Dear Boss
14 Stupid boy.
Notas iniciais
Quando Stupid Boy começou a soar alto nos auto falantes do bar, eu soube que estava ferrado.
Bem, eu estava ferrado muito antes disso, mas agora, nesse momento, tudo se elevou a um novo nível.
Eu sabia que precisava levantar e andar para longe daquela música, mas ainda não era o suficiente. Aliás, eu estava longe de atingir o suficiente. Depois de três copos de uísque e duas doses de conhaque, eu ainda sentia o movimento do meu corpo, e podia discernir todos os meus pensamentos, cada um deles. E é claro que todos convergiam em um ponto apenas.
Ela. Era sempre sobre ela.
Desde que a Bella decidira me deixar, duas semanas atrás, nada parecia fazer sentido. Diabos, isso soa gay. Mas, sendo completamente honesto, nem mesmo o chão que piso parece ser o mesmo. O que antes fora sólido agora é instável. O que antes era estático agora vive em uma eterna rotatória. O certo virou errado.
O sóbrio virou alcoólatra.
O ponto é: desde que eu não podia pensar na separação a que fui imposto sem enlouquecer ou quebrar tudo ao meu redor, a única alternativa que me resta é beber até que não sinta o sangue correndo nas minhas veias. E então, acordar com a pior dor de cabeça possível, para bloquear qualquer pensamento além da dor, e quando ela começar a esvair-se, beber tudo de novo.
Cada maldito copo. Até que eu pare de respirar.
“Well, she was precious like a flower. She grew wild, wild, but innocent”
A música me atingiu no momento que eu levava a quarta dose de uísque à boca. O efeito dela foi tão forte que tossi e vacilei para trás, derramando o líquido por toda a minha camisa. Não me incomodei em limpar. Sequer me importei de respirar. Aquela... Música...
–Problemas? – uma voz feminina chamou, desviando temporariamente a minha atenção da música.
Quando virei-me para o rosto que acompanhava a voz, meus olhos endureceram, meu corpo tencionou e imediatamente assumi a máscara que impedia qualquer um de ler os meus sentimentos.
“A perfect prayer in a desesperate hour. She was everything beautiful and innocent”
–Tanya – cumprimentei, sem estender a mão.
–Edward. Você continua encantador – ela respondeu, sorrindo e sentando ao meu lado.
Virei o meu corpo para ela e não me surpreendi com a sua aparência. Ela continuava de tirar o fôlego. Os olhos continuavam do mesmo tom castanho de que eu me lembrava... Sensual e astuto. O corpo continuava exatamente o mesmo: as curvas ainda estavam lá, provocando qualquer ser humano do sexo masculino há um raio de dois quilômetros. E tinha... Ela ainda inclinava-se de um jeito. Quase chegava a ser uma insinuação. Um convite para aproximar-se e sentir o seu perfume mais de perto.
E então eu me dei conta de que estava procurando.
Um tom escuro no cabelo loiro. Um castanho mais escuro, mais profundo, nos olhos. Um sorriso no canto da boca ou até uma ruga de preocupação exatamente no meio da testa que dizia quando algo estava errado. Qualquer coisa. Qualquer parte da Bella.
–Gosta do que vê? – Tanya perguntou, erguendo uma sobrancelha para a forma clara que eu analisava-a.
–Você não iria querer saber a resposta- respondi evasivamente.
–Isso é um não?
–Isso é um” não o suficiente”.
“Stupid boy, you can’t fence that in. Stupid boy, it’s like holding back the wind. She let her soul right in your hands and you stole her every dream and you crushed her plans. She never even knew she had a choice and that’s what happens when the only voice she hears is telling her she can’t”
Apertei a mão no copo que segurava, inesperadamente inquieto com a música que continuava a tocar. E com a mulher que continuava ao meu lado. E com o mundo que continuava ao meu redor.
–Você tem outra, então? Melhor do que eu? – Tanya perguntou, o corpo agora virado totalmente para mim.
–Tinha. – falei, sinalizando o barman para encher meu copo outra vez.
–Tinha?
–Você ouviu.
Um rápido silêncio instalou-se. Tanya parecia estar decidindo o que fazer a seguir, mas logo depois voltou a falar.
–Você terminou com ela?
A voz também não era a mesma. Bella tinha um tom suave, inocente, que me fazia perder a cabeça. Cair de joelhos. Responder cada maldita pergunta que passasse pela mente dela sem um segundo de hesitação.
Tanya não era assim. Ela só parecia toda errada.
E essa percepção só me fez querer beber além do entorpecimento, além da embriaguez. Algo em torno do coma alcoólico.
Porque havia uma razão para eu estar nesse bar, nesse momento. Claro que havia. Diabos, se eu quisesse, eu poderia ter conseguido toda a bebida necessária com apenas um telefonema. Mas eu não quis. E o motivo da minha saída estava bem na minha frente, mais desinteressante do que nunca.
Eu queria saber o que ainda me puxava à Tanya. O que, por Deus, me fazia temer três palavras, depois de todo esse tempo. Por que o trauma fora tão intenso? Eu ainda estava ligado a ela de alguma forma? Então eu sabia que precisava encontrá-la, falar com ela, formular respostas.
E agora, eu ainda não tinha uma. Eu ainda estava sem nada. Tanya apenas me parecia vazia, assim como o resto do mundo.
Porra, eu preciso de outro uísque.
–Ela terminou comigo – respondi finalmente, me contraindo com palavras.
“So what made you think you could take a life and just push it push it around? I guess you build yourself so high you had to take her and take her down”
–Por quê? – Tanya continuou a perguntar.
Silêncio. Outro uísque. E mais um.
E, droga, minha camisa continua molhada.
–Você a ama?
“She let her soul right in your hands and you stole her every dream and you crushed her plans. She never even knew she had a choice and that’s what happens when the only voice she hears is telling her she can’t. You stupid boy”
Aquela era a pergunta de ouro, não era? Tinha que ser.
Eu a amava? Porra, ao inferno com isso. Eu daria a minha vida por ela? Com toda a maldita certeza. Eu abriria mão de cada coisa em minha vida, cada órgão do meu corpo, cada centavo do meu bolso, se isso a trouxesse de volta? Sem um minuto de hesitação.
Eu a amava? Eu a amava?
“Oh, you always had to be right but now you’ve lost the only thing that ever made you feel alive”
–Sabe, Edward, eu te amei um dia – a voz de Tanya soou alquebrada, distante.
Eu provavelmente deveria ter rebatido. Dito que eu sei da verdade. Que ela apenas quis o meu dinheiro, e todo o tempo que passamos juntos foi apenas mais uma mentira.
Mas eu não tinha forças. Eu não tinha nada.
–Eu sei que você não vai acreditar... Mas é a verdade – ela continuou, e encostou a mão no meu braço – Como não poderia? Eu continuava dizendo a mim mesma “Você não pode, isso é apenas um jogo” “Não se envolva demais” “Não se importe demais”, mas então você fazia café da manhã e levava ao nosso quarto. Enviava emails doces em momentos inesperados. Abraçava-me forte. Você... Você realmente olhava para mim, Edward. Além do meu corpo, além do meu rosto bonito. Você me enxergava. E amava o que via. E eu amava você.
Minha única resposta foi engolir mais uma dose de uísque e me inclinar levemente, de forma a sentir mais profundamente aquele contato. Não era nada demais. Apenas uma mão e um braço. Mas traziam lembranças de um outro tempo, em uma época em que os sentimentos eram mais simples e a vida era mais fácil.
Muito tempo atrás.
–Eu te amei, Edward, mas fiz uma escolha errada. No final das contas, quando seu pai descobriu tudo, eu vi dois caminhos se abrirem à minha frente: Eu poderia escolher o dinheiro ou escolher você. – ela respirou fundo e desviou o olhar, parecendo envergonhada – Nós dois sabemos que escolhi o caminho errado.
Esperei ela acalmar-se, porque sabia pela forma que ela estava discretamente balançando a cabeça que ela se controlava para não chorar. Então apertei a sua mão com a minha, incentivando-a a continuar.
“She let her soul right in your hands and you stole her every dream and you crushed her plans. She never even knew she had a choice and that’s what happens when the only voice she hears is telling her she can’t. You stupid boy”
–Eu só… Eu só tinha tanto medo, Edward. Medo que o nosso amor não fosse o suficiente. Medo do futuro. Medo do sentimento que eu tinha por você. Então eu escolhi o sólido, o certo. O dinheiro. E hoje consigo ver as coisas claramente – ela então olhou bem nos meus olhos, com uma ferocidade que não me lembrava existir – O amor é o suficiente, Edward. Dinheiro, fama, prestígio? Isso tudo vai embora. Mas o amor continua. Sempre continua.
“It took a while for her to figure out she could run but when she did, she was long gone. Long gone, long gone. Ah, she’s gone”
Com um sorriso, eu entendi. Tudo de repente encaixou-se, até só restar uma única peça.
A verdade é que a resposta que eu vinha procurando não estava em Tanya... Estava em mim. Em mim e no modo como eu reagiria a ela. Eu não queria saber o que ainda me atava a ela... Eu queria ter certeza que nada mais o fazia. Eu sempre soube o que a Bella é... O que a Bella sempre foi... Mas agora, em frente à mulher que um dia foi a mulher da minha vida, eu tinha certeza.
Eu amava a Bella. Amei-a desde o segundo que pus os olhos dela, e a amaria até o meu coração parar de bater.
–Obrigada, Tanya – agradeci, em um momento de emoção verdadeira.
Abri os braços e Tanya correu para mim, abraçando-me por este momento de redenção tanto meu quanto dela. Eu estava mostrando que a perdoava, mas principalmente estava deixando-a ir. Mostrando a mim, não a ela, que a dona do meu coração sempre seria a Bella.
A minha Bella...
...Foi um choque abrir os olhos e vê-la diante de mim, com olhos que pareciam tanto chocados quanto magoados. Enquanto meus olhos abriam-se tanto quanto os dela, soube o que ela estava vendo. Quase pude a ver encaixando as coisas: uma mulher nos meus braços, a bebida, o sorriso que eu carregava – pensando nela, aliás. Tudo a levou a uma conclusão.
O pânico me atingiu quando percebi que ela estava vendo muita coisa desimportante e ignorando a mais importante.
Deus, eu a amava!
Bella balançou a cabeça e quando senti a pontada diretamente no meu coração, percebi que ela estava chorando.
Ela virou-se rapidamente, dando-me as costas, e correu para fora do estabelecimento. Para longe de mim.
“Nobody’s ever gonna love me like she loved me. And she loved me, she loved me. God please, just let her know. I’m sorry. I’m sorry. I’m sorry. I’m sorry. Baby, yeah, I’m down on my knees….
….She’s never coming back to me”
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