Dearly, Departed
1 Prólogo
Notas iniciais
Annie
" Para minha mãe, que me ensinou cedo que damas de verdade podem dar ordens, cavalheiros de verdade podem acatá-las e zumbis de verdade não comem cérebro. "
- Lia Habel
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Bram POV
Fui enterrado vivo.
Quando o elevador rangeu e parou no meio do poço de rocha, soube que tinha sido enterrado vivo. Aprisionado milhares de metros abaixo da superfície da terra e centenas acima do fundo, pendurado em uma gaiola de três por três metros, nas entranhas da mina. Eu havia ficado tão aliviado de conseguir trabalho ali.
Levantei e puxei para o lado meu melhor amigo, Jack, para bater no botão de controle do elevador. Soquei até machucar a mão. Nada. A luminária de vidro que balançava no teto piscou á medida que o querosene acabava, como se tentasse adiar sua própria morte com explosões exageradas de vida.
O medo se tornou uma coisa sólida, queimando-me por dentro, algo com vontade própria torturando minha carne, acelerando meu coração e fazendo minha pele ficar pegajosa de suor. Vomitei no chão, dobrado sobre mim mesmo. Jack, calmamente sentado ao meu lado com as órbitas dos olhos ensanguentadas e o corte aberto na garganta, parecia zombar de mim, zombar da minha tentativa de resgatá-lo. Parecia um palhaço macabro de trem-fantasma. A represa arrebentou, e eu finalmente comecei a gritar. Com Jack. Com Deus. Com tudo. Não havia nada mais a fazer além de gritar. Eu não havia gritado quando os monstros nos atacaram. Nem quando tive que fugir deles, ou lutar contra eles, ou quando arrastei o Jack até o elevador, com o sangue jorrando do buraco aberto no pescoço dele. Tudo aconteceu tão rápido que não tive tempo de gritar.
Os monstros. Loucos, animalescos, descoloridos, arrebentados e desfigurados por se arremessarem contra suas vítimas como uma pessoa aprisionada abaixo da superfície de um lago congelado, depois de bater contra o gelo na busca desesperada por ar ... só dentes e famintos ...
Escorreguei contra a parede do elevador e cobri o rosto com as mãos ensanguentadas, que coçavam. O cheiro do sangue me nauseou. Recostei-me, mas não senti alívio. O elevador estava encharcado com o sangue do Jack. Eu estava encharcado com o sangue do Jack. Havia mais sangue no meu colete do que o que restara, estagnado, nas veias dele. Meu velho relógio barato estava empastelado de sangue. Até a câmera digital ainda presa na mão fechada dele estava empastelada de sangue. Droga de geringonça neovitoriana. Eu sempre reclamava de Jack ser tão apegado a essa câmera. Não dava nem pra tirar as fotos lá de dentro, não sem um computador, e ninguém por aqui tinha um computador. Se o xerife por acaso ficasse sabendo que tinha entrado contrabando na casa dele, o Jack estava perdido — então, pra quê correr o risco?
Ainda assim, ele tinha tanto orgulho da câmera, e das fotos instantâneas que tirava. E eu posava pra ele, obediente, toda vez que me pedia.
Devagar, tremendo, soltei a câmera dos dedos grudentos do Jack.
A luz enfraqueceu. Tentei não by Text-Enhance\">entrar em pânico. Descobri como ligar a câmera, na fútil esperança de que as teorias conspiratórias fossem verdadeiras — que os neovitorianos fossem capazes de rastrear cada pequena porção de tecnologia que o povo usava, cada letra digital, praticamente cada pensamento. Não se dizia que eles punham chips nos seus cidadãos, marcando-os como se faz com gado? Talvez funcionasse, se o contrabandista que tinha atravessado a fronteira com a câmera não tivesse mexido com ela e eliminado a tal função. Talvez.
No mínimo eu podia gravar uma mensagem.
Quando descobri como se fazia para gravar um vídeo, a luz morreu, me deixando em uma escuridão, perfeita, quase palpável. Engoli um soluço e falei alto, a garganta em carne viva, a voz parecendo a de um fantasma na tumba.
– Se esta coisa está funcionando... meu nome é Bram Griswold. Tenho dezesseis anos. É... 4 de julho de 2193. Eu moro na Fazenda Griswold, Long Road, West Gould, Plata Ombre, no Brasil controlado pelos punks. Trabalhava aqui, na mina Celestino, para ajudar minha mãe e minhas irmãs... E essas coisas, essa gente... eles estavam comendo... comendo o Jack...
Comecei a chorar. Cravei as unhas nas feridas, nos lugares onde os monstros haviam mordido, tentando desesperadamente que a dor me ancorasse na realidade, para fazer a minha mente voltar da beira do abismo.
Não funcionou.
Disse aquilo.
– Tenho certeza que vou... morrer aqui. Emilly, Addy... sinto muito — Lágrimas escorreram até a minha boca, um alívio estranho depois do gosto de vômito. — Sinto muito.
Notas finais
Annie
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