Deathwish

6 Capítulo 6


ATO 06: cinzas.

O que será que as pessoas pensam durante o instante de um beijo? Será que elas imaginam, ou melhor, será que elas desejam ouvir uma promessa de futuro feliz logo após os lábios terem se tocado? E o que elas fariam para ter um “futuro”?

— Eu queria tanto ficar com você. — eu disse o abraçando forte, agarrando-me a jaqueta empoeirada dele. – Eu quero muito ficar com você.

Gerard respirou pesadamente perto do meu ouvido.

— Isso era tudo o que eu mais queria ouvir. – ele me respondeu.

— Mas você sabe que... – ia o advertindo.

— É. Eu já sei.

Gerard segurou uma de minhas mãos e a conduziu até o seu rosto. Ao tocá-lo na face direita, por baixo da poeira e do rosto molhado, eu pude sentir cada um dos seus vasos sanguíneos, cada uma das pequenas irrigações onde circulava vida.

Do céu escuro caia uma neve de gosto acre, eram cinzas. Gerard olhou para o céu.

— Porque essas coisas terríveis têm que acontecer? — ele disse mais para si mesmo.

Confesso que me senti meio culpada. E ele pareceu perceber, porque me abraçou forte de novo e beijou minha testa.

— Me desculpe...

— Não, está tudo bem. – respondi.

— É que – ele começou meio envergonhado. – quase parece um pecado toda essa felicidade.

— “Felicidade”? – repeti sem entender.

— Essa coisa que se sente dentro do peito e que parece que vai explodir sempre que se encontra com a pessoa que se ama.

— Então, isso é felicidade...?

— É felicidade, é amor, carinho, saudade.

— Talvez sejam essas as coisas que eu sinto... Eu não sei explicá-las, mas sei que estão dentro de mim. Coisas que sinto por você, Gerard.

— Eu também sinto. Não sei como foram parar dentro de mim, mas fico feliz por estarem aqui. – dito isso ele colocou a mão esquerda sobre o próprio peito.

Eu sentia dentro de mim uma espécie de vibração, pequenos estalos por toda parte do meu corpo. Cérebro, olhos, mãos. Tudo voltado para ele, para a visão linda que ele era, emergido do caos, naquele pedaço do inferno.

Com o coração batendo rápido, eu sabia mais uma vez que eu já tinha mais trabalho. Parecia que todo aquele pesadelo não estava nem perto de acabar, com você bem sabe.

Gerard notou minha agonia:

— O que houve?

— Eu preciso ir.

— Você está sempre indo, não é?

— Essa é a única coisa da qual não posso me desvencilhar. É como se eu estivesse acorrentada a essa minha triste função. – confessei. – Você abriria mão da sua própria vida, mas eu nunca poderia abrir mão desse meu “trabalho” e por isso peço que você me perdoe.

Ele não respondeu nada.

— Me perdoe. – repeti segurando as mãos dele.

— Claro... – ele respondeu com a voz falhando.

— Quero que preste atenção no que eu vou lhe dizer. Eu espero, do fundo do meu coração, que o nosso próximo encontro ainda demore mais, sejam quais forem as circunstâncias. Você me entende?

— Entendo...

Era o que eu precisava ouvir. O beijei mais uma vez nos lábios:

— Fique bem, meu amor. – e parti. Mas parecia que naquele dia eu estava profetizando algo para a vida de Gerard.

Notas finais
continuem comigo! o/
x3
obrigada!