Dealdready

1 Capítulo 1


— Voltamos com mais informações sobre os ataques que tiveram início no começo da tarde de hoje! A polícia e os bombeiros estão tomando medidas para conter o...

Eu já estava morto há muito tempo antes de tudo isso acontecer...

— No centro da cidade, grupos de cidadãos em um frenesi coletivo atacam uns aos outros e...

Casas, carros, poder, esposa, filhos... eu tinha tudo o que o dinheiro podia comprar.

— As instruções são para que todos permaneçam em suas residências e evitem contato com qualquer pessoa de fora...

Eu acreditava estar vivo.

— Aqueles que tiverem familiares ou amigos feridos devem mantê-los isolados e ligar imediatamente para a polícia. Repito...

Mas agora, me vendo no reflexo do vidro dessa vitrine, percebo o quanto fui idiota. Só agora, preso no meu próprio corpo, incapaz de conter-me, vejo que nunca estive realmente vivo. Se pelo menos essa fome passasse...

— Em breve todos serão evacuados para locais seguros. Até lá, mantenham-se a salvo em suas residências...

Ah, não! Não, não, não! De novo não! Não vá atrás dele! Não! Corra, droga... pare de segui-lo, por favor, pare! Não, estou alcançando ele... Droga, droga, DROGA!

— Não, cara, por favor, não faz isso. Olha... dinheiro! Eu te dou o quanto quiser se me deixar em paz! — a voz dele vacilava enquanto puxava um maço com várias notas de cem reais. Provavelmente roubadas de alguma loja próxima. Ele não deve ter mais que quinze, dezesseis anos... a idade que o meu filho mais velho tem... mas é tarde. Desculpa! Desculpa, por favor, me perdoe... eu não quero, mas... — Não, não, não, espera! Ah... — Sinto muito... — Ah, solta, por favor, ta arrancando! Socorro, alguém, por favor! Aaah... Aaaaaaah... AAAAAAAAAAAAAAAH! — Mas não posso mais conter minha fome.

DEALDREADY

Capítulo único: De volta aonde sempre estive.

— Ah, caralho! Como que tu erra na cara do gol, que merda! E esse bosta desse técnico que não manda esse cara pro banco, puta que pariu! Hey, Julia, me traz outra cerveja aí que a minha acabou.

— Mas pai, a mamãe disse que...

— Não quero saber, vai logo que eu tô mandando!

— Tá bom, pai...

— Julia, vá pro seu quarto que eu quero conversar com seu pai... Alberto, acho que eu já falei que não quero nem a Julia nem o Pedro perto de bebida. Não quero que eles fiquem como você.

— E qual o problema comigo, Carla? Você tem algum problema comigo? Se tem, pode ir embora, vou ficar mais do que feliz em ter essa casa enorme só pra mim, sem você no meu pé me enchendo o saco o tempo todo.

— Você sabe que eu só não vou por causa das crianças e...

— As crianças porra nenhuma! Você não vai porque não quer perder a mordomia, não quer ficar sem os cartões de crédito, os carros, a casa, as jóias. Aposto que se arrependeu muito de ter aceitado casar com separação de bens, né?! Você só tá comigo pelo dinheiro e eu só tô contigo pelo seu belo traseiro. Você é só uma puta, e putas deviam calar a boca e cuidar da janta.

— Desgraçado... eu não quero as crianças perto de bebida. Você quer se matar de tanto beber, ótimo, mas deixe meus filhos fora disso!

— Ah, vai encher o sa... Ai, caralho! Que porra foi isso?

— O que foi agora, Alberto?

— Alguma coisa mordeu meu pé... acho que foi um rato.

— Bêbado babaca, agora tá imaginando coisas... vou cuidar das minhas coisas que eu ganho mais.

— Hey, pera aí! Pelo menos traz um curativo aqui, caramba. Tá sangrando essa droga...

— Tá aqui sua cerveja, pega e não me enche mais o saco.

— Opa, opa, não joga, caramba! Podia ter quebrado. Hey, e o curativo? Carla? Ah, que se dane, tenho essa belezinha aqui, já basta. Já tá me dando sono... assim que terminar o jogo vou pra cama...

****

— Alberto? Alberto, você tá acordado?

— Oi? Ai, minha cabeça, caralho... O que houve? Onde a gente tá?

— No hospital. Você apagou no sofá, ficou com febre, pálido... as crianças ficaram em casa com a babá.

— E o que aconteceu comigo?

— Sei lá, o médico disse que provavelmente é reação pela bebida. Eu disse que você tinha bebido bastante de noite. Ele falou que você vai ter alta ainda hoje, só vai passar uns remédios.

— Eu sempre bebo e nunca acontece nada. Aposto que foi por causa daquele rato. Ele pelo menos fez um exame de sangue?

— Não sei, mas sei que não tinha rato nenhum, você só tava bêbado, como sempre... Olha, acho que é o médico pra te dar alta. Espero que seja, odeio hospitais...

****

— Carla! Porra, Carla, minha cabeça tá doendo demais... tem alguma coisa errada, eu tô falando...

— Não, Alberto, não tem. Não é a primeira vez que você fica assim... toma sua sopa e vá dormir, daqui a pouco você tá melhor. Vou pegar outro pano úmido, já volto...

— Mas nunca doeu tanto assim, essa dor tá me matando... Carla... Carla, volta aqui! Vadia...

— Aqui, Alberto, deixa eu trocar o pan... ah, já dormiu. Ótimo, não tava mais aguentando esse mala me enchendo o saco. As crianças tão dormindo, o mala também... acho que é uma boa oportunidade pra testar meu vibrador novo lá no sofá da sala!

****

Carla? Carla? Caramba, que fome... mas pelo menos a dor de cabeça passou... Carla? Melhor ir atrás dela... que estranho, não tô sentindo meu corpo... Bem, pelo jeito ela tava certa, deve ser efeito da bebida mesmo. Ah, tá aí... Hey, Carla, acorda, tô com fome. Carla? Carla? Ai, pera, não tô conseguindo parar, pera...

— Ah! Quem? Alberto? Porra, porque tu me acordou? Não é hora pra isso, você tá doente, sai... não quero agora, me deixa, seu tarado, vá dormir! Para, Alberto... ai, meu braço, não morde... ai, Alberto... Alberto? Alberto, para, tá me machucando, porra!

Que droga é essa? Carla, não sou eu, não sei o que tá acontecendo. Calma, eu tô tentando parar, mas não consigo! Que droga. Droga, para! Por que eu não consigo parar, caralho?

— Alberto, para! ALBERTO! Porra, tu quase arrancou um pedaço do meu braço, que merda deu em você? Ficou doido? Sai, não vem pra perto de mim, idiota! Droga, meu braço tá sangrando...

Carla, me escuta! Eu tô dizendo que não sou eu. Não sei o que tá acontecendo. Não consigo parar, tem alguma coisa errada comigo.

— Eu tô dizendo pra ficar longe, seu estúpido. Hey, sai! Ah, seu doido, sai!

Mas que merda... eu já disse que não sei o que tá acontecendo. Hey, espera, chama um médico, alguém, logo! Espera, abre a porta, Carla, me ajuda!

— Para de bater nessa porra dessa porta, eu não vou abrir, volte pra cama. Amanhã eu vou na polícia, você tá ferrado dessa vez, seu filho da puta. Ah... droga, tá doendo...

— Mãe? Pai? O que houve?

— Pedro, volta pro seu quarto!

Pedro, apaga essa luz e vá pro seu quarto, agora, garoto! Droga, já disse pra não ficar se metendo.

— Pai? O que houve? O senhor tá estranho...

Pedro, vá pro quarto, agora!

— Pai? O que foi? O que o senhor quer? Mãe?

— Pedro! Eu tô falando pra você voltar pro quarto. Hey, se afasta dele, Alberto, não quero você perto das crianças! Vem, filho, vou levar você de volta pro quarto. Não vem atrás, Alberto, sai!

Não precisa me empurrar assim, eu já disse, não sei o que tá acontecendo, droga! Parece que tô falando com uma pedra!

— Sai, porra, deixa eu fechar a porta! Sai, tira a mão daqui, deixa eu fechar se não vou te machucar, Alberto! Ah... Droga, você me derrubou, idiota!

— Pai, para! Você tá machucando ela!

— Pai?

Julia? Julia, amor, por favor, avisa pra mamãe que ela não precisa ter medo. Pede pra ela chamar um médico pro papai.

— Pai, eu ouvi a mamãe gritando, o que houve?

Nada, amor, papai só não tá se sentindo bem...

— Pai? Pai? O que foi? O que o senhor que... ai! Pai, tá me machucando!

Mas que porra é essa? Por que eu tô mordendo ela? Droga, não consigo parar.

— Julia? Julia! Solta ela, filho da puta, sai! Você tá doido! Vem, Julia, Pedro... vou ligar pra polícia, seu babaca!

Julia, desculpa, eu não sei o que deu em mim! Carla, espera, eu tô falando, não sei o que tá acontecendo. Me ouve, droga!

— Alberto, sai daqui agora! Eu vou ficar com as crianças na cozinha até a polícia chegar, quero você longe da gente. Para de me seguir! Deixa a gente em paz, Alberto!

— Mamãe, o que tá acontecendo com o pai?

— Nada, querida. Vocês dois, vão lá pra perto do armário e fiquem lá quietinhos, ok?! Olha, Alberto, eu não quero te machucar, ok?! Então cai logo fora daqui antes que eu faça uma besteira. Alberto, se afasta...

Carla, larga essa faca, eu tô dizendo que não é culpa minha. É só você chamar um médico e tudo vai se resolver, fica calma.

— Alberto, se afasta, agora, se não...

Carla! Não! Ah... ah... não... não me acertou? Eu achei que tinha...

— Alberto? Desculpa, eu não queria... você... Ah! Não, me solta! Ai, droga, solta meu ombro. Você vai arrancar, Alberto, para!

— Mãe!

— Pedro, não, a mamãe disse pra não brincar com a arma do papai.

— Eu sei o que eu tô fazendo, Julia, calma...

— Pedro, não... eu vou sair daqui... eu... eu...

— Julia, volta aqui! Droga... Pai, para com isso, agora, se não eu vou atirar em você!

Pedro, filho, espera, não...

— Alberto! Ah, meu ombro, você... você arrancou um pedaço do meu ombro... Alberto, para! PARA!

****

— Um incêndio ocorreu essa noite na casa de Alberto Ferreira Santos, diretor de filmes de sucesso como “Mil Noites sob o Sol” e “Contos de um passado esquecido”.

— Hey, olha que estranho aquele cara na esquina!

— Deve estar bêbado... bora dar uma zoada nele?!

— Hey, bebum, chega aí, cara, chega aí.

Não, esperem, fiquem longe, por favor!

— O corpo de bombeiros conseguiu apagar o incêndio. A casa ficava isolada, no meio de um grande terreno, não tendo afetado outras casas da região.

— Cê tem algum dinheiro aí contigo? Hã? Não sabe falar, perdeu a língua, mano? Bora, abre a boca, otário. Fala aí, cê tem grana aí contigo? Hey, que é isso, vai querer me beijar, cara? Cai fora. Hey, se afasta... hey, que porra é essa? Ele tá me mordendo!

— Hey, mané, solta ele!

Saiam, saiam de perto de mim!

— No interior da residência a polícia encontrou o corpo carbonizado de uma criança pequena, que acreditam ser a filha de Alberto, Julia Marie da Silva Ferreira, de seis anos.

— Mas que... minha mão! O filho da puta mordeu minha mão também!

— Babaca, toma isso, otário!

— Cara... parece que ele nem sentiu a facada... mano, vou sair daqui antes que ele me morda também.

Chamem um médico, por favor! Droga, o que tá acontecendo comigo? Carla... Julia... Pedro...

— Alberto, sua esposa, Carla da Silva Ferreira, e seu filho, Pedro da Silva Ferreira, não foram encontrados no local. Quem tiver informação sobre seus paradeiros deve ligar para a polícia no número 190. A perícia afirma que a causa do incêndio foi a explosão de um botijão de gás. A causa da explosão ainda será averiguada. Em seguida, rapaz morre após ser mordido por bêbado na rua essa noite. Um amigo da vítima, que também foi mordido, se encontra em estado grave. A polícia está à procura do culp...

— Aquele garoto se levantando não é o da televisão? O da casa que pegou fogo?

— Talvez... mas ele não tá parecendo muito bem. Melhor a gente ajudar...

Mãe? Mãe? Mãe, o que tá acontecendo, mãe? Pai? Eu não consigo sentir meu corpo... MÃE?

Notas finais
Bem, é isso, espero que tenham gostado e que deixem suas opiniões o/
Mais uma coisa, pra quem ainda não sacou o título da história:
Dealdready = Dead Already (Já Morto).
Obrigado pela atenção e até mais o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!