes nessa tal missão. Afinal, eles estariam sozinhos – Krory e um finder não eram tão difíceis de despistar se eles quisessem – e talvez dessem uma passada em Paris, a cidade das luzes e do amor.
Não.
Não iria continuar pensando daquele jeito, afinal, só iria se sentir pior. Mas não era só questão de conseguir. Ele, em sua maior parte, também não queria desistir do moreno. Por mais que sua personalidade forte, assim por dizer, muitas vezes fosse motivo de discussões com todos, algo especial fazia com que Lavi se sentisse interessado por Kanda.
Tirando a situação que estavam vivendo nas últimas semanas, eles sempre tinham sido bons amigos. Lavi não se cansava de irritar Kanda, mas eles também tinham boas conversas algumas vezes. E não era por esse Kanda grosso, idiota e ignorante dos últimos dias por quem o ruivo tinha se apaixonado. Seu Kanda irritado, metido a machão, com cabelo comprido e macio, mas traços de um belo homem, que sempre gritava juras de morte para si, mesmo nunca as cumprindo e que sabia ser um bom amigo quando preciso era o que tinha conquistado o jovem aprendiz de Bookman. E, exatamente por esperar que o samurai voltasse a ser esse Kanda, Lavi não queria desistir dele.
Mas... Não eram só eles dois que estavam envolvidos nessa confusa e estranha história. Então o ruivo subitamente se lembrou do que lhe impedia de agarrar Kanda com toda sua vontade no meio de algum corredor da Ordem sem se importar se algum idiota da Central ou qualquer outra pessoa iria ver. O moreno estava namorando Allen Walker.
– Eu não posso fazer eles terminarem. – Ele sussurrou para si mesmo. A esta altura já tinha achado um banco de pedra para se sentar.
Sua cabeça estava a mil. Lavi não conseguia imaginar o que iria acontecer com a sua amizade com Allen se ele fizesse os dois terminarem para ficar com Kanda. E claro que nada o garantia que o samurai gostava dele. Eram tantos pontos negativos e tantas consequências, parecia que se mexesse em algo errado, todas as outras coisas iriam sofrer com isso e ruir como no dominó.
Finalmente o ruivo se decidiu. Correr atrás do moreno iria custar muito a todos e provavelmente ele apenas levaria outro fora terrível. “Droga, não devia ter brigado com ele!”, pensou um pouco tarde demais para consertar.
– Talvez eu deva ir falar com ele quando ele voltar. – Falou para o nada a sua volta. – É, eu vou.
Por mais que lhe doesse, ele resolveu deixar Kanda com Allen. Ele não era ninguém para interferir na relação dos dois. O tempo o faria esquecer o samurai.
Mas... Então porque desistir de tudo lhe parecia tão difícil, doloroso, impossível? Ouviu um barulho fraco, mas grave, e olhou para o céu ao sentir as primeiras gotas de chuva. Decidiu entrar logo para não se molhar muito, mas preferiu voltar andando do que correr.
Novamente pensou na briga de mais cedo. Não sabia bem o porquê se sentia tão culpado, mas, além da culpa, se sentia mal por ter batido no amigo. Bom, talvez eles não fossem amigos nesse momento, mas um dia tinham sido e um dia voltariam a ser, ou pelo menos assim Lavi esperava.
“If this is the end
With the whole world watching
I'm driving away
See you again someday
If I could dance in your eyes tonight
I whisper your name to say (to say)
I don't wanna waste my time
Never really want to hear about it
Take these words my love”
Take These Words – Rookie Of The Year
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