Dear Brother
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Na saudosa Inglaterra, um casal composto por uma aeromoça e um piloto de avião receberam um presente no dia 23 de abril de 1996: dois filhos. Gêmeos univitelinos. Arthur e Benjamin. Ao longo dos anos as idênticas crianças cresciam, amadureciam e ganhavam personalidades e gostos totalmente distintos. Benjamin — ou Ben — era calmo, querido e super atencioso com a escola e família, enquanto Arthur a ovelha negra. Desde pequenos, a única semelhança entre os dois era a física — tirando uma mancha que Benjamin tinha nas costas com o desenho semelhante a de um coelho -, pois os pensamentos nunca se encaixavam. Victoria e Thomas perdoavam tudo de errado que faziam, já que estavam sempre ausentes devido o trabalho e queriam suprir essa carência tentando ser os melhores e mais liberais pais que existem. Procuravam sempre munir os primogênitos com presentes e lembrancinhas de suas viagens pelo mundo, além de uma gorda mesada para cada um — nenhum reclamava.
Claro, não poderiam deixar dois pirralhos por sua própria conta e risco, então contratavam uma espécie de babá em turno integral para acompanhar a vida escolar dos meninos e tentar educá-los (uma espécie de tutora), sempre lhes reportando algum fato extraordinário da rotina comum que levavam. Seu nome era Isabella e os acompanha até hoje.
* * *
– Arthur!! — Benjamin quase espancava a porta — Vamos, vamos, o diretor está lhe procurando novamente!!
Continuou esmurrando a pobre porta até ouvir o som de um clique na maçaneta, recuando um pouco. Um garoto de cabelos castanhos saiu primeiro, fechando o zíper da calça e arrumando o cinto — passou reto — enquanto Arthur saiu logo depois e discretamente limpou os lábios com um lencinho, sorriu para o irmão atônito, ironizando aquela expressão incrédula.
– … Na própria escola, Arthur!!
– Ahh, o que foi agora, Sr. Bencorreto? Não posso nem mais desfrutar da minha juventude?
– Claro que pode. Mas não necessariamente fazendo isso. E ainda onde você estuda! Aliás — olhou para o quartinho — como você conseguiu acesso ao depósito do zelador? Esse lugar é chaveado!
Arthur deu uma risadinha maliciosa e saiu andando, olhando o irmão pelos ombros.
– Deseja mesmo saber?
– Eu n--
– Se acalme, eu apenas vi a chave dando bandeira no pátio — deu de ombros — o zelador devia estar cuidando as flores, sei lá, e a peguei emprestada rapidinho. Aliás, o que o diretor quer?
Benjamin passou a acompanhá-lo pelos corredores do lugar, era engraçado, para as pessoas de fora pareciam dois clones de tão parecidos que eram. Até para gêmeos eles se superavam.
– Ah… Isso. Foi só um motivo pra te tirar de lá.
Parou.
– Eu não acredito que você fez isso! Eu estava me divertindo! — ralhou.
– Você não pode fazer essas coisas aqui! — rebateu — O que as pessoas vão pensar de você???
– Foda-se! Ninguém tem provas contra mim, sou bem crescido e vacinado, faço o que quiser.
– Arthur! Isso não é bom pro seu futuro!!
– Que se dane! Eu estou no último ano, ninguém mais vai lembrar de mim ano que vem!
E saiu. Deixou o irmão sozinho, ali no corredor, mas conseguia sentir o olhar o fuzilando pelas costas. De fato, Arthur tinha uma péssima fama no colégio. Como muitos diziam, era a prostituta da instituição. Vivia levando garotos para os lugares mais reservados do local e lhes fazia um “agrado”. Porém, o britânico não estava ao todo errado, como a maioria dos alunos eram “heteros” eles nunca falariam o que fizeram ou deixaram Arthur fazer com eles, afim de proteger seu “orgulho”. Assim, não haveriam provas e apenas fofoquinhas sem embasamento. Não se importava nem um pouco, até gostava dessa sensação de liberdade. Sua língua conhecia mais bocas do que muito dentista renomado por aí e super se orgulhava disso.
Usava sempre calças bem coladas, camisas levemente abertas e ombros expostos, sabia como atrair suas vítimas, além de sua beleza era imensa — ninguém negava, até Ben sempre foi elogiado -, o que lhe ajudava e muito. Adorava ir a festas e encher a cara, dançar até cair e levar um ou dois rapazes para um quarto e gozar de uma noite cheia de travessuras adolescentes até ao amanhecer. Porém, seu palco principal era o colégio.
O oposto de Benjamin. Um doce de rapaz. Sempre gentil com seus colegas e boas notas, era alinhado, usava o uniforme corretamente e tinha apenas um namorado desde que se conhecia por gente: Francis Bonnefoy. Namoravam desde seus 15 anos e fariam três anos de namoro em breve, ambos comemoravam um com o outro cada dia que passava. Diferente de Arthur, entre uma noite de festas e virar a madrugada assistindo filmes em casa, sem dúvida escolheria a segunda opção. Tinha um gato cinza que ganhou do namorado (foi o primeiro presente que recebeu, antes mesmo de chocolates e afins), apelidou de Pierre pela implicância de Francis com o nome, mas adequou-se perfeitamente — tinha o jeito garboso e romântico, como de um legítimo homem francês.
Desde pequeno, Benjamin ralhava contra as atitudes depravadas do irmão, tentando acalmá-lo ou coisa parecida, temia que algum dia ele fosse exposto e sofresse chacotas — o que nunca aconteceu. O Amava muito, mais até que seus pais, então se notava bastante preocupado com isso. Tudo o que Arthur ignorava, Ben percebia. Quando acontecia algum problema, por exemplo, o irmão entrar em uma briga durante uma festa, deixava tudo o que estava fazendo de lado e corria ao seu encontro para auxiliá-lo; um problema, isso acabava mimando cada vez mais a índole duvidosa do gêmeo mais novo.
Voltou a praguejar o irmão pelas costas e sentou-se em uma mureta, muito emburrado pela infantilidade do outro, confabulando consigo mesmo que ele não lhe dava o devido valor nem nada parecido, já que "sempre zelou pelo bem estar de Arthur".
Em meio ao seus devaneios, foi surpreendido com mãos o envolvendo pelas costas e recebendo um suave beijo na bochecha. Pelo leve roçar da rala barba por sua pele já tinha notado quem era.
– Francis! — outro beijo — P-pare… — mais um — Alguém pode ver...
Ignorou o namorado por completo. Já estava bem perto dos lábios dele e não recuaria agora. Trocaram alguns selinhos e um beijo bem discreto. Acariciava o rosto áspero do namorado enquanto sentia seu corpo pender para trás levemente — franceses e seus beijos entorpecentes. As mãos matreiras de Francis já lhe tateavam quando ouviu o farfalhar das folhagens e risadas juvenis aumentando cada vez mais. Era melhor parar.
– Ben…! — Sentou ao lado dele, deslizando os dedos à mureta atrás da mão de seu parceiro — porque é tão rígido consigo mesmo? Qual o problema de um simples beijo?
– Estamos no colégio! Alguém poderia ter visto e não seria nada bom.
– Ah, por favor — completou — com o seu irmão por aqui, acha que realmente alguém prestaria atenção em nós??
– … — franziu o cenho, detestava quando falavam mal de seu irmão, mesmo sendo verdade, não queria aceitar. Só ele podia ralhar ou desaprovar as atitudes do fraterno. E Francis sabia. Muitas brigas dos dois foram geradas por um único culpado; sentia ciúmes do cunhado porque Ben deixava bem claro sua preocupação e amor pelo irmão e que ele sempre estaria em primeiro lugar. "Um motivo e tanto."
– Certo, certo, perdão — beijou a cabeça do outro, deslizando os lábios pelo cabelo loiro — não falo mais.
– … Eu sei como ele é. Não precisam ficar jogando isso na minha cara.
– Ben… Eu sei como é complicado pra você. Desculpa, não queria--
– Tá tudo bem. — cortou — Só vamos mudar de assunto. Vai ir lá em casa sábado?
– Vou sim. Convenci meus pais e irei pela manhã.
– Não se esqueça que é pra dormir… Traga seu travesseiro… Sei lá.
As pupilas azuis brilharam, "Uma oportunidade!"
Caiu nos braços do mais baixo, manhoso feito uma criança.
– Como é malvado! Achei que eu dormiria com você!
– Olha... A Bella não vai estar em casa, então...
– Viu, é a situação perfeita! Estou cansado de dormir sempre no chão por causa dela.
– Já que insiste.
Aninhou-se contra o namorado e passou a dedilhar o brasão bordado do instituto no blazer dele, retornando a ficar pensativo.
– ... Eu espero que você realmente vá.
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