A temperatura havia descido nos últimos dias. O vento gelado fazia as peles mudarem de tom gradativamente, até que se tornassem levemente rosadas e ressecadas. Geralt podia ver o corpo do bardo tremer levemente sob a capa escura que cobria a cabeça com um capuz pontudo e descia até os tornozelos, mas nada podia fazer para impedir que reagisse ao tempo, pois ele próprio atingiu o limite da tolerância com a grossa chuva que viera após a garoa que os acompanhava há mais de vinte e quatro horas.

O caminho até Vergen não havia sido fácil, e quando alcançaram a longa passarela de entrada da cidade, nem mesmo um suspiro de alívio o bruxo conseguiu dar. O olhar subiu para os grandes pilares de pedra que decoravam os dois lados da passarela; os pés afundaram em uma poça suja, mas Geralt não soltou xingamentos como normalmente faria, sequer olhou para baixo enquanto continuava a caminhada. A chuva continuava sem piedade, porém, nenhum dos dois viajantes apertou o passo. O olhar continuou sob os muros, e a mão apertou levemente as rédeas de Plotka, que vez ou outra reclamava da água que atingia os seus pelos.

— Parece que as coisas continuam as mesmas por aqui — a voz do bardo soou baixa ao lado do bruxo, que se agitou internamente.

Os anões sobre os muros, um em cada lado dos pilares, os olhavam com desconfiança de lá de cima, alguns até mesmo apontavam suas bestas em direção de ambos, acompanhando seus passos com cautela. Porém, o bruxo não se importou com a maneira que eram recebidos, pois em sua mente só conseguia se importar com a voz trêmula pelo frio do trovador.

Há horas Jaskier mal falava, o que era um óbvio sinal de que havia algo de muito errado, e o bruxo não precisou perguntar ou analisar para saber qual era o problema. Eles haviam partido de Kaer Morhen juntos; Geralt com sua égua Plotka, e Jaskier, com o cavalo que havia batizado de Furioso. O cavalo era difícil de lidar, não aceitava que o tocassem, até Jaskier se aproximar em Kaer Morhen. O animal se afeiçoou pela música do bardo, e de uma forma estranha, também a Jaskier, que foi presenteado com a posse de Furioso por Vesemir. Ele viajou orgulhoso em cima de Furioso, que parecia ganhar energia com o som do alaúde. O poeta o tratava bem, e Furioso o obedecia como nenhuma outra pessoa. Era surpreendente, Geralt admitira no meio da viagem, enchendo o bardo ainda mais de orgulho, porém, o sentimento foi abalado quando Furioso adoeceu subitamente, e pela manhã que antecedera a chegada em Vergen, não resistiu a doença e caiu.

Geralt podia contar nos dedos de uma única mão as vezes em que vira Jaskier chorar. Fosse por alegria, tristeza ou raiva, os momentos eram raros e esquisitos, difíceis de lidar, e após enterrarem Furioso, o bruxo se viu em tal situação. Ele gostava de Plotka, cuidava e alimentava, a respeitava e gostava da ideia de mantê-la em pé o máximo que fosse possível, porém, não havia sentimento tão intenso quanto o que vira em Jaskier por Furioso. Muitas Plotkas haviam passado por sua vida, talvez fosse esse o motivo, ele não sabia, porém, doía ver o bardo daquela forma, porque para o bruxo, ver lágrimas em alguém como ele era muito mais triste do que a morte do animal.

— Não vamos baixar a nossa guarda por causa disso — Geralt o respondeu no mesmo tom, puxando a capa do bardo, para que ficasse mais perto. Os anões ainda pareciam desconfiados, o que era comum, porém, o bruxo não queria ter nenhuma surpresa, principalmente em um momento como aquele.

Pela primeira vez em longas horas, o peito do bruxo se aqueceu levemente com a baixa risada de sua companhia.

— Eles estão apontando bestas em nossa direção, quem disse em baixar a guarda?

Geralt quase sorriu.

— Eles sempre são assim, você sabe.

— Sim, mas não faz menos desconfortável ser recebido desta forma — Jaskier rebateu, ainda trêmulo, mas menos cabisbaixo enquanto se aproximava um pouco mais do bruxo, em busca de calor. — Ao menos estamos mais perto de um lugar quente e uma boa bebida. Faz eras que não tomo hidromel de Mahakam, e aqui com certeza iremos achar.

— O joelho de porco também é muito bom.

— Oh, a gordura macia e quentinha — o bardo fechou os olhos enquanto imaginava a comida da única taberna de Vergen, quase podendo sentir o gosto da carne. O gesto o impediu de ver o bruxo finalmente sorrir de forma discreta, mas não deixou de aquecê-lo com o olhar que ainda recebia quando voltou a abrir os olhos. — Vamos de uma vez, Geralt, ou morrerei congelado pela chuva — ele disse para disfarçar o coração um pouco mais acelerado do que o normal, porém, também havia sinceridade na pressa para se aconchegar como ambos tanto queriam.

Os passos finalmente foram mais rápidos, e após deixarem a passarela para trás, não houve tempo ou uma visão clara para admirarem as construções de pedras dos anões. O bardo olhou rapidamente para a égua, que se mostrava cada vez mais desconfortável com a chuva que não cessava. O bruxo havia coberto seu corpo, mas não era o suficiente para protegê-la por completo, e isso preocupou o poeta que já estava bastante sensível quanto ao assunto.

— Tem certeza que ela ficará bem?

Geralt assentiu com confiança, escondendo que também se preocupava com o tempo em que Plotka estava exposta daquela forma, mas também certo de que sua égua era mais resistente do que aparentava.

— Não é a primeira vez que precisamos enfrentar a chuva, e cuidarei dela antes de me juntar a você na taberna — ele garantiu enquanto observava o bardo se afastar para ir até o outro lado da égua. — Plotka ficará aquecida em pouco tempo.

Apesar de hesitante, Jaskier balançou a cabeça de forma positiva. A crina molhada foi acariciada pelo bardo, que sorriu quando Plotka bateu o nariz em sua cabeça, porém, os lábios logo se aquietaram, e a falta do Furioso o fez lamentar em silêncio.

— Eu posso ajudar — o poeta se ofereceu. Ele não queria que Plotka tivesse o mesmo fim que o cavalo.

— Ela ficará bem, Jaskier — o bruxo garantiu outra vez, mantendo o olhar à frente. Faltava algum tempo para chegarem ao estábulo da cidade, e um pouco mais para a taberna. A chuva dificultava a visão da égua e do bardo, porém, Geralt arriscou acelerar um pouco mais o passo, e foi seguido sem reclamações.

O ensopado de joelho de porco estava quente como o esperado; um pouco salgado, segundo a reclamação do bardo, porém, ainda tinha o gosto macio da gordura que o fazia salivar. Geralt optou por vodka e cordeiro. A bebida já o esquentava, então a temperatura um pouco baixa da carne não foi alvo de reclamações, ainda mais por estar faminto há algumas horas. Ambos engoliram a comida com rapidez; Jaskier até mesmo roubou um pedaço do cordeiro do bruxo, que quase se incomodou com o gesto, mas o travesso sorriso nos lábios o fez recuar, fazendo o poeta estranhá-lo em silêncio mais uma vez.

Desde que haviam partido de Kaer Morhen, Geralt parecia calado, mas cuidadoso, de uma forma que nunca foi; o jeito intensificou após Ard Carraigh, e Jaskier sequer pensou na possibilidade de ter sido escutado enquanto estava sob o efeito da bebida e o bruxo em meditação. Ele tentou analisar o que fazia Geralt querer ajudá-lo até mesmo a descer de um cavalo. As feridas já estavam completamente curadas, e o bruxo sabia muito bem, pois ele mesmo havia se encarregado da recuperação de Jaskier, então, não via motivo algum para tudo aquilo.

Os pensamentos estavam tão focados nas atitudes atuais de Geralt, que a carta recebida do clã An Craite havia sumido de sua curiosidade, e a ideia de haver arrependimento na cabeça coberta de cabelos branco sequer apareceu.

Os pratos estavam vazios quando a conversa sobre o contrato que ouviram de Eskel se desviou para assuntos sem muita importância, mas que aos poucos mudou o humor de Jaskier. Geralt não tinha dúvidas que a tristeza daquela manhã ainda estava ali, porém, o bardo também se mostrava mais à vontade, e menos silencioso. Ele sorriu de forma contida enquanto o ouvia e enchia o copo com vodka. A história de Jaskier se passava em Vergen, dentro daquela mesma taberna em que estavam, e não houve maneira de segurar a baixa risada quando soube da primeira vez em que o bardo estivera ali. Ele não era tão famoso quanto nos dias atuais, e a taberna, desde aqueles tempos chamada de O Caldeirão, não tinha o costume de receber humanos com frequência, então, Jaskier precisou sentar em uma pequena cadeira e espremer as pernas para que não levantassem a baixa mesa. O bruxo podia visualizar a situação, e como os anões o encararam na época. Era cômico, como muitas outras situações em que Jaskier já havia se metido na vida, porém, o tom engraçado logo sumiu quando foi revelado o motivo de ele ter chegado àquela situação. Jaskier estava sendo perseguido por bandidos, do pior tipo daqueles tempos. Geralt os conheceu anos depois daquele em que o bardo contava, e foi o último da gangue, que naquele momento, mais do que em qualquer outro, o bruxo não lamentou ter eliminado.

Jaskier contou que havia corrido e se escondido por dias; fome havia passado, frio e medo, mas no fim, foi salvo pela estranha e hesitante hospitalidade dos anões. O tom divertido logo voltou para Jaskier, porém, o bruxo não conseguiu voltar a sorrir. Era passado e outra situação, porém, a história que ouvia o remetia a que havia acontecido há pouco, e o sentimento culpado retornou com bastante força.

— Tudo foi ainda pior na hora de dormir — alheio aos pensamentos de Geralt, Jaskier continuou com a história. — As camas eram pequenas, é claro; não eram feitas para um humano. Dormi sentado pela metade da noite, e na outra, me estirei no chão, em frente da lareira — ele riu enquanto se lembrava da situação, e vendo que o bruxo continuava quieto, chacoalhou o copo cheio de hidromel em sua direção. — Você pode debochar, se quiser. Eu sei que quer.

Geralt abaixou o olhar para a própria bebida, e enquanto levantava o copo, soltou um suspiro. Ele voltou a olhar para o bardo, parando o objeto quando já o encostava nos lábios.

— Não estou com humor para isso.

As sobrancelhas de Jaskier se levantaram enquanto o observava virar o copo. Definitivamente há algo em sua cabeça dura, Geralt, ele pensou, e se preparou para enfim colocar para fora tudo o que pensava sobre o novo jeito do amigo, porém, no mesmo momento, sua atenção foi roubada para o que vinha pelas costas do bruxo.

— Espero que esteja com humor pelo menos para aceitar um amigo em sua mesa.

O sorriso de Jaskier se alargou com a presença do anão que parecia ter a barba mais longa do que quando se viram pela última vez.

— Zoltan! — Ele exclamou animado, e um novo calor em seu peito se espalhou quando observou Geralt enfim sorrir.

O anão e o bruxo apertaram as mãos com força antes de Jaskier também receber atenção, porém, com um abraço rápido e batidas um pouco brutas demais em suas costas.

— Jaskier — Zoltan também se mostrou animado. — Como senti sua falta, seu filho de uma cadela!

Os amigos riram; Jaskier e Zoltan pelos novos insultos em tom amigável, e o bruxo, pelo forte tapa que o bardo recebera em seu braço.

— Como tem passado, meu amigo? — Geralt voltou a segurar o copo quando a pergunta trouxe o olhar de Zoltan para a sua direção.

— Estou indo bem. Planejando mudanças em minha vida, mas estou aqui apenas para visitar alguns amigos.

Jaskier rapidamente se virou, ainda sentado, mas de frente para o anão.

— Espero que essas mudanças não lhe tragam problemas, como sempre.

Conhecia Zoltan há bastante tempo, e sabia que o anão era um imã para confusões tanto quanto ele mesmo. A única diferença entre ambos, era que os motivos de Zoltan na maioria das vezes eram nobres, ainda que sobrasse uma pequena porcentagem para brigas sem sentido, apostas e aventuras que poderiam ter sido evitadas.

— Você, de todas as pessoas, não pode me dizer isso.

Jaskier riu quando o viu apoiar o braço sobre uma cadeira e apontar o gordo dedo em sua direção. Metade daquela pequena porcentagem de confusão na vida de Zoltan eram causadas pelo bardo, e o fato foi lembrado quando Geralt ficou do lado do anão desta vez.

— Beba conosco, Zoltan — o bruxo convidou enquanto levantava o braço, pedindo por mais bebidas.

Não precisou de uma resposta para Jaskier se levantar e pegar uma cadeira mais alta ao lado.

— Mas é claro — Zoltan balançou a cabeça, agradecendo em silêncio quando a cadeira foi posicionada na mesa. Ele subiu rapidamente, e quando se acomodou, um grande caneco de cerveja foi colocado em sua frente. Todos em O Caldeirão o conheciam, e não precisavam de palavras para servi-lo. — E sobre vocês, o que vieram fazer em Vergen?

— Ouvimos sobre um contrato — contou Geralt, e Zoltan levantou as grossas sobrancelhas.

— Oh, o brasilisco? — Ele perguntou, e soltou um suspiro quando viu o bardo e o bruxo balançarem a cabeça. — Foi morto a três dias atrás. Igli Burdin pagou setecentas coroas redanianas pela cabeça da coisa — Zoltan apoiou os braços sobre a mesa enquanto se inclinava e via as faces surpresas dos amigos. — Podem acreditar?

Geralt soltou um grunhido decepcionado e impaciente.

— Quem recebeu a recompensa? — Ele perguntou. A resposta não mudava que havia perdido uma boa quantia, porém, a curiosidade pelo menos seria sanada.

— Um príncipe chamado Não-Sei-O-Que, vindo de não-sei-de-onde — Zoltan deu de ombros enquanto voltava a encostar as costas na cadeira. Metade da cerveja foi tomada em um único gole, e o anão riu em tom baixo enquanto limpava as gotas que escorreram na barba. — Estava em busca de glória e outras bobagens.

— Você poderia ao menos ter perguntado o nome dele — disse Jaskier, decepcionado por ter que manter a curiosidade, ao menos por aquela hora. Mais tarde ele procuraria saber quem era o tal príncipe habilidoso, e que ainda aceitava recompensas em dinheiro, que para ele, provavelmente era pouco, mas para pessoas comuns como o bardo, era uma quantia considerável para um único trabalho.

Jaskier rapidamente voltou a olhar para Geralt, e ainda boquiaberto com o valor, não conseguiu levantar o próprio copo.

— Setecentas coroas, Geralt! — Exclamou o poeta, certo de que o bruxo compartilhava de seu espanto.

Ele esperou por um assentir, ou algum comentário descrente ou debochado, porém, o que conseguiu com o comentário foi um olhar estreito que o julgava.

— Agora você sente o que senti — o bruxo lembrou com poucas palavras, mas que foram o suficiente para o bardo rir em tom baixo enquanto os cabelos quase secos eram arrumados de forma acanhada.

— O que houve? — Zoltan quis saber. Se tratando de Jaskier e Geralt, uma boa ou absurda história estava por vir, então, tratou de pedir por mais cerveja enquanto ouvia as reclamações do bruxo.

O anão riu de como Jaskier havia ganho quinhentas moedas de ouro para cantar apenas três baladas, enquanto Geralt, duzentas e cinquenta para enfrentar uma bruxa sepulcral; o dinheiro viera da mesma pessoa, o que revoltava o bruxo pela clara diferença de dificuldade e riscos nos dois trabalhos. Apesar das palavras indignadas, Geralt não parecia tão afetado, enquanto Jaskier não tinha nem um risco de arrependimento em seu jeito e olhar divertido enquanto o ouvia.

As risadas durante a conversa aumentaram por conta da bebida e histórias de cada um, até a Pousada da Rocha voltar a ser o assunto, mas não havia mais moedas ou criaturas, e apenas as baladas foram o foco entre eles. Sabini Tertone foi mencionada, e rapidamente virou o humor de Jaskier para o avesso.

A curiosidade de Zoltan sobre a mulher foi clara, assim como o descontentamento do poeta, que não poupou palavras para criticar cada verso escrito pela trovadora. O anão achou engraçado o novo jeito de Jaskier, que dificilmente ouvia falar daquela forma sobre alguma mulher, mas entendeu o que estava acontecendo aos poucos, enquanto apenas observava a maneira com que Geralt lidava com as críticas que eram para a mulher, mas quem recebia era ele. Em um primeiro momento, Zoltan teve certeza de que Geralt havia dormido com Sabini Tertone, mas depois, ele notou que o sentimento de Jaskier envolvia apenas a possibilidade, e o maior problema não era a balada sobre o Lobo Branco ou ter que dividir um pequeno palco.

Zoltan acabou sorrindo enquanto os ouvia ter uma breve discussão, e uma risada maliciosa os fez ficarem quietos e darem atenção para a sua face pensativa. Ele sabia o que estava acontecendo, mas aparentemente, os seus amigos não faziam ideia. Isso não é um ciúme comum, tolo Jaskier, ele riu do próprio pensamento novamente.

Os olhos claros e a feição de Jaskier mudaram quando o bruxo tomou a vez de falar. A revelação de que a conversa foi totalmente sobre a balada e o próprio Jaskier, mudou o clima naquela mesa, e aumentou o sorriso do anão.

— Então, a música não era boa, hm? — Ele não segurou outro riso, e a cerveja desceu pela garganta enquanto via a mudança no humor do poeta.

— Era uma boa música, mas já me basta este bardo cantando sobre a minha vida. Não preciso de outros.

Oh, Geralt! Desta vez, a risada de Zoltan foi interna. Você acabou de ganhar pontos com isso, sem nem mesmo saber.

— Ah — Jaskier enfim sorriu —, então eu tenho exclusividade?

Geralt parou por segundos. A pergunta havia sido feita como uma provocação, porém, no olhar do poeta ele podia ver cores esperançosas e ansiosas que o fizeeram estremecer levemente, e não pôde manter a visão sobre ele por muito tempo. As risadas baixas de Zoltan também o chacoalhava de uma forma inédita, mas também o irritavam, e no lugar de mostrar o que sentia, Geralt preferiu seguir o mesmo de sempre.

— De qualquer forma, não há nada para mim em Vergen, não mais — ele voltou no primeiro assunto rapidamente, camuflando as sensações calorosas que se dividiam entre raiva e carinho. O olhar voltou para o de Jaskier, e soltou um suspiro, marcando quando começara a controlar os sentimentos indesejados. — Vamos passar a noite e partir ao amanhecer.

Apesar do desvio, Jaskier não mostrou descontentamento, e balançou a cabeça para concordar.

— Eu acho que posso ajudá-lo com trabalho, se ainda estiver interessado em ganhar dinheiro por aqui — Zoltan colocou os pensamentos de lado quando se lembrou, mas não deixou sua curta risada ao ver a face neutra do bruxo, que com o tempo, ele aprendeu a ler. Era óbvio que ele iria querer ganhar dinheiro, e o anão balançou a cabeça enquanto ria. — Certo. Danri! — Ele gritou, assustando Jaskier, que por algum tempo ficou quieto, envolvido em seus próprios pensamentos, que logo foram afastados com a presença de um segundo anão.

A barba ruiva era parecida com a de Zoltan, mas o modo de se vestir e agir mostravam que nunca havia pego em um machado. Aquele não era um guerreiro.

— Este é Danri Daihan, o novo dono do Caldeirão.

O anão apertou a pequena toalha que tinha em mãos e a colocou sobre um dos ombros. As mãos foram para a cintura, e o olhar orgulhoso caiu sobre Zoltan.

— Já faz um ano que o comprei, então...

— Faz algum tempo que não paramos em Vergen — Geralt explicou, chamando a atenção do novo dono do local.

— Mas eu os conheço mesmo assim — Danri sorriu de forma fraca. — Você é o Lobo Branco, o bruxo Geralt de Rívia. E você... o braço direito do bruxo, o bravo bardo Jaskier!

O peito de Jaskier inflou com a maneira que Danri falava, e o orgulho não foi escondido no sorriso provocador que se abriu para o bruxo.

— Então... — o dono da taberna hesitou, querendo saber do que se tratava o chamado. Estava um pouco sem jeito com a presença de pessoas tão famosas, então não conseguiu que a pergunta que queria fazer saísse por sua garganta.

— Geralt pode te ajudar com o seu problema, Danri — Zoltan enfim explicou —, se oferecer a quantia certa.

— Claro, claro — Danri se agitou, subitamente empolgado, mas não de uma forma positiva. Ele parecia ansioso enquanto se aproximava do lado da mesa onde estava Geralt, e os olhos claros confirmaram o sentimento quando foram encarados. — Mestre bruxo, o senhor é amigo de Zoltan, então confiarei em sua discrição e serei direto. Eu tenho um primo, Granhan; ele trabalha comigo aqui no Caldeirão — ele se interrompeu, e o olhar desviou por um momento enquanto pigarreava. — Trabalhava, na verdade. No começo da semana o bastardo desapareceu, e com ele, metade de todo o dinheiro da taberna!

Houve um momento de silêncio enquanto observavam Danri se exaltar. A ansiedade virara nervosismo, e os olhos claros pareciam avermelhados pela raiva. Geralt podia imaginar o sentimento, o anão havia sido traído por seu próprio sangue, porém, não entendeu o que esperava de alguém como ele.

— Eu não vejo a necessidade de um bruxo para lidar com o seu problema, Danri — ele foi direto, assim como o anão, e não poupou sinceridade, o que fez Danri voltar ao estado sem jeito.

— A verdade, Geralt, é que Granhan é apenas um tolo apaixonado — Zoltan roubou a atenção de todos —, e é aí que você entra.

Antes que o anão pudesse continuar, uma alta exclamação o interrompeu. Os lábios separados de Jaskier mostravam surpresa, mas no fim, foi totalmente tomado por deboche.

— Você terá que seduzir um anão, Geralt!

A mão de Zoltan bateu com força sobre a madeira, assim que a voz de Jaskier soltou a brincadeira, e sua risada foi alta e gutural. A taberna já era bastante barulhenta com os anões gritando entre apostas e partidas de Gwent; os humanos se aglomeravam em um canto junto dos seres menores para disputar quedas de braço e xingamentos, mas nenhum era tão alto quanto o rugido divertido de Zoltan Chivey.

— Com um vestido rosa e uma sombrinha — ele adicionou mais detalhes na ideia tola do poeta, e ambos riram juntos desta vez, enquanto Zoltan fazia gestos delicados e fingia segurar o cabo de uma sombrinha invisível.

A bebida já começara a fazer efeito em ambos os lados.

— Eu pagaria qualquer coisa para ver isso — Jaskier se animou ainda mais, batendo o copo sobre a mesa durante as risadas, espirrando hidromel na madeira.

— Podemos dividir a conta — Zoltan ofereceu. Ele podia imaginar o bruxo daquela forma, e se fosse possível, pagaria junto de Jaskier qualquer quantia para que vissem pessoalmente a melhor cena que poderiam ter em toda as suas vidas.

O bruxo apenas os observou com sua expressão séria, mas nem um pouco nervosa. Os amigos eram idiotas quando sóbrios, pioravam sob o efeito do álcool, e poder ver Jaskier rir daquela forma, depois de um dia difícil, fazia valer a pena o deboche, ainda que ele tivesse um limite para aguentar. Os olhos apenas reviraram enquanto as imaginações se tornavam cada vez mais absurdas, e seu rosto virou para Danri mais uma vez, que os observava com uma careta engraçada enquanto balançava da cabeça de um lado para o outro.

— Ele não está sozinho, mestre bruxo, é isso que Zoltan quis dizer — ele enfim continuou, deixando os dois idiotas de fora da conversa, e a face se tornou séria outra vez. — Ninguém aceita procurá-lo porque a temem. Eu não sei o nome, mas tenho certeza de que é um súcubo que o seduziu — Danri soltou um suspiro pesado. — Temo pela vida de Granhan. Eu preciso que o encontre, e se for capaz, também recupere o meu dinheiro e mate a maldita; lhe pagarei duzentos ducados.

O bruxo deixou o copo de lado, e se virou totalmente para o anão. Um dos braços se apoiou na mesa, e o outro, no encosto da cadeira.

— Trezentos e cinquenta — o corrigiu simplesmente, causando descontentamento no anão, que juntou as sobrancelhas e cruzou os braços.

— Duzentos e cinquenta.

— Trezentos ducados, e sem mortes desnecessárias — Geralt voltou a segurar o copo, porém, a bebida permaneceu no lugar. — Súcubos não têm uma natureza violenta, só levantarei a minha espada se for realmente necessário.

Danri inflou o peito e bufou, porém, logo os braços descruzaram e as rugas na testa suavizaram.

— Contanto que recupere o meu dinheiro — ele murmurou, mas vendo que voltou a ter a atenção de todos os três naquela mesa, e que eles o encaravam com as sobrancelhas erguidas, cobriu a boca com o punho e pigarreou. — E o meu primo, é claro.

— Estamos acordados então.

Geralt balançou a cabeça ao mesmo tempo que Danri e ambos apertaram as mãos.

— Podem ficar com quartos por esta noite também — o anão ofereceu. — Por minha conta, como agradecimento por ter aceito o contrato, mestre bruxo — ele então se virou para Jaskier. — E talvez uma balada.

O bardo concordou rapidamente, animado outra vez, assim como Zoltan, que segundo ele próprio, há tempos não escutava os berros do amigo e estava ansioso por alguma letra nova. Eles continuaram com as conversas que só faziam sentido para quem também estava sob o efeito do álcool, e Geralt agradeceu Danri em tom baixo, um pouco antes de se juntar aos amigos.

A bebida deixou o bardo alegre e ainda mais falante, porém, não foi o suficiente para atrapalhar os sentidos e a noção de onde estava e com quem. Passava da meia noite quando deixou Zoltan na taberna lá embaixo, pronto para mais uma rodada de cerveja junto dos outros amigos que finalmente apareceram, e, apesar de não ter se limitado, ainda sentia os pés firmes no chão.

Não foi problema seguir o anão que trabalhava para Danri. Os degraus eram um pouco curtos demais, perfeitos para a maioria, principalmente o que o guiava até o seu quarto, mas não para ele, que apesar da segurança no equilíbrio, acabou tropeçando algumas vezes, quase caindo sobre o anão, que dos que conhecera até ali, era o menor de todos. O fato soou engraçado em sua mente, e acabou rindo em tom baixo, chamando a atenção do anão, mas não o surpreendendo ou causando estranheza. Ele já estava acostumado com bêbados e idiotas, e bastou uma olhada no poeta e teve certeza de que este era as duas coisas.

O anão balançou a cabeça de um lado para o outro enquanto suspirava, trazendo um tolo espanto para Jaskier, que descobriu que a bebida havia sim o afetado de alguma forma, ou não teria tido o tolo pensamento de que o anão podia escutar o que estava em sua mente.

A porta estreita foi aberta e a chave entregue nas mãos de Jaskier. As explicações sobre os cobertores já sobre a cama, a lareira acesa, a janela emperrada e as velas, foram dadas rapidamente, e o poeta foi deixado completamente sozinho no quarto.

A chuva ainda podia ser escutada quando deitou a cabeça no travesseiro. Era mais confortável do que a cama da Pousada da Rocha, e ele não ousava comparar com algumas das noites em que precisaram parar na beira da estrada, tendo apenas folhas para deitar e uma fogueira para lhe esquentar. O cobertor era grosso, a lareira estava com bastante lenha, e a janela emperrada ajudava a manter o calor dentro do cômodo. Ele finalmente poderia fechar os olhos e dormir com conforto e com o bônus de não se preocupar com as despesas, porém, o sono não veio tão cedo.

A chuva se tornou uma tempestade, e o vento assoviava. Jaskier era alguém que via beleza na fúria da natureza, e nunca se sentia incomodado com os sons que ela trazia, pelo o contrário, aquela agitação até mesmo o inspirava, mas não naquela noite. A agitação do lado de fora se igualava a que surgiu em seu interior. Os olhos se abriram, e o calor do cobertor não pareceu ser o suficiente para aquecê-lo por completo. Apenas a pele estava confortável, não o coração, que sentia a falta da presença do bruxo ao seu lado.

Ele suspirou enquanto se movia. O corpo virou para encarar a lareira próxima da cabeceira, mas o olhar logo desviou, focando na porta estreita. Ele pesou em levantar e abri-la, mas a ideia rapidamente foi abandonada. A esperança de que Geralt entrasse ali ainda naquela noite também veio e se foi em um piscar, e o bardo riu de si mesmo e sua tola ansiedade, sem saber que no quarto ao lado, o bruxo também encarava a madeira, um pouco mais esperançoso do que ele, e por isso acabou se decepcionando ao fechar os olhos enquanto ainda lutava contra a certeza de que Jaskier não apareceria para dividirem a cama.

O sol apareceu na manhã seguinte, mas ainda fraco e jovem, não era o suficiente para secar as ruas pedregosas de Vergen. As poças continuavam pelo caminho, e o bruxo mais uma vez pisou em uma delas, tão distraído que notou apenas pelo impacto do passo dado no buraco. Um baixo xingamento foi dado, mas a culpa não caía totalmente sobre a água suja em sua bota de couro de lince. O mau humor era claro, ainda que sua expressão fosse a mesma de sempre, e por isso Geralt preferiu partir mais cedo. Não havia as risadas maliciosas de Zoltan ou o som do alaúde de Jaskier, então, ele podia agir um pouco mais livre durante o caminho indicado por Danri após o desjejum.

Granham seguiu além dos portões, para a floresta, ele pensou enquanto andava pela passarela na saída de Vergen. Os anões ao lado dos pilares ainda o encaravam com desconfiança; as bestas continuaram baixas desta vez, mas Geralt sequer devolveu o olhar para os guardas da cidade. A mente estava distraída. Enquanto tentava focar no contrato, a imagem de Jaskier se forçava para tomar algum espaço e estressá-lo um pouco mais.

Aquilo era o que desejava. Ao acordar, ensaiou desculpas e avisos sobre o perigo para quando Jaskier quisesse segui-lo, inspirado pelo romance proibido e talvez até mesmo forçoso entre o anão e a súcubo, porém, quando desceu para o desjejum, não foi preciso de tanto. As informações do paradeiro de Granham foram dadas por Danri, e o bardo apenas ouviu junto de Zoltan. Os amigos lhe desejaram boa sorte, e Jaskier segurou o braço do alaúde com firmeza enquanto forçava um sorriso e pedia para que tomasse cuidado consigo mesmo e com a dama. Zoltan riu de suas palavras, e o bruxo fez o mesmo, mas apenas pelo lado de fora, pois interiormente sentia uma estranha mistura de alivio e frustração.

Ele estava acostumado a precisar brigar para conseguir ser escutado, e o olhar preocupado e receoso que recebeu de Jaskier, antes de subir os degraus de O Caldeirão até a saída na superfície, lhe dizia que havia algo de errado. O bardo não se preocupava à toa com sua segurança, era uma certeza que sempre teve, mas enquanto alcançava a floresta de Vergen, passou a questioná-la. Ele realmente ficou chocado com o que houve, ele pensou enquanto mantinha o olhar atento no chão que agora era uma grande bagunça lamacenta. Geralt estava surpreso, pois Jaskier já havia visto e escutado situações muito piores em que ele esteve, porém, não conseguia diminuir o sentimento do bardo, sequer duvidar deles, pois em seu interior, se sentia da mesma forma.

A concentração no caminho precisou ser forçada, ainda que, vez ou outra, dúvidas e algumas respostas inconvenientes sobre Jaskier o rodeavam. A chuva havia levado os rastros que poderia seguir na floresta, porém, não foi preciso de muito para encontrar um rumo. Antes de sair da cidade, ele reservou algum tempo para fazer perguntas aos moradores e comerciantes. Alguns sequer sabiam como chegar na floresta, alegando que circulavam apenas na cidade, outros foram bastante úteis, e lhe deram um sentido para seguir. Ao Sul, de onde Danri dizia que Granham entrava na floresta todas as noites antes de desaparecer, havia poucos lugares onde uma criatura como a acusada pudesse habitar, e uma grande caverna há uma hora da entrada da cidade foi onde decidiu começar a procura.

Um pouco antes de encontrar a abertura do abrigo rochoso, o bruxo parou. O queixo levantou e o nariz se moveu levemente, enquanto aspirava o ar. O cheiro ali era diferente; não chegava a ser podridão, mas Geralt tinha certeza de que não era carne fresca. Ainda mais concentrado, ele voltou a andar, podendo sentir o cheiro ruim cada vez mais intenso, até chegar onde estava concentrado em volta de uma imagem nada agradável. Droga!

O bruxo torceu o nariz enquanto se abaixava próximo ao corpo inerte. Ele não o tocou de imediato, mas logo soube que o pequeno estava ali há algumas horas, e quando tomou coragem se mexer em seus membros, passou a analisá-los com mais precisão. O anão estava inchado e ainda molhado, provavelmente pela chuva que cessou apenas naquela manhã. Não havia cortes ou sinais de que havia sido agredido. Os olhos estavam abertos, arregalados, como se tivesse morrido de susto, e o bruxo os fechou devagar, enquanto se colocava a pensar.

Se aquele fosse o primo de Danri Daihan, algo completamente fora do esperado havia acontecido. Se um súcubo tivesse tirado a vida deste anão, o corpo não estaria em boas condições desta forma, o bruxo pensou. Não, ele estaria esmagado, senão pelos chifres longos, seria pelas patas pesadas. Haveria sangue, e não creio que seria deixado assim. Ele examinou o corpo mais uma vez. Ele parecia ter sido cuidadosamente deitado ali, as mãos até mesmo estavam entrelaçadas sobre a barriga cheia.

A aparência do anão era parecida com a que havia sido descrita por seu primo, mas Geralt não se apegou a isso. Ele não disse em voz alta, procurando evitar problemas desnecessários, mas, a verdade era que os anões pareciam todos iguais para ele.

A caverna estava à frente, e novas pegadas entre que começavam e terminavam no corpo do anão também seguiam e voltavam daquela direção, como se a criatura tivesse retornado para checá-lo. A criatura, sim, pois Geralt não podia confundir pegadas tão especificas, e isso o deixara ainda mais curioso sobre a situação. Aparentemente, o anão não havia sido agredido por ela, mas algo havia tirado a sua vida, e mesmo que fosse incomum para um súcubo, outros métodos poderiam ter sido usados para isso.

Ele andou até a entrada da caverna. O interior estava completamente escurecido e Geralt não entrou de imediato. Um pequeno fraco foi tirado de sua bolsa, e virou a poção Gato na boca. A garganta se irritou com o líquido que escorria nela, e uma das batidas lentas do coração do bruxo soou forte e dolorida, como se tivesse batido com um martelo no próprio peito. Os olhos fecharam por um breve momento, e quando se abriram, a escuridão dentro da caverna já não mais existia. Em sua mente, de repente a voz do bardo soou, repreendendo-o sobre o uso de poções, alertando-o de seus perigos como se entendesse muito bem dos ingredientes, quando na realidade só sabia que os líquidos ao mesmo tempo o fortaleciam e o machucavam. Geralt quase sorriu com a lembrança, porém, segurou os lábios e moveu a cabeça de um lado para o outro, alongando o pescoço, e enfim voltou a andar.

A atenção fora dobrada, os olhos brilhavam no escuro, correndo de um lado para o outro, à procura de uma segunda presença, mas demorou algum tempo até que enfim sentisse algo além das pedras e goteiras que caíam das rachaduras. Ele parou quando ouviu os sons dos cascos batendo no chão, como se estivesse andando de um lado para o outro. Devagar, Geralt se aproximou, notando que o lugar não era totalmente tomado pela escuridão. Algumas aberturas no teto da caverna abriam a visão para o céu, e mesmo com a coloração diferente causada pela poção, podia ver que o sol finalmente se tornara um pouco mais forte e esquentava aos poucos a caverna úmida. Mas a atenção do bruxo não se prendeu no local por muito tempo, pois a dona dos cascos barulhentos logo foi vista, e com cautela, ele se encostou em uma das paredes, passando a andar grudado a ela.

As pernas com pelos grossos estavam a mostra, assim como a pele do busto, coberto apenas pelos longos cabelos tão escuros quanto os chifres ondulados. Os passos silenciosos como os de um felino de Geralt continuaram vagarosos. Ela ainda não havia notado que tinha companhia, e com certo desprezo em seus movimentos, descartava tecidos em uma grande sacola suja de terra.

Os olhos amarelos de Geralt brilharam na escuridão quando a visão ficou mais clara, e as sobrancelhas se juntaram ao notar que os tecidos eram roupas pequenas e bem cuidadas. Roupas de anão, o bruxo pensou com certeza, e seus sentidos ficaram alertas ao sentir o cheiro único de ouro quando uma bolsa foi pega por ela, e a ação fez um som metálico soar pela caverna.

Ela também ficou atenta, como se surpreendesse com o barulho. Os dedos foram rápidos para soltar as amarras da bolsa, e os olhos se arregalaram levemente. Com a reação, o bruxo desistiu de sua cautela, mas, ainda assim, não deixou de pegá-la de surpresa.

— Eu acredito que este dinheiro não lhe pertença — ele disse. A voz rouca e profunda perdida na escuridão.

A súcubo rapidamente soltou a bolsa. As moedas douradas se espalharam pelo chão, e sem conseguir ver com clareza a visita inesperada, de uma forma animalesca ela curvou as costas e deu cautelosos passos para trás, também se escondendo na pesada sombra das pedras. O brilho dos olhos amarelos podia ser visto por ela, logo à frente, misteriosos e ameaçadores, porém, o medo não foi tão grande quanto a decepção que sentiu.

— Eu não o roubei — garantiu, mesmo tendo certeza de que de nada adiantaria se explicar.

Não houve mais palavras do misterioso de olhos amarelos. O silêncio a deixou impaciente, mas não se atreveu a tentar se mover dali. Os olhos amarelos estavam entre ela e a única saída da caverna, e mesmo com todo o medo e decepção da inevitável morte que teria ainda naquele dia, ela não conseguia se sentir inteiramente ameaçada. O orgulho intenso que sempre tivera parecia ser a resposta, porém, ela não sabia se estava totalmente certa, por isso esperou, até que a visita se moveu finalmente; devagar e também cauteloso. A luz do local finalmente cobriu sua companhia e os olhos amarelos foram apenas um detalhe entre o rosto com cicatrizes e os cabelos brancos e chamativos. Ele era assustador em um primeiro momento, e ficou ainda mais quando notou as duas espadas em suas costas e o brilho do medalhão em formato de lobo em seu peito.

— Como se chama? — Ele perguntou. Parecia calmo e relaxado, porém, ela conhecia histórias sobre bruxos, e não baixou a guarda, se mantendo na escuridão, sem saber que o mutante de cabelos brancos podia vê-la com perfeição.

— Tehke — respondeu com firmeza. Ela se sentia encurralada e humilhada, porém, nada abalava o seu orgulho.

O bruxo balançou a cabeça devagar, e sem mostrar atenção nela, andou até a mesa de pedra. Os dedos cobertos pela luva de couro preta tocaram as roupas de anão, e um lenço entre elas, com um pequeno bordado com o símbolo de um caldeirão chamou sua atenção e tirou as dúvidas do bruxo, que já eram quase nulas àquela altura.

— Há um anão, não muito longe daqui, bastante preocupado com este dinheiro, Tehke — ele contou enquanto dobrava o lenço, que foi guardado em seu bolso em seguida.

— Com o dinheiro, sim, mas não tanto com o primo — ela o respondeu rispidamente, e a coragem ganha pela raiva a fez se aproximar, deixando a luz tocar parte do rosto. Era belo como o de uma jovem dama das partes mais ricas de Novigrad, mas a sujeira e a expressão feroz apagava qualquer comparação com outro ser. — Estamos falando de Danri, acredito eu.

— Não há inverdade em suas palavras — o bruxo confirmou sem problemas. Ele então se encostou na mesa de pedra, e o olhar não desviou de Tehke desta vez. — Na verdade, eu sou o mais preocupado com Granham no momento — os olhos amarelos se tornaram ainda mais sérios e duros. — Eu achei o corpo dele, e tudo o que me trouxe até aqui e o que vejo e ouço me diz que eram próximos.

Os olhos de Tehke se arregalaram, mostrando a cor verde das íris com clareza enquanto os cascos batiam no chão com força ao se aproximar um pouco mais. O corpo por completo foi iluminado, mas o bruxo manteve o olhar sobre o rosto raivoso.

— O que está insinuando, bruxo?

Os chifres que ondulavam junto dos cabelos escuros tinham a atenção dele, porém, ainda assim, não houve alteração em suas ações além de endireitar a postura para ficar totalmente de frente para ela.

— Meu nome é Geralt, de Rívia — o bruxo se apresentou, ainda cauteloso com os movimentos da cabeça de Tehke, e quando teve certeza de que ela não a abaixaria para acertá-lo, voltou a se encostar na mesa de pedra.

— O que quer, Geralt de Rívia? — Tehke não abrandou o tom quando perguntou, porém, assim como o bruxo, não sentiu uma ameaça imediata e se permitiu desviar o olhar para o chão coberto de moedas. — Se for o dinheiro, pegue-o de uma vez. Como eu disse, não o roubei.

Ela não era tola, mas também não pretendia morrer sem ao menos tentar barganhar.

— Eu levarei o dinheiro de volta para Danri, sim — Geralt afirmou —, mas antes preciso saber o que houve com Granham.

O olhar feroz se voltou para o bruxo, que não viu nem um pouco de tristeza neles quando o nome do anão foi mencionado.

— Não era tão resistente como gostava de dizer — ela cuspiu as palavras. — Não aguentou uma semana completa, o coração explodiu ou algo assim.

Algo assim, o bruxo pensou friamente, assim como eram as palavras de Tehke. Não havia evidencias de outra forma que Granham pudesse ter tido a morte como destino, porém, ele precisava perguntar, e a resposta, apesar de vaga, foi bastante clara. O anão não havia aguentado a libido insaciável da criatura. Talvez ele já tivesse problemas com o coração, ou simplesmente não era tão resistente, como disse Tehke, mas uma coisa era certa para o bruxo: naquele mundo, havia maneiras muito piores para morrer, então, ele não conseguiu sentir pena por completo. Pelo menos ele teve bons momentos antes de morrer. Ele encarou os olhos frios de Tehke, e recuou um pouco no pensamento. Ou talvez não.

— Por que eu deveria acreditar no que diz? Granham fugiu com bastante dinheiro, para ficar com você, e na mesma semana, ele morre em seus braços.

Desta vez Tehke não o respondeu, as sobrancelhas escuras se juntaram por um breve momento, mas a expressão dura logo suavizou e ela soltou um suspiro derrotado. Os ombros relaxaram e ela andou devagar até a mesa de pedra. Os dedos longos tocaram as roupas do anão, e ela não mostrou medo ou hesitação por estar perto demais do bruxo. Como se tivesse desistido, Geralt pensou, porém, mesmo acreditando nas palavras dela, não relaxou.

— Ele ofereceu dinheiro pela minha cabeça? — Tehke perguntou, mas em seu olhar Geralt viu que ela já sabia a resposta.

— Sim.

— Então, não precisa acreditar ou desacreditar, não? — Ela deu de ombros, e o bruxo pensou ter visto uma leve tristeza nos olhos verdes. — Eu morrerei de toda a forma, e você, terá o seu dinheiro, assim como o anão.

Geralt não a respondeu. Em silêncio ele se afastou, dobrou os joelhos, pegou a bolsa com metade das moedas e recolheu pacientemente as que estavam sobre chão, imaginando se poderia pedir um pouco mais, um bônus, já que pelo visto Danri Daihan era bastante rico. Se isso é metade do que ele tinha atrás do balcão, imagino o quanto tem no banco, o bruxo pensou, porém, quando levantou o olhar, logo voltou atrás com a ideia do bônus. Distante, Tehke o observava com extrema atenção, e isso o fez soltar um pesado suspiro. Ele só aumentaria a quantia se eu retornasse com a cabeça dela.

— O que fará agora? — O bruxo perguntou quando desviou o olhar para as moedas novamente.

— Se você me poupar?

O tom calmo e inocente era bastante falso, e isso o fez rir enquanto recolhia as últimas moedas.

— Não finja que não revidaria, se eu lhe atacasse — ele se levantou, amarrou a boca da bolsa e a encarou. — Não precisa fingir nada. Não aceitei o contrato por sua cabeça, apenas pelo dinheiro. E Granham... — o bruxo fez uma careta. Ele começara a sentir pena do anão. — É só uma formalidade.

Os olhos verdes de Tehke brilharam de uma forma diferente e ela se aproximou apenas um pouco. O bruxo não soube identificar se ela estava feliz, esperançosa ou raivosa; a súcubo era difícil de ler, porém, ainda assim, ele tinha certeza de que não seria atacado ou enganado.

Jaskier adoraria conhecê-la, ele pensou. O bardo provavelmente encontraria milhares de significados em seus gestos e olhares, e os montaria em uma canção épica demais para alguém que apenas seduzia anões e morava em uma pobre caverna. Geralt até mesmo podia ouvir a voz de Jaskier, comentando sobre a história de Tehke e Granham, e isso trouxe um estranho sentimento saudoso, quando fazia apenas algumas horas que não ouvia a voz animada do poeta.

— Eu assumo que não poderei permanecer em Vergen — Tehke chamou sua atenção enquanto não perdia tempo e amontoava os próprios pertences sobre a mesa. Ela não arriscaria deixar o bruxo repensar naquele contrato recusado.

— Não posso deixar que fique, se quer preservar a sua vida — Geralt disse em tom baixo, envergonhado sem ter motivos para tal. Tehke não fazia ideia de que, segundos antes, ele estava prestes a suspirar por um bardo que nem deveria estar em seus pensamentos. — Eu partirei em breve, e outro pode tomar o meu lugar quando souberem da morte do anão, e não pensarão antes de agir.

— Maldita hora em que escolhi Granham! — Tehke aumentou o tom de voz, surpreendendo o bruxo, mas apenas pela alteração. Ele levantou as sobrancelhas e a observou com seriedade. A falta de sentimentos pelo anão não era algo que inesperado, porém, a pena por Granham crescera um pouco mais. — Não me olhe assim — ela pediu após um suspiro —, eu não o amava, apenas queria uma vida confortável — os pertences de Tehke foram embalados em um grande tecido, e ela improvisou uma bolsa com ele, amarrando-o com uma grossa corda. — E não, não é sobre o dinheiro que estou falando.

— Eu sei — Geralt não se alterou quando afirmou, porém, a testa franziu quando os olhos verdes se tornaram maliciosos, assim como o sorriso que se abria nos lábios finos dela. Ele sentiu que deveria, mas não moveu os pés, e apenas cruzou os braços enquanto a aura de Tehke tentava seduzi-lo com bastante afinco. — Nem mesmo pense nisso.

O belo sorriso se alargou, causando um leve arrepio no corpo do bruxo, porém, a sensação se foi com a baixa risada de Tehke, que trocou a sedução pela curiosidade.

— Você já tem alguém, bruxo?

— Sim.

As sobrancelhas se juntaram por segundos, mas logo a expressão foi forçada a permanecer neutra. A resposta foi dada rápida e sem sequer um primeiro pensamento. O coração normalmente lento do bruxo se agitou, quase se comparando ao de um humano, e o nome e rosto que apareceram em sua mente, assim que a pergunta fora escutada, o fizeram franzir os lábios e inutilmente negar em pensamento.

— Você pode voltar para essa pessoa e dizer que salvou a vida de uma criatura que mal conhecia, mas que ela ficou agradecida e não pretende causar mais problemas — Tehke, preocupada demais com a própria vida, não notou alteração alguma em Geralt. Ela colocou a grande bolsa improvisada sobre as costas sem precisar de muito esforço, e abriu um novo sorriso. — Que ela só queria se sentir aquecida, mas acabou destruindo o coração de um pobre anão — por um breve segundo, o bruxo novamente achou ter visto tristeza nos olhos verdes, fazendo-o pensar se Tehke não era tão fria quanto mostrara. — Só não diga como. Isso pode assustá-la, sim?

Geralt acabou sorrindo, mas não como ela. Havia graça em seus lábios, não arrependimento e agradecimento como nos de Tehke. Ele provavelmente não vai se assustar nem um pouco, e escreverá uma balada com muito enfeite e sentimentalismo, pensou o bruxo, rindo internamente, com uma súbita felicidade que aquecia o peito.

— Adeus, Tehke — ele balançou a cabeça devagar ao mesmo tempo que ela. Os braços descruzaram quando deu as costas.

— Adeus, Geralt de Rívia — ele a ouviu dizer em tom baixo enquanto retornava para a escuridão que lhe guiaria até a saída. — Mantenha a sua mulher aquecida — Tehke riu com malícia —, ou virei por ela.

Geralt também riu, e nada disse para respondê-la. A bolsa cheia de moedas foi segurada com mais firmeza, e ele de repente se sentiu ansioso para partir, para retornar para O Caldeirão a tempo de ouvir uma nova balada.

Oh, Tehke, não há mulher alguma, não mais, o bruxo pensou com divertimento, mas que aos poucos se tornou temor. E isso é um grande problema.

Notas finais
Oie! Geralt conseguiu um trabalho, mas só pensa no bardo. Ai, ai, saudade de uma baladinha hehe Enfim, espero vocês nos comentário~ Até o próximo capítulo!