Death Note: A Justiça Nunca Morre
1 O Mundo Ainda Está Podre
Notas iniciais
P.O.V: Near
Acho que uma mudança do meu vício em brinquedos e chocolates para um vício em videogames pode demonstrar algum tipo de amadurecimento em algum ponto do meu ser. Ou talvez seja apenas influência do tempo em que eu observava Matt.
Pelo menos a minha sede pela resolução de quebra-cabeças ainda é grande, o que se espelha nos gêneros de jogos que eu mais jogo, puzzles como Portal*, ou até jogos que não são desse gênero, mas possui puzzles ao seu decorrer, como Resident Evil* e God Of War*. É o mais perto do divertimento que eu possuo ao resolver casos, mas nunca acharei nada tão divertido quanto foi trabalhar no caso Kira, apesar de eu ter descoberto durante esse processo que a coisa que eu mais odiava em minha vida era o próprio Kira.
Talvez o quartel general não fosse o melhor lugar para jogar videogames, mas eu não consigo me acomodar longe dele, sabendo que a qualquer momento um novo caso poderia surgir. E minha espera valeu a pena.
*Jogo eletrônico de uma série de enigmas que devem ser solucionados ao teletransportar o jogador e outros objetos simples
*Jogo eletrônico de estilo survival-horror onde se deve combater uma infestação de zumbis
*Jogo eletrônico de ação baseado na mitologia grega onde o tema principal é vingança
Enquanto eu começava a primeira fase do meu jogo, Anthony adentrou minha sala e me deu boas novas.
– L, o departamento de polícia japonesa nos incumbiu a resolver um novo caso de roubo a bancos em que eles não conseguem observar nenhuma pista ou padrão — Não era o que eu esperava, mas pelo menos é uma mudança na rotina monótona.
– Há anos que eu me incomodo ao ser chamado de L por você, por favor, me chame de Near. E claro, os detalhes do caso, por favor – Eu realmente não sei se eu não gostava de ser comparado a L por ele ter sido derrotado por Kira ou se eu achava que eu nunca chegaria aos pés dele.
– Desculpe-me, Near. 6 roubos a bancos aconteceram mês passado. Os assaltantes se infiltraram nas agências bancárias passando-se por clientes e retiraram suas armas estruturadas a base de plástico, com balas de pólvora envolvidas por plástico reforçado com alumínio de suas bolsas, ultrapassando os detectores de metais. O inusitado é que todos os assaltos aconteceram em apenas 2 dias não consecutivos, sendo que três aconteceram em um dia, exatamente simultâneos, e os outros três em outro dia, também ao mesmo tempo. Sempre que a polícia alcançava o banco, os criminosos já haviam conseguido fugir.
– Quanto tempo a polícia demorou a chegar aos bancos depois de contatada? — Anthony folheou os arquivos referentes ao caso que estavam em suas mãos.
– Nos três primeiros roubos, a polícia demorou exatos dez minutos para chegar aos locais dos crimes e vinte minutos nos outros três bancos no outro dia de assaltos.
– Isso deve significar que os bancos escolhidos pelo grupo criminoso se localizam à mesma distância em relação ao departamento de polícia mais próximo – Disse, implicando para Anthony que eu queria que ele verificasse os dados. Ele folheia os arquivos novamente, e me responde após um minuto de silêncio.
– É exatamente como você disse, Near. No primeiro dia de roubo, foram escolhidos bancos que ficavam a aproximadamente 15 km de distância do 19º PD* e no outro dia, apenas bancos que ficavam a 25 km de distância.
Esse grupo de criminosos pensou bem antes de atuar, roubando três bancos ao mesmo tempo faz com que as forças policiais tenham que se dividir em três, facilitando suas fugas.
– Todos os roubos aconteceram na mesma província?
– Sim, todos em Okinawa.
– Verifique para mim quantos bancos ainda correspondem a mesma característica que os bancos roubados. – Mais um minuto em silêncio se passou.
– Apenas mais três bancos compartilham dessas características.
A conversa inteira eu me mantive de costas para Anthony, ainda de frente a meu videogame, jogando-o.
– Então contate o departamento de polícia e diga a eles para substituírem os bancários nestes próximos bancos por agentes da polícia armados até o dia em que o próximo assalto ocorra.
– Assim será feito. – Anthony foi embora murmurando algo para si mesmo, o que parecia ser algo sobre ele estar surpreso por eu ter percebido esses padrões nos roubos. Ele deixou a sala no exato momento em que eu terminei a primeira fase do meu jogo de videogame. Fase muito curta para o meu gosto.
*Police Department: Departamento de Polícia
Dias depois Anthony voltou a minha sala para que eu ficasse sabendo que o grupo criminoso foi preso no primeiro assalto, três dias depois da minha conversa com Anthony, sem que nenhum civil fosse ferido. A minha pequena diversão tinha acabado.
Casos realmente intrigantes ainda eram raros, o que fazia minha vida tediosa. Não obstante, todo esse tédio foi cortado abruptamente de uma hora para outra, quando recebi uma ligação direta do chefe do departamento da polícia japonesa, Shuichi Aizawa.
O plano de fundo do telão onde eu costumava jogar meus jogos de videogame mudou para uma simples imagem de
fundo branco com o símbolo da polícia japonesa no centro.
– L, eu necessito saber se podemos realizar uma reunião urgente no seu centro de operações para discutir um novo caso de mortes em série – A imagem de um Death Note surgiu em minha mente, mesmo sabendo que eu mesmo tinha dado a ordem da cremação dos últimos. Logo, eu ignorei esta possibilidade.
– O que pode ser tão urgente que necessitaria da minha participação direta em um caso?
– Isso é importante demais para ser discutido ao telefone. Eu selecionarei apenas aqueles agentes que já conhecem o seu rosto, dentre eles Matsuda, Mogi e Ide. Está de acordo? – A voz de Aizawa passava a impressão de que ele estava nervoso. Ele odiava assassinos em série tanto quanto eu.
– De acordo.
Há tempos em que eu não ouço esse tom de voz em Aizawa. A última vez foi durante o caso Kira, pouco antes dele deixar nosso quartel general para voltar à polícia. Ele precisava de seu emprego para sustentar sua família e seu bebê que estava a caminho.
O tempo passou tortuosamente até a hora da reunião. Quatro homens de terno, em quatro tons de cinza diferentes, entraram em minha sala. Aizawa manteve seu visual ‘sem Black power’ durante todos esses anos, provavelmente para manter um maior tom de seriedade.
Desliguei meu videogame, não porque eu precisaria de total concentração na reunião, mas sim por questão de educação.
Aizawa e Mogi sentaram no sofá azul acinzentado à minha frente, Matsuda e Ide ao sofá ao meu lado direito e Anthony ficou de pé ao lado do meu sofá.
– Eu não convocaria essa reunião se eu não temesse o grau de periculosidade ao qual estamos destinados a enfrentar – Aizawa fez uma breve pausa, olhando para o chão de olhos fechados.
– 77 criminosos morreram de parada cardíaca nas últimas 3 semanas. – Ele disse olhando em meus olhos.
Meus olhos se arregalaram involuntariamente. Isso não fazia sentido. Eu vi os cadernos da morte sendo queimados com meus próprios olhos. Será que outro Shinigami deixou seu caderno cair no mundo dos humanos? Será que Ryuuki se entediou novamente e resolveu voltar ao nosso mundo só para ver o caos reinando de novo? Isso não me parece certo. Outrora outros já tentaram se passar por Kira fazendo justiça com as próprias mãos, aqueles fanáticos religiosos assassinavam criminosos dentro da própria cadeia ao colocarem remédios que aumentavam a pressão cardíaca de quem o usava, e quando era usado em demasia podia causar uma parada cardíaca. Os adeptos do Kiraísmo eram presos propositalmente apenas para se passarem por Kira dentro das cadeias, para que os criminosos à solta temessem Kira novamente, mas logo foram desmascarados. A menos que... a menos que um dos cadernos que eu tenha queimado não fosse o caderno verdadeiro. Quando Light era o segundo L, ele provavelmente teve oportunidades o suficiente para trocar o caderno que entregaria para mim posteriormente por um falso. Talvez aquela desesperada tentativa de me matar no galpão YB não tenha sido loucura. Talvez ele tenha escondido o caderno verdadeiro em algum lugar para que outra pessoa o achasse, torcendo para que essa fosse uma pessoa que compartilhasse de seus ideais de justiça. Nunca imaginei que eu algum dia associaria justiça à Kira.
– Nós analisamos as circunstâncias das mortes e chegamos a conclusão de que só podem ter ocorridas em função de um Death Note – Matsuda disse, seu tom um pouco menos infantil do que era quando eu o conheci.
– E se nós supusemos de que estamos à frente de um novo Kira, com certeza não é um Kira igual ao que Light foi. Matar 77 pessoas em menos de um mês é um chamariz imprudente – Aizawa constatou.
– É exatamente o que ele quer. Chamar a nossa atenção. Não só a nossa atenção, mas a atenção do mundo inteiro, ele quer que o mundo saiba que um novo Kira nasceu, como se ele estivesse nos dizendo que ele vai assumir o posto que um dia foi de Light e dar vida ao medo novamente.
– Se realmente isto for um novo caso de assassinatos em série onde um Death Note está envolvido, pelo menos nós estamos mais preparados e já sabemos contra o que nós lutaremos. Certo, pessoal? – Matsuda com seu tom infantil mais à flor da pele.
– Dessa vez será diferente, eu não deixarei margem ao erro. Este terceiro Kira vai ser pego, posto atrás das grades sem que nenhuma vida inocente seja posta em risco. Eu dou a minha palavra a vocês – Meu novo tom de seriedade alarmou quase todos na sala.
– Quem não ganha um jogo... ou monta um quebra-cabeça... não passa de um perdedor. Ele é um mero assassino, e assassinos não devem ser aceitos, quaisquer que sejam as razões dos crimes cometidos.
P.O.V – Novo Kira
– Garoto, você não acha que matar tantas pessoas tão abruptamente seja um pouco chamativo demais? – Meu Shinigami me disse enquanto eu terminava de escrever o último nome do dia em meu Death Note.
– Sim, eu acho. Eu quero que seja assim. Meu objetivo é mostrar ao mundo que os ideais de Kira não morreram com ele. Eu quero que estas pessoas que possuem um coração petrificado que jaz em meio às trevas, pessoas que deixaram de lado sua humanidade por completo, saibam que existe um punidor pragmático, que puni seguindo as leis mais puras. As minhas leis. O mundo ainda está podre – Disse após fechar meu caderno e me virar para ele.
– Então você vai simplesmente se apoderar do nome Kira?
– Não. Kira perdeu. Ele foi fraco. Eu irei penitenciar os malfeitores de um jeito que Kira nunca ousou imaginar. Eu serei o Punidor Divino.
O Shinigami riu como uma besta.
– Os humanos são realmente muito mais interessantes do que o mundo em que eu vivo.
Um som oco surge da porta do meu quarto. Alguém queria entrar. Eu corri em direção a porta para trancá-la, antes que ela visse o monstro que em meu quarto estava.
– Não se preocupe com isso, garoto. Só você pode me ver agora – Eu relutei em abrir a porta, mas o fiz. Era Ruvie.
– Você está atrasado para o almoço no refeitório, de novo – Me disse em tom disciplinador.
– Eu sei, eu sei, já estava indo – Ruvie cuidava de mim mais do que ele costumava cuidar das outras crianças por aqui. Ele foi embora após fechar a porta lentamente.
– Isso aqui não me parece um orfanato qualquer. Tantas crianças diferentes, estranhas. Por que este lugar foi criado?
– Eu não sei ao certo. Ruvie costuma constantemente testar nossas habilidades mentais, como se ele estivesse nos preparando para algo maior. Como se ele quisesse que algum dia um de nós assumisse algum posto importante lá fora, ou substituísse alguém.
– Como é mesmo o nome desse lugar?
– Chama-se Wammy’s House.
Fale com o autor