Debaixo da Cama

1 Debaixo da Cama


A cama é um lugar de descanso.

O pai assegurava-lhe isso todas as noites, antes de rezar com o seu filho a oração cristã do anjinho da guarda. Lá, nada lhe aconteceria, certamente. Fecharia os olhos e estaria bem, confortável e descansado, bem quentinho em plena noite de inverno.

O colchão até era de boa qualidade. Foi notavelmente caro mas, sendo o rapazito filho único, não produziu grande prejuízo. No final de contas, só valeu a pena. E o rapaz adorava a sua caminha nova. Acabara de deixar o leito materno para se aventurar no seu próprio quarto. Até agora, a mudança tinha corrido bem. A única coisa que o incomodava era o monstro que vivia debaixo da cama.

Não é que existisse mesmo um monstro, o jovem é que afirmava que sim nas poucas palavras que sabia. O pai olhou, procurou e procurou, e nada viu. Disse-lhe isso mas o pequeno recusava-se a acreditar. Todas as noites, saltava para a cama com medo das garras do monstro, tapando-se completamente com os lençóis. Mas não havia monstro nenhum, o pai sabia-o. Explicava-lhe de todas as formas que conseguia. Porém, a persuasão não era das suas qualidades.

Houve uma época em que a criancinha começou a revelar traços de incontinência. O colchão dispendioso teve de ser várias vezes lavado e relavado. Mas porquê? Passava-se alguma coisa? O rapaz respondeu que sim ao papá, via o monstro deslocar-se durante a noite. Eram só pesadelos, assegurava-lhe o pai. Mas, novamente, é difícil abalar as fantasias das crianças pequenas.

Virou a cama do avesso, espreitou-a e respreitou-a. Nada. Pôs a mão nas sombras, tirou-a depois. Nada. Buscou uma lanterna, iluminou a escuridão. Nada, nada, nada. Não havia lá nada.

Chamou o filho, apertou-lhe a mão quente. Não está aqui nada. Vem ver. E ele viu. Não existia monstro nenhum. Lá debaixo, nada. Nas cortinas, nada. Nada em lado nenhum, nada em muitos lados. O rapaz quase nem acreditou nos seus próprios olhos. Afinal, tinham sido só pesadelos. Finalmente, descansaria em paz.

O papá beijou-lhe a testa, acariciou-lhe as faces rubras e desligou o pequeno candeeiro da mesa de cabeceira, sorrindo, feliz com o pequeno grande sucesso do seu filho, e deixou-o. Nessa noite, o pai dormiu de bom humor. Sonhou com jardins de flores e um céu azul, um mundo de cores e liberdade. O filho, pelo contrário, não teve tanta sorte.

Sabia agora com toda a certeza que não havia monstro algum oculto sob o colchão. Todavia, ainda sentia movimento. Ainda pressentia uma presença maligna nas proximidades. Um vento frio maltratando-lhe o corpo minúsculo. Os tremeliques. As sombras aproximando-se mais e mais, cobrindo-lhe os olhos.

Então, abriu-se lentamente o guarda-roupa. Rangendo estridentemente, ferindo-lhe os tímpanos sensíveis. O jovem saltou, pulou num momento de coragem e fechou ele próprio o roupeiro. Não existe monstro nenhum. Forçou o móvel, impediu os demónios de sair, de o assombrar. Não haviam criaturas. Era ele o dono daquele quarto, o mestre daquela sala. Ele e mais ninguém.

Quando se sentou na cama, decidido a dormir, uma mão tomou-lhe a perna, pegou-a com força. A criança não teve tempo de gritar. A mão puxou-o, fazendo cair violentamente a sua cabeça sobre o soalho, fazendo-o desmaiar, talvez provocando uma hemorragia interna. Puxado para os confins daquela cama, o vermelho verteu para o exterior. Vísceras vítimas de potentes mordidelas rolando para fora. E a cabeça, a tenra cabeça na sua tenra juventude, inerte, sem vida, ficou ali, ao lado da cama cara, esboçando uma expressão de surpresa e terror.

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