Notas iniciais
Queria agradecer a todos que leram o capítulo e a leitora Myllabilu que comentou a história, valeeeu :3

Eu estava muito cansada. Não havia dormido direito naquela noite, por causa do pesadelo que vinha me assombrando. Peguei meu celular e coloquei na playlist mais depressiva que eu consegui, afinal, músicas alegres não combinavam com o que eu estava sentindo. Meus pais ficaram em silêncio o caminho todo, e eu fiquei observando a paisagem pelos caminhos que percorremos da minha casa até o reformatório, que ficava do outro lado da cidade. Não demoramos muito tempo para chegar, e logo eu avistei o grande casarão antigo que levava o nome de “Reformatório para delinquentes-juvenis Miranda Fireston”. Meu pai estacionou em uma vaga do estacionamento, que estava vazio. Retirou as minhas malas do carro e começou a andar junto com a minha mãe, deixando as malas esperando para serem carregadas. Guardei meu celular e os fones da bolsa, peguei uma mala em cada mão e acompanhei os dois até os grandes portões acinzentados do casarão. Um porteiro estava sentado lendo um jornal, mas se levantou quando viu que nos aproximávamos.

– Nome? – Ele perguntou, encarando os meus pais e ignorando completamente a minha existência.

– Allana Monteiro de Lima – Meu pai respondeu, sério.

O porteiro tirou um papel do bolso e o encarou por alguns segundos.

– Podem entrar – Ele disse, abrindo o grande portão acinzentado.

O terreno era bem grande. Por fora parecia um lugar bonito, até. Tinha muita grama e algumas árvores, junto com alguns bancos de madeiras que estavam espalhados. Meus pais e eu trilhamos um caminho de pedras para chegar na porta principal do casarão.

Mesmo estando bem cedo, havia uma garota sentada em um dos bancos. Ela tinha cabelos longos lisos e bem pretos, como os meus. Sua pele era bem branca e os olhos estavam semicerrados, me encarando. O que será que ela havia feito para vir parar aqui? Senti uma pontada de medo no estômago, e agradeci meus pais mentalmente por não terem permitido que eu tomasse café.

A porta principal estava aberta, e eu pude ver que havia uma mulher meio velha, com cabelos pintados de marrom e uma verruga no queixo bem no meio do que parecia ser um hall de entrada. Ela esperou até que meus pais e eu entrássemos no recinto.

– Olá – Ela disse, indicando que entrássemos e nos sentássemos em um sofá vermelho que ficava no canto da sala – Eu sou Tina, a diretora do reformatório.

Observei melhor o local. Havia um grande lustre e um tapete listrado vermelho e laranja no meio da grande sala. Tinha duas grandes portas, uma do lado esquerdo da sala e outra oposta a porta de entrada. Também haviam duas grandes escadas, uma oposta a outra, que eu não sabia onde iriam parar, e câmeras instaladas nos cantos da parede. Deviam haver câmeras em todos os lugares.

– Olá, Tina – Minha mãe respondeu os cumprimentos da mulher – Viemos trazer a Allana.

– Ah, sim – Ela respondeu, um pouco animada demais – Estava esperando você, Allana.- Ela se dirigiu a mim, mas eu não respondi nada, então ela voltou a atenção para meus pais – Ela está em boas mãos. Pode receber telefonemas aos sábados e visita marcada só uma vez por mês. Vocês podem ir agora.

Meu pai foi o primeiro a se levantar. Ele nem olhou para mim, não queria se despedir. Ele já estava na porta principal quando a minha olhou bem nos fundos dos meus olhos e segurou a minha mão.

– Eu te amo, filha – Ela disse com lágrimas nos olhos – Mas o que você fez é imperdoável.

Ai. De novo ouvir aquelas palavras haviam feito o meu coração se rasgar no meio. Observei os dois percorrerem o caminho de volta, sem olhar para trás. Eu estava naquela sala sozinha com Tina.

– Bom, Allana – Ela disse, quebrando o silêncio – Preciso do seu celular.

– O que? – Eu disse, embora eu tivesse entendido cada palavra do que ela disse.

– Eu preciso do seu celular, Allana. Você não pode ficar com aparelhos aqui – Ela mudou o tom de voz. Parecia estar ficando irritada – Vamos logo, me dê!

Sem ter muita escolha, abri minha bolsa e peguei meu Galaxy Pocket, retirei os fones de ouvido e entreguei para a diretora.

– Os fones também – Ela continuou com as mãos estendidas.

– Porque você quer meus fones também? – Dessa vez quem estava ficando irritada era eu.

Tina arqueou uma sobrancelha, e eu pude perceber melhor como ela era feia e assustadora.

– Eu que pergunto para que a senhorita vai precisar dos fones. Vamos, eu estou ocupada e não posso perder tempo – Com raiva, eu a entreguei os fones, e ela prosseguiu – Tem uma garota lá fora. Ela será uma das suas companheiras de quarto. Peça para ela lhe apresentar o nosso reformatório.

Me apressei em levantar, pegar minhas malas e ir para fora. Não queria mais olhar para a cara daquela mulher. A garota estava sentada, encarando o nada, provavelmente me esperando. Quando me aproximei, ela me olhou e permaneceu calada.

– A Tina me disse que... – Comecei, mas a linda morena ( que até parecia um pouco comigo na aparência, com exceção dos olhos – os meus eram verdes e os dela, castanho-mel) me interrompeu.

– Sim, eu já sei. Tina me encarregou de ser uma da suas colegas de quarto. Me chamo Jacqueline, prazer.

Ela estendeu a mão, e eu a apertei.

– Prazer, Allana – Respondi.

– Sim, eu sei disso também – Ela levantou do banco e apontou para longo do terreno – Umas coisas que você precisa saber: esse terreno é imenso. No fundo tem uma piscina, para as aulas de natação.

– Espera – Eu a cortei – Temos aulas nesse lugar?

– Claro! – Jacqueline respondeu como se fosse óbvio – Você achava o que? Que ficávamos sem fazer nada o dia todo? Que nada! As aulas aqui começam ás 09h e vão até ás 14h, de segunda a sexta. Mas hoje você e eu estamos livres disso. Valeu, novata! Me livrou de matemática.

Jacqueline entrou no grande hall e eu a segui. Tina não estava mais lá, e eu senti uma pontinha de tristeza em pensar que o meu celular estava nas mãos dela por sei lá quanto tempo.

– Ali — A garota apontou para a porta que ficava do lado esquerdo da sala – É o refeitório. Café da manhã ás 08h, almoço ás 12h e jantar ás 18h. Não se atrase, ou não terá mais refeições. Aliás – Ela olhou para seu relógio de pulso, que marcava 09h20 – Perdemos o café. Enfim, ali – ela apontou para a porta oposta a porta principal – dá acesso a um corredor com uma escadaria enorme, onde se encontram nossas salas de aula. Cada sala é de um professor, e o seu horário está comigo. As escadas daqui vão parar nos dormitórios: lado esquerdo é o das garotas e o lado direito dos garotos.

Jacqueline subiu as escadas do lado esquerdo, e eu fui atrás, criando coragem para levar minhas duas malas. Por sorte, não haviam tantos degraus. Depois da escada, havia um longo corredor com várias portas dos dormitórios.

– O nosso é no final do corredor – Explicou ela – E dividimos com mais duas garotas – Lívia e Melissa – Jacqueline olhou para uma das câmeras presentes no corredor e continuou – Só não tem câmeras dentro dos dormitórios e nos banheiros, afinal, precisamos de um pouco de privacidade – Ela baixou a voz em seguida – Lívia é a minha namorada. Mas é claro que ninguém sabe, não se pode namorar aqui. Melissa namora um garoto e ninguém sabe também.

Uau. Fiquei surpresa em saber que dividiria o quarto com um casal de lésbicas. Eu adoraria dividir meu quarto com Tobias um dia. Quer dizer, nem sei mais.

Jacqueline ficou em silêncio enquanto caminhávamos pelo grande corredor. Uma das portas se abriu e de lá de dentro saiu uma garota alta, com cabelos longos cacheados e ruivos, sardas e olhos verdes. Um gelo percorreu a minha espinha quando aquela garota olhou para mim. Era ela. A mesma garota dos meus pesadelos. Tentei não encará-la, mas percebi que ela ficou olhando para mim quando passamos por ela. Merda.

– Quem é aquela? – Perguntei para Jacqueline, que estava andando mais rápido.

– Sabrina – Ela respondeu – Uma vaca. Você não vai querer amizade com ela.

Não sei o que aqueles pesadelos significavam, e nem o que Sabrina poderia querer comigo. Só sei que aquilo não era nada bom.

Notas finais
E aí, o que acharam desse capítulo? Comentem, meus amores :3