De Volta Para Você
10 Conversa
Notas iniciais
Parecia que eu tinha bebido a noite toda, dose sobre dose.
Meu corpo estava cansado, mas a minha cabeça superava todas as expectativas.
Eram tantos pensamentos, tantas lembranças, tantos arrependimentos.
Estava confusa, muito confusa.
Porque saber que não houve traição me deixou verdadeiramente mais leve, como se as correntes pesadas que me prendiam ao passado houvessem sido rompidas. Por outro lado descobrir que todo esse tempo eu estive longe e sofri por uma mentira idiota, me deixava desesperada. Quanta coisa teria sido evitada? Quantas lágrimas, noites de sono perdidas, traumas?
—Filha? – a voz de Renée soou longínqua, respirando fundo, eu ergui a cabeça. Meu pescoço protestou por ter ficado tanto tempo na mesma posição.
—Hm?
Foi a única resposta que eu lhe dei.
Ela respirou fundo, sorriu sem vontade e com carinho, passou os dedos por minha bochecha.
—Ficou tão quieta, isso não é bom. – soltando o ar pela boca, envolvia a alça da caneca com meus dedos levando-a até minha boca. Não evitei a careta ao sentir a temperatura fria do café. —Você tem que desabafar, ficar assim só vai piorar as coisas.
Deixando a caneca sobre a mesa, eu tapei o rosto com as mãos por alguns segundos.
—Eu sei mãe. – assumi após pigarrear duas vezes na tentativa de limpar a voz. —É que... É tanta coisa, sabe? Tantas informações, tantas revelações.... Eu nem sei por onde começar.
Sua mão pousou em minhas costas, ela se aproximou e beijou minha têmpora com carinho.
—Porque não começa dizendo como se sente?
Eu inalei o ar com força, talvez na espera de mandar mais oxigênio para meu cérebro e enfim poder formular uma resposta para aquela questão.
Como eu me sentia? Era difícil dizer.
—Acho que começamos pela mais complicada. – soltei um riso sem graça. —Não sei. Estou confusa. Aliviada e ao mesmo tempo agoniada. – abaixei os olhos para minhas mãos que estavam repousadas sobre a mesa. —É como se eu tivesse sido libertada de um carma para ser presa em outro.
Renée respirou fundo, sua mão subiu e desceu por minhas costas.
—Não gostou de saber que não ouve traição?
Mais uma pergunta difícil. Meu subconsciente gritou.
Me arrumando na cadeira, eu respirei fundo buscando as palavras certas para serem ditas.
—Se eu disser que não, vou parecer muito estúpida? – a olhei com receio, esse que se diluiu assim que encontrei seu olhar terno. —É que... Meu Deus, como eu posso explicar isso? – a coerência ameaçou evaporar de mim, inalando o ar pela boca, busquei me tranquilizar. —Eu já tinha me acostumado com a ideia da traição. Eu estava superando também, entende? – eu sabia que não, que ela não entenderia, então continuei. —Eu mudei toda a minha vida por causa da traição, eu fui embora, mudei meu jeito, minha personalidade.... Mudei tudo, por causa de uma traição que agora, dez anos depois, eu descubro que nem existiu. – parando por alguns segundos, eu respirei fundo. —Parece que nada faz sentido mais, que tudo foi uma mentira.... Ai, eu não sei, mas parece que as coisas eram mais reais quando eu não sabia a verdade.
—É porque você pensa que mudou toda a sua vida por causa disso, amor. – Renée voltou a beijar minha testa. —É normal que essa sensação permaneça por um tempo. – me mantive calada. —Mas meu bem, olhe aqui. – seu pedido doce impossível de ser negado. —Nada do que você viveu até hoje foi uma mentira. Pode até ser que a mágoa ou o ressentimento tenha te impulsionado, mas eu tenho quase certeza de que você teria ido embora do mesmo jeito se esse rolo todo não tivesse sido formado.
Um sorriso amargo enfeitou meus lábios. Como Renée poderia ter tanta certeza se nem eu tinha? Ainda duvidava que teria ido embora se toda aquela mentira sobre Edward e Lauren não tivesse sido moldada.
—Esse sempre foi o seu sonho, Bella. Você sempre desejou ir estudar em Columbia, obter sua independência...
—Era o meu sonho mãe. – a interrompi voltando meus olhos em sua direção. —Até estar com Edward.
Uma leve sensação de Déjà vu passou por mim. Era o mesmo lugar, o mesmo assunto, as mesmas pessoas e até as mesmas alegações.
Contive o riso irônico. A vida era bem cínica quando queria.
—Eu teria deixado tudo, faculdade, carreira, sonho. – listei com o fôlego preso na garganta. —Tudo isso por ele, sem pensar duas vezes.
—Teria filha? Teria mesmo? – suas questões me calaram. —Sinceramente, eu acho que não.
—Porque acha isso? – minha voz saiu moída.
—Porque eu te conheço muito bem. – pude sentir a glória em seu tom. —Sei como você é, sei que não aguentaria ver a oportunidade da sua vida escapar por seus dedos feito areia.
Abri a boca para contestá-la várias vezes, mas por algum motivo nenhuma resposta saiu por minha boca.
Talvez no fundo, bem lá no fundinho, eu soubesse que ela tinha um pouco de razão.
—Mesmo que eu fosse mãe, mesmo que no final eu decidisse ir.... Eu teria dado um jeito de continuar com ele. – afirmei olhando-a atentamente. —Ele desistiu muito fácil de nós e ainda usou de um jeito muito infantil para me fazer ir embora...
—Bella, ele não fez você ir embora. – Renée me calou com a voz mais firme. —Você foi embora porque quis, porque era isso que você queria. – seu tom era sério e tão doce. —Assume para você mesma filha, a traição só foi o motivo concreto que você precisava para deixar tudo para trás e não ser a vilã da história.
Eu engoli suas palavras a seco. Elas foram doloridas de descer. Porque a verdade doía? Eu ainda preferia quando a traição era real, quando Edward era o cafajeste e eu a moça ferida.
Os papeis estavam totalmente invertidos agora.
Edward, era o mocinho bondoso e eu... Bom, eu já nem sabia mais o que eu era.
A trouxa iludida? A mesquinha que encontrou em uma mentira o que precisava para ir embora?
Eu não sabia, e também nem fazia questão de descobrir.
—Tem muita coisa mal explicada nessa história, Bella. – minha mãe voltou a proferir. —Muitas coisas entaladas em sua garganta e eu aposto que na de Edward também. – ela respirou fundo voltando a acariciar minha costas. —Não adianta você vir e conversar comigo, com seu pai ou com qualquer outra pessoa. Isso tem que ser conversado entre você e ele. Ninguém mais pode falar por vocês.
Soltando o ar pela boca eu concordei em pensamento. Do que adiantaria eu ficar chorando nos ombros das pessoas se eu passava longe do único realmente envolvido?
Eu precisava acabar com aquilo. Encerrar aquela história e mudar o foco, porque eu já não aguentava mais o peso daquele passado em minhas costas.
—Vocês precisam esclarecer as coisas filhas. – Renée me aconselhou. —Ficar fugindo ou evitando não vai resolver nada.
Respirando fundo, eu concordei com um aceno de cabeça.
—Vocês não são mais dois adolescentes inconsequentes. São adultos maduros e responsáveis, está na hora de agirem como tal. – pude sentir a repreensão em sua voz. —Não estou falando para vocês se acertarem, sei que existem muitas pontas soltas entre vocês, o que eu quero dizer é que vocês dois precisam virar a página. Esclarecer e esquecer. Enquanto não fizerem isso, não vão conseguir seguir em frente.
Tomando folego pela boca, eu me convenci ainda mais que Renée estava certa. Não podia ao menos pensar em contestá-la.
—Você tem razão mãe. – a olhei de soslaio. —Está na hora de resolver isso. Vou procurar Edward quando voltar para casa, nós dois temos muito o que conversar.
Ela sorriu docemente antes de segurar minha cabeça e beijar minha testa. Ela estava satisfeita com minha decisão, eu podia sentir isso.
Dentro do carro na volta para casa, eu tentava encontrar as palavras certas para dizer a ele. Eu não ia me exaltar, não queria brigar mais.
O nervosismo se apossou de mim assim que estacionei o carro na vaga permitida. Meu estomago gelou assim que vi seu Volvo parado em sua garagem.
Ele estava em casa. Ótimo.
Tive de tomar grandes lufadas de ar na vaga tentativa de me acalmar. Eu estava tão nervosa que minhas mãos suavam gelado.
É tão incrível como as coisas mudam de repente. Em um momento, estava tudo resolvido, concreto. Em outro, tudo não passava de montanhas de areias que se desfaziam com o vento.
Tentando conter o nervosismo, desci do carro fechando a porta com uma batida forte.
Podia ouvir ao longe os ecos das fortes latidas caninas, as que eu soube que vinham do cachorro de Edward.
Maneando a cabeça eu tentei me controlar, era só manter a calma que tudo ia dar certo.
Caminhar pela entrada de casa descalça fora uma tarefa meio dolorosa, tudo culpa das pequenas pedrinhas que formava o caminho até a porta.
A sala silenciosa me fez suspirar de tédio. Eu sempre odiei o silencio. E agora então, ele era mais perturbador que vozes acusatórias.
Deixei as chaves do carro sobre o aparador retangular, aproveitando as mãos livres, soltei o laço que prendia meu cabelo. Foi um alívio poder soltar meus fios, meu coro cabeludo já começava a protestar.
Enquanto me arrumava para tomar banho, tentava não pensar muito no que estava prestes a acontecer, caso o contrário iria pirar bonito.
Fechando os olhos eu deixei a água cair por meu corpo levando para o ralo cada tensão existente. Não ia precisar delas.
A situação já era complicada o suficiente para que eu me permitisse estar tensa.
Era apenas uma conversa. Uma conversa que deveria ter ocorrido há dez anos.
Sem mentiras, sem invenções, sem medo ou mágoas.
Eu tentava me convencer de tudo aquilo enquanto vestia uma calça jeans escura e uma regata destroyed de tom vermelho tijolo.
Meu cabelo estava molhado e não me preocupei em secá-lo ou amarrá-lo. O deixei solto, pelo menos ele secaria de modo natural.
Mordi minha boca com força assim que desci os degraus do meu deque. As latidas de Heron ficaram mais altas e logo pude ouvir os comandos firmes de Edward. Ele estava no jardim, confirmei erguendo a cabeça e respirando fundo.
Com passos temerosos eu me aproximei da cerca baixa que dividia nossos terrenos, assim que eu o vi, meu coração bateu mais forte.
Ele estava lindo, para variar.
Usava uma camisa azul petróleo e um short jeans claro slim fit, estava descalço e o sorriso em sua face era mais que encantador.
No meio do gramado, lançava uma bolinha verde —de tênis— para o ar que logo era capturada por seu enorme cachorro.
Puxando o ar pela boca, eu o soltei com calma apoiando minhas mãos nos acabamentos pontiagudos da madeira branca.
—Edward. – eu o chamei baixo, contudo firme o suficiente para ser ouvida.
Heron que dava saltos enormes e latia na espera afoita de abocanhar a bola, caiu inerte no gramado voltando sua atenção para mim.
O modo como ele entortou a cabeça e me olhou, fora bastante fofo. Talvez, ele não fosse tão assustador assim.
—Bella.
Assim que Edward proferiu meu nome, eu voltei meus olhos a ele. Podia ver a surpresa estampada em sua face.
—Eu queria conversar com você. – usando todas minhas forças possíveis, eu deixei minha voz o mais controlada possível. —É um bom momento ou está ocupado?
—Não, não estou ocupado. – ele garantiu com rapidez. —Só vou prender o Heron e já passo daí...
—Não precisa, pode deixar que eu pulo. – o interrompi e antes que Edward dissesse algo mais, eu apoiei meus braços na barra de madeira e com um impulso forte, lancei minhas pernas para frente.
Não deixei de sorrir orgulhosa. Fazia tanto tempo que eu não pulava uma cerca e agora, havia dado um salto perfeito.
Um sorrisinho bobo se fez presente na boca de Edward que meio sem graça, coçou sua nuca abaixando o olhar.
Esfregando uma mão na outra, dei uns passos para o lado assim que Heron fez menção de se aproximar de mim.
—Esqueci que você não é muito fã do Heron. – rindo, Edward esfregou a mão pelo cabelo. —Vou prender ele e já...
—Não precisa prender o cachorro por minha causa. – novamente o interrompi. —Pode deixa-lo solto.
—Tem certeza que não se incomoda?
—Sim. – acenei com a cabeça. —Seu jardim é mais bonito que o meu. – murmurei passando meus olhos pela área verde, colocando as mãos nos bolsos da calça caminhei pelo gramado.
De costas dadas a ele, ouvi sua risada.
—Minha mãe quem o projetou. – contou com calma. —Aposto que ela adoraria cuidar do seu.
Eu respirei fundo, encolhendo os ombros sentei na grama curta esticando minhas pernas a minha frente.
O sol estava gostoso, não muito quente, porém o suficiente para quebrar a temperatura fria da brisa que soava.
—Eu poderia até perguntar o que quer conversar. – Edward murmurou ao se colocar ao meu lado, dobrando as pernas a sua frente, ele apoiou os braços nos joelhos. —Mas seria hipocrisia.
Eu sorri irônica, pegando o lábio inferior entre os dentes afirmei com um aceno.
—Muita hipocrisia. – puxei o ar pela boca. —Porque armou tudo aquilo Edward? Não tinha necessidade de mentir tanto.
—Eu sei que não. – seu tom foi firme. —Mas eu era tão idiota, Bella... Tão infantil. – olhando o lago a frente, ouvi sua respiração profunda. —Não queria sair por baixo, se fosse pra você me deixar, que você tivesse um motivo.
Fechando os olhos, engoli a seco.
—Um motivo estúpido. – proferi antes de pigarrear. —Puro orgulho de macho, não é?
Observando-o de soslaio, o vi abaixar a cabeça meio envergonhado.
—É, é isso mesmo. – concordou sem mais. —Eu era um moleque imaturo, sentia que era o certo deixar você ir embora, mas não queria que os outros me vissem como o namorado abandonado.
—Não acha que seria mais simples ter apenas terminado comigo? – parando por alguns segundos, eu lubrifiquei meus lábios com a ponta da língua. —Sem falsa traição, apenas rompido... Ou não seria o suficiente?
Sua respiração se tornou profunda e longa por alguns instantes.
—Não, não seria. – disse por fim. —Eu iria atrás de você minutos depois, isso se eu tivesse coragem o suficiente para terminar. Queria algo duro e marcante.
—Isso é tão imbecil, Edward! – exclamei cansada. —Tem noção do quanto eu sofri na época? Melhor dizendo... Tem noção do quanto eu sofri todos esses anos? – a mágoa em minha voz era palpável.
—Tenho Bella, porque eu passei pela mesma coisa. – sua voz era pura sinceridade. —Mas eu precisava deixar você ir. Já ouviu a frase: Se você ama alguém, deixe-o livre. Se ele voltar, é seu. Se não, nunca foi.
Sua filosofia me fez bufar.
—Deixe-o livre para escolher e decidir o rumo de sua vida também. – não quis acusa-lo, contudo conter o sentimento era quase impossível. —Você tirou isso de mim. Não me deixou escolher.
Seu riso foi um misto de ironia e tristeza. Cerrando os olhos eu o olhei por breves segundos, Edward estava com a cabeça baixa, o maxilar cerrado.
—Talvez, esse fosse o meu maior medo. – sua voz saiu mais baixa. —Medo de você não me escolher. De você decidir me deixar. – aquilo me surpreendeu, quieta o vi erguer o olhar e bufar esfregando mais uma vez, a mão no cabelo. —Deve ter sido nesse momento que meu orgulho de macho aflorou.
Usando minhas palavras ele foi certeiro.
Não podia julgá-lo. Quem não tem medo de ser trocado, de ser deixado?
—Eu teria dado um jeito, Edward. – olhando para os meus pés, tentei contar mentalmente quantas pedrinhas de strass haviam incrustradas nas correias. Nenhuma vez fui precisa. —Teria encontrado uma forma, algum modo, eu não sei... Teria elaborado uma maneira para continuarmos juntos.
—Bella, se morando na mesma cidade nós vivíamos por um fio, imagina namorando a distância? – pude sentir seus olhos em mim. —Você sempre foi inteligente, linda... Uma garota incrível. E eu... Caralho! Eu era o garoto problema, aquele que ainda matava aula no colegial enquanto a namorada era selecionada para uma das melhores faculdades dos Estados Unidos.
Edward bufou mais alto, sua frustração era iminente.
—Nós jamais teríamos dado certo assim.
—Como sabe? – quando voltei meu olhar para ele encontrei o seu de imediato. Tentei não me deixar abater por aquelas esmeraldas vividas. —Como pode ter tanta certeza disso, Edward?
—Tendo. – sua resposta foi vaga.
Rolando os olhos, o vi dar de ombros.
—Você desistiu muito fácil de nós. Muito fácil.
—Eu queria que você seguisse o seu caminho, Bella. Que realizasse seu sonhos. – repetiu dando mais ênfase as palavras. —Não queria prender você, não queria que você desistisse de tudo para ficar comigo e dez anos depois, me culpasse por isso.
Apertando os olhos, tomei fôlego pela boca.
—Nunca faria isso...
—Quando a vida se tornasse monótona demais ou turbulenta pelas brigas, a primeira coisa que iria lembrar, era da oportunidade que perdeu por minha causa. – Edward me interrompeu.
—Você diz com uma convicção. – encolhi meus ombros me sentindo encurralada.
—Porque eu estou convicto, Bella. – seus olhos buscaram os meus. —Seria como aquele verão em que eu não fui acampar e você mesmo querendo muito ir, não foi para ficar comigo, está lembrada?
As cenas retornaram a minha cabeça, passando em filme de câmera lenta por meus olhos.
É, eu lembrava.
Lembrava de tudo.
Dos primeiros dias onde Edward e eu vivíamos no quarto, jogando videogame, comendo porcaria, fazendo sexo e mais sexo.... E como toda aquela rotina me cansou.
As briguinhas bobas chegaram e de hora em hora, eu dizia o quão arrependida eu estava por não ter ido acampar com meus amigos.
—Não queria que isso se repetisse. – sua voz me trouxe de volta a realidade. Maneando a cabeça, eu pigarreei. —Porque você não iria perder apenas uma aventura no verão, iria perder a oportunidade da sua vida e eu não podia fazer isso com você.
Soltando o ar pela boca, eu senti a verdade correr por minhas veias.
Ele estava certo. Mais uma vez.
As coisas iriam se repetir, com intensidades diferentes porque as perdas eram bem maiores.
—Percebeu agora? – não tive coragem de olhá-lo. —Não podia prender você aqui.
Quieta apenas assenti com a cabeça.
—Fui infantil por ter inventado algo tão sério, ter te feito sofrer tanto tempo à toa e ter sido um covarde orgulhoso, mas eu fiz isso com a melhor intenção do mundo.
Não o contestei. Eu sabia que era verdade.
—Acha que.... Que podemos esquecer tudo isso? – após um longo período em silencio, eu me voltei para ele.
Edward pareceu surpreso com minha pergunta.
—É tudo que eu mais quero. – pude sentir o alívio em sua voz.
Ainda o olhando eu sorri, mais calma e relaxada.
—Ótimo, vamos esquecer e recomeçar. – minhas palavras tomaram um sentindo distinto do que eu queria, mas logo vi que Edward me entendera bem.
—Amigos? – sua mão chegou até mim acompanhada por um lindo —e irresistível— sorriso torto.
—Amigos. – concordei retribuindo seu cumprimento.
Seu toque fez um longo arrepio subir por meu braço, pigarreando eu puxei minha mão a colocando entre minhas pernas.
Duas latidas fortes soaram ao meu lado, me pegando de surpresa e me dando um enorme susto.
Cobrindo o peito com a mão, senti meu coração disparado. Ofegante, me voltei para o lado oposto de onde Edward estava para então encontrar seu —gigante— cachorro.
—Acho que Heron também quer recomeçar. – Edward comentou controlando o riso.
Meio temerosa, voltei meus olhos para ele.
—Ele não gosta muito de mim. – minha voz saiu baixa. —E eu tenho medo dele. – um medo muito justificável, visto seu tamanho exagerado e a forma —nada agradável— como nos conhecemos.
Edward riu alto e eu não deixei de reparar o quão lindo ele ficava assim.
—Ele gosta de você, pode ter certeza. – meu olhar deixou claro que eu duvidava. —Se ele não gostasse, você teria virado picadinho naquele dia em que ele visitou seu jardim.
Prendi a respiração na garganta, apavorada somente com o pensamento.
—Ele quer um carinho. – Edward proferiu se aproximando de mim. —Acaricie a cabeça dele, ele adora.
Ainda o olhando, eu deixei claro meu desconforto.
—Pode confiar, ele não vai te morder nem nada do tipo.
Tomando ar pela boca, voltei meus olhos para o cachorro.
Ele era tão grande e intimidador, contudo seus olhos eram ternos e carinhosos.
Num impulso rápido e movida pelo ímpeto, eu coloquei minha mão em sua cabeça enorme.
Ele a entornou, me encarou por uns segundos e então, a deitou em meu colo.
Não contive o sorriso.
Aquilo foi encantador.
—Está vendo, ele gosta de você. – Edward disse com orgulho.
Dando de ombros, continuei a passar meus dedos nos pelos curtos de Heron.
—Acho que podemos ser amigos também.
Erguendo a cabeça deixei que meus olhos se encontrassem com os de Edward mais uma vez. Ele sorriu e eu retribui.
De um modo estranho, eu não me sentia mais pesada, nem presa a nada. Tudo havia sumido de um modo rápido e simples.
De um modo perfeito.
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