Deadhood
1 Capítulo 1, onde o mundo se perde em decadência
Notas iniciais
Este capítulo era pra ser um prólogo... Mas acabou ficando gigante. -q Por ser um capítulo introdutório não tem muito a ver com os rumos que a trama tomará. Se gostarem deste, duvido que não gostem do que acontecerá depois, /dica.
Poderia chamar aquilo de instinto, talvez. Aquela parte dela que se recusava a se entregar sem luta, que repudiava a idéia de uma morte fácil através do suicídio para conseguir se libertar. Ela pensava apenas em correr do perigo momentâneo até que pudesse parar e descansar; algo próximo de descanso, pelo menos. Até quando aquilo duraria? Ela não fazia a menor idéia, apenas correria até que se sentisse segura – até que aquele gemido horrível cessasse. Há três dias atrás a cidade de Tembaun, isolada no norte do Maine, fora vítima do ataque de um morto-vivo dentro do pequeno pronto-socorro local. A infecção se alastrara rapidamente e em 72 horas uma horda de pouco mais de cinqüenta zumbis andava trôpega pelas ruas atrás de carne fresca – a carne de Jull neste exato momento.
Naquele momento específico não passava pela sua cabeça que seu instinto de proteção e de fuga tivesse outro motivo especial: o de proteger uma cria. Apenas uma mãe teria aquela ânsia pela própria proteção, por que sabia que sua proteção significava a proteção de alguém a mais. Alguém que talvez nunca fosse se importar com este sacrifício e talvez fosse jogar a própria vida no lixo, mas ainda sim alguém por quem ela daria a vida.
Jullianne Restridge estava grávida.
Afinal e com toda a sorte que não acreditava que possuía, Jull havia conseguido sair da cidade. Tinha que agradecer aos perenes Estados Unidos da América pelas várias lojas de conveniência e ocasionais lojas de armas, mas finalmente ela se encontrava sozinha em um raio de alguns quilômetros. Desde que tudo aquilo acontecera havia-se passado uma semana, e ela agradecia a toda a literatura supostamente ‘inútil’ que havia a ajudado a sobreviver seguindo algumas regras básicas: Atire sempre na cabeça deles; Esteja sempre longe deles; Esteja sempre a favor do vento e adiante deles; Esteja sempre preparado para atirar na própria cabeça. Claro, sempre havia a sorte. Sorte de conseguir atirar na cabeça até que o costume e habilidade se instalassem, sorte de eles tropeçarem e caírem antes de agarrá-la pelos cabelos, sorte de pisarem ou chutarem algum metal que a acordasse quando estavam muito perto.
Estava armada com uma Magnum Night Hawk .50, e uma Colt .45, não que soubesse realmente o que isso significava – escolhera rapidamente as maiores pistolas da loja de armas vazia que conseguira arrombar e se esconder por algumas horas. As armas estavam seguras dentro de coldres destravados que pendiam nos dois lados de sua cintura fina. Na mesma loja de armas ela conseguira uma mala de couro com o fecho simples de puxar o cordão e amarrar para fechar. Ela estava completa com as três coisas que considerara mais importante para sobrevivência: barras de cereal altamente calóricas – muitas delas, umas 100 ela imaginava – cinco garrafas de água, tanto dentro como fora da mala, acomodadas em compartimentos cilíndricos com elásticos e para completar, vários pentes próprios para suas pistolas – havia consultado um pequeno manual para as especificações. Tinha também um pequeno kit para limpeza das armas que não fazia idéia se chegaria a usar: um carro parecia mais simples para ela que aquelas engenhocas e para completar um kit de primeiros socorros que ela também não tinha pretensão de usar.
Achava-se cômica: parecia uma figura de filme naquele momento (não que todo o horror por que estava passando não fosse história de filme), roupas de baixo confortáveis, uma saia preta de um tecido que não fazia idéia do nome mas conseguia se movimentar sem quase se mexer e não sentia tanto frio assim durante a note, uma camisa branca dos com o nome dos Beatles em preto se destacando e uma jaqueta de couro também preta. Calçava um par de All Star do modelo clássico. Com aquela mochila gigantesca para seu tamanho moderado e pistolas de alto calibre, era uma versão contemporânea e de 17 anos da Lara Croft, eterna musa dos games que até ela conhecia de rumores. Seus cabelos eram lisos e espichados, cortados na franja e tingidos de preto e seu olhos azuis claríssimos. Tinha também algumas sardas na bochecha, que lhe conferiam um ar enganosamente inocente. Mais tarde ela chegou a conclusão de que seu estilo firme e resoluto também a haviam ajudado a sobreviver. Graças a ter nojo de patricinhas que não conseguiam correr por mais de trinta segundos sem ofegar – de salto, logicamente – havia tentado ser diferente e desenvolvido um temperamento duro e intransigente. Seu amor pelo rock contemporâneo ou clássico era apenas um detalhe.
Devia procurar sobreviventes em outras cidades? Não sabia ainda. Enquanto andava, pensava no que exatamente deveria se focar em fazer. Tinha um mapa da região no bolso e seu Iphone ainda conseguia se conectar na internet caso precisasse do serviço de GPS: o problema era a bateria que estava acabando e ela logicamente não havia lembrado de apanhar o carregador apropriado. Precisava ir andando até outra cidade próxima para se abastecer com mais provisões e talvez achar alguém com quem pudesse viajar, alguém que tivesse um carro, de preferência. O comercio de beira de estrada era freqüente e graças a isso suas provisões não ficaram desfalcadas até que chegou em uma pequena cidade localizada há aproximadamente cem quilômetros de Tembaun chamada Normville. Esta era ainda menor do que a outra, composta de casinhas de cerca branca e alguns prédios públicos além de pequenas fazendas familiares de criação pecuarista e uma estação de esqui abandonada. Porém, naquele exato instante não se via ninguém nas casinhas de cerca branca e os prédios públicos estavam escancarados, jogados ao vento e a papéis.
Com a Magnum destravada e nas duas mãos, Jull entrou em uma pequena venda para repor suas provisões e procurou por algum tempo por uma loja de armas para mais munição, sem encontrar alguma. Parecia que em cidades realmente pequenas, chefes de família não precisavam bancar o Chuck Norris perante a sociedade.
Sem outras opções ela entra com passos vacilantes no pequeno posto policial no centro da cidade, junto com todos os outros prédios públicos. Achou uma escopeta e um rifle de caça descarregado perto da mesa onde deveria estar o xerife perto da porta. Foi quando passou pelo umbral da porta atrás desta mesa que ela sentiu o cheiro de carne podre e ouviu os gemidos. Pé ante pé ela atravessou um pequeno corredor até o aposento com as pequenas celas onde eram deixados os criminosos até serem transferidos após os breves julgamentos no fórum da cidade para penitenciárias estaduais. Abriu a porta no fim do corredor e achou os dois. O primeiro estava caído em um canto sem a perna e o braço direitos, o xerife. Estava se arrastando no chão em direção à porta aberta pela jovem. O segundo estava dentro da cela, ainda com o que restava do braço do policial em uma das mãos, comprimindo o corpo nas barras e com o outro braço esticado, os dedos se movendo procurando por carne viva. Como sempre, ela colocou os óculos e subiu o cachecol até o nariz, e então atirou sem mirar direito mas explodindo as cabeças, primeiro do xerife e depois do prisioneiro por causa do alto calibre da pistola. O barulho foi amplificado por causa da acústica do recinto e os ouvidos ficaram zunindo até bem depois de ela ter saído da delegacia. Precisava se apressar para encontrar um carregador para seu Iphone e uma chave de um carro nas casas mais vistosas. Depois dos tiros não podia esperar ficar sem companhia por muito tempo.
Seguindo a trilha de casas largas com grandes gramados verdes bem cuidados, ela chegou ao lugar que julgava ser a zona nobre da pequena cidade. Sorteou uma das casas e entrou pela porta aberta nos fundos da garagem escancarada que deu em uma grande cozinha. Não haviam carros na garagem, mas esperava ter sorte ao menos com o carregador. Subiu ao segundo andar procurando um quarto que pudesse pertencer a adolescentes. Teve sorte logo no primeiro quarto que parecia pertencer a um garoto meio rebelde, com pôsteres de bandas punk cobrindo as paredes. O Iphone estava conectado a um carregador no criado-mudo ao lado da cama e este na parede. Por garantia, ela pegou ambos e saiu às pressas da casa – por mais que soubesse que aquelas pessoas nunca iriam se importar com sua pequena visita, não gostava de ter uma invasão em sua consciência.
Na maior parte das casas as garagens estavam vazias, mostrando a fuga em massa da cidade em direção a centros populacionais maiores. Depois de andar por várias quadras, ela finalmente encontrou uma que estava com a garagem fechada – por mais que isso pudesse representar apenas que as pessoas tiverem a consciência de fechá-la antes de sair, era sua melhor chance. Entrou facilmente dentro da casa através de uma janela quebrada e foi diretamente aos fundos procurando uma porta que ligasse um dos cômodos à garagem. Chegando à cozinha, passou para o próximo cômodo conjugado – uma lavanderia – e depois para a garagem, onde, para sua alegria encontrou um Range Rover brilhante na penumbra. Verificou que as chaves não estavam na ignição e se colocou a procurar as chaves pela cozinha, indo depois à sala. Um pensamento não lhe saía da cabeça: Apesar da garagem ter espaço para dois carros, qual seria a lógica de sair com algo compacto e deixar o carro de viagem para trás? O pânico? Afastou logo o pensamento da sua cabeça e começou a revirar as gavetas dos pequenos armários da sala. Relutante Jull avançou para a escada subindo ao andar superior e entrando no quarto que julgou ser do casal. No segundo criado mudo ao lado da grande cama ela encontrou chaves de automóvel presas à uma molho. Rapidamente, desceu para o térreo atravessando a sala na direção da janela pela qual havia entrado, ainda precisava achar um condutor para o carro, quando escutou o ruído.
Não era o gemido que identificava os mortos-vivos, mas chamou-a atenção pelo silencio que reinava até agora. Lembrava mais unhas arranhando a madeira, e se repetiu alguns segundos depois.
- Tem alguém aí? — Jull deixou a pergunta no ar e depois de mais alguns segundos de silêncio, se virou para sair da casa de uma vez por todas.
Dessa vez o ruído não parou. E agora ela realmente achava que eram barulhos de unhas arranhando madeira, e se repetiam um sobre o outro, indicando que poderiam ser duas mãos. Depois de algum tempo batidas também se juntaram, fazendo com que ela empunhasse a Magnum suando frio. Ouvindo atentamente, ela seguiu a origem do som até uma porta meio escondida na lavanderia entre duas máquinas de inox. Lentamente, ela colocou a mão na maçaneta e girou. Trancada. Ela apanhou o molho de chaves dentro da jaqueta e o apertou até que os nós dos dedos se tornassem brancos. Decididamente retirou o molho do bolso e escolheu a menor chave, que parecia se encaixar na trinca. Entrou perfeitamente e ela girou, produzindo um ‘clic’. As arranhadas cessaram, e agora apenas batidas balançavam a porta, ameaçando derruba-la caso não fosse aberta logo. Jull prendeu a respiração e girou rapidamente a maçaneta.
O zumbi com uma grande mordida na garganta parecia estar se preparando para bater mais uma vez, por que caiu para frente no momento em que a porta abriu, por um segundo não acabando no meio das roupas da garota que por reflexos deu um pulo para trás e apertou o gatilho acertando-o diretamente na cabeça, manchando o piso branco com sangue e alguns fragmentos indefinidos de massa cerebral.
- Monstros no armário. Ótimo. – Ela suspirou passando por cima do corpo imóvel e colocou a cabeça adentro, aspirando o cheiro de putrefação misturada e enxofre. Tateando a parede no lado de dentro da porta ela encontrou um interruptor, que acendeu uma lâmpada fluorescente no teto do espaçoso porão da casa. Diversas prateleiras se distribuíam pelas paredes, e no canto extremo estava a caldeira desativada.
- Você o matou? – A voz masculina veio de baixo dela, que estremeceu.
- Filha da...! – Exclamou alto sem pensar – Quem diabos está aí? Onde está você?
- Aqui, em baixo da escada – Ele disse rindo – Meu nome é Paul. Paul Bramms. Não se preocupe, aquele era o único.
Descendo, Jull viu que embaixo das escadas havia mais um armário fechado com barras de ferro cruzadas a intervalos pequenos – possivelmente feito com alta resistência para guardar armas ou produtos tóxicos contra crianças e adolescentes endiabrados. O garoto que estava ali dentro não devia possuir mais de 18 anos, estava junto com uma grande quantidade de comida e água e uma espingarda de caça. Ela entendeu o porquê do cheiro forte de enxofre ao ver a pequena pá encostada em um canto mais afastado. Paul era um negro pálido – possivelmente estava preso há vários dias – vestido com pijamas. Seus olhos eram verdes extremamente claros, suas feições joviais formavam neste instante um sorriso fácil, como se estivesse apenas esperando que algo do tipo acontecesse.
- Mas o que raios é isso? – Ela perguntou espantada com a situação.
- Ora... Um preto enjaulado. Existe algo mais normal que isso?! – Ele gargalhou – Sério, me tire daqui. A chave deve estar em um molho lá no quarto de casal. – Ela retirou rapidamente o molho de chaves do bolso e depois de algumas tentativas abriu a jaula, libertando o garoto.
- Que diabos você fazia ali dentro? – Ela perguntou ainda sem acreditar na situação.
- Moça, eu sou muito agradecido por ter me libertado, mas mesmo que tente me colocar ali de novo, nada vai me impedir de tomar um banho e trocar de roupa agora. Depois eu te respondo o que quiser. – Ela prendeu a respiração e recuou levemente quando ele passou por ela, evitando o cheiro de fezes que irradiava. – Entendeu o porquê, certo?
Depois de alguns segundos tentando assimilar tudo, ela o acompanhou escada acima saindo do porão e chutando o cadáver de volta para o subsolo.
Quando Paul desceu as escadas pulando degrais ela estava na cozinha preparando qualquer coisa que não lembrasse as barras de cereal que tinha tido como refeição nos últimos dias. Várias vezes na última meia hora ela havia resistido à tentação de sair correndo daquela casa para se embrenhar em algum ponto perdido de uma floresta para passar a noite e continuar andando no dia seguinte, mas em solidariedade – Seja sincera Jull, curiosidade – ao garoto ela decidira arriscar a companhia. Havia ainda a chance de ele saber dirigir também, o que facilitaria muito as coisas.
Quando ele passou animado e sorrindo pela porta da cozinha ela não pode deixar de acompanha-lo com os olhos. Trajava uma calça Jeans rasgada nos joelhos, uma camisa preta da banda Misfists e por cima uma jaqueta jeans preta sem as mangas. Na cabeça uma bandana cheia de pequenas caveiras brancas. Ele trazia também uma grande mochila, que jogou em uma cadeira antes de sentar à mesa, já falando.
- Deixe-me adivinhar... Você vai dizer que tenho um bom gosto para bandas apesar de você não conhecer muito os Misfists, mas meu sentido para moda está atrasado mais ou menos trinta anos, certo? Meu pai costumava falar a mesma coisa, mas ter o próprio estilo é mais importante que estar na moda, acho. E aí, fez alguma coisa pra gente comer?
- Você fala bastante.
- E você bem pouco. Dá um desconto gata, eu to há uns três dias preso naquela gaiola conversando só com um desconhecido que gemia e queria me comer. No sentido literal claro. Cara que bosta, eu acabei de sobreviver ao inferno e to maliciando minhas próprias frases na frente de uma garota branca...
- Meu. Deus. Você fala demais. – Ela colocou bruscamente a tijela com frutas mergulhadas em suco de laranja – Salada de frutas, pare de falar, por favor. – Ele sorriu assentindo e começou a comer com vontade.
- Ta bem, agora você responde o que eu perguntar da forma mais sucinta possível. Você mora aqui?
- Bem morava, to saindo fora hoje à noite contigo.
- Legal. Bom saber que tomamos este tipo de decisão em conjunto. – Ironia – Próxima... Quem era aquele zumbi?
- Não faço a menor idéia. Meu pai viajou fim de semana passado pro exterior, não deu mais notícias. Ele faz isso às vezes, teve uma vez que ficou um mês fora, mas acho que desta vez é por que não consegue entrar no país mesmo. Aquele cara entrou aqui algumas horas depois que a cidade foi evacuada. Como eu não dei muita importância ao aviso, fiquei por aqui escondido.
- Por que você não o matou? Era bem mais fácil.
- Ta brincando? Foi muita sorte eu ter estocado aquele monte de comida no abrigo pra caso os avisos fossem verdadeiros. Quando ele começou a esmurrar a porta do meu quarto gemendo que nem um demente eu só o empurrei e fui direto lá pra baixo. Só que tranquei o cadeado sem ter pego as chaves. Quando pensei em arriscar tudo e tentar matar o cara com pauladas já era tarde, a inda mais por que a espingarda tava sem munição. Fiquei só esperando morrer de algum jeito. Dizem que morrer de fome é mais fácil por que você só sente sono... Sei lá, só fiquei esperando, e você apareceu atirando no cara. Sério, eu acho que nunca me apaixonei tão rápido por uma garota! – Riu histericamente.
- Eu falei pra responder sucintamente. – Ela bufou – Pelo jeito você não quer ficar por aqui também. Você sabe dirigir aquele carro na garagem?
- Meu presente de aniversário há dois anos atrás. – Ele sorriu olhando para o próprio prato.
- Vamos ter que sair hoje à noite. Você tem barras de cereal aqui?
- Não, mas...
- Tem uma venda no centro da cidade que arrombei, eles tem um monte. A gente passa lá no caminho. Acho que você já arrumou as coisas, certo?
- Sim senhora. Tem a minha espingarda de caça lá no porão, eu vou pegar e a gente sai correndo daqui. – Ele deu a última colherada no pote, bebendo os resíduos e arrancando uma pequena risada simpática de Jull.
- Pegue o rifle rápido. Não esqueça o carregador e leve celular. – Ela falou levantando-se.
- Ok. Você está com o molho de chaves que tem a chave do carro, me espera lá na garagem.
Quando eles saíram pela garagem estava entardecendo, o céu estava mesclado entre o azul normal de agosto e o alaranjado do Sol poente. Eles entraram rapidamente na loja já arrombada por Jullianne, pegaram barras de cereal para encher o a mala de Paul e colocaram vários galões de água encontrados no depósito na mala do carro. Depois pegaram todo tipo de alimento nutritivo nos bancos de trás, em caixas de plástico resistente. Calcularam que se moderassem o consumo das barras e água teriam o suficiente para ficar algumas semanas longe da civilização, o que concordaram ser o melhor.
Depois de alguns meses eles descobriram graças à barriga que crescia arredondada que Jull estava grávida. Procuraram desesperadamente por um hospital em várias cidades do estado do Maine até a Pennsylvania, mas sem encontrar nem mesmo uma pessoa, sendo obrigados isso sim a matar vários necrófagos para sobreviver. Sem outra opção, adquiriram vários manuais de primeiros socorros e pré-natal. Para ambos a situação era ao mesmo tempo amortizante e engraçada: Um negro e uma grávida perambulando em um carro de luxo pelas cidades pequenas de um estado ruralizado do país mais influente do planeta. Os sinais de celular já não existiam há algumas semanas, estes servindo apenas para os mapas e acesso à internet. Quando Jull encontrava-se no quarto mês de gravidez, o sinal de televisão parou de ser transmitido. No quinto, o rádio parou de noticiar, passando apenas a chiados.
No sétimo mês Paul se declarou para ela, começaram a namorar algum tempo depois quando ela disse que o sentimento era recíproco. No nono mês nasceu Sean Restridge. Ele era uma criança rosada e loira de olhos claríssimos que lembrava a mãe. O parto não teve anestesia logicamente e foi bastante precário, mas graças às preparações que fizeram nos meses anteriores tudo correu bem. Paul amou a criança desde o início, achando o máximo o fato de ter ganho uma família na loteria, como gostava de comentar fazendo-a rir. Jull sentia-se aliviada. Depois dos vários meses finalmente a vida que levavam começou a lhe parecer normal. Ela notou que não importava o mundo caótico em que viviam, ela conseguiria amar seu ‘namorido’ – como se chamavam – e seu filho incondicionalmente. O relacionamento deles nunca se deteriorou, apenas se fortalecia a cada zumbi que encontravam perambulando nas ruas desertas.
Dois anos depois de Jullianne Restridge e Paul Bramms se conhecerem, quando Sean tinha pouco mais de um ano de idade, eles encontraram uma pequena colônia de sobreviventes em uma base militar subterrânea na divisa de New Hampshire com Massachusetts.
Foi quando voltaram a Tenbaun que avistaram a pessoa correndo para dentro de uma casa, seguida por um necrófago. Era uma mulher, estava desarmada e vista roupas surradas de viagem. Correram em seu socorro, matando o zumbi com facilidade. A mulher então lhes falou que pertencia a um grupo de busca avançada para pegar alimentos não-perecíveis para uma colônia de sobreviventes. Estava em missão com outras duas pessoas há mais de duas semanas, e naquele dia haviam sido surpreendidos por um grupo de mais ou menos dez mortos-vivos ao entrarem em um mini-mercado. Por infelicidade, eles haviam deixado as armas no carro. Os dois homens que a acompanhavam haviam sido devorados — a chave do carro com um deles – enquanto ela corria desesperadamente para um refúgio. Por azar, seu refúgio também estava ocupado por um zumbi.
Jull e Paul acompanharam a mulher até a colônia, e ao chegarem lá foram bem recebidos. Ao perguntarem do por que nunca terem captado nenhuma transferência no rádio de uma colônia, lhes responderam que não tinham problemas em acolher qualquer pessoa que os descobrisse, mas não podiam lidar com o risco de superpopularizar o abrigo.
A vida dentro da colônia era simples. Todos trabalhavam pela conservação do local – teto baixo, paredes grossas, coloração sóbria – e periodicamente eram mandadas equipes treinadas em busca de mantimentos que não possuíam em estoque como munições, gasolina e ás vezes sobreviventes que viajavam sozinhos. Porém o que mais os alegrou foi a vinda de Sean, uma criança recém nascida. Para eles era um símbolo de esperança que a vida humana ainda estivesse se renovando nos tempos da infecção sendo que, por motivos óbvios e nunca discutidos lá dentro, quase não haviam crianças e idosos no abrigo.
Ali começaram a ter conhecimento do que acontecera no mundo em geral, atentos à transmissões em um rádio de alta captação: Em menos de um ano uma infecção nunca antes conhecida que reanimava parcialmente os tecidos musculares e as partes mais primitivas do cérebro responsáveis pela alimentação contaminou setenta por cento da população mundial, tendo se iniciado com vários focos pequenos em várias cidades interioranas por todo o mundo. O curioso é que todos os focos parecem ter tido s eu início na mesma noite. A contaminação se dava pelo contato com a saliva de infectados, morte depois de duas horas da mordida e reanimação nos próximos cinco minutos.
De acordo com as informações que tinham, eram a única colônia naquela parte d o território nacional, o que assegurava os mantimentos por um bom tempo. Tinham o início de uma plantação de vegetais e um poço artesiano dentro dos grossos muros de concreto. Seu objetivo nos próximos meses era estocar o máximo de alimentos nutritivos para passarem o próximo inverno. Pelo fato de a base militar ficar escondida em uma floresta extremamente isolada, nunca antes um zumbi havia chego até ali, e a todos os que tinham a permissão de sair eram dadas instruções expressas quanto ao tempo que deviam ficar fora, para eliminar qualquer possibilidade de serem seguidos. De alguma forma, se sentiam seguros em algo que podiam chamar de lar, todos os refugiados formando uma gigantesca família.
Eles eram um dos poucos casais do lugar – o único com filhos – e os anos passaram lenta e morosamente. Paul resolveu que iria tentar aprender e estudar ao máximo para se tornar um dos poucos responsáveis pela saúde do lugar, enquanto Jull iria integrar o grupo responsável pelos trabalhos domésticos uma vez que seria a forma mais fácil de ser útil e supervisionar o bebê ao mesmo tempo. Quando estavam perto de completar seu primeiro ano no abrigo decidiram que seria bom ter outra criança e não tiveram oposição dos líderes, que acharam razoável dar uma sensação a mais de normalidade ao lugar. No aniversário de três anos de Sean, pouco mais de dois anos deles dentro da base, nasceu Aidam Bramms. A criança tinha a pele mulata e olhos verdes como os do pai. Depois da grande catástrofe que tornou a humanidade uma espécie em ameaça de extinção, finalmente eram felizes.
Notas finais
Eu amei escrever este capítulo. Em parte por amar zumbis e em parte por gostar de escrever algo em que posso mesclar minha própria realidade com o mundo real, foi uma das histórias em que mais me diverti escrevendo.
Não sei bem o que esta história virá a ser; pretendo continuá-la mas não faço idéia de como irá terminar. No próximo capítulo - que nem comecei a escrever ainda, qq - acontecerão os primeiros passos que definirão os rumos tomados por Sean e Aidam, os meio irmãos perdidos em um mundo desconhecido movido por profundas mudanças onde humanos são artigos de luxo!
Agradecimentos: George A. Romero, por ter inventado um dos monstros de terro psicológico que eu mais gosto! o/
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