Notas iniciais
Para aqueles que ja haviam lido o primeiro capitulo eu acabei o dividindo e modificando alguns detalhes.

Faltavam cinco minutos para começar a prova,o período de amnesia temporária de apenas trezentos segundos que parecia apagar horas de estudo.Eu me lembrei ter lido algo sobre o cérebro descartar memorias antigas para não sobrecarregar sua capacidade de armazenar informações ,mas o fato de não conseguir me lembrar da cor do vestido que usei durante meu aniversário de sete anos de idade de longe me apavorava tanto quanto esquecer a formúla de bhaskara.

Tentei me concentrar na lousa a minha frente com as horas rabiscadas para marcar a passagem de tempo, me obriguei a me concentrar naqueles números como se assim pudesse os aprisionar na minha cabeça.Logo recebi a prova de um dos fiscais que parecia tão contente quanto eu em estar ali, ele se aproximou de minha fileira,a primeira da direita para esquerda encostada em uma parede branca descascada de tantas pinturas sobrepostas .Foi um massacre.

Sai do meu assento tão rápido quanto podia,meu colégio tem rígidas regras sobre manter "a graça feminina" e correr pelos corredores estava estritamente proibido, assim me dirigi o mais cuidadosamente possível em direção a minha sala.Me desculpei pelo atraso e me sentei entre minhas amigas Rita e Sophie que meramente acenaram a cabeça com a minha chegada como elas tinham o costume de aparentar ocupadíssimas enquanto o professor estivesse presente .

O Internato St.Brigida de Cassia se mantem um dos mártires do passado onde internatos eram sinônimo de educação de qualidade ,sendo este exclusivamente feminino .Eu acredito que este passado se mantem vivo as custas da nossa juventude e que uniformes de saias rodadas são uma opressão as minhas canelas finas. Mas a farda é parte do regulamento da escola desde sua fundação em 1840,a primeira do país,e se tentativas compatriotas em prol das calças jeans foram levantadas durante seus 175 anos de criação todas fadaram ao fracasso. Como fora desejo de meu falecido pai que frequentasse aquele colégio fazia o meu melhor para ignorar o seu lado negativo e acatei minha estadia como uma viagem histórica as partes antigas de

Sergipe.

O terceiro período era o de geografia com a professora Lyssa,ela era uma de nossas professoras favoritas sendo a única pessoa no mundo capaz de fazer um aula sobre rochas interessante. Hoje tratávamos de urbanização e mesmo quando ela comentara sobre a "cidade dos mortos" um cemitério no Egito que havia sido colonizado pela população desabrigada local,eu dificilmente consegui prestar atenção .Então pedi a Sra.Lyss licença para lavar o rosto, Rita e Sophie se entreolharam de forma sincronizada na estranha maneira em que elas pareciam operar e acenaram em minha direção como se houvesse dado um sinal em algum tipo de código secreto se levantando logo em seguida,Rita me arrastou até o banheiro feminino com Sophie atrás provavelmente para se assegurar de que eu não ofereceria nenhuma resistência.

_____ Você percebe que não tem escapatoria,não é?__disse Sophie fazendo faiscar seus olhos anelados.

Eu as encarei apaticamente sem entender o significado de tudo aquilo,a maior parte da minha vida havia me sentido como um personagem secundário em minha própria peça, que só era introduzido no final tendo que me adaptar a cenários e enredo desconhecidos sem nem ao menos saber ao certo qual havia sido meu papel designado para começo de conversa.

___Olha soph..estou começando a temer pela minha segurança__Comentei escapulindo um risinho nervoso.

___Que nada Mel,nao esquenta a cabeça com Soph,ela fica assustadora assim mesmo quando está tentando ser legal __Rita aparece ao meu lado saracoteando seus cachos negros enquanto caminhava.

Soph a ignorou e so voltou a falar quando meus olhos devidamente voltassem a pousar nela.

____Hum,hum.Vamos assumir que uma fada azul muito bondosa tenha ido com a sua cara e você tivesse direito a um bom e velho e único desejo,o que você pediria?___Ela disse de maneira enigmática.

____Ora,isso e difícil de dizer não sei se me conheço assim tão bem e não gostaria de acabar desperdiçando o pedido.Acho que não desejaria nada.

___Mel,Mel você está adentrando muito profundamente no reino das fadas,imagine que eu esteja falando de uma fada moderna que bebe coca-cola e abandonou as carruagens de abobora por sedans pretos.O que você desejaria?___Ele repetiu a pergunta com a mesma intensidade.

Tirando de cena os unicórnios e pozinho mágico,so havia uma coisa que eu queria mais do que tudo. Não tive de pensar muito na resposta.

____Eu desejaria,eu desejaria...Uma viagem para a Noruega.

Elas se entreolharam novamente emanando ondas de rádio telepáticas.

_____Só falta aprender a falar norueguês minha cara ,mas sabe como é só tem direito a um pedido.

Estava desconcertada, por mais que fossemos amigas e colegas de quarto nos conhecíamos a pouquíssimo tempo e não poderia permitir por mais gentil que fosse o gesto um presente tao descomunal.

____Mas como..Como assim?Desejos não vem de graça sabe? Até eu sei disso.__Falei desconfiada.

____O departamente de Artes e Historia e que estão bancando tudo,os fundos vem da dona diretora mas a iniciativa foi deles.__Rita falou tomando cada uma de nos pelos braços__Agora e melhor voltarmos para classe,a escola pode estar pagando pela viagem mas eles só levam as boas alunas para esquiar na Noruega.