Dear Revenge
4 Me Ajude
Notas iniciais
Já se passaram mais de dez minutos, pensou Emma. O que elas estavam fazendo de tão importante no banheiro que duraria dez minutos? Será que estavam fofocando sobre ela? Será que Taissa contou sobre... Sobre o ex-namorado dela ter espalhado para o colégio todo um boato de que ela passou uma DST para ele? Depois de se levantar e sentar várias vezes, tomou a decisão que iria para o banheiro atrás delas. Ela evitava os banheiros de colégios, eles eram praticamente o centro nacional do bullying.
Cruzou o pátio do refeitório até chegar em uma porta onde se dizia “Meninas” com um desenho tosco de uma menina de vestido embaixo. Como se todas as meninas usassem vestido. Encostou a mão sobre a porta e demorou para empurra-la. Seria isso o certo? Antes que pudesse pensar, a porta se abriu e ela saiu da frente da porta e fingiu que estava lendo o quadro de avisos que ficava ao lado do banheiro. Vários papéis espalhados sobre o quadro diziam “Não fume!”, “Proibido celulares”, “Acabe com o bullying! Conte para seus pais”. Como se ela tivesse pais.
Emma ainda tinha nove anos quando seus pais morreram. Ela estava passando alguns dias na casa da sua tia – que ficava em outro estado –, quando seus pais ligaram falando que iam busca-la. Foi a última vez que ouviu suas vozes. Após a ligação, se passaram uma... duas... três horas até que o telefone tocou de novo e sua tia atendeu. Emma perguntou o que tinha acontecido e onde estavam seus pais.
– Eles foram para o céu – sua tia respondeu. Naquele momento, os olhos de Emma se encharcaram e ela começou a chorar como um bebê de nove meses. Sua tia também começou a chorar. A partir daquele momento, Emma percebeu que teria que ser forte e deixar aquela garota de vestido florido e tiaras cor-de-rosa para trás.
Depois daquele dia, Emma morou com sua tia que era sozinha e não tinha filhos nem marido. Mas um dia, depois de Emma ter completado treze anos, ela morreu também. Morreu de ataque cardíaco. Então, Emma teve que ficar em um orfanato, pois nenhum de seus parentes a queria. Quando fez quinze, o governo a deixou ir morar sozinha em um apartamento no meio de uma vila pacata.
– Ei, Emma! – Taissa e Liss estavam ao seu lado. As palavras de Taissa fizeram as lembranças irem embora e a velha Emma voltar.
– Vocês demoraram, hein. – Emma tentou não entrar nos detalhes, sabia que Taissa não diria. Taissa era um túmulo. O que acontecia no banheiro, ficava no banheiro.
* * *
Quando o dia estava no fim, Emma estava deitada na sua cama olhando para o teto rachado. As paredes não eram bege, eram brancas e estavam sujas. Os moveis todos eram usados, foram doados por vários vizinhos. Aquela era a vida de Emma. Como se não bastasse a perda dos pais, na escola ela era chamada de vários nomes, incluindo baleia. Ela nunca se achou gorda, mas quando ouviu isso, resolveu fazer uma dieta rígida.
Não que ela se importasse com o que os outros dissessem, ela só se sentia... melhor. Tudo piorou quando de dieta passou para uma doença. Ela tinha bulimia. Comia, comia, comia e depois botava tudo pra fora.
Deitada na cama, passava suas mãos pelas costelas e sentia os ossos cobertos por uma fina camada de pele. Aquela era a beleza para ela. O corpo perfeito. De repente, seu celular começou a tocar.
– Sim? – disse.
– Olá, aí é a Amanda Carinhosa?
– Não, não tem nenhuma Amanda Carinhosa aqui.
– Amanda Carinhosa, por favor. – dizia a voz.
– Não tem ninguém com esse nome aqui.
– Claro, quem daria carinho pra uma bruxa como você? – assim que a voz disse isso, várias outras vozes femininas riram baixinho. Abbey e as vadias. Deixou o telefone sobre o criado-mudo ao lado de sua cama e deitou novamente. Pensou em chorar, mas ela não choraria. Ela seria forte. Forte. Forte. Forte. Se sentou na cama e colocou o rosto entre os joelhos. Não foi forte o bastante e começou a chorar.
Ela tinha motivos para chorar. Muitos motivos. O maior deles é o bullying na escola. Graças ao seu maldito ex-namorado que espalhou um boato que ela passou DST para ele – eles nem tinham feito sexo –, ela é humilhada por todo o colégio.
Pedras bateram na janela. Emma já sabia quem era. Se levantou e limpou as lágrimas de seu rosto. Andou pelo pequeno quarto e foi para a pequena janela. Abriu-a e olhou para baixo. Era Gus. Era o nerd que sempre ia bem em matemática, mas também era seu melhor amigo. Eles não estudavam no mesmo colégio, mas eles nunca perderam o contato. Emma conheceu Gus no orfanato, ele foi o único que conversou com ela. Isto é, até ele ser adotado. E ela não.
– Entra, a porta tá aberta! – gritou. Mas Gus não se mexeu, apenas gritou de volta:
– Não, vem você aqui! – Ela suspirou e andou pelo quarto, passou pela minúscula cozinha e foi para a porta. Desceu os inúmeros degraus das inúmeras escadas e finalmente conseguiu sair do prédio. Lá estava Gus com suas calças largas e sua camiseta listrada. Ela sorriu ao ver ele, era legal quando alguém a visitava.
– Emma, eu vou ser rápido – disse ele. Ela se aproximou dele e franziu a testa. – Eu te amo.
Quando ele soltou essas três pequenas palavras, o corpo inteiro de Emma se congelou. Ela tentou abrir a boca para falar algo, mas a voz não saia. Seus músculos não se mexiam, sua respiração ficou acelerada. Essas três palavras podiam ser pequenas, mas mexiam muito com uma pessoa. A única coisa que seu cérebro processou foi: fuja. E foi exatamente o que ela fez. Saiu correndo para dentro do prédio, subiu as escadas como um maratonista e chegou em seu apartamento. Gus apenas franziu os lábios, se virou e foi embora.
Em seu quarto, Emma fez questão de fechar a porta e deitar na sua cama. Que merda ela tinha acabado de fazer? Ela acabou de sair correndo quando seu melhor amigo disse que amava ela. Certamente não era a coisa certa a se fazer. Se sentou e ficou encarando a porta. Deveria voltar?
– Me ajude! – uma garota de cabelos negros e lisos usando um vestido branco de seda estava parada em frente a sua cama. Seu coração acelerou. Piscou algumas vezes para ver se estava sonhando, mas a garota repetiu: Eu quero vingança.
– Sai daqui, demônio! – pulou da cama, agarrou o abajur e tacou na garota. Mas o objeto apenas atravessou-a. Correu para a janela, abriu-a e gritou pedindo ajuda, mas ela se trancou como se tivesse vida própria. Emma resolveu se entregar, não tinha mais jeito. Se virou e encarou a garota – O que você quer de mim?
– Sua ajuda. Para se vingar de Abigail Longwood.
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