De Outra Maneira
10 Capítulo X
Notas iniciais
Você é a garota errada, Allana. Aquelas palavras ecoaram na minha mente pelos próximos cinco minutos. Todos ficaram em silêncio nesse tempo, olhando para mim, horrorizados. Jacqueline se debulhava em lágrima e Lívia a abraçava, querendo chorar também. Melissa estava paralisada, Cauê me encarava com um olhar de desespero. Henry e Emanuel estavam perplexos. Eu não sabia o que sentir, o que pensar. Eu já estava apegada a todas aquelas pessoas. Lembrei da tarde maravilhosa que passei com as meninas hoje e dos meus momentos românticos com Cauê, eu estava apaixonada por ele. Como eu era a Allana errada? Eu era idêntica àquela garota do passado, tinha o mesmo nome que ela e gostava das mesmas pessoas que ela! Como assim não era eu?
– Vocês pegaram a garota errada. – Emanuel disse, sério. Parecia estar com raiva. – Ela é humana.
– Emanuel, não vejo como! – Disse Cauê, vindo para o meu lado. – Ela tem o mesmo nome e aparência de sua filha! Allana, quando você faz aniversário? – Ele se dirigiu a mim dessa vez.
– Do-doze de julho. – Respondi, gaguejando.
– Está vendo? – Cauê praticamente gritou de desespero. – É ela, é a nossa Allana! Até o dia que ela faz aniversário é o mesmo!
– Então porque o ritual deu errado? – Henry rebateu. Também parecia com raiva. – Ela é uma impostora!
– Henry! – Melissa o repreendeu.
– Mel, por favor! Eu sei que ela é importante pra você, mas essa garota não passa de uma golpista! – Ele me olhou e se aproximou um pouco. – Você já sabia do mundo dos bruxos, não é? Achou que se você se passasse pela Allana, iria conseguir dinheiro e riquezas!
– Eu não sabia desse mundo! Como poderia saber? – Eu gritei. Uma lágrima de raiva escorreu de meu olho esquerdo. Melissa começou a soluçar e Henry foi abraçá-la, mas ela recuou.
– Emanuel, deve ter alguma explicação para esse Ritual ter dado errado! – Jacqueline disse, com a voz falhando. – É ela, eu tenho certeza!
– Não, minha cara sobrinha. – Emanuel disse com um olhar longínquo e triste. – O Ritual nunca falha.
Todos ficaram em silêncio profundo. Comecei a chorar baixinho. Cauê percebeu e me abraçou, aceitei seu abraço. Não podia me conformar que eu era a garota errada. E aquele acidente com Luíza? Como aconteceu? O que sou, afinal?
– O que você vai fazer comigo? – Eu perguntei, chamando a atenção do meu ex pai. Ele demorou alguns segundos para responder.
– Você pode ficar por enquanto. Mas não se esqueça de que você tem uma família que te espera em seu mundo real.
Assenti. Eu precisava sair dali o mais rápido possível, só não sabia como.
Henry tentou abraçar Melissa mais uma vez. Ela recusou de novo, então ele bufou de raiva e andou com passos firmes até a casa. Bateu a porta principal. Lívia começou a puxar Jacqueline, que ainda chorava, para dentro da casa. Ela cedeu, um pouco relutante, mas antes de irem para dentro, Lívia me abraçou bem forte. Não disse uma palavra, mas eu senti como se ela dissesse: “Ei, fique calma. Eu estou do seu lado, eu sei quem você é.”. Apenas retribuí seu abraço apertado.
Jacque fez a mesma coisa. Me abraçou, chorou mais ainda e dessa vez foi eu quem a acalmou. As duas entraram. Melissa também me deu um abraço bem apertado e foi atrás das outras duas. Só haviam sobrado Cauê, Emanuel e eu lá fora.
– Emanuel, — Cauê disse, suplicante. – Você sabe o que pode ter dado errado, não é?
– Eu sei. – Ele disse e tanto os meus olhos quanto os de Cauê brilharam. – Ela é a garota errada, foi isso que deu errado. – Nossos olhos se apagaram. – Me perdoe Allana, por esse constrangimento. Você pode ficar aqui quanto tempo quiser, mas não se esqueça de seus pais. Se me dão licença, eu vou para os meus aposentos.
Ele passou por nós e entrou dentro daquela mansão. O vento estava gelado e Cauê me abraçou bem apertado. Eu retribuí.
– Eu te amo, Allana. – Ele disse bem perto do meu ouvido, o que me fez arrepiar. – Eu sei que você é a mesma Allana que todos procuramos, eu sinto isso em você!
Eu o afastei, para lhe olhar nos olhos.
– Então o que deu errado? – Perguntei, sem conter as lágrimas.
– Eu não sei. Mas ainda vou descobrir.
Cauê me beijou e eu me entreguei a ele, sem medos, sem preocupações.
– E se eu não for a sua Allana? – Perguntei quando o beijo acabou, com os olhos marejados de lágrimas.
– Não diga isso, eu sei que você é! – Ele respondeu, me abraçando. – Venha, vamos para dentro.
Cauê me guiou até a grande casa. A sala estava vazia e silenciosa. Fomos para o nosso quarto. Eu me joguei em nossa cama e comecei a chorar. Ele me abraçou e assim adormeci, calma em seus braços.
Cauê era uma pessoa que me fazia muito bem. Eu estava realmente super apaixonada por ele e ter que deixá-lo doía muito no meu coração. Deixar a Jacque para trás também doía muito, vi o jeito que ela chorou na noite passada e não imaginava que eu era taaaão importante assim para ela. O abraço de Lívia foi muito sincero e Melissa ficou do meu lado quando nem mesmo o Henry estava. Eu ainda não acredito que não sou a garota certa.
Quando abri meus olhos, Cauê não estava mais comigo. Eu não fazia ideia de que horas eram, mas já havia amanhecido. Me levantei e abri a porta, eu queria Cauê aqui comigo, me abraçando, curtindo nossos últimos momentos juntos. Assim que coloquei o meu primeiro pé para fora do quarto, ouvi uma voz dizer:
– Ela tem que ir embora, não é bem-vinda aqui! – A voz era de Emanuel e ele estava falando de mim. Aquilo doeu muito.
Parecia vir da sala. Estava meio baixa, então me aproximei da escada para poder ouvir melhor.
– Emanuel, por favor! Tenha paciência! – Dessa vez a voz era de Cauê. Meu coração acelerou. – Eu tenho certeza de que ela é a nossa Allana, algo deu errado e eu vou descobrir o que é!
– Ora, Cauê! O Ritual não falha! – Emanuel gritou. Uma lágrima grossa e pesada escorreu pelo meu rosto.
– Mas e esse amor que eu sinto por ela? É forte demais para ser a garota errada!
– Você está cego! Você tem que achar a minha filha urgentemente e se livrar dessa humana! Aliás, eu tive uma ideia... E se você estregar essa garota para a Sabrina, para destraí-la? Assim ela vai parar de procurar a minha Allana e se divertirá com essa falsa!
Coloquei a mão na boca para não gritar. Emanuel me odiava! Ele estava certo de que eu não era a sua filha e queria me entregar para a Sabrina! E se ela já estiver com a verdadeira Allana? E se ela não estiver e achar que eu sou a verdadeira e me matar?
Eu senti raiva. Lágrimas de raiva caíram dos meus olhos e eu entrei no quarto novamente. Fechei a porta e gritei. Gritei muito alto, peguei o vaso mais próximo e o atirei contra parede. O vaso se estilhaçou em mil pedacinhos e fez um barulho estrondoso. Eu peguei outro e taquei, enquanto chorava. Depois um telefone com fio e virei a TV contra o chão. Peguei o abajur que ficava na escrivaninha do meu lado da cama e o joguei também. Quando me virei, Cauê e Emanuel estavam na porta do quarto, me encarando.
– O que você está fazendo, sua maluca! – Emanuel gritou. – É o quarto da minha filha!
Eu não consegui responder. Caí no chão, me derramando em lágrimas. O meu ex pai se abaixou na minha frente e pegou no meu braço, me fazendo olhar para ele. Senti medo, raiva e confusão tomarem conta de mim enquanto olhava o rosto daquele velhinho, que pareci tão bom.
– Eu não quero mais ver você aqui. – Ele disse, baixo e calmo, mas com raiva no olhar. – Você tem até amanhã de manhã para sumir dessa casa.
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