Deathwish

2 Capítulo 2


ATO 2 ausência

Não convêm eu lhe explicar o meu trabalho, eu acredito que você saiba do que se tratam todos aqueles eufemismos...Na época em que conheci Gerard, ele não sabia, era apenas uma criança com alguma espécie de mediunidade. Uma mediunidade única e bem peculiar.

O tempo passou para os humanos, para mim isso só significou uma infinidade de \"fechamento de ciclos...” Significou a morte de uma infinidade de vocês. Eu estava ocupada, mas meu trabalho me fazia pensar com mais força em um garoto de cabelos pretos que me tocou o coração.

Certa manhã, eu tinha acabado de chegar a um acidente envolvendo dois carros.

Respirei fundo buscando forças, o cheiro do asfalto queimado penetrou em minhas narinas me dizendo: \"não existe nada, apenas a dor\", já havia ambulâncias quando cheguei e uma fila de outros carros impacientes se formava alguns metros, buzinando pela demora e não respeitando aquela tragédia cotidiana.

Os bombeiros tentavam retirar um jovem do primeiro carro totalmente amassado. Com as pernas esmigalhadas pelas ferragens, ele gritava de dor cuspindo sangue misturado com saliva no vidro estilhaçado. Mas, não era ele quem eu vinha buscar naquele dia.

Diante da porta entreaberta de uma caminhonete verde estava parado um senhor de meia-idade contemplado o seu corpo no banco do motorista, imóvel, com a cabeça molemente adormecido. O que denunciava a serenidade de sua morte era um grande machucado em sua cabeça e um grosso pedaço de metal atravessado em seu peito.

— Eu morri. — ele me disse assim que parei ao seu lado para contemplar a mesma cena.

— Sim.

Ele suspirou e olhou triste para a esposa no banco do carona, recém-despertada do acidente e recebendo ajuda dos para-médicos.

O homem pareceu frear os choro e disse, mais para si próprio:

— A parte mais difícil é deixá-la...

Engoli aquelas palavras e concordei com um leve aceno.

— A parte mais difícil é deixar você, querida... — Ele disse, dessa vez para a esposa que ia abrindo os olhos lentamente e enxergando o corpo sem vida do marido.

— Podemos ir...? — perguntei lhe colocando a mão no ombro.

Ele concordou. E partimos.

Relatei esse ocorrido, porque foi naquele dia que vi que era igual aquele homem, ambos havíamos sido separados de alguém pela vida que deveria que prosseguir independente da dor da ausência.

Notas finais
capítulo relativamente curto...
vamos ao terceiro. o/

obrigada por lerem!