Uma manhã da semana seguinte surgiu com fortes raios de sol que atravessaram a janela do quarto e despertaram a potra. Can-Can quase caiu da cama pelo susto de acordar com o sol já erguido, pensou estar atrasada para o trabalho. Não demorou muito para se lembrar de que ganhara uma quinzena de folga pelo luto do pai – outro curioso costume da casa, segundo Finesse. A eguinha rubra fez uma refeição rápida, tomou um banho, encheu seus alforjes com os papéis do pai, penteou e prendeu os cabelos como de costume, saiu e trancou a porta. Não passaria aquela semana toda sozinha em casa. E se estava indo para o Sun numa semana em que deveria estar de folga, provavelmente seria perdoada por não chegar no início do expediente.

Atravessou o portão lateral dos empregados apressada, cumprimentou o porteiro, mas sequer parou para ouvir a resposta dele. Trotou para dentro do Sun e quase esbarrou com uma das colegas ao entrar.

“Can-Can, pensei que estava de folga”, a pônei disse desconfiada.

“Eu devia estar. Com licença, estou atrasada”, a eguinha rubra respondeu sisuda ao passar. Adentrou o vestiário, deixou os alforjes e as fitas no armário. Perdeu algum tempo tentando prender os cabelos num coque, da forma que todas as faxineiras deveriam usar no Sun; os anos trabalhando ali lhe deram alguma habilidade para tal, mas ainda era complicado fazer aquele penteado usando os cascos e uma escova de apoio. Vestiu seu avental branco e foi para a sala da faxineira chefe. Mess pareceu incrédula ao ver Can-Can passar pela porta.

“Você não deveria estar por aqui, Can-Can”, a pônei lima afirmou, tinha um olhar de quem sente pena.

“Achei que ocupar a cabeça com trabalho me faria bem”, Can-Can mentiu. “Posso pegar meu material?”

Mess assentiu receosa. Antes que a pônei de cristal pudesse sair da sala com o material de limpeza, a chefe perguntou, “Tem certeza?”. Can-Can murmurou uma resposta positiva e foi para o salão principal. Ao limpar as tão conhecidas mesas do Sun, a potra conseguia apenas pensar no momento em que os músicos da casa entrariam para o ensaio, pois precisava dar um jeito de falar com algum deles. Sequer prestou atenção aos colegas de trabalho que varriam o lugar e seus cochichos sobre o luto da jovem.

Na sala da administração, Mess conversava com Finesse. “Ela pegou o material e foi pro salão, como sempre”, a pônei unicórnio dizia preocupada; não tinha uma grande afeição pela pônei de cristal, mas era uma égua sensível e acreditava que Can-Can deveria descansar após a perda que sofrera.

“Se ela quer trabalhar e acha que isso vai fazer bem para ela, deixe-a trabalhar, Mess”, o garanhão marfim respondeu, fez pouco caso das preocupações da faxineira chefe. “No lugar dela, eu faria o mesmo.” Finesse dispensou a pônei lima e voltou a verificar alguns dos papéis de contabilidade sobre sua mesa. Ficou satisfeito, em tantos anos de trabalho poucas vezes vira um pônei vir trabalhar na semana do luto; outros, mais ousados ainda, aproveitavam-se da bondade de Herr Grandiose e tentavam conseguir folga em lutos de parentes tão distantes que às vezes sequer conheciam. O intendente chefe podia imaginar que a pônei de cristal tinha uma relação muito próxima com o pai; observara-a durante todo o enterro e o sofrimento dela era perceptível. Chamou uma das secretárias e disse-lhe para colocar os dias de trabalho de Can-Can naquela semana como horas extras.

De volta ao salão principal da casa, a eguinha rubra limpava habilmente uma das mesas próximas ao palco – ficara boa nisso, e fazia seu trabalho de forma quase intuitiva. Quando as portas duplas foram abertas pelo grupo de pôneis, Can-Can respirou fundo, fez menção a se interpor entre eles e o buraco da orquestra. Mas ficou paralisada, não havia pensado no que dizer. Não podia apenas pedir para que eles tocassem uma das melodias de Turner no ensaio, podia? O maestro passou por ela com um trotar orgulhoso, olhou para a jovem faxineira de esguelha e não disse nada. Os músicos seguiram Often Bass, conversavam entre si em vozes baixas, nenhum deles deu atenção a Can-Can. Burra, a pônei rubra pensou. Antes que pudesse dizer algo, os pôneis já encontravam-se afinando os instrumentos, e teria de esperar até que fizessem uma pausa. Com um suspiro triste, voltou à limpeza.

Podem me fazer um favor? Não... Eu tenho uma música aqui, e... também não; ajudariam uma pônei necessitada? Não, não sou pedinte assim, Can-Can pensava enquanto a música tomava conta do salão. Uma alternativa faiscou em sua mente. “Pode dar certo”, murmurou para si mesma.

Os músicos costumavam fazer rápidas pausas durante o ensaio, e se a concavidade da orquestra ficasse vazia, Can-Can poderia plantar a partitura do pai no cavalete de Often Bass. Fingiu que ia repor um detergente, foi até o seu armário no vestiário e tirou a melodia de Turner de dentro do alforje. Voltou ao salão rapidamente e esperou sua oportunidade. Quando a música cessou, a eguinha varria o palco. Viu os pôneis saírem de debaixo dele em pequenos grupos, ou em duplas. O maestro saíra pensativo. Can-Can precipitou-se para a escada mais próxima e no segundo seguinte encontrava-se rodeada de cavaletes e instrumentos. Foi até o lugar do maestro, percebeu que ainda havia um dos pôneis no local. Com um espanador, fingiu limpar o pequeno palanque de Often Bass. Torcia para que estivesse sendo convincente. E com um descuido quase dramático, fez com que os papéis do maestro caíssem, sem querer, no chão. O unicórnio no fundo da sala deu pouca atenção; afinava um violino. Ele deu uma olhada aborrecida quando Can-Can fez as partituras caírem, mas não passou disso. Com uma habilidade quase gatuna, a pônei de cristal cumpriu seu objetivo e escapuliu de lá satisfeita. Quando os músicos voltaram ao salão, Can-Can já voltara a varrer o palco. Mal podia conter sua ansiedade, precisava ouvir a música que o pai havia feito para ela. Herr Often Bass foi o último a retornar. Ainda ao descer as escadas, falava para os pôneis que comandava, “Preparados? Vamos repassar tudo do início”. Foi ao pequeno palanque, usou magia para erguer a varinha régia, deu três toques no cavalete e sinalizou para que os pôneis começassem. Can-Can não pôde se conter, foi até a ponta do palco, abaixou-se e espiou a orquestra. O maestro se apoiava sobre as patas traseiras, usava os cascos dianteiros, a varinha, e algumas expressões faciais para reger, cada movimento que fazia alternava a melodia e guiava os músicos; quando algum deles tinha dificuldade – o que era raro mesmo nos ensaios –, a magia do maestro ia até o pônei com problemas, circundava sua cabeça e o colocava de volta no ritmo. A partitura plantada encontrava-se misturada com as últimas páginas da partitura da primeira música – uma bastante conhecida – que seria usada no show daquela noite.

De repente, a melodia foi alterada de forma brusca, os músicos se perderam com os movimentos inesperados de Often Bass, que teve de usar magia na orquestra inteira. Can-Can prendeu a respiração, sua música rugiu de debaixo do palco, rápida, dançante, animada, energética. A pônei de cristal sorriu, a música de Turner era perfeita. Ergueu-se no palco e começou a saltitar. Dançou instintivamente, acompanhando a melodia. O som produzido sumiu poucos instantes depois. “Mas o que estão fazendo? Por que não conseguem tocar direito?”, o maestro perguntou em voz alta logo após cessar a música. Houve um burburinho entre os pôneis e uma voz tímida respondeu, “Herr, acho que não temos a partitura que você está usando”. O maestro desceu do palanque, foi verificar os cavaletes dos músicos e constatou que realmente usavam papéis diferentes. Often Bass voltou para verificar a melodia que usara. Com magia, ergueu os papéis numa aura dourada, subiu a escada lateral, ao chegar no nível normal do salão, percebeu a faxineira imóvel no palco. Can-Can não soube o que dizer.

“O que faz aí?”, ele perguntou, taciturno. “Aliás, todos nós pudemos ouvir a farra que você estava aprontando aí em cima.” O unicórnio virou para a saída do salão, mas antes que pudesse dar um passo, Can-Can já havia saltado do palco e se aproximava.

“Por favor, me desculpe”, ela disse.

“Não importa, volte para o seu trabalho”, o maestro respondeu, avaliava a partitura curioso e perguntava-se como aquilo tinha ido parar no seu ensaio. Ao perceber que a eguinha rubra não se afastara, disse, “Algum problema, jovem?”

“É minha”, Can-Can respondeu. Often Bass olhou desconfiado da pônei para o papel que flutuava entre os dois, e do papel de volta para a pônei. A eguinha mantinha um olhar fixo sobre a partitura.

“A música... você quem compôs?”, ele perguntou descrente. Can-Can balançou a cabeça negativamente e disse, “Não. Mas é minha e fui eu quem misturou as folhas”. O unicórnio mantinha seu olhar desconfiado sobre a potra; perguntou o nome dela. Quando obteve uma resposta e viu aquele mesmo nome encabeçando a folha, relaxou um pouco. “Quem compôs esta música?”

“Meu papa”, ela retrucou imediatamente, com um leve sorriso no rosto. A felicidade de ouvir a melodia que o pai havia feito para ela era tão grande que Can-Can mal podia conter; a melancolia do luto era um tanto menor agora. Quando Often Bass perguntou onde estava o pai da pônei, ela respondeu de forma direta e muito simples. O unicórnio pediu desculpas e disse, “Está incompleta”. A jovem assentiu. “Mas é uma música interessante, aposto que poderia ser usada numa das apresentações daqui. A propósito, estava dançando, não estava?” A potra assentiu em silêncio.

As portas do salão se abriram de repente. Uma pégaso madura, talvez um pouco mais nova que o maestro, mas bem mais velha que Can-Can, entrou. O corpo róseo; crina e cauda onduladas, longas e negras; os olhos em um verde muito vivo e brilhante; em seu flanco se via um par de sinos a badalar. Ela trotou altiva em direção ao maestro, tinha um sorriso acolhedor no rosto. Admirada com a beleza da pégaso, Can-Can a observava timidamente.

“Amado, eu preciso de um favor seu”, ela ronronou, sua voz era um encanto. Cumprimentou a jovem faxineira com um breve aceno de cabeça.

Often Bass sorriu para a pégaso e disse, “O que posso fazer por você, minha cara?”

“Aconteceu uma contratação de última hora de duas pôneis para o balé, preciso treiná-las e ficaria muito agradecida se você pudesse me arranjar algum acompanhamento musical”, ela explicou.

O maestro respondeu animado, “Mas é claro, minha cara. Para você é sempre um prazer”.

Tão lisonjeiro”, a égua rósea disse, sorriu sedutora. “Trarei as potras num instante, pode preparar os músicos?” Often Bass assentiu, quando a pônei de olhos verdes virou-se para ir, ele acrescentou, “Que música eu devo tocar?”

“Alguma polca, ou talvez quadrilha, quero algo animado”, a pégaso respondeu sem se virar. Agradeceu de novo enquanto saía. Can-Can ficara hipnotizada observando-a.

“Nunca viu Rhiannon?”, o maestro perguntou com um sorriso. A eguinha rubra respondeu com um aceno de cabeça negativo. “Ela treina as novatas para o balé da casa, geralmente escolhe cada uma delas a casco. Está conosco desde a abertura do Sun. Canta e dança como ninguém”, Often Bass falou admirado. “A propósito, essa sua música... se importa se eu tentasse finalizá-la?”

Can-Can demorou um instante para entender o que ele havia dito. “Faria mesmo isso?”, perguntou. O maestro assegurou, “É uma melodia maravilhosa. Aposto que conseguiria terminá-la sem que perdesse a essência, se me permitir”. A jovem concordou animadamente.

Rhiannon voltou ao salão seguida por duas jovens pôneis terrestres, ambas possuíam pelagem cor bege, cabelos ruivos claros em cortes muito curtos; seriam indiferenciáveis, não fossem por seus olhos e Marcas. A de olhos azuis, tinha no flanco um passarinho marrom voando; a de olhos cinzas, no flanco tinha três passarinhos amarelos num ninho, cantando. As duas potras olhavam curiosas para todos os cantos do salão, era notável que nunca estiveram ali. A de olhos azuis tocou a outra com um casco e em seguida apontou para Can-Can, cochicharam e deram risinhos. Rhiannon se aproximou, perguntou para o maestro se poderiam começar, os quatro pôneis seguiram para o palco, Can-Can ficou olhando eles irem. As duas éguas que acompanhavam a pégaso rosa eram pouco mais velhas que a pônei de cristal. Poderia ser eu ali, Can-Can pensou, nutrindo certa inveja.

Após acertarem alguns detalhes com o maestro, Rhiannon e as duas potras se posicionaram no palco, a pégaso mais à frente, de costas para a plateia, e as jovens mais ao fundo, olhando para a instrutora.

“Muito bem, eu vou começar com movimentos simples, se já dançaram antes, vão conseguir me acompanhar sem esforço. Começamos com dois passos para a direita, cruzando as patas dianteiras e girando em seguida”, anunciou a instrutora. Quando a música se elevou pelo salão, começaram a dançar. A pônei rosa se movia com uma graça invulgar, era muito bonito vê-la dançando, a forma como deixava que suas asas se mexessem durante os movimentos dava-lhe uma grande impressão de leveza. As potras que a acompanhavam faziam um trabalho razoável dançando. Can-Can, distraída pela apresentação, espanava uma mesma mesa por vários minutos. Não demorou muito para que ficasse contagiada pelo que acontecia no salão, sorriu de leve e começou a embalar o flanco de um lado para o outro. Quando deu por si, dançava mais que espanava, emulando os passos da pégaso rósea. Porém, não parou, a música parecia se mover pelo corpo da jovem e a incutia a dançar. Um dos colegas da faxina no fundo do salão, apoiado numa vassoura, alternava um olhar interessado entre as pôneis no palco e Can-Can.

As duas potras, no palco com Rhiannon, perceberam a faxineira que as imitava. Entre um passo e outro, a de olhos azuis disse para a outra, “Sky, olha ela de novo”. A pônei de olhos cinzas, surpresa, observou Can-Can e respondeu, “Eu bem disse que ela tinha algo de especial”. “Mas quando disse isso, sabemos o que você quis dizer”, retrucou a outra. Riram juntas por um instante. A pégaso não conseguia ouvir a conversa das irmãs, pois estava mais afastada, mas percebera que elas tinham trocado palavras; manteve o ritmo, não iria repreendê-las por ficarem cochichando no ensaio, contanto que não fizessem isso durante um show de verdade, não haveria problema.

Com uma pausa brusca e uma continuidade mais brusca ainda na melodia, a música mudou por completo. Rhiannon parou de dançar para ouvir por uns instantes, as duas potras também pararam. A música de Turner se elevara gloriosa pelo lugar, e junto com ela, o som de cascos em um ritmo frenético e ágil. A pégaso virou-se para a plateia.

Can-Can dançava sua música formosamente, exibindo-se. Quando percebeu que era a única que ainda dançava e que Rhiannon mantinha sobre ela um olhar quase curioso, deu o melhor de si. Afastou-se das mesas, improvisando e encadeando passos para se mostrar, afinal, tinha conseguido chamar a atenção da instrutora. Often Bass repetiu a melodia inacabada de Turner três vezes, o que deu a Can-Can cerca de dois minutos para se exibir. Quando a música cessou, a pônei de cristal estancou e permaneceu em silêncio, esperando. O maestro espiava do buraco da orquestra com um sorriso no rosto. A pégaso rosa voou do palco para o piso em mármore do salão e trotou devagar até Can-Can, avaliando-a com o olhar.

“Então... você dança”, Rhiannon sibilou ao chegar bem perto da eguinha rubra que estava paralisada de expectativa. A pégaso passou um casco por sobre a cabeça de Can-Can, como se lhe medisse a altura; em seguida, trotou em volta dela, tomou uma das patas traseiras e avaliou o tornozelo; passou um casco pelo flanco, pela barriga e pelas costas da pônei que olhava sem jeito para o chão. Rhiannon pôs um casco sob o queixo da eguinha rubra, moveu o rosto dela para cima e disse num tom amigável, “Amada, erga sua cabeça, você não deve nada a ninguém por aqui”.

Can-Can foi levada ao palco pela pégaso. “Estas são Skylark e Nightingale, quero que você mostre para nós como estava dançando aquela música. Vamos acompanhar você”, Rhiannon explanou. Logo mais, a instrutora dizia para o maestro tocar a música de Turner de novo. Can-Can ficou olhando para as outras potras no palco por um instante, parecia surreal que a instrutora estivesse pedindo à faxineira que lhe ensinasse como dançar.

Quando a melodia retumbou, deixaram-se levar. E a faxineira criou – de forma meio improvisada – um padrão de movimentos para aquela dança.