Dearg Due

6 Parte 2 - Capítulo 6 - Magh Turedh


Notas iniciais
** Vamos para o passado para começarmos a parte 2 ;) Espero que goste, Mi. Acho que esse AS vai acabar colando no próximo rsrs. Tenho uma grande dificuldade em escrever histórias curtas =(

Ezra era perfeito em tudo: enquanto dormia; ao se levantar e esticar os bracinhos gorduchos; ao sorrir, iluminando o rosto e tudo a sua volta. Ao se alimentar no seio de minha amada esposa.

Estávamos em um dos raros momentos em família, Edith apoiava meu filho de pé e seus olhos brilhavam ao deixá-lo poucos instantes sustentando-se a si mesmo e ria, tão logo ele perdia o equilíbrio. Eu estava reclinado na cadeira, observando-os; ciente das fugazes olhadelas que recebia de Edith a cada vez que meu herdeiro se mantinha firme por um pouco mais de tempo. Ela estava orgulhosa e eu também. Intimamente, sempre havia desejado aquela mulher, quando se tornou minha, foi um momento de dor e júbilo, no entanto, quando concebeu o meu filho... eu não poderia amá-la mais.

O sorriso de Edith se apagou pouco a pouco, notei cada mudança em sua expressão, até que a seriedade tomou conta do seu olhar e os lábios se achataram em uma linha fina. Alerta, levantei-me; a mão direita já tocava o cabo da espada. Houve uma batida forte na porta, a madeira chegou a ranger. Logo as sinetas de ossos chacoalharam e antes que eu abrisse a boca, Edith apanhou nosso filho nos braços e o levou para longe. A batida na porta insistia em anunciar quem não era bem-vindo.

— Thoulack — sussurrou Edith e concordei com um aceno de cabeça. Não havia outra criatura em toda terra celta que ousasse perturbar a mim e minha família a não ser um Sencha. Edith tinha uma estranha ligação com aqueles sacerdotes; ela podia sentir suas presenças, em bons ou maus momentos.

Respirei fundo e tranquei a mandíbula, tentando reter os pensamentos para mim mesmo, externá-los seria um erro. Cumprimos nossa parte do acordo. Vivíamos em Magh Turedh, distante das montanhas de Kilkenny, como nos foi aconselhado, ainda que a proximidade com o mar deixasse minha Edith perturbada, assombrada pelos sussurros que vinham do oceano.

Soltei o cabo da espada e caminhei a passos firmes até escancarar a porta com um solavanco descontente.

Nenhuma surpresa encontrar o velho Druida-Sencha com o rosto parcialmente encoberto por sua vestimenta negra de capuz, levando em uma das mãos o cajado de carvalho, na ponta curva, ossos de animais ofertados aos deuses.

Relutante e com o coração cheio de rancor, curvei-me minimamente em um cumprimento obrigatório, que passava longe de ser cordial ou sincero.

— O que faz aqui, Sencha? Traz notícias ou ordens? — perguntei sem preâmbulos.

— Vim à sua casa, pois teu tempo aqui acabou, filho de Loth — respondeu o velho sem alterar a voz.

Senti a fúria dominar-me rapidamente, no entanto, do mesmo modo como iniciou, arrefeceu. O simples toque de Edith me tranquilizou. Já não tinha nos braços nosso pequeno filho e me puxando um tanto para o lado, ofereceu abrigo ao velho sacerdote.

O olhar que dirigi a ela deixou-a ciente do meu desagrado ao tomar à dianteira enquanto eu estava tratando com aquele homem. Edith baixou os olhos e se afastou de mim.

Ela me confundia às vezes.

Por acaso estava surda para o que o druida havia dito? Depois de anos de lutas; da severidade do clima e da escassez de alimentos, seja do que viesse do mar ou do solo; nada naquelas terras era fácil, tudo vinha com matizes rubras, fosse do sangue das mãos, calejadas pelo arado ou feridas nas cordas de pesca nos navios, fosse da espada empunhada por culpa das invasões. Agora, aquele velho trazia a notícia de que eu perderia tudo o que construímos duramente por anos?

— Druida-Sencha Thoulack, não temos muito mais a oferecer, a não ser uma caneca de cerveja... aqui não chegam os carregamentos de vinho, vindos da Grécia e...

— Não precisa bajular tanto o Sencha! — eu disse entredentes, irritado com a morosidade repentina de Edith. Ela normalmente não agia daquela forma.

— Acalme seu coração, filho de Loth. As notícias são benéficas para seu clã. — E virando-se para minha mulher, ele disse: — Traga três canecas da sua cerveja, Edith de Danann, e traga também o fruto da sua união com Argenon de Loth para que esteja presente enquanto relato o que me foi passado.

Não me agradava em nada ter aqueles feiticeiros miseráveis perto do meu menino, embora o olhar de Edith fosse de súplica.

Será que ela ficaria muito magoada se eu arrancasse a cabeça deste bastardo bem no meio da nossa casa?

Com muito custo, sentei-me diante do Druida, quando minha vontade era estripá-lo e cozinhar seus ossos para adubar a plantação. Edith murmurou suas ordens para a menina que a ajudava com os afazeres domésticos e com nosso menino no colo, sentou-se ao meu lado.

— Fala de uma vez, velho. O que pode ser tão bom para o meu povo? Por acaso a tribo Bogh morreu por alguma peste? — ironizei.

— Qual o nome da criança? — perguntou Thoulack parecendo realmente interessado.

— Ezra — respondi, sorrindo.

Thoulack moveu a cabeça, concordando.

— E ele não lhe faltou — disse o sacerdote. Não era surpresa que soubesse que Ezra significava “socorro”.

— Que notícia tens para nós? — perguntou Edith.

— Lir, o deus do mar... — iniciou ele.

— E também Senhor do submundo — interrompi entredentes.

— Por favor, Argenon — sussurrou Edith.

— ... viu tua aflição e compadeceu-se de ti, filho de Loth. Demonstrou bravura e não esmoreceu enquanto lutavas pela vida do teu povo, por isso, Lir deseja que retome o que te pertence, pois afastou-se das montanhas e se refugiou onde também seria a maior fraqueza dos...

— Refugiei-me? Refugiei-me, seu velho ardiloso? — gritei. Ao me levantar, expressando indignação e ira, assustei meu filho, que chorou, recebendo alento de Edith. — Vocês, druidas, favoreceram os Bogh contra o meu clã! Quando meu avô os procurou para a resolução de uma contenda, o que fizeram os Druida-Brithem? Disseram que tomássemos o caminho para longe de Kilkenny! Para cultivarmos o solo infértil e salgado de Magh Turedh, de cumes inóspitos e ravinas profundas — concluí entredentes.

— Argenon...

— Não! Edith, não! Eles sabiam o quanto os Filhos de Danann precisam da floresta! A montanha nos faz ser fortes, ainda assim, arrancaram nosso local sagrado por ganância! Queriam a montanha para eles! Fizeram um acordo com os Bogh, para que...

— Basta, Argenon! — gritou Edith, ainda por cima do choro estridente de nosso filho.

Eu bufava. Tomando uma respiração profunda, prossegui:

— Eles têm coragem de vir até este lugar de provação para nos devolver tão amavelmente nossas terras, em nome de Lir? — Movi a cabeça, negando. O que era uma vontade, tornava-se a cada minuto uma necessidade: matar a todos.

— Filho de Loth — disse o druida, plácido e inabalável. — Hoje, nós também compreendemos que foi da vontade da Deusa Mãe, afastá-los do seu seio, para que aprendessem uma lição valiosa sobre seu próprio povo. Ou és capaz de negar que o filho longe do peito da mãe deve aprender a comer alimentos sólidos? Veja o quanto Tuatha Dé Danann, o Povo de Danann, fortaleceu! Ou seu ódio corrompeu sua razão? Filho de Loth, não cabe a mim julgar, pois sou apenas um Sencha, um portador de notícias, não um Brithem. Eu venho para falar sobre Lir e sobre um acordo com ele, pois o Senhor do submundo também precisa afastar da protegida escuridão, seus filhos e filhas, para que possam andar sobre a terra, como é de sua vontade. Será que cabe a nós interferir ou explicar os motivos que têm os deuses?

— Isso não... eu não vou... eu...

Tentei encontrar minhas palavras, mas todas haviam me abandonado. Lir não havia se compadecido, ele queria um acordo, uma porta de entrada para trazer seus filhos e filhas, aqueles que podem atravessar o manto da morte e permanecer de pé, olhando, falando e comendo.

— A criança de Lir deverá acompanhá-los para estar longe das profundezas do oceano, pois, é diante de nossas maiores fraquezas que testamos nossa força. Seu nome é Lear e ela deve seguir com vocês até Kilkenny.

— Kilkenny está infestada de bastardos Bogh, seu velho maluco! Não levarei outra criança, tampouco o meu próprio filho para longe daqui, onde já dominamos o plantio e a pesca! Nosso clã está enfraquecido, somos, em nossa maioria, pouco mais jovens que você! Não há treinamentos além de depositarmos nossa força física com arados e redes. Vocês nos puniram e nos transformaram em débeis trabalhadores braçais! O que teríamos a nosso favor? Por que nos mandam para a morte certa?

— Crê em minhas palavras, Argenon: cem anos se passaram desde que deixaram Kilkenny, três gerações dos Filhos de Danann. Sua semente não enfraqueceu, longe disso. Veja Ezra, veja seus braços e pernas e o olhar aguçado. Veja os filhos de Nemad e os netos de Bres. Mesmo que sejam poucos os que estão em idade para a batalha, apressa-te, Argenon de Loth, vai e prepara teu clã para retornarem à Kilkenny. Leva contigo a jovem Lear, pois dela virá a Flor que o deus do mar deseja semear neste mundo. Vocês vencerão e por mil anos cantarão sobre tua vitória.

Notas finais
continua no passado...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.