Fazia frio naquela noite de sexta-feira. O vento forte soprava e ameaçava levantar a qualquer momento os vestidos das convidadas. Enquanto isso, os sinos da capela Santa Lúcia começavam a soar ritmados. Os carros estacionavam um a um nos locais reservados para os convidados do casamento. Os flashs de câmeras cortavam a escuridão que se instalava aos poucos com a noite que se seguia. Muitos sorrisos, abraços, caras de surpresa e manifestações emocionais vindas dos convidados para com o noivo e seus pais. Como em todo casamento que Rebecca já presenciou, tudo era sempre milimetricamente pensado. A decoração, a música, as roupas das madrinhas e dos padrinhos, o tapete vermelho estendido no chão da capela, as flores. Cada detalhe que não poderia passar despercebido.

As convidadas que Rebecca visualizou enquanto saia do carro e se dirigia para a entrada da capela estavam vestidas impecavelmente. Ela até mesmo cogitou a ideia de retornar ao carro e voltar para casa por achar que seu vestido não estava condizente com o casamento. Era um vestido simples, de cor azul celeste, sem detalhes extravagantes. Apenas algumas pedrarias ornamentavam o busto, enquanto o detalhe de saia caia perfeitamente em sua silhueta nem tão fina, mas nem tão grossa. Os cabelos negros e lisos de Rebecca receberam apenas um pouco de volume, permanecendo soltos.

A capela não era tão pequena quanto ela imaginava. Caberia facilmente mais de duzentas pessoas ali dentro. “Vai ser algo só para os mais próximos” relembrou ela da mensagem que Diego havia lhe enviado quando ela perguntou sobre o casamento e a festa. Entretanto ela imaginou que, se tratando de Diego, o maior exibicionista dos tempos de ensino médio, não seria algo só para os mais próximos. Desde que ele começou a namorar a filha do próprio chefe, todas as redes sociais passaram a servir como uma janela aberta para a sua vida. Mesmo sem querer saber, Rebecca sabia o que os dois almoçavam, jantavam e até mesmo a hora que os dois iam dormir. Ela detestava esse tipo de exibição gratuita, mas engolia por reconhecer todos os grandes esforços de Diego em relação a sua amizade.

Enquanto Rebecca se dirigia para o seu lugar dentro da capela, topou com alguns conhecidos. Distribuiu a todos eles um sorriso simpático acompanhado de um gesto com a mão e a cabeça. Sentou-se na quarta fileira próxima ao altar, checou as horas e suspirou um tanto quanto impaciente. Olhou ao redor e não viu ninguém a quem recorrer para uma conversa banal. Não demorou muito para que Diego viesse até ela com um sorriso de uma ponta a outra do rosto, braços abertos e olhos brilhantes.

— Rebecca! – exclamou ele, enquanto Rebecca subitamente levantava-se do banco para abraça-lo. – estou feliz em vê-la novamente. Fico grato que você tenha vindo, de verdade.

— Eu não perderia esse casamento por nada. – disse ela soltando-se aos poucos do abraço. – Você está um belo noivo. Gabriela é uma moça de sorte.

— Ela é sim. – afirmou ele sarcasticamente. – Bom, eu preciso ir para o altar agora, ainda tenho muitos convidados para recepcionar por ali, muitos apertos de mão e tapinhas nas costas para receber, você sabe... – ele fez uma pausa e olhou ao redor como se procurasse alguém – Bom, não fique aí sozinha. Sente-se ali perto da minha irmã, se você quiser. – ele apontou para uma moça sentada na segunda fileira próxima ao altar, de vestido verde.

Rebecca olhou para a moça, sorriu categoricamente para Diego e respondeu:

— Não, obrigada... eu prefiro ficar aqui mesmo. Tenho certeza que logo outras pessoas chegarão.

— Tudo bem então. Fique à vontade. – ele sorriu e se afastou, retornando para o altar.

Algum tempo depois a capela começou a lotar. O noivo já se angustiava em pé no altar, esfregando as mãos uma na outra. O pai da noiva se dirigia para a porta da capela. Seu semblante não esboçava muita emoção, apenas um ar de preocupação que Rebecca conhecia bem, pois esboçava quase que espontaneamente. Ela sabia que o namoro de Diego e Gabriela soava como um golpe para o então empresário George. Mesmo depois de sete anos de namoro, para ele, Diego era apenas um aproveitador, tentando ganhar a vida às custas de sua filha. E parecia que nem mesmo o casamento seria capaz de fazê-lo superar essa crença.

O sino badalou mais forte. Todos dentro da capela se levantaram. Era o sinal de que a noiva finalmente chegara. A música finalmente começou a tocar, fazendo os convidados darem aquele clássico suspiro de alivio. Rebecca dirigiu seu olhar para a entrada da capela, mas algo a chamou atenção. Não era algo, era alguém. Alguém em pé, na fileira de cadeiras do lado oposto da capela. Ele estava com seu terno e gravata impecáveis. Ele encarava a noiva que começara a entrar, e por isso, Rebecca achou melhor evitar maiores contatos visuais. Mas foi inevitável. Ao passo que a noiva adentrou a capela com seu deslumbrante vestido e seu pai magnata ao lado, Lucas a viu. Encarou Rebecca como se não pudesse acreditar que realmente a estava vendo. Foi um choque para os dois.

A música parou. Os convidados sentaram quase que sincronizadamente. Rebecca virou-se para frente e sentou-se. Passou a cerimônia inteira com a garganta seca, os lábios rígidos e uma vontade permanente de chorar e sair daquele lugar.

Lucas não sabia ao certo o que estava sentindo, mas desde que seus olhos encontraram Rebecca no meio de todas aquelas pessoas, o casamento de seu amigo perdera o sentido. Ele apenas queria evitar pensar na garota, mas ela estava ali, a poucos metros dele, depois de anos sem contato algum. Ele suspirou e tentou focar na cerimônia que se seguia.

Quando os noivos finalmente disseram sim, trocaram as alianças e se beijaram, o alivio foi mútuo para Rebecca e Lucas. Os convidados aplaudiam exaustivamente enquanto os noivos atravessavam a igreja. Todos seguiam rapidamente para a porta da capela, mas Rebecca permaneceu sentada. E não foi a única.

Da escadaria da capela, arroz eram jogados nos noivos. Os gritos de euforia e de felicidade invadiam o interior da capela. Rebecca levantou-se para ir até lá, mas viu em pé, próxima a ela, o homem que um dia foi tudo.

O silêncio quase egoísta era contemplado enquanto ambos se encaravam, frente a frente. Lucas desviou seu olhar para o chão enquanto as mãos trêmulas foram disfarçadas por dentro dos bolsos da calça. Rebecca segurava sua pequena bolsa em mãos, ameaçou dar um passo, mas foi surpreendida por Lucas.

— Não esperava encontrar você aqui. – disse ele, levantando os olhos para ela.

Rebecca não sabia o que dizer. Ela sentia uma mágoa tão forte que era inevitável não demonstrar. O cerimonialista que se encontrava na porta da capela avisou aos dois:

— É melhor se apressarem logo para a festa! Não esqueçam de apresentar o convite na entrada do salão de festas.

Os dois se afastaram ao mesmo tempo, enquanto seguiam para a entrada da capela. Enquanto Lucas descia as escadas com pressa, Rebecca paralisou em um dos degraus e o encarou de costas.

— Você não mudou nada. – disse ela. Lucas parou a descida e virou-se para vê-la. – Continua... Continua como a 4 anos atrás.

Ele suspirou e prosseguiu andando em direção ao seu carro.

— Eu vejo você lá, Rebecca. Na festa. – disse ele em voz alta.

A noite permanecia fria e o vento continuavam forte sob aquela sexta-feira. Tudo o que Rebecca e Lucas jamais poderiam imaginar é que aquela noite não seria fácil para nenhum dos dois.