De laços e fitas
4 Capítulo 4
A manhã trouxe consigo raios de sol mais fortes do que de costume, a luz que entrava pela janela da sala acordou Turner no sofá. Os acontecimentos do dia anterior ainda perturbavam sua cabeça como vozes fantasmagóricas. Uma olhada rápida em direção ao quarto da filha revelou uma porta aberta e a cama arrumada. Seu olhar correu pela sala em busca de sua pequena. Ela não estava lá.
“Can-Can?”, chamou em voz alta. Não houve resposta. Por um instante, achou que isso poderia ser mais uma das brincadeiras da filha, logo começou a temer que fosse outra coisa. Gritou o nome da pônei de cristal mais uma vez. Quase caiu ao se erguer do sofá de mau jeito. Correu até o quarto para confirmar que ela não estiva lá, depois verificou o banheiro. Um desespero súbito cresceu em seu peito, Turner correu para a porta que dava para a rua e abriu-a abruptamente, preparando-se para gritar o nome da filha uma terceira vez. E encontrou sua pequena sentada no degrau que separava o batente da porta, da calçada. Usava seu cachecol e tinha um olhar perdido na rua, como se esperasse algo. Não deu atenção ao pai.
“Mein liebe! O que está fazendo?! Quase me matou de susto, achei que tinha sumido, por que não me respondeu?”
“Acha que mandariam a carta por um entregador especial? O carteiro só deixou as contas de novo...”, ela respondeu decepcionada. Dois envelopes de cobranças estavam jogados ao lado dela, no chão.
Turner encarou a filha. Sabia que sua mentira a deixaria mal, mas temia que a verdade lhe machucasse muito mais. Sentou-se ao lado dela, deu-lhe um beijo carinhoso no rosto e afagou sua crina ternamente. Can-Can encostou-se no pai, sentindo-se um pouco melhor.
“Acho que não vamos sair para trabalhar hoje. Não estou muito disposto”, o pai sussurrou desanimado.
“Dois dias sem trabalhar, tem certeza papa?”
“Tenho sim. Não se preocupe, conseguiremos algo amanhã.”
“Eu não quero passar o dia em casa...”, Can-Can disse num muxoxo.
“Onde gostaria de ir?”
“Se pudesse escolher, iria ver Sticks na padaria.”
Turner pensou por um momento. Era, como muitos, um pai coruja; permitia que a filha saísse sozinha apenas para ir à casa da Fraülein Balance porque esta ficava a apenas dois quarteirões de distância. A padaria onde a melhor amiga da filha vivia ficava muito mais longe, e se permitisse que Can-Can fosse lá sozinha, passaria o dia pensando em sua segurança.
“Se os pais de Sticks não se importarem, eu poderia deixar você passar o dia lá e buscá-la antes do pôr do sol”, sugeriu.
“Sim, sim! Eles me adoram, não vão se importar”, Can-Can disse com um enorme sorriso no rosto, seus pelos resplandeciam de animação enquanto abraçava o pai com força.
“Então está bem. Vamos comer alguma coisa e eu vou deixar você lá.”
*** *** ***
A caminhada foi rápida e silenciosa, Can-Can pensava em ver Sticks logo, enquanto Turner pensava em como parar de mentir para a filha. A pequena padaria já estava fechada quando chegaram lá; aos domingos ela abria somente por algumas horas no início da manhã e ao final da tarde. Turner dirigiu-se com a filha para uma porta lateral da edificação, que dava para uma escada que ia direto ao segundo andar. Bateu na porta três vezes e esperou. Após algum tempo, tornou a bater. Ouviu-se então o barulho de cascos que desciam desajeitados pela escada. A porta abriu devagar, revelando um pônei terrestre de pelos amarelos e crina castanha, seus cansados olhos azuis encaravam Turner com certa confusão. Devia estar dormindo até pouco tempo.
“Olá Herr padeiro!”, Can-Can disse, de súbito. O pai de Sticks sorriu ao ver a potra, achava engraçado quando ela o chamava assim. Seu olhar voltou ao unicórnio cinzento, dando-se conta de que aquele era o pai da pequena dançarina. Haviam conversado pouco durante os anos, não eram amigos, mas tinham uma certa relação respeitosa entre si.
“Can-Can... e Herr Turner. Desejam alguma coisa?”, a voz do padeiro era cansada e ele terminou a frase com um bocejo grave.
“Oh, é que Can-Can queria ver Sticks, e como estou de folga hoje, pensei em trazê-la aqui para visitar a amiga”, Turner respondeu.
“Mas é claro. Sticks está no quarto, Can-Can, pode subir”, o padeiro disse gentilmente. A potra de cristal passou por ele e subiu as escadas a galope. Turner ainda trocou algumas palavras amistosas com o pônei, pedindo desculpas adiantado se a filha fizesse alguma besteira. Disse que voltaria para buscá-la ao final da tarde e que traria uma bebida em agradecimento por deixar sua pequena passar o dia lá.
O padeiro gentil sorriu e despediu-se de Turner. Ao subir as escadas, o pônei amarelo encontrou a esposa olhando-o com uma expressão de desgosto no rosto.
“Ele só deixou a filha aqui pra ela comer da nossa comida”, a esposa anunciou com uma torção de focinho que demonstrava insatisfação extrema.
“Está falando da melhor amiga da sua filha, percebeu?”
“Aquela potra trabalha na rua. Ela dança”, a égua cuspiu a palavra como se tivesse gosto ruim.
“Algum problema com isso? Ela trabalha e a nossa filha também. Nossa filha vende pão, fim de papo”, o marido retrucou com um suspiro.
“Quer dizer que todas as vezes que aquele pônei não tiver comida pra alimentar a cria, nós vamos ter que alimentar? É isso Flour?!”, a voz da esposa se alterava devagar.
“Nós não. Eu! A padaria é minha, o negócio é meu. O dinheiro é meu. E eu faço o que quiser com o meu dinheiro. E seja razoável, égua, a pequena queria conversar com Sticks, não veio aqui ‘comer da nossa comida’.”
“Besteira!”, a égua bradou. Trotou raivosa para o quarto do casal. Foi seguida por Flour, que precisava mais do que nunca de sua cama. Sua esposa no fundo era uma pônei amável, mas era desconfiada demais e pensava que tudo deveria ter algum tipo intenção maligna. E o que poderia ser mais maligno que uma dupla de artistas de rua? Dois pôneis que não tem o que comer todos os dias e que apenas por um acaso do destino haviam se aproximado de sua família sem interesse algum que não fosse uma amizade entre potras e um respeito vago entre os pais.
Can-Can, no entanto, sabia que estava ali apenas por Sticks. E sabia também que a mãe da potra marrom não gostava dela. Havia mentido para o pai; mas em sua mente, havia sido só um pouquinho. Pois o pai de Sticks realmente a adorava. No entanto, naquele momento pouco importava o que a mãe da pônei terrestre dizia. A potra de cristal encontrava-se no quarto de sua princesa. Era um cubículo de paredes cor de rosa com uma janela que dava para a rua. O chão era coberto por um carpete avermelhado com desenhos de bichinhos. Uma casa de bonecas ficava num canto, era arrumada de forma primorosa e suas residentes – pequenas pôneis de pelúcia – tomavam chá ao redor de uma mesinha de plástico.
Quando entrou no quarto viu Sticks sentada na cama. Tinha um livro entre os cascos. No rosto apoiava-se, sobre o focinho, um par de óculos com armação bem leve e dourada. Can-can nunca o vira. Ao perceber a visitante na porta, Sticks tomou um susto, atrapalhou-se em segurar o livro e retirar o acessório do rosto. Sua face enrubesceu com o descuido.
“Princesa?”, Can-Can perguntou com um risinho ao ver a potra quase cair da cama.
“Can-Can... Não sabia que vinha aqui hoje”, Sticks respondeu sem jeito, e sem pensar direito (afinal, nunca sabia ao certo quando a amiga apareceria). Usava óculos para leitura há alguns meses, mas tinha vergonha deles por achar que não lhe caíam bem. Temia que a dançarina estivesse rindo dos óculos. Desceu da cama e trotou devagar em direção à porta para fechá-la. Can-Can a cumprimentou, encostando o próprio focinho no dela, fazendo o rubor da princesa aumentar. “Não me disse que usava óculos”, a potra rubra murmurou.
“Ah, são só pra leitura. Não gosto de usar.”
“Achei bonitinhos”, Can-Can comentou e dirigiu-se à mesa de cabeceira, observou os óculos mais de perto. Eram bem simples, porém não eram feios.
“Bem... acha mesmo bonitinhos?”, Sticks murmurou ao se aproximar.
“Claro, e ficam mais bonitinhos no seu rosto,” a potra rubra disse, pegou os óculos gentilmente entre seus dentes e colocou-os no focinho da princesa com cuidado. “Por que não me mostra o que estava lendo?”
“Histórias sobre dragões, você sabe que são minhas preferidas!”, Sticks retrucou, subiu na cama num pulo e tomou o livro de volta em seus cascos. “Este é sobre um dragão que se apaixona por uma pônei. É um amor impossível. Se eles ficarem juntos no final, vai estragar todo o livro.”
“Uma princesa que não acredita no amor? Isso existe mesmo?”, Can-Can perguntou e subiu na cama ao lado da potra castanha.
“Não seja burra, como acha que o amor vai dar certo entre um dragão e uma pônei?!”
“O amor faz as coisas impossíveis acontecerem”, Can-Can retrucou e beijou o rosto de Sticks com carinho.
“Só nos contos de fadas, sua boba”, Sticks riu. Deitou-se de bruços na cama, o livro aberto em frente ao seu rosto.
“Por que não lê um pouco para mim?”, a potra de cristal sugeriu, deitando-se sobre os lençóis ao lado da namorada. Encostou o corpo contra o dela, sentindo seu calor. Aconchegou-se fechando os olhos e apoiou a cabeça no pescoço da princesa, que sorriu. A pônei terrestre começou a ler a história, mas Can-Can mal prestava atenção. Estava concentrada na respiração de Sticks – era calma e ritmada. Estarem próximas daquele jeito a deixava nas nuvens.
“Ei, não vai dormir aí, vai?”, Sticks perguntou de súbito. A pônei de cristal limitou-se a balbuciar algo ininteligível e aconchegar-se mais. A princesa encostou o focinho contra a cabeça da namorada e inspirou profundamente, sentindo o cheiro doce da crina prateada. Logo fuçou-lhe as orelhas, que se moveram instintivamente como para afastar um mosquito.
Can-Can riu baixinho ao sentir a namorada brincando com sua orelha esquerda. Abriu os olhos e ergueu a cabeça, aproximando os próprios lábios dos de Sticks.
O beijo foi leve e apaixonado, jovem e inocente, fruto de um primeiro amor. Quando os rostos das duas se afastaram, ambas tinham a respiração alterada. Can-Can arfava, seu hálito quente cobria o rosto de Sticks com um inebriante cheiro de hortelã. “Eu acho que te amo, sabia?”, a princesa perguntou serena. Passou um casco pela crina da potra rubra, brincando com ela. Olhavam-se nos olhos – ambos os pares tinham um leve reluzir satisfeito com a situação. A dançarina aproximou o rosto de volta para os lábios de Sticks, dando-lhe um selinho carinhoso. “Apenas acha? Que pena...”, a potra rubra sibilou, arrancando uma risadinha da companheira. Os pelos da potra rubra brilharam muito intensamente; sua felicidade poucas vezes havia sido tão grande.
Can-Can virou na cama, deitando-se com a barriga para cima, estendeu os cascos em direção a Sticks, passando-os por seu pescoço num abraço amoroso que engatou as duas de volta num beijo romântico. Seus rostos se afastaram mais uma vez. Mas continuaram abraçadas.
“Como vamos falar para eles?”, Can-Can se referia aos pais de ambas. Sabiam que não era algo muito comum duas potras namorarem, pois não conheciam outro casal como elas. Aliado a isso, existia o fato de terem mencionado a possibilidade de um namoro entre duas éguas para alguns dos amigos e a maioria deles ter tratado aquilo como algo – para dizer o mínimo – anormal.
“Eu não sei”, Sticks respondeu baixinho, ao ouvido da namorada. Tinha um tom inseguro na voz, o que era incomum. “Mama não vai gostar nada.”
“Ela não gosta de nada...”
“Também não é assim... vocês duas só não se conhecem muito bem.”
“Conheço você há anos. Conheço ela há anos. Quando brincávamos pela calçada na frente da padaria ela ficava olhando de cara feia. Nunca gostou de mim”, a potra rubra lamentou-se, tinha na voz um misto de irritação e decepção. Se não fosse mãe de Sticks, pouco ligaria se a esposa do padeiro não gostasse dela. Infelizmente aquela égua era, extraoficialmente, sua sogra.
“Vai ficar fazendo drama? Você não é assim”, Sticks retrucou, um de seus cascos ainda brincava com a crina de Can-Can. “Lembro de uma vez ter visto um pônei desdenhar da sua dança na praça, quando ele se virou pra ir embora, você mostrou a língua pra ele.”
“Não posso mostrar a língua para sua mama, posso?”, Can-Can brincou. Lembrou-se da ocasião mencionada: o pônei estranho havia dito que já vira dançarinas muito melhores e a potra rubra duvidara disso com uma altivez que somente se via nela quando o assunto discutido era dançar.
“Se mostrasse a língua pra ela, aposto que ela ia ficar uma fera”, Sticks sussurrou num tom muito calmo.
“Ela sempre está uma fera”, Can-Can afirmou.
Sticks revirou os olhos e continuou, “O que acha que Herr Turner vai dizer?”
“Papa? Ele sempre me apoia em tudo o que faço”, a potra rubra sorriu ao dizer isso. Seu pai era o pônei mais maravilhoso que conhecia, era gentil, era justo, acreditava nela e a amava muito. Tinha total confiança no unicórnio cinzento. “E Herr padeiro?”
Sticks ficou pensativa por um momento. Seu pai era carinhoso, de fato. Mas por vezes era explosivo e gritava bastante com a esposa e a filha. E nunca havia conversado com a potra castanha sobre namoros; no fundo, a princesa tinha medo de alguma possível reação do pai. Por fim disse um, “Eu não sei”, com a voz quase sumida.
“O que vamos fazer se eles não aceitarem?”
“Você está fazendo todas as perguntas difíceis hoje...”, Sticks falou aborrecida. Não gostava de não saber as respostas para as perguntas que lhe eram feitas. Sentia-se burra.
Can-Can desculpou-se com mais um beijo cheio de carinho nos lábios da potra castanha. “Vamos esquecer isso e aproveitar o dia, então?”, perguntou com um suspiro.
Sticks concordou com um leve aceno de cabeça. “Devo continuar a ler pra você?”, perguntou um pouco mais contente.
Can-Can provocou, encostando o focinho contra o da companheira e fazendo-a enrubescer – ao mesmo tempo, seu próprio rosto se aquecia, apenas não se podia ver o rubor nele. Respondeu, “Se quiser, fique à vontade”.
“Sua potra boba”, Sticks sussurrou revirando os olhos.
O dia das duas potras foi simples: permaneceram lado a lado. Deitadas, falavam sobre variados assuntos de suas vidas. A princesa mencionou sobre como quase havia queimado uma das patas no forno da padaria; a dançarina falava orgulhosa de sua belíssima apresentação no Grand Theatre. Aproveitaram a companhia uma da outra como há muito tempo não faziam. Sticks possuía uma vitrola no quarto, ficava no canto oposto à casa de bonecas. Após colocar um disco no aparelho, uma melodia veloz e dançante começou a tocar bem baixinha; então dançaram a tarde toda. Mas dançavam em cima da cama de Sticks, para que o som de seus cascos não perturbasse o sono do padeiro que dormia no quarto do outro lado do apartamento.
O sol começava a se pôr, as duas pequenas pôneis arfavam de cansaço no colchão após tanto dançarem. Sorriam a todo momento. Sticks usara seus óculos o dia inteiro; Can-Can achava que a deixava com cara de espertinha, e que lhe cabia tão bem no rosto que a fazia mais bonita, realçando a cor esmeralda em seus olhos.
“Se nós já fôssemos adultas... não precisaríamos dar satisfações pra eles...”, Sticks deixou escapar em dado momento, com a respiração ainda vacilante. “Seria só você e eu, sem perturbações. Eu queria ser mais velha. Queria que o tempo passasse mais rápido.”
Can-Can ficou calada. No fundo sentia que a namorada dizia algum tipo de bobagem. Há muito tempo Turner lhe dissera que conforme um pônei cresce, ele adquire maiores responsabilidades; e a jovem dançarina já possuía muitas. Trabalhava quase todos os dias, e o dia todo. Apesar de amar dançar, existia uma enorme diferença entre dançar por trabalho e por prazer, e nem sempre se podia juntar os dois. No fim dos dias, sempre estava muito cansada. Quando tinha seus momentos de lazer, quando matava aula com os potros do bairro, ou quando corria pela calçada com Sticks e podia se sentir como uma potrinha, nesses momentos encontrava uma felicidade que jamais gostaria de abandonar. Os jovens quatorze anos da potra rubra eram cheios de preocupações de pôneis adultos; precisava trabalhar, ajudar o pai a pagar contas nos dias certos, poupar dinheiro para emergências, tinha que administrar a própria vida. E recentemente uma série de pensamentos sombrios começavam a se formar em sua pequena mente sonhadora. O que faria se o pai ficasse doente demais para trabalhar? Os anos se passavam e suas gripes pareciam mais fortes, sua tosse era cada vez mais violenta, seus acessos mais comuns e duradouros. Iria às praças sozinha? Mas como dançaria sem um acompanhamento musical? E o deixaria sozinho em casa, estando doente? Can-Can se dava conta do quanto as coisas podiam piorar com o passar do tempo, e ouvir sua princesa dizendo que gostaria que ele passasse logo a fez pensar que a namorada não sabia muito da vida. Mesmo que trabalhasse na padaria durante as manhãs, a potra marrom parecia não se dar conta de como seria difícil para as duas se virarem sozinhas, tampouco parecia entender que deveria aproveitar ao máximo a infância que ainda tinha.
“Se pudesse escolher, eu ia preferir ficar aqui para sempre”, a potra rubra disse, sua voz não era mais que um sussurro vago. Seus pelos já não mais brilhavam como no início da tarde.
“Aqui?”, Sticks perguntou confusa.
“Eu poderia viver como tenho vivido até agora para sempre. Dançar nas praças. Viver com o papa. Beijar você. Não mudaria nada, se pudesse. Mudanças me assustam”, Can-Can murmurou. Deitada, encarava o teto do quarto, suas palavras tinham ao fundo um certo tom de temor que Sticks não era capaz de compreender.
A potra castanha refletiu um pouco consigo mesma. Não se recordava de ver a namorada falar daquela forma em outra ocasião. Ficou preocupada e disse, “Tem algo que quer me contar, Can-Can?”
“Papa parece ficar cada vez mais doente...”
“Por que não foram a um médico?”
“Nós fomos. Herr doktor passou uns exames para ele. Mas não podemos pagar”, a potra rubra disse melancólica.
Sticks não sabia o que dizer para a namorada, tampouco conseguia imaginar uma forma de ajudar. O pai da dançarina, apesar de ter uma saúde frágil, sempre se mostrara em boa forma. A princesa jamais o vira tossindo; apenas conhecia seu estado pelas palavras da potra rubra, que mencionava seus acessos de forma esporádica. Triste coisa, ambas podiam apenas torcer pelo melhor.
“Ei...”, Can-Can chamou a atenção da pônei terrestre.
“Hum?”
“Eu vim aqui hoje para esquecer coisas como essa.”
Sticks olhou para o rosto da pônei de cristal; sua expressão ainda revelava certo pesar. Num piscar de olhos, a pônei marrom sentou-se sobre a barriga da parceira, olhando-a nos olhos com doçura. Arqueando o próprio corpo sobre o de Can-Can, Sticks aproximou os lábios de ambas novamente. “Eu posso fazer você esquecer essas coisas”, sussurrou pouco antes de beijar-lhe.
Quando os pensamentos temerosos de Can-Can começavam a dissipar-se frente aos lábios da companheira, houve um grito. Foi rápido, estridente, um misto de pavor e raiva, incompreensão e desgosto, tudo isso junto num único som produzido por uma voz furiosa. A esposa do padeiro, prostrada na porta do quarto, olhava boquiaberta sua filha beijando outra potra. A consciência da mãe debatera-se para compreender as ações da filha, e não conseguindo chegar a uma resposta, gritara. A mãe de Sticks, sempre desconfiada, tinha em mente que a amizade da filha com a dançarina não poderia trazer nada de bom. Encontrar aquela cena fez apenas com que sua desconfiança fosse legitimada. Naquele pequeno instante no qual via os lábios das duas se tocarem, pensava que sua pequena fora transformada em uma aberração, e que a dançarina era — se não algo pior — um demônio.
As duas pôneis na cama mal perceberam o passar do dia. Divertiram-se, brincaram, dançaram, namoraram. Aconteceu que o sol já estava se pondo, Turner havia aparecido para buscar a filha e trouxera consigo um vinho – um vinho barato, de péssima qualidade, o único pelo qual podia pagar – como havia prometido. Herr padeiro o convidou para entrar, pretendia que o flautista ficasse para o jantar. Enquanto os dois garanhões conversavam na sala do apartamento, a esposa do padeiro – à contragosto – foi avisar as pequenas que jantariam todos juntos naquela noite; e assim havia encontrado a cena que a perturbaria por muitos e muitos dias. No momento em que ouviu a esposa gritar, a voz do padeiro surgiu prontamente, vinda da sala, perguntando o que ocorrera. A égua respondeu com outro grito, “Minha filha!”, e não se sabia se gritava para repreender Sticks, ou por temer que de alguma forma Can-Can estivesse fazendo mal à potra castanha. Talvez a preocupação, talvez a fúria, algo deu à mãe de Sticks rapidez e força incomuns, a pequena pônei marrom mal reconheceu a mãe quando esta a puxou para fora da cama, mordendo sua orelha direita, num piscar de olhos.
Can-Can permaneceu imóvel. O choque de serem descobertas daquela forma a deixou sem reação. Sentia vergonha e nem sabia direito o porquê. Um grito sofrido da namorada que era levada pela orelha para fora do quarto a fez levantar-se e descer da cama. Neste momento a esposa do padeiro retornava ao quarto, suas narinas inflavam numa respiração raivosa e assustadora, seus olhos negros fuzilaram a potra rubra; quando deu o primeiro passo em direção à dançarina, parecia que um rinoceronte havia entrado no recinto; e gritava, gritava tanto que os ouvidos de Can-Can já pareciam não conseguir ouvir. Na verdade, a potra tinha sua consciência presa numa única ação: chamar a si mesma de burra. Burra, burra, burra, burra, burra, a palavra martelava em sua cabeça. Era sorte a pequena ter entrado nesse estado de “introspecção depreciativa”, pois a senhora Flour a xingava de forma muito pior. Um casco furioso se precipitou na face direita da jovem dançarina. Ela me bateu, Can-Can pensou, dando-se conta da dor que fez seu rosto arder. Não chegou a discernir muito bem tudo o que houve ao seu redor a partir daquele momento. Soube que foi levada à sala com dentes em sua orelha, assim como Sticks. Lá, ouviu a voz do próprio pai, que tinha um tom pouco amistoso discutindo com o padeiro. Sticks chorava num canto da sala, seus soluços aumentavam e diminuíam conforme a voz da mãe se elevava para anunciar o desgosto que sentia em gritos que beiravam o ridículo. O rosto de Can-Can ainda ardia, seu olhar ficara perdido no espaço, via tudo e não percebia nada. Sua mente sonhadora e inquisitiva estava presa numa tormenta de sensações que não conseguia computar com precisão. Estava envergonhada, triste e preocupada com Sticks, mas também estava com raiva, não entendia por que havia apanhado. Havia apanhado por gostar de uma pônei? Isso era possível? Sabia que não era algo comum, mas realmente merecia aquele casco no rosto por causa disso? Nunca havia apanhado até aquele dia. E havia apanhado de uma pônei que não era sequer sua parente. A potra rubra mal percebia, mas a voz do próprio pai começava a alterar-se, ele brigava com Herr padeiro, discutiam de forma acalorada. Turner forçava sua voz, fazendo frente ao som de trovão que o padeiro expelia pela boca. O flautista nunca antes havia torcido tanto para não ter um acesso de tosse como naquele momento. A senhora Flour aproximou-se de Can-Can mais uma vez e empurrou-a para mais perto do pai. O toque do casco fez com que a raiva da jovem dançarina aflorasse. Enquanto era forçada para Turner da forma menos gentil possível, exclamou:
“Schlampe!”
Por um segundo os pôneis no recinto não puderam acreditar que a potra rubra acabara de chamar a mãe de Sticks de cadela. A senhora Flour ficou atônita. O padeiro tinha uma expressão severa no rosto que ia do flautista à dançarina, e de volta da dançarina ao flautista. Os soluços de Sticks ainda podiam ser ouvidos ao fundo da sala. A égua precipitou-se de volta em direção à potra que começava a abrir a boca mais uma vez para lançar outro impropério.
Num segundo, uma aura de magia esmeraldina surgiu em volta do focinho de Can-Can, silenciando-a antes que pudesse dizer mais alguma besteira. O chifre de Turner brilhava em mesma cor e intensidade que a focinheira improvisada que havia colocado na filha; o garanhão interpôs-se entre ela e a égua que a ameaçava.
“Se tocar nela de novo, vai se arrepender!”, disse para a esposa do padeiro. O rosto do unicórnio era tão sério que não havia qualquer dúvida de que estivesse fazendo mesmo algum tipo de ameaça. O padeiro, por sua vez, vendo o garanhão gritar com sua esposa, moveu-se para encarar Turner de perto.
“Acho melhor vocês saírem daqui”, a voz de Flour trovejou. Tinha um casco apoiado no peito de Turner. “Agora!”
Turner virou-se rapidamente e trotou para a escada, seus passos ressoavam no assoalho de forma tempestuosa. Can-Can tinha os olhos marejados e bufava. Ainda amordaçada pela magia do pai, tentava voltar a gritar com a égua que havia lhe machucado. Porém lutava em vão contra a magia do pai, que a puxava para a escada pelo focinho. Quanto mais resistia, mais ele forçava. Logo desistiu do cabo de guerra, pois começava a machucar seu rosto. O unicórnio escancarou a porta que dava para a rua, acelerou suas passadas e continuou puxando a filha. Quando Can-Can tentava olhar para trás em direção à padaria, Turner fazia questão de puxar-lhe o rosto de volta para a frente, mantendo o olhar dela sempre para o caminho que estavam seguindo. Conforme a raiva se amainava, ele percebia o quão cansado tudo aquilo o havia deixado, pensava apenas em chegar em casa. Precisava se deitar. Sua filha, no entanto, começava a soluçar baixinho pela mordaça esmeralda que prendia sua boca. Neste momento Can-Can já se encontrava triste, não raivosa. Seus pelos eram tão opacos que não havia vestígio algum de que fosse uma pônei de cristal. Sentia-se humilhada, maltratada e injustiçada. E o fato de ser levada a força para casa com uma focinheira mágica não ajudava em nada para que se sentisse melhor. Tinha vontade de cair em prantos, de gritar sua frustração da forma mais miserável que conseguisse. Mas não queria chamar ainda mais atenção para si; reprimia o choro o melhor que conseguia. No entanto, qualquer pônei que olhasse naqueles olhos ambarinos saberia o quão desolada ela estava.
*** *** ***
Chegar em casa foi uma benção. Ao fechar a porta atrás de si Turner desfez a magia que se apoderava do rosto da filha. Can-Can fungava, ainda tentando segurar as lágrimas que apareciam em suas pálpebras.
“Papa...”, balbuciou melindrosa.
“Por favor. Agora não”, Turner respondeu enquanto se encaminhava para o sofá. Deixou a filha parada onde estava.
A potra rubra não sabia o que dizer ao pai, queria que ele lhe dissesse algo reconfortante. Precisava dele.
O pai, sentado, encostou um casco na testa. Sua cabeça latejava – resultado do estresse de brigar com o casal de pôneis somado ao fato de ter passado o percurso inteiro da padaria até o lar mantendo a filha quieta com magia. Limitou-se a dizer, “Vá para sua cama. Eu levo o jantar daqui a pouco”.
Can-Can atendeu o pedido do pai. Trotou devagar em direção ao quarto, tentando não derramar lágrimas. E trotou com a cabeça erguida, pois tinha receio de que o pai lhe chamasse atenção de novo por olhar para o chão enquanto caminhava. No pequeno percurso de um cômodo ao outro ainda pôde ouvir um tossido esganiçado do pai. Olhou para ele pouco antes de fechar a porta. Turner suava e parecia febril, sua tosse era baixa, porém constante.
Chamou-se de burra mentalmente mais uma vez. Por sua culpa o pai estava passando mal. Em seguida a este pensamento, passou por sua cabeça a humilhação que ele a havia feito passar, e, buscando lembranças entre os acontecimentos nublados daquela tarde, não se recordava do pai argumentar em defesa do namoro das duas potras em nenhum momento. Sentiu uma pontada de raiva dele. Can-Can deitou-se na cama, abraçou seu travesseiro e, afundando o rosto nele, se deixou chorar.
Turner manteve-se no sofá. Sua mente girava, ainda não conseguira entender tudo o que ocorrera. Num momento, um gole de vinho ruim descia pela sua garganta, no outro, uma égua batera em Can-Can e a acusara de abusar de Sticks – o que era uma grande calúnia.
Custava a acreditar no que acontecera. Entre soluços a potra castanha deixou escapar que as duas namoravam há algum tempo. A notícia causou um estranhamento em ambos os pais, que se entreolharam preocupados. Foi quando senhora Flour reapareceu no recinto, puxando Can-Can pela orelha. O flautista percebeu que a filha tinha um machucado na face. A partir daí tudo foi de mal a pior. Questionou o padeiro sobre que direito a esposa dele achava que possuía de bater nos filhotes alheios. Despois debatiam em quem colocar a culpa sobre a “relação” na qual as duas estavam envolvidas. A senhora Flour culpara Can-Can de ser uma dançarina de rua vagabunda; Turner defendera a filha e acusara a mãe de Sticks; o padeiro ouvira tudo o que era dito, defendera sua esposa e repreendera a filha que chorava ao fundo da sala.
“O que eu faço?”, perguntou para si mesmo. Não podia deixar a noite passar e no dia seguinte fingir que nada aconteceu. Mas o que diria a sua filha? Ele não sabia. Duas potras... isso não é normal... é?, a voz em sua cabeça questionava.
O jantar daquela noite não era mais que um punhado de cenouras; Turner colocou três delas em uma tigela e respirou fundo. Tinha que encarar sua pequena. Trotou até a porta fechada do quarto o mais lentamente que podia e estancou ali como se esperasse algo – talvez coragem. Quando a maçaneta baixou, envolta em uma aura esverdeada, Turner respirou fundo mais uma vez e entrou. Can-Can estava deitada de lado, abraçava o travesseiro com força; tinha a respiração entrecortada e soluçava baixinho. Olhou para o pai de esguelha e escondeu o rosto sob o travesseiro.
“Mein liebe, trouxe seu jantar”, ele disse levitando a tigela de cenouras para a cama.
“Não estou com fome”, a voz de Can-Can surgiu fraca por debaixo travesseiro. Ouvi-la falar daquele jeito machucou-o profundamente. O unicórnio deixou a tigela em cima da estante e foi até a cama. Ficou olhando para os pelos opacos de Can-Can por alguns instantes. Finalmente, deitou-se ao lado dela. Abraçou-a com carinho, passando os cascos por seus lados e encostando o peito em suas costas. Permaneceu em silêncio por mais alguns instantes, então sussurrou, “Por que não fala um pouco comigo?”.
Can-Can retirou o rosto de seu esconderijo e apoiou a cabeça por cima do travesseiro. Seus olhos estavam avermelhados de tanto chorar. “Eu ia contar, papa. Eu juro que ia. Só não sabia como”, ela justificou-se, triste.
“Sei que você ia contar, eu sei”, Turner acalentou-a.
Sempre fora um pai ciumento, mantinha um olhar vigilante nos potros que se aproximavam dela, e saber que sua filha mantinha um namoro escondido por sabe-se-lá-quanto-tempo o fez sentir-se um tanto traído; ao mesmo tempo, saber que ela namorava uma potra o deixou completamente sem chão.
“Eu fiz algo ruim? Ou errado?”, ela perguntou, sua voz quase sumira ao falar. Turner apertou o abraço contra a filha, não sabia ao certo como deveria responder.
“Você gosta da Sticks... de verdade?”, ele perguntou, enfim.
“Sim. Muito”, ela respondeu melancólica.
“Então você estava apenas... sendo você mesma.”
Turner não teve coragem de dizer que a filha não fizera nada de errado. No fundo não era capaz de administrar o fato de Can-Can ter se envolvido com uma potra.
“Quer dizer que não tem problema eu gostar dela?”
“Não há problema em gostar de alguém, a não ser que seja alguém ruim”, Turner sussurrou mais uma resposta vaga no ouvido da filha.
Can-Can sentia que o pai queria lhe ajudar de alguma forma, no entanto parecia fazer isso de uma forma esquisita, não respondendo suas perguntas diretamente, coisa que era incomum.
“Papa, você está bravo comigo?”
Turner sentiu como se uma adaga atravessasse seu peito. A filha desconfiava dele, tamanha era sua inabilidade em ajudá-la quando ela mais precisava. Não era capaz de apoiar Can-Can, tampouco conseguia repreendê-la. Nem coração nem mente ajudavam o garanhão a dizer algo para sua pequena. Um silêncio lúgubre tomou conta do quarto. Só era possível ouvir o respirar dos dois pôneis deitados.
“Eu sabia! Você está bravo comigo. Eu escondi algo de você, algo importante. E não só escondi o namoro como também escondi o namoro com uma potra. Agora você acha que não sou normal, ou que sou uma vagabunda, como a mama da Sticks disse. Aquela schlampe. Ela não sabe de nada. Você também não sabe de nada. Por que eu não posso gostar dela? Ela gosta de mim, qual o problema com isso?”, as palavras da potra atropelavam-se umas nas outras enquanto a jovem tentava evadir-se do abraço do pai para sair da cama. Novas lágrimas já surgiam no rosto de Can-Can. Tudo aquilo chocou Turner, que apenas segurou sua filha com força, esperando ela parar de escoicear. Can-Can logo ficou sem forças. Passado algum tempo, apenas chorava.
“Eu amo você. E nunca ficaria bravo de verdade com você. Nunca”, o pai sussurrou-lhe ao ouvido. “Eu amo você, e não há nada capaz de mudar isso.”
Turner aconchegou a filha contra o próprio peito e ninou-a. Can-Can ainda lacrimejava ao adormecer.
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