Deathbeds [REESCREVENDO]
6 Wrong, but Sweet
Notas iniciais
Rick Grimes
Eu seria eternamente grato pela intromissão de Carol. O que diabos eu tinha em mente quando me permiti beijar os lábios de Beth Greene?
O cheiro de baunilha que exalava de seus cabelos dourados era inebriante, e isso, somado a sua voz suave acalmando-me com uma canção, acabara com a minha coerência.
Esmurrei a parede da torre, sentindo-me um imbecil pelo que fizera. Beth era uma adolescente, praticamente uma criança. Hershel jamais me perdoaria por tê-la tocado. Eu jamais me perdoaria.
A verdade é que eu era incapaz de mentir para mim mesmo. Eu ansiava por aquilo; ansiava por mais. O quão terrível eu poderia ser?
— Não seja tão duro consigo mesmo, Rick — aquela voz tão familiar arrancou-me de meus pensamentos.
— Vá, embora! Você está morta! — gritei ao apontar o dedo em sua direção.
— Não se culpe tanto. Sabe que não pode se recriminar pelas coisas que deseja — Lori continuou. Sua face pálida iluminada em um meio sorriso sarcástico.
— O que você fez comigo em vida já não foi o suficiente? Precisa continuar me torturando? — murmurei sofregamente. Por que diabos ela não podia sair da minha cabeça?
— Tortura é o que você está fazendo consigo mesmo, Rick. Deixando de viver por algo que já nem significava tanto. Você sabe disso. Há quanto tempo você já não me amava? Há quanto tempo você apenas estava comigo? — ela aproximou-se um pouco. Seu vestido branco flutuava com uma suavidade sobrenatural.
— Viver, Lori? Não me diga que isso que temos aqui é viver. Eu te amei e você sabe. Eu te amei, mas e você? — soltei ácido.
— Não é, porque você não permite que seja. — ela se desvencilhou de minhas outras perguntas simplesmente.
— O que você quer dizer com isso? — questionei descrente.
— Você não pode fugir do que sente quando olha para a pequena Beth — Lori sorriu. Um sorriso doce e afável que há anos eu não via.
— É isso o que você pensa? — ri sem humor. Minha sanidade já estava no limite.
— Não, Rick. É o que você pensa. Eu estou morta, não se lembra? Sou a sua própria imaginação se voltando contra você. Só sou capaz de dizer aquilo que você quer ouvir — ela sussurrou mansamente.
Fechei meus olhos com força ao trincar os dentes e socar com força a parede onde antes Lori se encontrava.
Naquele momento percebi o quão perturbado eu estava. O quão perturbada minha mente estava. Eu mesmo não era capaz de me reconhecer.
Fantasmas rondavam minha mente, controlando minhas atitudes. Desde quando me tornei tão passional? Quando foi que me tornei um louco fora de controle tão dependente de uma cura? Pessoas naquele lugar confiaram suas vidas a mim. Àquelas pessoas do lado de dentro da prisão dependiam das minhas decisões para o bem delas. Elas precisavam de alguém sensato para guiá-las. Eu ainda era?
Perguntas, perguntas e mais perguntas. Eu estava cansado delas. Precisava de respostas, de um pouco de lógica, de algo que fizesse sentido. De algo que fizesse tanto sentido quanto o calor do corpo de Beth tão próximo ao meu.
A quem diabos eu estava tentando enganar? Aquilo era tão odioso! Deixar que minha vulnerabilidade me dominasse a ponto de envolver a doce Greene no meu inferno particular... Sentia-me desprezível. Mas, se tudo aquilo era miseravelmente errado, por que apenas a sua voz era capaz de me trazer a realidade? Por que o seu cheiro me acalmava a ponto de esquecer o mundo em decadência que nos cercava?
Se aquilo era errado, era o tipo de erro pelo qual as pessoas dariam suas vidas.
Queria convencer a mim mesmo de que toda aquela confusão começou depois que Lori morreu, mas seria apenas mais uma ilusão, e eu estava cansado delas.
Desde a queda da fazenda a Greene tem estado em minha cabeça, e o esforço para afastá-la de meus pensamentos estava me levando à loucura.
Às vezes eu ouvia seu choro noite à dentro; Hershel a consolava, dizendo que tudo ficaria bem. A vontade que eu tinha era de gritar que era mentira. Nada ficaria bem e era errado esconder a verdade de Beth. Ela já não era mais tão criança, precisava convencer-se da realidade e aprender a conviver com ela. Queria dizer a ela que nem sempre seu pai estaria ali para defendê-la, mas que eu estaria…
Era ridículo e insano, mas Beth nunca havia me julgado. Beth sempre foi doce com todos ao seu redor, trazendo conforto e alívio sem exigir nada em troca. Doando-se de todas as formas que podia, mesmo sem perceber.
Essas intervenções mentais que fiz a cada noite e a cada diálogo me tornaram obsessivo. Quando dei por mim, já estava irremediavelmente preso àquela garota. Isso era tão estúpido que quando chegamos à prisão simplesmente tentei bloquear essa bobagem da minha cabeça, mas agora que tudo está desmoronando, me prender a isso foi tão inevitável.
Agora eu me sentia terrivelmente ligado àquela garota que, na melhor das hipóteses, teria idade o suficiente ser minha filha. Lori sequer havia partido quando me dei conta disso e tudo o que eu poderia fazer era me conformar com a ideia de que eu era um maldito, encantado pela jovem Greene antes mesmo de deixar de amar minha esposa.
Eu precisava me livrar daqueles pensamentos, daquele afeto que crescia cada vez maior dentro de mim. Todas as pessoas morriam ao meu redor e eu nunca estaria preparado para perder nenhuma delas. Não Beth, que cuidava tão docemente de Judith como se pudesse ser sua própria mãe.
Era o inferno propriamente dito. Sentia-me um adolescente estúpido tendo que lidar com um conflito tão grande de sentimentos e emoções. Como eu poderia me dar ao luxo de me apegar novamente? Como eu poderia estar tão preocupado com bobagens como amor quando aquelas criaturas lá fora, sacudindo a cerca, ansiavam para destruir tudo o que eu tinha?
Precisava protegê-los, protegê-la.
— Rick? — alguém chamou às minhas costas. Olhei para trás e encontrei Carol com Judith em seu colo.
— Sim? — respondi mecanicamente, ainda levemente absorto em meus pensamentos.
— Beth não estava bem — Carol enfatizou a palavra de um modo estranho. — Talvez vocês devessem conversar.
É claro que Beth não estava bem. Havia a encontrado chorando naquela torre, assustada. Ou talvez ela não estivesse bem pelo que eu havia feito. Talvez, ainda, ela só estivesse se sentindo doente. Era egoísta demais pensar assim, mas torci para que fosse a última opção, àquela que me isentaria de qualquer parcela de culpa.
— Você já falou com Hershel? — perguntei.
— E por que eu falaria? — ela questionou, erguendo sua sobrancelha levemente. — Oh, não! Acho que sua saúde está ótima.
— E então?
— Você já é um homem crescido e maduro, Rick. Não precisa fingir que nada estava acontecendo quando cheguei.
— Nada de importante aconteceu — menti.
— Por Deus! Vocês são tão diferentes e tão iguais! — ela resmungou, embalando seu corpo levemente quando Judith choramingou.
— Não é nada importante, porque não é nada que vai voltar a se repetir.
— O mundo está desmoronando lá fora e vocês continuam a fingir que não se importam um com o outro. Eu não sou ingênua, Rick. Eu sei o que vi, e sei o que sei. Se vocês querem continuar a enganar um ao outro, esperando que alguma intervenção divina ou movimento do universo mude o que vocês estão sentindo, tudo bem. Mas talvez não haja amanhã, e você, melhor do que ninguém, deveria saber disso.
As palavras de Carol me atingiram como um soco, arrastando-me para uma realidade cruel em que as pessoas morriam a todo o momento, onde cada segundo importava. Sacudi minha cabeça como se esse simples gesto pudesse clarear minha mente, então resolvi que era hora de tomar uma atitude.
Estranhamente motivado, abracei Carol e lhe depositei um beijo na testa como agradecimento antes de entrar novamente na prisão. A quietude tomava conta do ambiente, cada qual absorto em suas próprias tarefas e pensamentos. Passando por Hershel, desculpei-me mentalmente pelo que estava prestes a fazer. Se pensasse muito sobre isso, acabaria surtando ou desistindo.
— Filho — chamei assim que vi Carl sentado na escadaria, recarregando alguns pentes de munição. — Você viu a Beth?
— Ela estava na cela do Daryl — ele respondeu, mas percebi que havia uma curiosidade incontrolável em seus olhos.
— Eu precisava falar com ela, sobre a Judith — menti ao sentir a necessidade de dar uma explicação ao meu filho, com medo de que ele pudesse pensar em qualquer outra coisa.
— Ok — ele respondeu rapidamente, dando de ombros e voltando a se concentrar no que fazia.
Antes de subir os degraus, dois de cada vez, bati levemente em seu ombro, feliz por perceber que ele parecia melhor do que nos últimos dias.
Eu precisava parar de me sentir como um adolescente ansioso, prestes a fazer algo ilegal. Apesar de Beth de fato ser uma adolescente. Tudo o que eu queria acreditar era que as regras antigas já não valiam agora. Eu precisava me agarrar aquilo antes que me tornasse um covarde e fugisse novamente para o pequeno resto de sanidade que eu ainda tinha.
Encontrei Beth exatamente naquela cela. Ela tinha os olhos fechados e pressionava suas têmporas como se estivesse travando uma terrível batalha interna. Como eu, talvez. Um exemplar surrado da Bíblia estava em seu colo.
Aproveitei o momento para encará-la sem medo. Seu cabelo estava preso em uma trança, fios dourados escapando aqui e ali. Mesmo com a testa enrugada em uma linha clara de preocupação, ela ainda continuava incrivelmente linda.
Ela sequer notou minha presença quando respirei profundamente, tomando coragem, até o momento em que bati levemente na grade da cela.
Seus olhos azuis se abriram em espanto, mas antes que eu pudesse recuar ou pensar em algo meramente coerente para lhe dizer, ela simplesmente levantou-se da cama e rumou determinada em minha direção. Era como se ela estivesse me esperando, pronta para o que quer que fosse. Não havia dúvidas em sua face.
Sua expressão era firme como a de alguém que tinha plena consciência do que estava fazendo, o que me deixou profundamente aliviado quando ela finalmente chocou-se contra mim, seus braços finos contornando meu pescoço e seus lábios ágeis atacando os meus.
Era doce e apressado ao mesmo tempo, como se ela tivesse medo que eu pudesse fugir. Como ela estava errada! Eu queria e precisava tanto quanto meus pulmões precisavam de ar.
Eu era um homem e como tal, tinha meus instintos. Instintos esses que estavam perfeitamente despertos quando enlacei sua cintura, separando seus lábios e provando seu gosto.
Era inocente e intenso, como ela. Todo o medo que eu tive de estar fazendo a coisa errada simplesmente se desfez como uma nuvem quando a empurrei contra a parede, pressionando ainda mais seu corpo pequeno contra o meu.
Ela sobressaltou-se por um momento e logo me dei conta de que estava indo rápido demais. Hershel havia criado sua caçula da melhor forma que pôde e era claro que nenhum garoto havia a tocado com tanta urgência. Beth havia tido seu namorado na fazenda, mas em algum momento Hershel havia dito que fora rigoroso com eles, exigindo que sua filha fosse respeitada. Concentrando-me nisso, esforcei-me para afastar minha boca da sua.
Sob nossas respirações ofegantes, ninguém ousou dizer nada. Ela havia me aceitado, quebrado e instável. Naquele momento rápido me dei conta de que Beth Greene também me queria, por mais errado que aquilo pudesse ser.
— E agora? — Beth perguntou após nosso longo momento de silêncio. Sua mão macia passeava timidamente por minha nuca, causando-me arrepios.
— Eu não sei — respondi, grato por ter sua testa na minha e perceber que seus olhos estavam despreocupadamente fechados.
— Acho que não deveríamos contar a ninguém — ela sussurrou, abrindo seus olhos e fitando diretamente os meus.
— Ninguém — eu repeti, imaginando a reação de Hershel quando descobrisse.
— Exceto a Carol — Beth riu travessa e acabei sorrindo também. Sentia-me leve como uma pluma, como se mundo lá fora fosse apenas um lugar normal.
Sem poder me controlar, avancei novamente para seus lábios, dessa vez de forma calma e leve. Apesar de todos os problemas, talvez, apenas talvez, eu pudesse aproveitar a calmaria do momento. A calmaria do abraço quente e dos lábios macios da pequena Greene.
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