Notas iniciais
Bom dia/boa tarde/boa noite, galerê. Seguinte: essa ilha fictícia, inventada por mim, tem seu próprio idioma, também inventado por mim. Portanto, terão coisas que vocês não entenderão, uma vez que é de um idioma feito por mim, mas as traduções estarão nas notas finais, sim? Eu não quero colocar no meio do capítulo pra não atrapalhar a leitura de vocês. Talvez futuramente eu faça um dicionário de kaorti (idioma local da ilha). Bem, aproveitem o capítulo!

Zack foi atender a visita inesperada, conforme ordenado por Z. Passou, mais uma vez, pelo túnel de entrada/saída, e no caminho ficou imaginando como aquela pessoa conseguiu passar pela neblina. Mesmo que estivesse seguindo eles, teria que manter uma distância segura para não ser percebida, logo, não daria para vê-los. Sempre foi um rapaz inteligente, mas aquilo ele não conseguia entender. Nem ele, nem Derek — desnecessário citar o Z — conseguiam enxergar no meio da neblina. Como aquela pessoa, seja lá quem fosse, poderia enxergar, então?

Chegou ao fim da passagem e guardou todos esses pensamentos para depois. Talvez Z pudesse explicar a ele, se perguntasse. A verdadeira pergunta, porém, no momento, era: como ele perguntaria? Um contato entre Z e Zack sempre foi difícil. Z é cego, Zack é mudo. Em geral, Derek agia como um pombo-correio para tal conversa funcionar normalmente. Era chato de se fazer, mas funcionava.

Ele abriu a “porta”, e então emergiu do lado de fora. Viu, naquele instante, que a visita era uma garota. Não era uma garota alta, e muito menos uma garota com um corpo curvilíneo, mas seu rosto era, certamente, bonito. Nada especial, mas bonito. Amigável e adorável. Nunca tinha visto ela antes, não fazia ideia de quem seria. Foi então que se lembrou do sorriso que Z soltou assim que pediu para que ele a buscasse. Aquilo, na mente do garoto loiro, só podia significar que o cego, sim, sabia quem era aquela garota. Por fim, apenas apontou a entrada pra ela, que pulou pra dentro logo em seguida.

Fizeram todo o caminho, até chegarem à sala. Derek teve uma reação parecida com a de Zack quando pôde visualizar a visita ali, em carne e osso. Porém, diferente do gorducho, ele não pensou na possibilidade de que Z já tivesse conhecido ela em algum momento de sua vida que, até agora, não tinha sido muito longa. Matematicamente, era mesmo improvável que ele tivesse alguma conexão com ela.

— Conversaremos depois, Milena. Primeiro, por favor, passe nesses malditos testes.

Derek se levantou e tirou sua jaqueta de couro clássica. Jogou-a na poltrona da esquerda, enquanto caminhava até onde a garota, Milena, estava. Surpreendentemente, apesar de ser o mais forte dos três e treinar sua força diariamente, seu físico aparentemente não era grande coisa. Era um físico de uma pessoa de 80 kg, talvez. E, por isso, a surpresa era ainda maior quando sua força era demonstrada.

— O primeiro teste — Z anunciou. — Sobreviva ao mais forte de nós três numa batalha mano-a-mano. Se achar que ele pegará leve, morrerá. Se achar que estou mentindo quando digo isso, morrerá. E, por fim, se não for boa o suficiente, morrerá. Boa sorte.

Enquanto Z falava, o mulato já estava se preparando para a luta. Forçou ao máximo seu punho, concentrando forças no mesmo. Chegou a concentrar tanto que suas próprias unhas rasgaram sua pele, derrubando algumas gotas de sangue no chão. E foi nesse momento que ele atacou, mirando exatamente no rosto da adversária. Ela desviou para seu lado esquerdo e então saltou em giratória com sua perna direita pronta para acertar o rosto de Derek. Este, porém, não permitiu que isso acontecesse. Levantou seu braço direito, colocando-o na frente do chute. O choque não causou dano a nenhum dos dois. Ambos se afastaram, preparando-se para o próximo golpe.

Dessa vez, foi ela quem partiu pra cima. Derek percebeu o objetivo dela quando a viu correndo diretamente na sua direção, e ficou parado. Não importa o quão perto ela estivesse, ele sabia que não seria atacado assim, de primeira. E estava certo. No último momento, ela virou seu corpo, a fim de contornar Derek e atacá-lo por trás. A intenção dela, porém, era que ele tentasse a atacar de frente, o que o deixaria vulnerável. Mas ele entendeu a estratégia dela e, antes que ela pudesse contorná-lo, o moreno agarrou-a por um de seus braços, puxou-a na sua direção e ergueu seu joelho na altura do estômago da mesma, acertando-a com uma força esmagadora.

Naquele momento, não teve como ela escapar do dano. Ainda assim, quando ele a soltou, Milena conseguiu manter-se em pé, embora com grandes dificuldades respiratórias e tossindo um pouco de sangue. Derek ficou surpreso, e não teve tempo para pensar em voltar a atacá-la antes que ela se recuperasse do ataque. Eles estavam prontos para continuar a batalha se não fosse a interrupção de Z.

— Por que parar agora, Z? A luta ainda não chegou ao fim — Derek contestou.

— Você venceu a luta, Derek. Porém, o teste dela não era vencer uma luta contra você, e sim sobreviver a ela. Ficou bem claro para mim, depois daquele ataque, que ela é capaz de sobreviver. Não temos mais motivos em continuar com essa luta. Vamos para o próximo teste.

Agora foi a vez de Zack se levantar. Ele, porém, não tirou nenhuma peça de roupa, nem mesmo foi em direção a Milena. Ele se dirigiu ao lado oposto dela, para o canto da sala, onde tinha uma mesa de xadrez, com o jogo pronto para ser jogado. A parte de cima da mesa, onde se apoia as coisas, era de vidro. O resto, porém, não dava pra ter certeza do material. Sabia-se, contudo, que era na cor dourada. As duas poltronas, uma de cada lado da mesa, eram vermelhas. Um vermelho vinho que combinava bastante com o tom mais escuro da sala e com o dourado da mesa.

— Não basta ser resistente. Para se juntar a nós, você precisa ser inteligente, caso contrário será inútil. Não queremos inúteis. Precisa ser capaz de formar boas estratégias em um curto período de tempo, ou perderá sua vida. O xadrez é a melhor forma de demonstrar do que você é capaz nesse quesito. Porém, nós temos duas regras especiais. Primeiro, você tem apenas 10 segundos para fazer a sua jogada. Se não fizer nesse tempo, perde o jogo. E segundo, mais uma vez, você não precisa ganhar. Precisa sobreviver. Cinco minutos. Boa sorte.

E os cinco minutos passaram-se rapidamente. A concentração, tanto do lado do Zack quanto do lado de Milena, era tão grande que eles nem perceberam quando o tempo acabou. O entretenimento estava tão bom para os dois que estavam assistindo que eles decidiram deixar o jogo fluir até seu fim. E, depois de 13 minutos de boas jogadas, Zack deu o xeque-mate. Milena não foi capaz de vencer ele também, mas foi capaz de sobreviver os 5 minutos precisos.

— Você fez muito bem por enquanto — Z estava, de fato, satisfeito quando disse isso. — Você é fisicamente resistente, e consegue pensar em formas de sair de situações ruins rapidamente. Mas numa batalha como a que presenciaremos muito em breve, isso não é suficiente. Seus inimigos não usarão apenas da força e da inteligência. Se for possível, eles usarão seu psicológico contra você mesma. Então, vamos ao terceiro e último teste. Você terá que sobreviver à Pramasia Nyrus.

[Nota: Pramasia Nyrus é um “ataque especial” do Z. Basicamente, ele cobre toda uma sala com uma espécie de fumaça negra, e dentro dela ele manipula seus adversários da maneira que quiser, dependendo da força do mesmo.]

— Esse é um teste diferente dos outros dois, porém. Você não terá somente que sobreviver, também terá que vencê-la. Seu psicológico estará o tempo inteiro sendo usado contra você, através de memórias ruins ou coisas do tipo. Seu objetivo é não enlouquecer e tentar ignorar tudo isso. Se você conseguir ignorar, você vence. Mais uma vez, boa sorte. Nesse você vai precisar.

Eles a colocaram dentro de uma sala, trancada, e então Z ativou seu “especial”. É claro que, antes de simplesmente jogarem ela lá, foi explicado exatamente como a Pramasia Nyrus funciona. Caso contrário, ela não entenderia nada e acharia que tudo aquilo que estava acontecendo era verdade. De qualquer forma, aquele era o teste mais difícil dentre os três. Principalmente porque Z já a conhecia, então sabia o que a atormentaria mais. Seria cruel.

O sol já estava se pondo quando, pela primeira vez, ela passou mais de 10 segundos sem gritar qualquer tipo de coisa. Antes disso, eram gritos de todos os tipos: de terror, de medo, de tristeza, de ódio. Era, de fato, um teste cruel para qualquer um que fosse submetido a ele, mas, na visão de Z, necessário. Ele queria ter certeza de que seus companheiros fossem capazes de sobreviver a todo o desastre que estava para acontecer. Queria ter certeza de que eles não seriam inúteis e mortos na primeira batalha que aparecesse.

Quando eles abriram a porta, Z já tinha desativado a tortura mental. Milena estava sentada, no canto da sala. Ela parecia extremamente cansada. Seus cabelos estavam totalmente desarrumados e ela estava ofegando, mas de alguma forma, ainda parecia estar bem. Talvez porque, em geral, as pessoas acabam se matando com a tortura, e ela conseguiu sobreviver e vencer.

Depois de resgatarem ela, voltaram para a sala de estar. Z tornou a sentar-se na poltrona da direita. Zack colocou Milena sentada no sofá, do lado mais próximo de Z, enquanto ele sentou-se do lado mais distante do mesmo. O lugar central do sofá seria de Derek, mas antes disso ele foi buscar um copo d’água para a garota se acalmar. Não demorou muito para voltar, porém. A cozinha não era muito longe dali.

— Diga, Milena — Derek estava curioso. — Como foi que você conseguiu chegar até aqui? Todos sabem da densa neblina, é impossível enxergar em meio a ela.

— Para mim nada é impossível de enxergar. Eu sou a portadora dessa geração do Olho de Vipo. Vocês devem conhecer a lenda desse olho, não é? O olho que pode ver através de qualquer coisa, contanto que não seja 100% sólida. Por exemplo, uma bola é sólida, mas tem ar preenchendo-a, o que torna possível, para mim, ver através dela. Porém, essa estante na nossa frente é feita 100% de madeira. Eu não posso ver através dela. É assim que funciona.

— Ah, as coisas que o Z pode fazer são bem mais úteis, nesse caso. Ele provavelmente pode ouvir o que está acontecendo do lado de fora da mansão nesse exato momento. Mas você não pode ver o que está acontecendo lá.

— Sim, eu posso mesmo ouvir o que está acontecendo lá fora. E, devido às circunstâncias, parece que você terá um quarto teste, Milena. Temos dois inimigos logo aí fora. Vá lá e derrote-os para nós, sim? Lembre-se que eu estarei te observando daqui. É bom você começar me impressionando desde já.

Ela não respondeu verbalmente, mas o sorriso que deu foi a melhor resposta possível. Ele não exatamente viu a resposta, é claro, mas deu pra perceber o que ela tinha feito. E sabia perfeitamente que aquilo significava “você vai aprovar cada ato meu, sei disso”. Isso tornaria as coisas ainda mais interessantes. Derek e Zack, para poderem observar as habilidades da garota em uma batalha de verdade, subiram no telhado da mansão. Z, porém, não precisava daquilo, conseguiria “ver” tudo direto da sala, em sua poltrona.

— Se esconder nas árvores não vai ajudá-los a escapar. Eu espero que saibam disso — ela proferiu assim que fechou a passagem com a chapa de aço que sempre esteve ali.

Dois homens desceram das árvores. Deveriam ter entre 25 e 30 anos, e eram bem parecidos um com o outro. Cabelos castanhos, olhos castanhos. Um deles, porém, tinha uns dentes levemente tortos, e seus rostos tinham algumas diferenças bem óbvias. Não eram gêmeos, provavelmente, mas certamente eram irmãos. Ou seria uma grande coincidência o fato deles se parecerem.

— Oh, matéra, prasi istas.¹

— Ah, está pedindo ajuda pra mamãe. Olha só, que bonitinha, Kahn!

Ela abriu a palma de sua mão e mirou-a na direção do peito do homem que brincou com sua frase. Dali disparou uma pequena lança que, no caminho para matar o inimigo, cresceu a ponto de ficar maior que a própria dona. O homem, porém, ao perceber o ataque em sua direção, pulou para o lado, desviando. Levantou-se, limpando algumas partes de sua roupa que sujaram com a terra. Ele riu do erro de Milena. Mas ela, que antes tinha um rosto tão adorável e amigável, já não estava mais assim. Seu rosto estava sério e psicótico, como se estivesse pronta para matar alguém. O que, de fato, estava.

— Você deve gostar desse tal de Kahn, não é? — ela questionou. — Vocês me parecem ser do tipo de irmãos que brincavam juntos quando criança e não se separavam nunca. Então, como você riu de mim duas vezes, eu tirarei o que te é precioso primeiro.

Sem que eles percebessem, a lança voltou e atravessou o peito de Kahn, arrancando o coração do mesmo e mantendo-o preso na ponta. Voltou para a mão de Milena, que girou-a algumas vezes em sua mãos esquerda para se divertir, e então assumiu sua pose de luta. O corpo completamente reto, segurando a lança ao seu lado, com a mão direita, apoiando sua arma no chão. O seu inimigo ainda estava em estado de choque. Como aquilo era possível? A lança, por conta própria, matou seu irmão e foi voando até a garota. Era algo jamais visto por nenhum dos dois.

— Bem, eu te dei um tempo pra me atacar, mas se não vai fazer isso, eu faço por você. Z, prepara a churrasqueira, porque hoje de noite teremos espetinho de coração!

Ela arremessou a lança na direção do segundo homem, que ainda em choque não teve tempo suficiente de reação. O coração dele também ficou preso na ponta da lança, e novamente ela voltou para a mão da garota. Em alguns segundos, os corações foram evaporados, restando apenas o sangue dos mesmos. Logo em seguida, a lança também evaporou, deixando uma espécie de brilho azul no ar por alguns segundos.

Os dois que assistiam do telhado desceram para conversar com ela sobre o que tinha acontecido. A expressão facial dela tinha voltado a ser amigável e adorável, o que tornava seguro conversar tranquilamente. Ainda que eles fossem aliados a partir daquele momento, depois da psicopatia provada dela, os dois não tinham tanta segurança.

— O que foi aquilo de “mãe”, Milena? — Derek indagou.

— A alma da minha mãe está presa naquela lança — Milena respondeu, carinhosa como sempre seria com seus aliados. — Quando eu peço, ela vem me ajudar nas batalhas. Infelizmente, eu tenho que tomar cuidado com isso. A cada pessoa que ela mata, ela precisa absorver um coração.

— E se, no fim, não houver um coração para ela absorver? O que acontece? Ela não vai mais te ajudar? Que mãe revoltada, ela devia fazer você limpar a casa inteira quando ainda era viva.

— Sempre há um coração para ela absorver, Derek. Se não houver o do inimigo, ela tomará o meu no lugar. Se não houver nenhum dos dois, ela tomará o da pessoa mais próxima. É assim que as coisas funcionam. Não há justiça nesse mundo; e nunca houve. Se houvesse ela teria vivido o suficiente pra eu ter idade pra limpar a casa.

Notas finais
¹ Oh, mãe, conceda-me seu poder. Bem, é isso aí por hoje. Espero que todos tenham gostado do capítulo. Ah, não se esqueçam de me dizer se gostariam de um "dicionário" de kaorti, ou mesmo aulas sobre o idioma. Eu faria sem problema. É isso aí, até a próxima, fiquem todos bem.