De laços e fitas
6 Capítulo 6
Pai e filha passaram boa parte da noite brigando. Can-Can havia ficado irritada após uma insinuação maldosa do pai em relação ao passeio com Weather. Turner se defendia o melhor que podia, apesar de uma parte de si concordar que estava cometendo um erro. A falta de confiança reinava na casa dos artistas. Semanas tinham se passado e o pai continuava se sentindo traído, e esperando o momento em que a filha o trairia de novo. A filha não era capaz de se conformar com as dúvidas do pai. Bradava o quão injusto ele estava sendo com ela, que jamais dera motivos para desconfiança. A briga acordou alguns vizinhos que lançavam olhares curiosos por entre as cortinas de suas próprias janelas. Ninguém teve coragem suficiente para ir ver o que se passava, a noite estava muito fria.
“O que você acha que eu sou?! Me responda apenas isso!”, Can-Can gritou, tinha mais raiva que mágoa.
“Eu... e-eu não sei! Já não sei mais o que você é! Desde aquele dia eu venho me fazendo essa pergunta. Não achei uma resposta!”, Turner retrucou.
“Por Celestia, sou sua filha! Can-Can! Esqueceu disso?! Qual é o seu problema, papa? Isso tudo é o quê? Ciúme?”, ela disparava, mal dava chance para que o unicórnio pudesse responder. A potra sentia-se mal questionando o pai, mas não conseguia suportar mais as palavras e os olhares dele. “Deve ser por esse tipo de coisa que mama largou você!”
Turner ficou sem reação. Olhava para a filha. De repente, abriu a boca como se fosse responder, nenhum som saiu, o garanhão não achou palavras. Seu rosto se fechou com severidade, seu chifre emitiu um brilho esverdeado muito forte. O garanhão deu um passo em direção a Can-Can. A potra encolheu-se de medo. Foi quando Turner caiu em si, sua pequena jamais havia sentido medo dele. Seu rosto sério se desfez em uma expressão deprimida. O que eu estou fazendo, a voz em sua cabeça questionou. Usou sua magia para erguer a filha do chão – fez um esforço muito grande, pois a doença o enfraquecia e Can-Can já não era tão pequena. Levitou-a até o quarto e largou-a sobre a cama. Voltou à sala e fechou a porta atrás de si.
A potra nada disse, realmente achara que o pai usaria sua magia contra ela e isso a deixou apavorada. Cobriu-se com o lençol e ficou em silêncio. Pensou em Sticks e em Weather. Gostaria que o pégaso estivesse ali para fazê-la sorrir de novo.
O garanhão na sala sentou-se perto do fogão para ficar aquecido. Queria pedir desculpas à filha, mas não seria capaz de encará-la naquela noite. Arrependia-se muito. Sua pequena realmente não lhe dava motivos para preocupação, o caso com Sticks havia sido algo atípico, com o qual não soubera lidar, com o qual ainda não sabia lidar. Mas ver Can-Can com medo fez com que Turner percebesse como estava errado e como a fazia mal.
Ela não faria nada demais, não mentiria dessa forma para mim; eles apenas saíram para passear, só isso; mein liebe deve achar que eu penso que ela é uma... Por Celestia, o que eu fiz? Burro! Burro! Burro! É isso que eu sou, o garanhão refletia consigo mesmo. Sua cabeça doía, se era por culpa de sua saúde ou de seu arrependimento, ele não sabia. Perguntou-se qual fora a última vez que lera para ela à noite, parecia fazer tanto tempo. Estava sendo negligente com a pônei que mais amava no mundo. Tentou erguer-se do chão, mas não conseguiu, estava sem forças. Precisava falar com ela, dizer que sentia muito. Suas pernas não se moviam, Turner estava fraco, podia apenas permanecer onde havia se sentado e remoer sua própria culpa em pensamentos dolorosos. As palavras de Can-Can sobre a mãe tinham-no fragilizado muito. Começou a suar frio, sua respiração perdeu força e ficou vacilante, o ar parecia lhe escapar dos pulmões. Um latejar tomou conta da parte posterior de sua cabeça. Suas patas tremiam. Tossiu. A visão de Turner ficou turva, a sala ao seu redor parecia girar lentamente. Tossiu mais uma vez, colocou um casco em frente à boca por instinto, e quando olhou para a própria pata, surpreendeu-se com a mancha vermelho escuro que agora havia ali. Um gosto metálico surgiu em sua boca. Voltou a tossir, mais sangue foi expelido em seu casco. Turner teve medo de morrer. Não estava com medo da própria morte, mas temia por Can-Can, temia deixá-la sem pedir desculpas. Tentou gritar, sua voz não veio. Esforçou-se o melhor que podia, nenhum som de palavras era produzido, queria gritar pedindo perdão. Perdeu os sentidos.
*** *** ***
“Ele vai melhorar. Mas não pode fazer muito esforço. E eu vou deixar esse remédio para amenizar a tosse, infelizmente não posso fazer muito mais por ele”, Turner ouviu, sua cabeça ainda latejava de leve.
“Muito obrigada, Aid. Vamos cuidar bem dele”, uma voz feminina respondeu. O garanhão gemeu de dor enquanto ouvia uma porta se fechar. O som de cascos se aproximando o deixou nervoso, abriu os olhos devagar. Sua visão, ainda turva, foi ofuscada pelo brilho tremulante de uma vela. “Calma, não se mova. Você ainda não está bem”, disse a égua. Turner pôde jurar que ouvia a voz de Frostbite. Sussurrou o nome da mãe de Can-Can.
“Se não estivesse no estado em que está agora, eu ficaria ofendida”, a égua disse dando um leve riso. A visão do garanhão finalmente começou a tomar forma. Uma pégaso negra estava prostrada ao seu lado, com crina e cauda longas, onduladas e de cor turquesa, tinha olhos castanhos, sua Marca era uma balança na qual se pesava uma pena de um lado e um livro no outro.
“Fräulein...”, ele gemeu. Olhou ao redor por um instante, estava no quarto da filha, deitado na cama. A vela, sobre a pequena estante, iluminava o cômodo a meia luz. “Can-Can. Onde está minha filha?”
“Não se preocupe, ela está na sala com Weather e os pais dele. Ela galopou até a minha casa em prantos dizendo que você estava passando muito mal. Disse que brigaram e que a culpa era toda dela. Ela passou o dia chorando”, Mind Balance explanou com certo pesar.
“Passou o dia?”, ele murmurou, confuso.
“Você desmaiou noite passada. Estivemos fazendo vigília desde então”, ela disse. “Trouxe um antigo amigo para dar uma olhada em você, ele é enfermeiro.”
Turner sentiu uma forte ânsia de vômito. Dessa vez podia ter morrido. Foi arrebatado por um sentimento de culpa muito maior do que o que sentira antes de desmaiar. “Por favor, Mind, traga Can-Can aqui. Preciso falar com ela.”
“Aid disse que você passou por uma crise nervosa, e esse tipo de coisa com a saúde que você tem... É melhor deixar para falar com ela pela manhã”, Balance aconselhou.
“Eu posso não ter chance de falar com ela pela manhã!”, Turner respondeu, sentia medo, muito medo. A égua se aproximou e deu-lhe um beijo na testa.
“Aid também disse que você vai ficar bem. E se ele disse isso é porque você vai ficar bem, mas é preciso descansar. Falar com a Can-Can agora apenas te deixaria mais nervoso.”
“Mas...”
“Não insista, por favor”, ela o interrompeu. Com um casco, acariciou o rosto do flautista. A pégaso tinha um olhar carinhoso e ao mesmo tempo triste no rosto. Balance tinha uma história antiga com Turner, mas uma professora e um artista de rua – que era também pai solteiro – dificilmente conseguiam arrumar tempo um para o outro. A égua colocou o outro casco dianteiro em cima do peito do unicórnio sentindo o fraco movimento que ele fazia ao respirar. Turner, com algum esforço, pôs um de seus cascos em cima do dela e acenou com a cabeça, concordando. Ficaram assim até o garanhão adormecer. Balance saiu do quarto em silêncio logo em seguida. Na sala, Can-Can estava sentada no sofá, era acolhida pelas asas e pelo abraço protetor de Weather, que se mantinha ao seu lado. No fogão, a mãe do potro preparava uma torta que começava a lançar sobre o recinto um cheiro de maçã. Era uma pégaso azul bebê, de crina curta e loira, sua cauda também loira possuía alguns fios brancos, em seu flanco estava a Marca de um tornado carregando uma vaca. Em seu rosto havia um pesado par de óculos com grandes lentes garrafais. Mais adiante, próximo à porta, estava um garanhão verde-oliva, de crina e cauda castanho escuro. Sua Marca era uma prancheta marrom. Eram os pais de Weather: Rought Flight e Order Warden, respectivamente.
Todos na sala viraram seus olhares para Balance. Can-Can evadiu-se do abraço acolhedor do amigo e precipitou-se em direção à professora.
“Como ele está?”, perguntou aflita.
“Dormindo. Mas está melhor. Pela manhã deve estar disposto o suficiente para conversar”, a égua negra apaziguou a jovem. Can-Can suspirou mais aliviada. Sua mente estivera presa num turbilhão de culpa desde a briga que fizera o pai passar mal.
Fräulein Balance havia sido de grande ajuda para a potra rubra, tinha buscado um enfermeiro para cuidar do garanhão e dera um jeito de trazer Weather e os pais para fazerem companhia naquele momento difícil. A professora fez um afago leve na testa de Can-Can, pediu para que a jovem descansasse e voltou ao quarto para vigiar o sono de Turner.
A potra rubra voltou ao sofá e ao abraço aconchegante de Weather. Estivera muito preocupada e o pégaso fizera seu melhor para deixá-la menos tensa. Os pais do amigo também haviam ajudado bastante. Dame Flight tinha preparado todas as refeições com esmero durante a vigília, e Herr Warden não parava de contar histórias engraçadas de quando era um potro, para deixar o clima menos sério.
“Pobrezinha, como vão se sustentar se o seu pai não puder mais trabalhar? As coisas vão ficar difíceis, você precisa pensar em arranjar um emprego de verdade...”, a mãe de Weather disse de repente. Can-Can não disse nada, então a égua continuou, “Isso de ficar dançando na rua não é trabalho de verdade, sinto dizer. Já tinha dito isso pro Turner uma vez.”
Weather intercedeu pela potra, “Mas a senhora nunca viu a Can-Can dançando! Ela é maravilhosa nisso.”
Flight suspirou e olhou para o filho com um ar de desaprovação. Disse, “E você quer que ela fique dançando na rua?” Weather compreendeu que no fundo a mãe queria questionar se ele deixaria sua namorada dançar na rua. Por algum motivo, o namoro dos dois parecia mais do que arranjado para seus pais, mesmo que eles se conhecessem há apenas três míseros dias.
“Bem, se Can-Can não pode ficar dançando na rua... podíamos arranjar um emprego para ela num lugar que ela pudesse dançar”, Weather disse e olhou para o pai.
A mãe do potro olhou dele para o marido, e do marido para o filho de novo. Então entendeu. “Nem pensar”, decretou.
A pônei de cristal que observava tudo, curiosa, perguntou, “O que quer dizer, Clean?”
“O pai trabalha num lugar onde pôneis dançam...”, ele respondeu vagamente.
“Pode parar. Não é lugar pra pônei de família. Can-Can, nem pense nisso”, Flight interrompeu, ríspida.
Warden interveio, “Eu já disse milhares de vezes, as garotas que trabalham lá também têm família! Você é que coloca um monte de minhocas na cabeça”.
“Então você aprova que a pequena vá trabalhar num cabaré?!”
“Eu não sei...”
“Ela não tem nem idade para entrar num lugar desses. E aquilo lá é cheio de coisa ruim! Aquelas éguas... Sorte a sua eu não ser ciumenta, ou melhor, sorte a minha você ser feio”, Flight passara de repente para um tom de voz brincalhão. “É, porque sem esses óculos eu não consigo ver um casco na frente do rosto, e quando eu tiro os óculos, você fica quase bonito, meu querido. Nenhuma daquelas éguas iria querer nada com você.”
Can-Can não entendeu a mudança repentina no humor da pégaso, mas deu um sorriso tímido com a graça que Flight fizera. Filho, pai e mãe riram da brincadeira. Parecia algo de família misturar assuntos sérios com brincadeiras ocasionais. Por fim a égua voltou a dizer, “Não é um ambiente bom para ela”.
A pônei de cristal ficou interessada com a ideia, mas a preocupação com o pai e a mudança repentina do assunto para ‘os óculos mais pesados do mundo’ a fizeram deixar o pensamento de lado. Herr Warden trabalhava à noite, então às oito horas despediu-se dos pôneis na sala e partiu. Dame Flight e Weather ficaram com Can-Can ainda durante um bom tempo. Quando a potra rubra já estava sonolenta, o potro desceu do sofá e cobriu-a com um lençol.
“Temos que ir agora, vou tentar voltar amanhã para ver como estão as coisas por aqui. Por favor, não vá fazer nenhuma besteira enquanto eu estiver fora”, sussurrou o jovem pégaso em tom gentil. Can-Can balançou a cabeça de leve em concordância, seus olhos quase se fechavam. A potra gemeu um agradecimento para o amigo. A mãe de Weather sorria olhando a cena. Flight pensou em dar adeus à professora, mas não queria correr o risco de atrapalhar o sono de Turner. Saíram o mais silenciosamente possível, Weather trancou a porta da frente e escondeu uma cópia da chave onde a potra rubra havia escondido quando tinham saído na segunda-feira.
Can-Can dormiu no velho sofá que tinha o cheiro do pai. Sonhou que voava de novo, mas dessa vez não era levada por Weather, ela tinha suas próprias asas; estava voando em direção às montanhas, e além, passou por cima de cidades que nunca vira ou ouvira falar, até chegar numa fortaleza que todo pônei conhecia, mesmo que apenas por histórias: a pônei de cristal sobrevoava Canterlot, os tetos abobadados e as torres encimadas por dourado enchiam seus olhos. Can-Can dormia com um sorriso inocente no rosto.
*** *** ***
“Can-Can, ei, Can-Can, acorde”, uma voz familiar fez-se ouvir, tirando a potra rubra de seus sonhos, um casco a afagava o ombro. Ao abrir os olhos a jovem encarava Fräulein Balance.
“Sim?”, a potra perguntou sonolenta.
“Seu papa quer falar com você”, a égua gentil sussurrou em resposta, fazendo com que a potra saísse totalmente de seu mundo inconsciente e voltasse para a vida comum. “Lave o rosto, escove os dentes e vá conversar com ele. Ele tem algumas coisas que precisar dizer para você. Eu vou comprar uns pães e volto já.”
Can-Can fez que sim com a cabeça e pulou para fora do sofá. Rapidamente fechava a porta do banheiro e começava sua higiene. Em pouco tempo voltara para a sala e estava prostrada do lado de fora do próprio quarto. Respirou fundo e abriu a porta. Seu pai, ainda deitado, olhava pela janela o céu da manhã. Ele respirava com dificuldade, e voltou o olhar para a filha. Turner parecia muito abatido. Can-Can trotou até o lado da cama.
“Papa...”, ela murmurou nervosa.
“Mein liebe, vem cá”, ele pediu, sinalizou com um casco um espaço vago no colchão. A filha subiu na cama e deitou-se de lado perto do pai, que havia se afastado um pouco para dar lugar a ela. Turner virou também de lado para encarar sua pequena.
“Eu fui um idiota”, ele disse, triste.
“Papa...”
“Espere. Não diga nada, eu ainda não terminei”, ele disse, ainda respirando com alguma dificuldade. “Julguei você, mein liebe. E julguei errado, muito errado. Não consegui suportar você ter mentido para mim, e escondido coisas de mim... Minha filhinha nunca fez isso, entende?”
“Eu sinto tanto por isso!”, Can-Can disparou com a voz esganiçada.
“Eu sei, eu sei. Acalme-se. O que quero dizer é que... eu queria continuar vendo você como aquele bebezinho que você foi, e você não é mais um bebê. Está crescendo... e como você cresceu! E logo vai ter assuntos só seus para lidar, e não vai mais me dizer nada se não quiser”, Turner sussurrava triste, era um pai que se via finalmente obrigado a aceitar que a filha crescera. “Eu só queria que soubesse que eu me arrependo muito de tudo que fiz, e que estarei do seu lado sempre, e que se precisar me dizer algo, se quiser me dizer algo, vou ouvir. Você me perdoa?”
Can-Can olhou para o rosto do pai com uma mistura de carinho e culpa. Aproximou-se dele e envolveu-o com as patas dianteiras num abraço terno. Fazia o melhor de si para não lacrimejar. “Eu amo você, papa. Muito”, ela disse com o rosto encostado no peito macio do pai. E foi como se um grande peso sumisse dos corações de ambos. A relação nublada por desconfiança se desfazia, e os dois pôneis sentiam que as coisas poderiam voltar a ser como antes.
“Você já está tão grande, e tem só quatorze anos”, ele disse, afagando a cabeça dela com o focinho.
“Quinze”, ela retrucou de imediato.
“O quê?”
“Vou fazer mês que vem, estou contando desde já”, Can-Can explicou com uma risadinha.
“Poxa. Mas será que não pode ser o meu bebê só mais um pouquinho?!”, ele apertou o abraço, depois fez cócegas na filha.
“Papa!”, ela tentou protestar entre risos.
*** *** ***
Turner e sua filha voltaram a ter uma relação saudável. Os dias se passavam e ambos sentiam que podiam confiar plenamente um no outro de novo. Certa noite, Turner disse à filha que não precisava mais sair com Weather se não quisesse. A jovem respondeu que o potro era um bom amigo e que adorava sua companhia, mesmo que não pretendesse ter nada mais que uma amizade com ele. Ambos sabiam que aquela conversa não dizia respeito apenas a Weather, mas também a uma aceitação velada do pai para com a filha.
O aniversário de Can-Can veio e se foi, pela primeira vez a potra havia comemorado a data com algum outro pônei que não fosse seu pai, Herr Warden e Dame Flight tinham vindo com Weather para comemorar com a pônei de cristal. Trouxeram consigo uma antiga vitrola e um alguns doces. E Turner providenciou uma torta para a filha. O aniversário de quinze anos de Can-Can fora o melhor que tivera até então.
Os artistas de rua voltaram a trabalhar nas praças com algumas precauções após a crise nervosa de Turner: agora somente iam às praças que ficavam mais próximas de casa, e o unicórnio levava um cachecol extra no pescoço. Para a decepção de Can-Can, pararam de visitar a praça das camélias, pois o garanhão cinzento ia se sentir muito cansado caminhando até lá.
A potra rubra atraía cada vez mais atenção quando dançava, já estava bastante crescida, era quase uma jovem égua e agora chamava também a atenção de alguns garanhões que recebiam olhares taciturnos de Turner.
Weather tornara-se um grande fã da jovem dançarina, às vezes matava aula para vê-la dançar e conversar com ela durante suas pausas. Deixava sempre um ou dois bits, mesmo que a pônei de cristal protestasse e dissesse que ele não precisava. O pégaso sempre respondia que a dança da amiga valia cada moeda.
Meses se passavam e Turner aparentava estar sempre abatido. Tossia menos, mas quando o fazia parecia que poderia cuspir seus pulmões para fora do peito. Cansava-se rapidamente, estava sempre arfando mesmo após breves caminhadas. O garanhão era agora uma mera sombra do que já havia sido. Can-Can cuidava do pai e fazia a maior parte das tarefas da casa. Turner ainda insistia em fazer seus costumeiros ensopados porque assim sentia-se útil.
O unicórnio voltou a ler para a filha à noite. Can-Can achava que já estava crescida demais para que o pai lhe lesse as histórias, mas jamais seria capaz de desprezar um momento como aquele. Quando o pai lia, interpretava os personagens do livro para ela e fazia descrições muitas vezes inexistentes, a potra rubra se sentia muito amada. E quando Turner ficava sem fôlego ou não sentia segurança suficiente para entoar uma canção do livro, a filha assumia o lugar dele e cantava com uma voz muito doce.
*** *** ***
Turner aguentou o quanto pôde as caminhadas para as praças. Mas ficava cada vez mais fraco com o passar do tempo, finalmente chegou um dia em que não conseguia se levantar de seu sofá sozinho. Can-Can ficou desesperada, cedeu sua cama ao pai e passou para o lugar dele na sala.
Como o unicórnio não podia mais sair de casa, certo dia a jovem tentou fazer seu show sozinha (como já fazia há algum tempo) na praça do artista – deixara Turner dormindo e saíra. Entre tantas dançarinas e músicos na praça, ela conseguia se destacar fazendo o seu melhor. Infelizmente, sua dança e a falta do pai atraiam pôneis de caráter duvidoso que lhe lançavam olhares estranhos, lascivos. Três pôneis se aproximaram devagar, a dançarina ficou nervosa. Can-Can teve medo, eles estavam próximos demais e não haviam feito sequer a menção de jogar uma moeda no pequeno pote que ela havia levado para arrecadar o dinheiro. Um pônei esquálido lambeu os beiços, dirigia à dançarina um olhar mórbido e faminto. O enorme fluxo de pôneis que passava pela praça não dava atenção alguma à situação que estava se formando ali.
Por sorte, Weather havia matado aula naquele dia, estivera no telhado de um prédio próximo observando-a dançar. Deu um pulo e pousou ao lado de Can-Can. O jovem pônei olhou ameaçadoramente para os garanhões, fazendo-os recuar. O pégaso também tinha crescido, e apesar de ser apenas um pouco mais velho que a amiga, já tinha o porte de um pônei adulto forte. Trotou até o pote de dinheiro, ergueu-o com uma asa e fez sinal para que a pônei de cristal o seguisse.
Trotaram juntos para longe da praça e pararam em frente a uma doceria. Weather entrou no estabelecimento seguido pela amiga. Ficaram numa mesa próxima à vitrine da loja.
“Não devia sair sozinha assim”, ele disse, muito sério.
“O que você queria que eu fizesse? Não posso ficar em casa até as economias acabarem, precisamos de dinheiro”, Can-Can respondeu apreensiva. “Papa não consegue mais sequer levantar da cama sozinho, eu preciso trabalhar.”
“Então você devia procurar um emprego de verdade”, Weather repreendeu a amiga que se limitou a desviar o olhar. A pônei rubra sabia que ele tinha razão, mas sempre amara dançar, e procurar um ‘emprego de verdade’ provavelmente queria dizer que não mais trabalharia com o dom mais precioso que possuía, e isso a deixava relutante.
“Sinto muito...”, ela sussurrou, sua voz quase inaudível.
Weather colocou um casco no queixo da amiga, ergueu o rosto dela e disse, “Ei, também não precisa fazer assim. É que o jeito como eles olharam pra você... e você agora trotando sozinha por aí... eu fico preocupado. Não estou bravo”.
Can-Can assentiu, desviou o olhar do pégaso e suspirou frustrada. “Não sei o que fazer, Clean. Preciso de ajuda”, pediu aflita. Weather levantou, arrastou sua cadeira até ficar ao lado da amiga e passou uma asa sobre as costas dela protetoramente. Ficaram calados por um tempo, pensando.
Nervoso, Weather se ajeitou na cadeira, tinha lembrado do dia da vigília no qual falara que o pai poderia empregar a amiga. Na época não pensara muito bem naquilo, um cabaré realmente não parecia o tipo de lugar que gostaria que Can-Can frequentasse.
Por fim, ele disse receoso, “The Great Sun”.
*** *** ***
Turner não gostou nem um pouco de saber o que havia acontecido com a filha na praça. Abraçava Can-Can com toda a sua força, ambos sentados na cama. Gostou menos ainda quando Weather mencionou o cabaré. Frente as opções que tinha, a única que era considerada pelo pai da jovem dançarina era que ele deveria ficar bem de saúde logo para poderem voltar a trabalhar direito. A pônei de cristal, apreensiva, olhava para o amigo que estava na porta do quarto tentando argumentar com Turner. Ela bufou frustrada, pois sabia que agora que o pai soubera que aquele tipo de coisa poderia acontecer, não mais a deixaria sair sozinha para dançar. O garanhão cinzento sempre fora super-protetor, e morreria dez vezes de fome antes de expor sua pequena ao perigo.
“Mein liebe, eu sinto tanto! Se eu tivesse dado um jeito antigamente, procurado um trabalho melhor... eu sei que errei, aliás, errei em tanta coisa nessa vida! Jamais devia ter deixado você ir sozinha”, o unicórnio lamuriava.
“Calma, papa. Eu estou bem”, a pônei rubra respondeu baixo, tentando apaziguar o pai. Por um lado Can-Can se sentia boba, havia ido às praças inúmeras vezes sozinha desde que o pai ficara naquele estado, podia ser que aquele tipo de incidente jamais voltasse a se repetir; por outro, os olhares dos pôneis daquele dia a fizeram ficar com muito medo, e se não fosse por Weather, nem sabia o que poderia ter acontecido.
“Herr Turner, não podemos deixar ela ficar sozinha por aí... dessa vez foi sorte, mas eu não vou estar lá sempre. Se você puder pensar no emprego, o pai pode arranjar um trabalho pra ela, tenho certeza”, Weather insistia.
Turner ficou pensativo por um instante e disse, “Você sabe o que dizem sobre as éguas que trabalham nesse tipo de lugar, não sabe?”
O pégaso respondeu com um breve aceno de cabeça, assentindo. “Mas, o pai disse que a maior parte das coisas que os pôneis dizem são histórias. E pôneis ruins inventam coisas sobre todo tipo de pônei. Com certeza já deve ter ouvido que falam mal de dançarinas... não só daquelas de cabaré”, disse.
“Não quero minha filha envolvida com esse tipo de pônei.”
“Can-Can não é mais uma criança. Ela sabe o que deve ou não fazer, ela sabe diferenciar coisas boas de ruins.”
A pônei rubra ouvia os dois conversarem entre si como se ela não estivesse ali. Estava dividida, pois apesar de todas as coisas maldosas que se dizia de pôneis que trabalhavam em cabarés, também era dito que lugares como aquele eram verdadeiros recantos da dança e da música. Além de que todo cabaré tinha um palco. A ideia começava a parecer interessante na mente de Can-Can. E o preço que teria de pagar por um emprego que gostasse de verdade seria apenas tornar-se – talvez – uma potra mal falada. A jovem dançarina considerava em silêncio enquanto os dois discutiam.
“Não quero ela muito longe de mim. The Great Sun fica do outro lado da cidade. O caminho é perigoso!”
“Herr, se ela pode ir até a praça sozinha, pode cruzar a cidade sozinha também”, Weather disse frustrado. Não queria discutir com o unicórnio cinzento, mas começava a ficar impaciente.
“Correção: ela podia ir à praça sozinha. Agora não pode mais!”, Turner retrucou e apertou um pouco mais a filha. “Amanhã eu vou estar melhor e vamos sair juntos para trabalhar como sempre fizemos. Sem problemas. Amanhã estarei melhor, e se não estiver, vou de qualquer jeito!”
“Não, papa, você não pode”, a pônei de cristal interveio receosa. Turner olhou-a e suspirou tristemente. Desviou o olhar para Weather, que negou com a cabeça. O garanhão nunca se sentira tão impotente.
“Mas...”, Turner sussurrou.
“Me deixa tentar.”
“O quê?”
“Eu quero o emprego. Nós precisamos dele, papa”, ela disse, por fim. E se por um lado ela dizia aquilo porque realmente precisavam do dinheiro, por outro a ideia do palco e da fama a seduzia. Can-Can não mentia ao dizer que precisavam do dinheiro, tampouco mentia ao pensar que fazia aquilo para que ela e o pai continuassem vivendo, afinal, não podiam contar com a ajuda dos amigos para pagar as contas, mas tinha também em mente que aquela poderia ser a sua chance. “Se eu não gostar de lá, não fico. Sem problemas”, ela concluiu.
“Mas filha...”
“Acho que ela tomou uma decisão, Herr Turner”, Weather afirmou, e calou a boca do pai de Can-Can com aquelas palavras. O unicórnio suspirou de novo, não havia nada que pudesse fazer, não podia impedir a filha. Se ele quisesse proibir a saída, temia que ela simplesmente saísse sem permissão, pois ele já não mais podia fazê-la ficar – não tinha forças para tal.
“O pai deve chegar a qualquer momento. Precisa tomar uma decisão”, Weather decretou sério.
“Está bem, está bem. Eu... vou falar com Warden e pensar no caso”, disse o pai da dançarina, consternado.
Esperaram o pai de Weather por algum tempo. O pônei terrestre deveria falar sobre como seria o trabalho se a pônei rubra fosse para o cabaré. Can-Can não havia parado para refletir sobre o pai do pégaso até aquele instante, sabia que Herr Warden não era dono do lugar, mas não sabia o que o garanhão fazia lá.
“Clean, o que Herr Warden faz no Great Sun?”, Can-Can perguntou, curiosa.
“Ele trabalha na segurança do cabaré”, o potro respondeu distraído.
A pônei de cristal assentiu em silêncio. Estava ansiosa, mas fazia o seu melhor para não deixar o sentimento transparecer.
Fale com o autor