De Volta Para Você
32 Bônus - Tripé
Notas iniciais
O tempo passa muito rápido, ainda mais quando se trata de filhos.
Isso era uma das coisas que eu havia aprendido: Aproveitar o momento, o agora, porque isso é a única coisa que nós temos.
Mas é claro que, mesmo quando a gente curte cada segundinho, vivencia cada experiência e se delicia com as descobertas que a maternidade nos traz, ainda resta uma ponta de saudade.
Não aquela saudade que culpa e aponta onde deixamos de reparar, mas aquela saudade gostosa que deixa um leve gostinho de “querer vivenciar de novo” na boca.
Era assim que eu me sentia ao olhar para meus dois filhos e ver como haviam crescido tão depressa.
Benjamin já beirava os sete anos, enquanto Théo havia acabado de completar cinco.
Os dois eram muito parecidos. Ambos tinham o cabelo chocolate, a pele nevada e os olhos castanhos mais lindos que eu já vira. Era uma cor única de avelã.
Benjamin, era um pouco mais alto e magro que o irmão —talvez por conta da idade—, seu cabelo era mais grande no alto da cabeça do que nos lados e por isso, ele vivia penteado para o lado.
Théo, mais baixinho e levemente gordinho, era dono de fios totalmente desfiados e desorganizados. O corte estilo “surfista” o deixava ainda mais fofo.
Ao todo, eles eram muito parecido comigo e claro, aquilo me deixava muito orgulhosa.
Tínhamos o mesmo nariz arrebitado, a mesma boca carnuda e bochechas cheias.
Eles eram a melhor coisa que já haviam me acontecido e o amor que eu nutria pelos dois, era fora do comum, impossível de ser descrito. Assim como o amor que sentia pelo pai deles.
Depois que os meninos nasceram e nossa família fora formada, eu me apaixonara ainda mais por Edward.
Pelo marido carinhoso, pelo pai presente e amoroso, pela pessoa maravilhosa que ele era.
Lembro de ter ouvido uma vez que um tripé oferece um equilíbrio máximo e com ele é quase impossível que o que esteja apoiado caia.
O vento bate, dá uma balançada, mas não cai.
Era exatamente assim que eu me sentia ao olhar para eles, meus caras, meus amores.
Estavam os três, sentados na mesa, comendo, conversando e rindo. Uma felicidade pura e imaculada marcando os rostos.
Eles eram o meu tripé. Toda vez que o vento soprava forte demais e eu quase perdia o equilíbrio eles apareciam, para me lembrar de coisas que eu nem lembrava mais. Eram eles que me faziam acreditar em um mundo melhor, que o sempre é a gente quem faz e que eu os tinha de verdade.
Toda vez que o barco quase afundava, eu quase caia e o equilíbrio ameaçava ir embora, chegava um desenho, um beijo, um abraço apertado, um buquê de flores. Eles me salvavam. E me lembravam que a nossa família vale mais do que tudo.
—O Théo está dando bacon para o Heron de novo, pai. – a voz de Benjamin soou tediosa. Maneado a cabeça, vi Edward encarar nosso caçula que sorria sapeca.
—Théo... – Edward começou a repreendê-lo, mas a latida de Heron o interrompeu.
Era sempre assim, Heron sempre tomava as dores dos meninos, sempre nos impedia de dar broncas.
—Dei só um pedacinho, papai. – encolhendo os ombros, Théo alegou.
—Ele não pode comer isso, filho. – Edward proferiu pacientemente. —Papai já te explicou várias vezes.
—Ok, não vou dar mais. – prometeu antes de bebericar o suco de laranja.
Aproveitando o breve silêncio que pairou entre eles, adentrei na cozinha.
—Bom dia, meninos. – desejei atraindo a atenção dos três. Me aproximando da mesa, beijei a cabeça de Théo e afaguei a Heron, que permaneceu sentado esperando receber mais um pedaço sorrateiro de comida.
—Bom dia mamãe. – Benjamin respondeu antes de eu beijá-lo no rosto.
Então, minha atenção se voltou para Edward. Ele me olhava com um sorrisinho no canto da boca. Mordendo o canto do lábio inferior, fui em sua direção.
—Bom dia. – sua voz saiu mais baixa, sorrindo, tomei seu rosto entre as mãos.
Abaixei a cabeça e deixei que nossas bocas se encontrassem em um beijo rápido, contudo, completamente envolvente.
—Bom dia, amor. – respondi beijando-o mais uma vez e então, me sentando em frente à mesa.
Benjamin e Théo emendaram uma conversa animada sobre futebol e logo puxaram o pai para comentar também. Quieta eu não me intrometi. Não tinha nada mais encantador que ver os três juntos, conversando de modo tão cumplice.
Disseram uma vez que a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena, e quer saber? É isso mesmo.
Valeu cada milésimo de segundo com eles. Cada noite mal dormida. Cada blusa suja de leite. Cada fralda trocada.
Soltei um longo suspiro caminhando pela grama do nosso comprido jardim. Muita coisa havia mudado, pouco lembrava do antigo jardim da casa que um dia fora apenas de Edward.
Nós reformamos, unimos os dois terrenos, as duas casas e ganhamos uma bela propriedade de pedras brancas com um longo lago particular.
Edward que estava sentado na sombra de uma árvore, me acomodou em seu colo, beijando meu rosto e então, afundando o rosto na volta do meu pescoço.
—Onde estão os meninos? – perguntou beijando minha pele sensível.
—Procurando a bola de futebol, disseram que vocês vão jogar uma partida. – a risada de Edward fez sua garganta vibrar.
Erguendo o rosto, ele me olhou.
—É nós vamos sim. – confirmou, inclinando Edward beijou meu queixo.
—Eles estão animados para ir dormir na casa dos meus. – contei enquanto acariciava seu rosto. Era incrível como Edward continuava lindo.
—Eu também estou. – sorriu malicioso. —Nós dois, sozinhos, a noite toda.... – proferiu com a voz rouca mordendo meu lábio inferior de um modo extremamente provocante.
—Mm, me parece uma combinação muito bom. – murmurei abraçando seu pescoço. Minha boca, roçou na sua.
—Muito boa. – Edward concordou antes de acabar com a distância entre nossas bocas.
Minhas mãos subiram para seu cabelo, e as suas desceram para minha cintura. Edward me beijava profundamente, sua língua atiçando a minha.
—Pai! – o chamado de Théo fez com que nós dois nos separássemos. Respirando ofegante, recostei a testa em seu ombro, sem deixar, é claro, de rir.
Isso sempre acontecia.
—Tio Emm está no telefone. – informou enquanto caminhava em nossa direção, a bola de futebol entre os braços. Benjamin vinha logo atrás com Heron a seu enlaço.
Edward fez uma careta, deixando claro que não queria se afastar.
—Já volto, amor. – beijou meu rosto antes de se levantar.
—Ok. Mande um beijo para ele, Alice e Mia. – pedi recebendo seu aceno de cabeça.
Emmet e Alice, estavam melhor do que nunca, à espera do segundo filho. A gravidez descoberta a pouco tempo causara rebuliço em toda a família, inclusive em Mia que amara a ideia de ter um irmão, ou irmã.
Mia, a cada dia que passava, ficava mais linda. Seus olhos ainda eram de um azul cristalino, o cabelo, porém, clareara bastante caindo em um tom de mel lindo.
Ela ainda era muito parecida com Emmet, mas tinha a doçura a meiguice de Alice. Era um amor de menina. Era a minha princesinha.
—Mamãe. – parando a minha frente, Théo me chamou.
—Oi meu amor. – respondi segurando uma de suas mãozinhas.
—Passa protetor em mim? – pediu chacoalhando o frasco amarelo. Sorrindo, o puxei para meu colo. Ele soltou um risinho, deixando a bola cair na grama ao nosso lado.
—Claro que a mamãe passa. – beijando seu rosto, puxei sua camiseta. —E o senhor nem tente escapar, Benjamin. – disse quando notei que ele pretendia sair de fininho. —Vai passar protetor também.
Reclamando Benjamin se sentou ao meu lado, espalhando o creme pelas costas de Théo ouvi o longo discurso sobre como o protetor era grudento.
—Ah, mamãe, eu não gosto de passar isso. – cruzou os braços, emburrado.
—Mas tem que passar, Ben. – murmurei enquanto cobria o rosto de Théo com protetor. —Pronto amor, já terminei com você. – Théo abriu um sorriso quando murmurei, esticando o pescoço me deu um longo e carinhoso selinho.
—Obrigado mamãe. – mau agradeceu e já começou a correr atrás da bola, pelo jardim, com Heron.
—Sua vez. – disse esticando os braços para Benjamin.
Rolou os olhos e se sentou no meu colo a contragosto. Retirando sua camiseta, senti um leve aperto no peito ao constatar que Benjamin já não gostava de ficar em meu colo, de ser tratado como um menininho como Théo gostava.
Respirando fundo espalhei o creme por seus braços, costas, peito e por fim o rosto.
—Já terminou? – ele perguntou me encarando.
Tampando o frasco do produto, assenti com a cabeça.
—Já sim.
Benjamin ficou pensativo por um tempo.
—E o meu beijo? – então questionou, me fazendo abrir um sorriso gigante.
—Awn, meu amor! – exclamei após lhe dar um selinho, assim como havia feito com Théo, pegando-o em um abraço apertado.
Não, Benjamin ainda era o meu menininho. E seria por um bom tempo, para sempre talvez.
Edward logo voltou para o jardim e após eu lhe cobrir de protetor, ele fora finalmente jogar bola com os meninos, e Heron, é claro.
Ouvi dizer que a nossa caminhada, para estar completa, precisa de três coisas: uma árvore, um livro e um filho. Mas isso, dentro de tudo o que a gente faz, não resume quase nada.
A gente Vive, com letra maiúscula, tudo o que a vida oferece. As dores serão verdadeiras, mas as alegrias também. A gente vê o pôr-do-sol, se lambuza comendo panqueca, sorri ao esmagar biscoitinhos da sorte e ler as frases curtas. Viramos noite conversando, cantamos alto no chuveiro e em frente ao espelho, andamos sem ter o que pensar pela orla da praia. A gente toma banho de chuva, lê em voz alta o nosso texto favorito.
A gente perde pessoas, se despede querendo ficar, segue querendo parar no tempo e congelar o momento. Descobre que saudade só existe no nosso idioma e por isso mesmo dói mais por aqui.
A gente se surpreende, se decepciona, se arrisca e cai, se arrisca e voa.
A gente vive coisas que nunca imaginou, vê o impossível acontecer, vira exemplo para alguém. A gente sonha, e perde sonhos, vive sonhos, recupera sonhos e descobre que o melhor deles só acontece quando estamos bem acordados.
Um dia alguém lutará pela gente, ficará anos nos esperando, subirá as montanhas para nos encontrar, valorizará cada migalha —que nunca é migalha— do amor que a gente dá.
Um dia todas as músicas farão sentido, todas as lágrimas serão enxugadas e a dor virará apenas um pontinho sumindo no infinito.
Um dia a gente entende o porquê de certas coisas terem dado tão errado e outras, tão certas. Um dia descobrimos que o maior amor da nossa vida, nasce da gente.
A gente teme o futuro, depois o persegue e então entende que tudo depende do presente. Seguimos uma trilha que eu não conheço inteira, mas pelo que a viagem já me ensinou, só penso que devemos ir devagar, aproveitando a paisagem e os passageiros que vivem num entra e sai eterno desse trem que nos leva. Aproveitando as paradas, sentindo o cheiro de todos os ares, vivendo cada emoção que nos é oferecida.
Respirando fundo levantei a cabeça, observando os três homens da minha vida que se divertiam a minha frente.
Edward, Benjamin e Théo corriam atrás de uma bola de futebol, acompanhados por Heron, todos sem camisa e descalço.
Era lindo vê-los juntos, brincando, se divertindo, exibindo os sorrisos mais lindos do mundo.
Meus três homens, meus três amores.
Benjamin e Théo podiam não ter o cabelo acobreado ou os olhos verdes como o do pai, mas tinham o carisma, o jeito encantador e o mesmo sorriso torto de Edward.
Bastava olhar para eles e ver, ou melhor, perceber a semelhança.
Aquilo me deixava orgulhosa, porque Edward era —além de um grande pai— um grande homem e eu sabia que nossos filhos seriam exatamente como ele.
Enquanto houvessem eles em qualquer canto do mundo para me fazer imensamente feliz, eu me equilibraria aqui. Enquanto houvesse um desenho, um buquê de flores, um ‘eu te amo’, eu não iria cair.
—Heron, assim não vale! – o grito de Benjamin antecedeu sua gargalhada alta. Olhando a cena a minha frente, foi impossível não sorrir.
Heron havia abocanhado a bola e correndo em círculos, fugia de Benjamin. Théo os seguia de perto sem saber se ria ou tentava capturar a bola roubada.
Suspirei quando Edward caminhou em minha direção, a mão correu pelo cabelo antes de limpar a testa suada.
—Já cansou? – perguntei assim que ele se instalou ao meu lado. Um sorriso amarelo apareceu em seus lábios quando repousou a cabeça em meu colo.
—Só estou recuperando o fôlego... Tem que ter muito gás para acompanhar os meninos. – sua respiração estava levemente ofegando, rindo baixo corri a mão por seu cabelo húmido.
Eu o entendia muito bem, Benjamin e Théo tinham uma disposição fora do comum.
—Ainda bem que temos o Heron, ele nos ajuda muito. – proferi após observar os três que ainda corriam pelo gramado em uma disputa de quem alcançava a bola primeiro, essa que sempre era empurrada para longe a cada vez que eles se aproximavam dela.
—Verdade. – Edward concordou rindo. —Heron é incrível... – concordei com um aceno de cabeça. —E pensar que você não gostava dele. – ironizou em tom claro de brincadeira, segurando minha mão, ele manteve seus olhos em seus dedos que brincavam com os meus.
—Gostava sim, só fiquei assustada. – aleguei vendo o sorriso aparecer em seu rosto. —Até porque o modo com que nós dois nos conhecemos não foi nada agradável. – os olhos verdes de Edward se voltaram para mim. —E eu estava com raiva de você na época. – relembrei um pouco saudosa.
Apesar dos problemas iniciais que tivemos, Edward e eu vivemos uma fase incrível de reencontro.
—E essa raiva já passou, eu espero...
—Hmm... – erguendo a cabeça, fingi pensar. —Na verdade, não passou não.
—Não? – perguntou impulsionando o corpo e sentando a minha frente. Em seus olhos o brilho da brincadeira reluzia ainda mais a cor clara.
Apenas neguei com a cabeça. Edward sorriu torto, erguendo a mão, colocou meu cabelo atrás da orelha.
—Não acredito em você. – murmurou se aproximando um pouco. —Sei que você me ama.
Esticando os braços, enlacei seu pescoço e o puxei para meu perto. Meu nariz tocou o seu e um suspiro inaudível escapou por minha garganta.
—É, eu amo sim. – minha voz saiu mais baixa.
Edward voltou a se aproximar, os braços passando por minha cintura.
—Hm, eu também amo você. – fechei os olhos quando seus lábios roçaram nos meus. —Nunca vou me cansar de dizer isso....
—Que bom, porque eu nunca vou cansar de ouvir. – o interrompi tendo como resposta, um riso baixo.
—É sério amor. – proferiu após beijar minha testa. —Eu amo muito você. – seus olhos eram tão intensos e verdadeiros, que me roubaram todo o ar que tinha nos pulmões. —Sei que já disse isso antes, mas.... Obrigado por ter me dado uma nova chance, por ter confiado em mim. – respirando fundo, permaneci em silencio, deixando que ele continuasse. —Por ter me dado dois filhos tão incríveis e uma vida tão maravilhosa.
Abrindo a boca, tudo o que consegui fazer foi respirar fundo.
Edward e sua mania de me deixar sem palavras.
Mordendo o lábio inferior, corri a mão por seu rosto.
—Eu também amo muito você. – aquelas palavras não chegavam nem perto do que eu sentia. —E eu sei que já disse isso antes, mas obrigada por ter me esperado, por não ter desistido de mim. – Edward apenas me olhava estava quieto. —Obrigada, não só por ter me dado dois filhos tão maravilhosos, mas também uma família perfeita.
Edward soltou um riso suave, expirou pela boca e segurando em minha nuca, me beijou profundamente.
Disseram por aí que é impossível ir embora e deixar um grande amor, e diante de tudo o que vivi, durante todos esses anos, passei a crer rigorosamente nisso. Porque eu passei por isso.
Metade de mim foi embora para Nova York, a outra, ficara com Edward.
Hoje, eu entendia o porquê de todas as minhas tentativas de esquecê-lo deram errado. Era tão simples.... Minha cabeça era quem turrava, quem lutava diariamente para manter Edward e todas as lembranças no baú do esquecimento, mas meu coração estava com ele. Meu coração ficara com Edward, ficara em casa.
E haja o que houver, sopre o vento que soprar, estarei firme e sempre os manterei comigo.
Era um amor maior que o mundo. E o tripé mais lindo do mundo, feito do sentimento mais lindo do mundo, e a certeza de que nunca estaremos sozinhos nesse mundo.
Let me go home
It all will be alright
I'll be home tonight
I'm coming back home.
(Michael Bublé – Home)
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