De Coração
22 Idiota da Vizinhança
Notas iniciais
Kale Iwin jamais ficou tão quieto em sua vida. Assim que ele e Kai embarcaram no avião, sentou-se em seu lugar quietinho, botando os fones e escutando Magic! como se sua vida dependesse daquilo, fingindo estar entretido nos passarinhos de Angry Birds.
Estar ao lado de Kai e não conseguir falar com ele era a pior coisa do mundo — tentava se conter, virando-se sutilmente para encará-lo a cada poucos minutos, por vezes perdendo-se em sua expressão pacífica.
A viagem foi banhada naquele constrangimento subentendido, ambos fingindo que não se lembravam do que havia acontecido à tarde, mergulhados demais em suas músicas ou joguinhos.
O avião pousou de forma calma e segura, o piloto já agradecendo pela preferência daquela linha aérea, todos se preparando para levantar. Kale se empertigou no banco, pegando a mala de Kai, esquecendo-se por um instante daquele voto de silêncio nunca prometido, tocando-o no ombro.
— Aqui, sua ma- — interrompeu-se no meio da frase, mordendo os lábios, repentinamente nervoso. — … La…
— Ah, o.k., obrigado. — Kai pegou-a sem muitas cerimônias, seu exterior inexpressivo, mas o interior revirando-se de forma rápida e forte.
Seguiram pelo corredor repleto de gente, andando devagarzinho, acompanhando a fila. O vento refrescante e quente afagou seus rostos assim que pisaram no solo frio da madrugada, o celular de Kale sinalizando “02h27min”. Abriu suas conversas, avisando seu pai que já havia chego, vendo de esguelha Kai fazendo o mesmo com sua mãe.
— Você… Hm, quer uma mãozinha? — Perguntou de forma inocente e hesitante, aproximando-se um pouquinho, caso ele quisesse se segurar nele.
— Ah, não, obrigado. — As frases eram idênticas, o nervosismo ensaiando-as por ele. Retirou do bolso a bengala, guiando-se muito bem somente com ela.
Na escala de constrangimento, nada conseguia ser comparado a quando eles entraram no táxi. Kale se ofereceu para levá-lo para casa, podendo caminhar sem problemas para a sua logo em seguida — Honolulu era um lugar extremamente seguro, então ele não via problemas em caminhar às duas da manhã até seu apartamento.
— Você vai hoje à tarde? Sabe, para a segunda parte da competição? — Kale indagou de repente, olhando-o fixamente.
Kai foi pego de surpresa pela indagação, assentindo sem pensar muito, torcendo as mãos.
— Ah, sim, eu vou. — Novamente, o nervosismo tomou conta de sua fala.
— Sério? — Kale arqueou as sobrancelhas, surpreso. — Que bom, eu gosto de te ver lá... Dá apoio moral — admitiu, encostando-se no banco de couro, vendo através do vidro. A noite em Honolulu não era muito diferente do dia. A estrada era iluminada por pequenos pontos de luz em seguimento, entre as faixas e em suas beiradas, separando-a da calçada. As placas eram multicoloridas, e em todo pedaço de praia visto, turistas desfrutavam das luzes dos prédios, postes e dos quiosques, caminhando na madrugada quente, andando sobre a maré alta de mãos dadas, tirando fotos ou, simplesmente, aproveitando. — Eu acho que a melhor parte de você concorrer a alguma coisa, não é o prêmio em si, e sim as pessoas que você ama torcendo por você. Isso faz com que… O prêmio fique em segundo plano — disse, olhando para ele.
Kai sabia que aquilo não foi dito com segundas intenções.
É claro que ele sabia.
Mas, não conseguiu evitar: algo dentro de si se chocou com força, provocando nele um formigamento estranho. Espremeu os lábios, anuindo como se concordasse cem por cento.
Mas a verdade era que só queria chegar em casa. Salvo. Seguro — sem ter de pensar em nada do que estava acontecendo.
Saltaram do automóvel com despedidas amigáveis, dividindo igualmente o valor da viagem. Enquanto Kale pagava o motorista, Kai abriu a porta do táxi, saindo com certa hesitação, sentindo o prazer de finalmente estar em casa. Achou que seria muita falta de educação simplesmente entrar, por isso esperou por alguns segundos o surfista, que logo correu em sua direção, apoiando-se nas grades.
— Chaves? — Pediu ele, estendendo a mão ao garoto. Kai as entregou, ouvindo o barulho da fechadura sendo aberta logo em seguida. — Bom, então, te vejo à tarde? — Tentou confirmar, devolvendo a chave a ele.
— Sim. Tchau — se despediu rapidamente, passando pelo portão e fechando-o com um desespero explícito. Correu pelo caminho que levava até a porta do prédio, sumindo no breu.
Kale enfiou as mãos nos bolsos da bermuda jeans, encarando as costas de Kai enquanto ele se afastava. Ninguém, no momento, era capaz de ver sua expressão. Ninguém conseguiu perceber a mágoa em seu rosto, apesar de estar tão evidente. Kai nunca seria capaz de ver que havia o machucado.
Mordeu os lábios, encolhendo os ombros e virando-se parcialmente na direção em que teria de seguir. O silêncio na região era absoluto, com um ou dois carros passando num intervalo longo.
O que mais o machucou não foi o fato de Kai ter o deixado lá de forma tão brusca — na realidade, o entendia um pouco. Se machucou porque, simplesmente, não conseguiu dizer “boa noite” para ele, não conseguiu olhá-lo nos olhos e nem abraçá-lo, não conseguiu dizer que queria voltar mais vezes com ele para Big Island.
Engoliu todos os sapos, começando a andar como se estivesse tendo a pior noite da sua vida.
***
— Ele fraturou cinco costelas e o braço esquerdo. — A voz do doutor soou calma, sem o intuito de preocupá-los ainda mais em plena oito e meia da manhã. — Uma das costelas quase perfurou seu pulmão e ele perdeu muito sangue. Mas, graças a sua doação, ele já está se estabilizando. Em algumas horas ele já estará bem. — Garantiu, sorrindo suavemente, apertando o ombro de Brand antes de sair do quarto.
Brandon inspirou fundo, sabendo claramente que Troye iria se recuperar, mas não deixava de sentir como se navalhas estivessem encravadas em seu corpo. Acariciou o pequeno curativo em seu próprio braço com cuidado, sabendo que Troye provavelmente enlouqueceria caso descobrisse que um viado havia lhe doado sangue. Mas, de qualquer forma, não tinha alternativa: Lindsey era menor de idade e Trenton não estava no hospital.
Olhar Troye o acalmava, principalmente quando ele estava dormindo. Era como se toda aquela aura “maligna” se evaporasse, dando espaço para a imagem de como Brand o via sempre: o cenho relaxado, os lábios partidos numa respiração calma, a expressão branda como se estivesse tendo o melhor dos sonhos.
Arrastou a poltrona em que estava sentado para perto da cama, tocando-o na testa, acariciando a tez ferida com cuidado, sentindo a maciez de seus fios escuros. Não conseguia pensar em outra coisa senão simplesmente permanecer ali com ele, mas uma voz irritante insistia em lhe dizer para cuidar de suas próprias tarefas.
Lindsey entrou no quarto de repente, os cabelos rebeldes presos no alto com uma presilha laranja, seu suéter cinza encardido lhe dando a impressão de ser uma mendiga. Sua cara de morta deixava bem claro que passar aquela noite em claro não a agradou em nenhum aspecto, as olheiras denunciando que nove horas da manhã não era seu horário.
— Sinceramente, o Troye só fode a gente. — Começou a reclamar no exato instante em que pisou no quarto, fechando a porta atrás de si. — Se ele fosse participar dessa porra dessa competição, juro pra você, Brand, eu não iria. Mas como é você, irei fazer um esforço. — Bocejou, fazendo um positivo para ele. Lindsey adorava Brandon, o tratando como um verdadeiro irmão mais velho.
— A gente vai simplesmente deixá-lo aqui?
— Sim, ué. Foda-se ele. Teve o que mereceu, não teve? Provavelmente ele ainda irá continuar sendo… Ele. Algumas pessoas não mudam, Brandon. Além do mais, eu já tô cansada de mudar por ele. — Admitiu com certa amargura, olhando para o rosto inexpressivo do garoto.
Brand manteve-se quieto, preferindo o silêncio acima de tudo. Só esboçou uma reação quando seu telefone tocou no bolso, a música anunciando que era um dos integrantes da família Owen.
— Algum problema, Trenton? — Atendeu rápido, indo direto ao ponto.
— Não. Eu só queria avisar que eu já tô aqui na praia — a voz calma do garoto se pronunciou, barulhos de microfones, gritaria, ondas fortes e crianças complementando a ligação. — Decidi guardar um lugar bom para mim e para a Linda, então você poderia avisar que eu tô… — Começou, virando-se de repente, observando a praia. — Tô entre um posto de salva-vidas e um coqueiro enfeitado com umas… Qual o nome daquilo? Pisca-piscas. E, por favor, não me pergunta o porquê de ter pisca-piscas num coqueiro.
Brandon sorriu, olhando de esguelha para Lindsey, que ouvia tudo com um grande revirar de olhos, como se achasse ambos seus irmãos perfeitos panacas.
— Mas, e aí, Trent, você realmente transou com aquele cara?! — Lindsey aproximou-se do celular, dizendo tudo com uma imensa cara de pau.
Trenton pareceu atônito por alguns instantes. Tentou posicionar sua cadeira de praia sob um guarda-sol, tendo imensa dificuldade em montá-la. Suor escorria por seu corpo magro, caindo no short de malha listrado que havia roubado de Lindsey naquela manhã.
— Na realidade? Não. — Respondeu-a diretamente, prensando o celular contra o queixo e o ombro, chacoalhando a cadeira.
— Espera, o quê? Você foi rejeitado? — Lindsey escancarou a boca, rindo, mas ainda assim incrédula.
— Eu não diria “rejeitado”... Francamente, eu não sei o que aconteceu. — Admitiu, rindo. — Ele disse que havia me achado muito bonito, mas que odiava transar por simplesmente transar. Por algum motivo, ele me deu o número dele e disse para eu ligar caso estivesse interessado em tomar um café.
Aquela frase tirou até mesmo de Brandon uma risadinha, enquanto Lindsey explodiu em gargalhadas, rolando pela cama. Todo mundo sabia que Trenton Owen era a pessoa mais disposta a transar com estranhos no universo, não se importando com gênero (na realidade, era a coisa que ele menos se importava em alguém). Vê-lo sendo convidado para tomar um café era hilário, porque todos também sabiam que ele era um cara de primeiras e últimas vezes.
Depois de muita conversa jogada fora, Trent desligou com um sorriso no rosto, enfiando o celular no shorts, abrindo de uma vez a cadeira. Agachou-se, estendendo uma toalha sob sua mochila, guardando seu celular e pegando sua versão de bolso de Sherlock Holmes, O Cão dos Baskervilles, adorando a ideia de passar o tempo com seu amado Watson.
Assim que se sentou confortavelmente, posicionando o livro sobre as coxas, uma sombra não projetada pelo guarda-sol atrapalhou-o, fazendo-o levantar o rosto com certa surpresa.
— Desculpa, eu tô len-
— Trenton? — A voz parecia mais surpresa do que qualquer outra coisa. Um jovem se inclinou, aparecendo no campo de visão de Trent, que entreabriu os lábios, meio atônito.
O cara do dia anterior, o do ‘vamos tomar um café?’, estava ali, bem na frente dele, vestindo uma bermuda vermelha escarlate, símbolo dos salva-vidas, uma corrente de Harry Potter pendurada em seu pescoço, o metal tocando em seu abdômen nu.
— Sério que é você? — O garoto sorriu largamente, agachando-se para se aproximar.
— Hã… Sim… E você é o enfermeiro de ontem…? — Não fazia ideia de como ele se chamava.
— Maxwell — ele sorriu de forma bonita, apesar de seus caninos inferiores serem levemente tortos. — Que estranho te encontrar aqui, tão repentinamente. Você está competindo?
— Não, eu só vim torcer por um amigo meu. — Explicou, não precisando raciocinar muito para perceber que Max era responsável por aquela área. — Então, você gosta mesmo de pessoas, não? — Disse por conveniência, tocando nas páginas de seu livrinho. — Trabalhando como enfermeiro e salva-vidas… — A única coisa que lhe ocorreu foi, porém: — você não deve ter tempo para nada.
— Ah, sim — ele sorriu de novo, abaixando levemente a cabeça. — Eu ainda estou cursando a faculdade, então, realmente, eu não tenho muito tempo para as coisas. — Explicou, relaxando os ombros, não parecendo muito cansado, no entanto.
Trent assentiu, olhando despreocupadamente para seu corpo, os olhos escorregando por seu tórax. Surpreendentemente, tocou-lhe no peito, dando tapinhas para testar a resistência de seus músculos. Maxwell olhou para baixo, confuso e curioso, arqueando uma sobrancelha.
— Você queria tomar um café comigo, não queria? — Indagou de repente, mudando de ideia ao imaginar todos aqueles músculos trabalhando para agradá-lo. — Tudo bem, podemos tomar um café… — Distraído, continuou apalpando-o.
— Sério? — Max arqueou as sobrancelhas, ainda sem entender, mas contente com aquilo. — Tudo bem, então. Eu chego da faculdade às nove. Posso te passar o endereço, se você quiser.
— Claro… — Disse no automático, apreciando quando ele tirou do bolso da bermuda uma caneta, pegando a mão fina de Trent, anotando em sua palma o endereço. Trent o conferiu, sabendo como chegar até aquele local. — O.k., eu estarei na sua casa às nove e meia.
— Na minha casa? — Max riu como se ele tivesse contado uma história muito engraçada, levantando-se para ir ao trabalho. — Não, Trent, eu te passei o endereço da minha cafeteria preferida. Espero encontrá-lo lá às nove e meia, então — despediu-se com um beijo na bochecha, afastando-se rapidamente.
Trent permaneceu estático, encarando como um idiota o endereço em sua palma da mão. Não era um eufemismo para “transar”. Maxwell estava realmente a fim de tomar um café com ele, sem malícia, sem segundas intenções. Espremeu as sobrancelhas, tentando não pensar em que tipo de situação havia se metido.
***
Nicholas Thomas havia combinado com o seu irmão que iria encontrá-lo às onze e meia no quiosque ao lado da bancada de juízes, junto com Leonard. Ainda eram dez e meia, e os dois ainda tinham muito tempo para brincar juntos, sendo acompanhados de longe por Esther, que na realidade estava preocupada demais conversando com sua amiga — ela tinha total confiança em Leo para andar por aí.
— Você vai para a praia vestido assim? — Nick perguntou, balançando seu balde cheio de pedrinhas.
— Assim como?
— Como um menino.
Leo corou por um instante, fingindo estar muito interessado em suas próprias pedrinhas.
— Aham. Por quê? — Sua voz vacilou, olhando de soslaio para seu amigo distraído.
— Você se sente desconfortável usando bermudas, certo? Por que você tem que se sentir desconfortável? — Parou por um instante, acariciando o queixo. — A gente deveria se sentir bem na praia, não é?
— É-é complicado, Nick…
— Por que é complicado? — Novamente, as engrenagens começaram a girar. O mais novo virou-se, encarando-o profundamente. — Não é nada complicado! Meu irmão diz que o melhor lugar para se estar é na praia. Se é tão bom assim, por que você não pode se vestir do jeito que você se sente melhor? — As perguntas eram jogadas no rosto de Leo, não dando espaço para ele retrucar. — Vamos comprar um maiô para você! — Finalizou com uma expressão de quem acabara de ter uma ideia genial, pegando na mão do garoto.
Leo se assustou com aquilo, travando no meio da rua, olhando assustado para os lados. E se alguém ouvisse Nick dizendo tais coisas? E se contassem para seu pai?!
— N-Não, Nick, por favor… Eu me sinto bem… Me vestindo assim… — A hesitação em sua voz deixava óbvio que, não, ele definitivamente não se sentia bem daquele jeito.
Nick franziu as sobrancelhas, chegando perto dele e cutucando seu nariz.
— AH, olha, seu nariz acabou de crescer cinco centímetros! — Quase berrou, parecendo nervoso. — Meu irmão diz que não podemos mentir! Se mentirmos para os outros, são dez anos a menos em nossas vidas! Se mentirmos para nós mesmos, são trinta! — Disse com uma careta mal-humorada, cruzando os braços. — Você não pode morrer cedo, Leo. Eu preciso achar alguém fora o meu irmão para assistir SCI comigo. Tem que ser você, mais ninguém.
— E-eu não tô mentindo, Nick! — Também mostrou-se emburrado. — Eu tenho certeza que eu vou ficar feio de maiô. E é CSI, Nick. C-S-I. — Corrigiu-o mesmo assim, assustando-se quando Nicholas o agarrou pelo antebraço, começando a andar na direção de uma loja de biquíni.
— Tem uma garota na minha sala chamada Lala. Ela fica parecendo um ganso estrangulado de biquíni, mas mesmo assim ela usa. Você não é feio que nem ela, mas mesmo assim tem medo de usar um. Isso não faz sentido! Você é muito mais bonito que muitas garotas por aí, inclusive a Lala! Vamos, vamos comprar um maiô! — Decidiu, não querendo nem ao menos ouvir a opinião de Leo a respeito daquilo.
Entraram numa loja com fachada pink e vermelha, várias peças íntimas expostas em manequins femininos, inclusive calcinhas de renda e sutiãs florescentes.
A recepcionista ergueu uma sobrancelha quando os dois entraram, acompanhando-os com o olhar quando eles voaram na seção de maiôs infantis. Olhou para os lados, à procura dos pais das crianças, mas, aparentemente, não encontrou ninguém.
— Olha, esse é bonito! — Nick opinou, tocando numa peça branca com bolinhas vermelhas, a retirando do cabide e a colocando na frente do corpo do amigo, avaliando seu estado.
— Eu fico mais bonito com cores fortes... — Leo disse de repente, tímido e rubro.
— Cores fortes? Tipo…?
— R-rosa, azul marinho, preto, vermelho… — Tentou se lembrar de outras, mas aquelas eram suas favoritas, no final das contas. Olhou em volta, de repente embaraçado por estar ali, entre tantas mulheres. Algumas os olhavam com curiosidade, como se estivessem se indagando o porquê de dois garotinhos estarem ali. — Nick, você realmente acha que isso é uma boa ideia?
— Claro que sim — murmurou, colocando a peça de volta no cabide, voltando a procurar alguma que agradasse Leo. — Licença? Moça? — Abordou instantaneamente uma vendedora que passava por ali, colocando-se na frente dela.
— Sim? — Respondeu, surpresa.
— Você poderia me ajudar, por favor? — Quando ela anuiu, Nick apontou descaradamente para Leo. — A gente precisa de um maiô para ele.
A moça pareceu achar graça, balançando a cabeça enquanto sorria.
— Você quis dizer calção de banho, certo? Venha aqui, vamos achar um pra você…
— Não, calção de banho, não! Maiô! Desses! — Nick se esticou, pegando uma amostra da peça supostamente feminina. — A gente quer um com cores fortes, por favor.
— Mas… — Ela arqueou uma sobrancelha, meio incomodada com a ideia. — Você é um garoto, certo? — Perguntou a Leonard, que se mantinha quieto atrás de Nicholas.
— Ele é um garoto, sim. — Nick respondeu por ele, áspero como o irmão mais velho. — O que tem a ver? Ainda queremos o maiô! — Nicholas insistiu, erguendo a peça de banho na frente do rosto dela, dando mais ênfase ao pedido.
Àquela altura, todas as pessoas dentro da loja começavam a olhar, curiosas com o pequeno tumulto.
— Bom, é que, geralmente, garotos usam calções de banho… É uma coisa normal, certo? Venha cá, irei de mostrar uns bem bonitos...
As sobrancelhas de Nicholas se juntaram quase que totalmente, sua expressão completamente determinada e quase nervosa. Entrou na frente de Leo quando a vendedora tentou puxá-lo gentilmente pela mão, afastando-a com os olhos faiscando.
— Você disse geralmente! Não estamos inclusos no seu geralmente! — Grunhiu, esticando o maiô para ela mais uma vez. — Nós dois temos dinheiro e ele quer um maiô! — Tentou mais um vez, sisudo. — Essas duas coisas são suficientes para termos o que desejamos, então por que você insiste em se referir a nós como ‘garotos’ como se fosse uma coisa muito importante numa compra?! — Elevou a voz, erguendo o queixo com todo o orgulho que um Thomas podia ter. — É a mesma coisa se eu dissesse que quero que sua gentere nos atenda, não uma moça claramente surda! — Encerrou, nervoso de verdade.
— É gerente, Nick… — Leo sussurrou para ele, encolhendo os ombros com medo de levar um soco. — Ge-ren-te.
— Saúde. — Nicholas ignorou-o, colocando o maiô na mão da moça à força. — A gente quer um rosa sem rendas, por favor.
***
— Eu odeio a minha vida. — Foi a primeira coisa que Kale Iwin disse ao acordar às dez e meia da manhã daquele sábado. Lucas, instantes antes, tentava acordá-lo cutucando-o.
— Eu também odeio a sua vida, mas você tem mesmo que acordar — o míope parou de atormentá-lo, sentando-se ao lado dele na cama, oferecendo uma xícara de café puro, sem açúcar nem leite.
— Eu não quero me encontrar com ele, Lucas… — Kale tentou, virando-se para o outro lado.
— Claro que quer, você ama ele. — O míope riu quando o surfista se virou, encarando-o com o rosto amassado.
— Eu não quero mais amar ele… Dói. — Admitiu, cutucando o lado direito do peito. — Bem aqui, no coração.
— É do outro lado — Lucas simplesmente disse, bebericando seu chá. Kale rapidamente tocou o outro lado como se não tivesse feito nada de errado, esboçando uma careta triste. Lucas acabou rindo, observando enquanto Kale se sentava para tomar o café.
— Já sei, Lucas. Eu vou me tornar hoje o cara mais lindo de Honolulu — disse, completamente disposto, tomando o café puro em goles longos, jogando as pernas para fora da cama, quase atropelando o amigo.
— No caso do Kai, isso vai adiantar o quê? — Indagou o míope assim que Kale retirou sua bermuda, pronto para tomar banho.
O surfista travou, fixando seu olhar num ponto inexistente.
— Então… O cara mais… Cheiroso. Pronto, é. — Decidiu consigo mesmo, correndo para o banheiro, decidido a tomar um banho de perfume.
E, de fato, Kale era como um perfume francês ambulante. Vestia bermudas camufladas, uma regata branca e chinelo, os óculos de sol refletindo a claridade absurda do meio-dia. Carregava sua prancha consigo, enquanto Lucas, ao seu lado, se encarregou de levar a mochila com tudo o que iria precisar. Retiraram seus calçados antes de pisar na areia, carregando-os na mão.
A praia, àquela altura, estava lotada. Turistas, vendedores, famílias, crianças, sorvetes, bolas de praia e uma gritaria impossível tomava toda aquela área, sendo quase impossível se locomover. Muitas pessoas cumprimentavam Kale, que apenas sorria e os agradecia, feliz por estar sendo lembrado.
Ambos seguiam em direção ao palco, local de praxe aonde se encontrariam com Kai, Luana, Manu e Antony. Lucas comprou uma água de coco no caminho, acompanhando avoado os passos rápidos e ansiosos de Kale.
— E se ele não me cumprimentar? — Kale supôs, roendo as unhas. — E se ele se levantar e ir embora? O que eu faço? LUCAS! — Berrou quando percebeu que seu amigo estava cagando para ele. O míope virou-se de repente, erguendo uma sobrancelhas. — Pelo amor de Deus, liga para o que eu falo!
Lucas sorriu para ele, nem um pouco culpado.
— Eu sinto que caso eu te ouça, provavelmente acabarei de matando. — Resumiu a situação, surpreendendo-se quando Kale repentinamente o abraçou, escondendo o rosto em seu pescoço. — Ah, não, Kale, ataque fangirl na praia não.
— E-eu vi a Luana — murmurou, empurrando Lucas para uma certa direção, sabendo que Luana era um sinal de ‘Kai’.
— Cadê toda aquela confiança de hoje cedo, hein? — Resmungou, sorrindo para a garota ao vê-la acenando, um biquíni diferente da outra vez, o tecido azul-marinho com renda. — Boa tarde, Luana.
— Boa tarde! — Ela sorriu, aproximando-se dos dois para cumprimentá-los com um beijo na bochecha. — Vocês demoraram hoje. Até pensei que não viriam… — Simpática, puxou assunto, pegando o coco de Lucas quando ele retirou a mochila das costas. — Vem, eu ajudo vocês. — Sorriu, aproximando-se de onde Kai e Manu estavam. — Kai, Lucas e Kale estão aqui — anunciou ela, sentando-se em sua toalha, apoiando o coco nas coxas.
Manu ajeitou o boné na cabeça, olhando de soslaio para Kai, verificando se ele estava bem protegido do sol. Não cumprimentou-os de volta quando eles se manifestaram, ocupado demais arrumando a aba do boné dos Yankees na cabeça do garoto, seu celular notificando que havia ganhado um prêmio em um de seus joguinhos.
— Hm, oi — Kai disse de repente, acenando no vácuo, esperando que eles vissem.
— A gente ia chegar mais cedo, mas o Kale demorou milênios para se trocar, por isso demoramos… — Lucas ocultou o fato que o surfista, na realidade, choramingava com a ideia de reencontrar Kai.
— A gente também chegou um pouco tarde — Luana ponderou, balançando a cabeça. — Eu saí com o Manu para comprar um biquíni.
— Porque, aparentemente, ela é incapacitada de vestir uma mesma roupa que não seja o uniforme duas vezes em um lugar. — O mais velho dali resmungou com certa amargura, tentando não pensar no desperdício de tempo que aquilo havia sido. — Como se o universo repentinamente começasse a reparar nas suas roupas.
Luana apenas revirou os olhos, decidindo não gastar sua voz tentando convencê-lo a algo que sabia que ele não iria absorver. Ignorou-o com um sonoro ‘humpf’ frustrado, virando a cabeça na direção oposta.
Enquanto Lua se distraía com a idiotice de Manu, Antony Thomas estava encrencado. Coçou o queixo, olhando para os lados, preso na calçada da praia enquanto Nicholas permanecia agarrado a sua perna esquerda, Leonard agarrado a outra. Esther encarava a ambos com os braços cruzados, o queixo caído e um profundo olhar de reprovação no rosto.
— Talvez isso seja apenas um mal-entendido, Esther… — Tentou o mais velho, erguendo os braços com entendimento.
— Um mal-entendido? Como o meu irmão mais novo estar vestido com um um maiô pode ser considerado um ‘mal-entendido’, Antony?! — Indagou com quase raiva, erguendo os braços. — Você sabe que se o pai pegar você vestido deste jeito, Leo, ele te mata, não sabe?! Ou melhor, mata a nós dois, porque eu estou cuidado de você! — Desabafou, incrédula. — E, deuses, por que você está vestindo isso?!
Antony inspirou fundo, a prancha sob o braço, olhando para o mar agitado, preferindo não se meter.
— Ele se sente confortável! — Nick interviu, quase rosnando, ainda atrás do irmão. — Ele quer se tornar uma garota!
— Se tornar uma-?! O quê?! — Esther entreabriu a boca, decidindo ignorar o comentário de Nicholas naquele instante. — Não importa o que você quer se tornar, enquanto você é um garoto, você usará roupas de garotos!
— Por quê?! — Nicholas interviu de novo, dando um passo a frente.
— Ah, o.k., chega disso. — Antony abaixou ambos os braços, enlaçando a ambos pela cintura, erguendo-os em cada mão, a prancha bem presa entre seu tórax e bíceps. — Chega desse escândalo. Hoje nós iremos à praia, tomaremos sorvete e nos divertiremos, independente do que estaremos vestindo. — Quando a garota abriu a boca para dizer alguma coisa, Antony cerrou os olhos. — Eu disse chega. Você pode voltar para sua casa, eu estarei cuidando deles por hoje. À tarde levarei o Leo para casa, não se preocupe quanto a isso. Tchau, Esther. — Tony se despediu brevemente, a paciência esgotada com ela, o estresse se acumulando suavemente.
Começou a andar de forma forte e rápida, pisando na areia macia e ferida pelas pegadas, a confusão de gente se aproximando.
— Você não acha que ele ficou muito bem, Tony? — Nick indagou, tentando olhá-lo.
— Aham, claro. — Tony ignorou o comentário, se embrenhando entre as pessoas, por vezes batendo nelas com a prancha sem querer, apressado para chegar a tempo. Não respondia porque simplesmente não ouvia quando as pessoas lhe desejavam boa sorte, compenetrado em simplesmente chegar.
Quase suspirou quando avistou a cabeleira negra de Lucas, seus óculos refletindo a luz forte do sol. Nick se chacoalhou como um peixe fora d’água, querendo fugir de seus braços para ir atrás de Lucas, um sorriso maior que a cara pendurado em seu rosto.
Quando Antony chegou perto do grupo, soltou-o, vendo-o praticamente voar nas costas de Lucas, que não havia os percebido ainda. O míope soltou uma exclamação surpresa, rindo quando notou quem era. Lhe fez cócegas, abraçando-o forte antes de beijá-lo na cabeça.
— Lu, você trouxe minha toalha dos Monstros S.A? — Foi a primeira coisa que ele perguntou, preocupado de onde iria se sentar durante a competição.
— Claro que sim! — Lucas riu, acomodando-o nos braços, virando-se parcialmente e dando de cara com um Kale sentado de pernas cruzadas, sua prancha estirada sobre suas coxas, ajeitando seu lash, a cordinha que iria prendê-lo à prancha. Kai estava bem ao seu lado, mexendo em seu celular. Os dois não trocavam nem uma única palavra. — Jesus, Kale… — O míope murmurou, mal notando quando Antony se aproximou, parecendo extremamente cansado. — Oi… O que aconteceu? — Perguntou com uma risadinha, arqueando as sobrancelhas.
— “O que aconteceu?” — Antony enfatizou, expressando uma careta desgostosa. Deixou Leo no chão, apontando sutilmente para ele com a cabeça. Lucas tentou permanecer inexpressivo enquanto observava aquela criatura adorável de maiô. Leo estava adorável, mas estar daquela forma era como se uma seta gigante, pulsante e vermelha se formasse em sua cabeça, chamando atenção de todos os ignorantes.
— Eu que escolhi. — Nicholas disse com orgulho, sorrindo largamente.
— Ah, você… Escolheu? Mas vocês compraram? Sozinhos? — A cada pergunta feita, Lucas sentia o friozinho em sua barriga aumentando gradativamente.
Nicholas anuiu em todas, o rosto inocente indagando-se o porquê de tantas perguntas. Desvincilhou-se de Lucas, pousando no chão com afobação, pegando na mão de Leo.
— A gente vai construir castelos de areia! — Anunciou, puxando-o de supetão. Ambos correram para a mochila de Lucas, abrindo-a e pegando todos os equipamentos que iriam utilizar. Sentaram-se perto de Manu, que mal percebeu a presença dos dois ali, muito concentrado em discutir com Luana.
Lucas não teve tempo de dizer suas preocupações para Antony, porque, no instante em que se virou, um pequeno grupo se reuniu ao redor do surfista, atacando-o com perguntas, fotos e canetas para que ele desse autógrafos. Tony foi pego de surpresa por tudo isso, momentaneamente sem reação. Mas, simpático como uma pedra, começou a distribuir as assinaturas, não conseguindo sorrir para nenhuma das pessoas, piscando logo após flashs serem disparados em sua cara.
— Ai, não, MENTIRA! — Uma garota gritou como se tivesse visto uma assombração, apontando para um ponto específico. — KALE?! — Indagou com surpresa absoluta, logo correndo na direção do primeiro colocado. Algumas pessoas que já tiveram suas fotos autografadas a acompanharam, cercando Kale, que ainda tentava arrumar seu lash.
O surfista ergueu a cabeça, surpreso, mas não deixando de sorrir gentilmente a todos.
— Ah, e aí! Pera, deixa eu levantar — começou, deixando sua prancha de lado e erguendo-se com tapinhas em sua bermuda, focando seu olhar na garota. Arqueou as sobrancelhas, genuinamente surpreso. — Becca?! — Indagou com certa suspeita, lembrando-se da garota do zoológico.
— Sim! — Ela riu, feliz por ter sido lembrada. — Que legal te encontrar tão repente! A gente estava mesmo à sua procura — admitiu, quase orgulhosa por receber o autógrafo primeiro.
Kai podia estar inexpressivo, mas suas mãos tremeram bruscamente enquanto seguravam seu telefone. Engoliu em seco, sentindo alguns de seus órgãos afundarem. Era, de novo, a maldita garota do zoológico.
A neta do ano, com o vovô surfista.
Digitou, sem querer, um “MALDITA” em caixa alta, mandando para um grupo onde estavam Alex, Derek e ele.
Mordeu os lábios, indagando-se profundamente o porquê daquilo. O porquê de seu coração ter apertado tão forte daquele jeito, o porquê de ter ânsias de atingi-la com uma pá de brinquedo e exterminá-la da face de Terra. Queria perguntar em voz alta o porquê de Kale estar rindo das piadas dela, mas sabia que não iria receber resposta nenhuma, porque havia sido horrível naquela madrugada.
Simplesmente não conseguia parar de pensar naquilo, no quanto havia sido idiota com ele, no quanto queria pedir desculpas — jurava a si mesmo que nada daquilo tinha sido intencional, e sim instintivo.
Lucas ergueu uma sobrancelha ao observar Kai naquele instante. Ninguém, exceto ele, percebia o quão agitado o garoto se encontrava, os dedos trêmulos e os lábios partidos, quase como se quisesse gritar alguma coisa. Aproximou-se, desviando dos ‘fãs’, sentando-se com dificuldade perto do garoto, tocando-lhe com cuidado no joelho, assustando-se quando Kai teve um espasmo.
— Ai, desculpa, te assustei! — Se desculpou, arrumando os óculos. — Eu prometo que me anunciarei da próxima vez — garantiu, sentando-se mais perto dele.
Kai forçou um sorriso, não se incomodando com o garoto ali, perto dele.
— Tudo bem, você não fez por mal. Precisa de alguma coisa? — Logo ofereceu, guardando o celular.
— Ah, não, obrigado. É que… Eu notei que você parecia, hm… — Mexeu as mãos, à procura de palavras. — Incomodado. Eu sei que pode parecer estranho, já que nunca nos falamos direito antes, mas eu espero que você saiba que pode dizer qualquer coisa para mim, Kai. Tem coisas que, apesar de te amarem muito, seus amigos não saberão compreender. — Deu de ombros, compartilhando parte de suas experiências pessoais.
Kai sentiu o afeto naquelas palavras. Lucas era uma boa pessoa, ele sabia disso. Apesar de nunca terem conversado realmente, sentia-se próximo dele — talvez o míope exalasse uma aura amigável, naturalmente.
— Não, é que… E-eu não sei, para falar a verdade. Eu tenho sentido uma vontade muito forte de me desculpar, mas sempre que reúno coragem, a pessoa vai lá e faz algo que me deixa puto. Entende? — Explicou da melhor forma que pôde, remexendo as mãos.
Lucas olhou para trás, tentando ver em Kale o erro que ele cometeu.
— Perfeitamente. — Murmurou, erguendo uma sobrancelha. Surpreendeu-se quando Nicholas correu até ele, sentando-se em suas pernas. — Oi, Nick — sorriu, anunciando de forma sutil a presença da criança para Kai, que também sorriu.
— Ele é seu amigo? — Nicholas perguntou descaradamente, apontando para Kai, que não sabia ao certo se era a ele que se referiam.
— Ah, sim, ele é sim. — Sorriu, olhando de soslaio para o surfista. — O Kale gosta muito dele, por isso somos amigos.
— O idiota da vizinhança gosta dele? — Nick surpreendeu-se, ainda com o indicador estirado para a figura pacífica de Kai. Havia adotado um apelido próprio para a ilustre presença de Kale. — Ele está encrencado.
— Nem me diga. — Kai resmungou, pescando seu celular do bolso, começando a responder aos vários “???” de Derek e Alex.
— Por que o idiota da vizinhança gosta de você? Vocês são namorados? — A metralhadora de perguntas foi acionada, dessa vez muito bem direcionada ao pobre Mason, que acabou boquiaberto. — Na primeira etapa da competição, ele te beijou de olhos fechados, diferente de quando beijou o Lucas ou a Luana. — Contou, brincando com os pelos do braço do míope, que permaneceu com cara de tacho.
— N-não somos namorados… — Kai disse, baixinho, sentindo as orelhas quentes, lembrando-se do beijo do dia anterior.
— Por que não? — Voltou a interrogá-lo, encarando-o.
Lucas riu, sem graça, abrindo um sorriso falso para Nicholas, chacoalhando-o em seus braços.
— Por que não brincamos ali, Nic-
Antes que pudesse terminar sua frase, o pequenino se desvincilhou de seus braços, engatinhando até onde Kai estava. Desde que chegara ali, percebera a forma estranha como os olhos dele se movimentavam, como se estivessem presos num único ponto. Abanou suavemente na frente de seu rosto, notando que Kai não se assustou, não hesitou, não viu.
— Seus olhos não funcionam? — Ele indagou baixinho, realmente perto, sentando-se sobre os joelhos, continuando a balançar a mãozinha na frente do rosto do mais velho, percebendo quando ele piscou, atônito.
Kai esticou a mão, sentindo um ventinho suave em seu rosto. Riu quando apertou de leve a mão de Nicholas, ouvindo dele um gritinho assustado, puxando-o para perto de si. Apesar de não ter muito contato, gostava de crianças. Sentou-o em seu colo, de forma que as costas do Thomas encostasse em seu tórax. Apesar de estar sentado daquela forma, Nicholas continuava a abanar a mão na frente dos olhos de Kai.
— Você está balançando a mão na minha frente, não está? — Riu ele, sentindo a movimentação de seus bracinhos.
— Como você sabe?! — Indagou, surpreso e encantado, arregalando os olhos. — Você consegue ver um pouquinho?!
— Ah, não, eu não consigo enxergar nada… Quer dizer, eu não sei, faz aí uma careta, vai que eu te vejo… — Gracejou, sabendo claramente que pedir a crianças para fazerem caretas era a mesma coisa que perguntar se Kale queria surfar.
Nicholas inchou as bochechas, fazendo a careta mais adorável do universo, realmente disposto a fazê-lo o ver.
— Você viu, você viu?! — Indagou com entusiasmo, esperando expectante por sua resposta.
— Mas é claro que sim! — Kai fingiu surpresa absoluta, sorrindo enquanto o sentia se movendo em seu colo, a inocência e ingenuidade de Nicholas o fazendo rir.
— Agora você irá poder ver seu namorado surfando, não é? Ele é idiota, mas meu irmão me disse que ele sabe surfar muito bem.
Kai havia se esquecido do tópico ‘idiota da vizinhança’ naquele meio tempo, só se lembrando depois de citado. Piscou, não sabendo ao certo como reagir àquilo.
— Hã, bom… Nós… — Começou, repentinamente hesitante em dizer a palavra ‘namorado’. — Não somos, você sabe, namorados. — Esteve tão concentrado que mal percebeu o alerta estrondoso que indicava o início da competição, segurando a cintura de Nick.
— Sério? Por quê? — Nicholas indagou de repente, erguendo a cabeça quando Kale se aproximou, a prancha em mãos. Apontou para ele, sério. — Idiota da vizinhança! — Anunciou como se tivesse visto um tubarão.
— Por que você me odeia?! — Kale quase gritou, incrédulo e profundamente magoado, apontando para si mesmo.
— Você roubou o primeiro lugar do meu irmão! — Nicholas se levantou, encarando-o com coragem, sisudo de que seu irmão merecia o primeiro lugar, não Kale.
— Eu não roubei nada! — Kale contrapôs, sentindo-se caluniado.
— Roubou sim! — Apontou para ele, numa perfeita voz de acusação. — Você não merecia o primeiro lugar, simplesmente por ser idiota! — Cruzou os braços, inflando as bochechas. — VOCÊ É TÃO IDIOTA QUE NEM AO MENOS NAMORA O KAI! — Gritou, aproximando-se do surfista.
— VOCÊ DIZ ISSO COMO SE EU NÃO QUISESSE! — Kale gritou de volta, apontando para ele.
— AH, O.K.!— Lucas se levantou num salto, agarrando Nicholas sob os braços. — A conversa tá ótima, muito confortável e tudo mais, mas temos que desejar boa sorte para o Tony e o Kale tem que ir, não é mesmo?! — Seu tom beirava o desespero, olhando para Kai e pedindo desculpas mentalmente.
Por incrível que pareça, Kale Iwin não percebeu o que havia dito. Não percebeu que estava discutindo com uma criança sobre seus problemas amorosos, não percebeu o quanto aquilo afetou Kai, não percebeu quando seu corpo se moveu sozinho, beijando o garoto na bochecha, dizendo um “te vejo depois” baixinho.
Só de fato percebeu quando se alinhou aos quarenta e nove participantes, permanecendo ao lado de Antony, esbugalhando os olhos e tampando a boca, como se recriminasse a si mesmo profundamente.
— Puta que pariu… — Murmurou, os olhos fixados em um ponto vago. A voz de um dos juízes soava em um canto aleatório de sua mente, só percebendo a sirene quando todos os competidores correram em direção ao mar.
Estapeou o próprio rosto, andando com pressa enquanto mandava se acalmar e prestar atenção no agora— já havia dito, já havia agido; não tinha como simplesmente voltar no tempo e consertar. Provavelmente faria uma daquelas cagadas mais tarde, mas naquele instante não se preocupou nem um pouco.
O mundo sumiu no momento em que pisou na água morna — de tantas pessoas presentes na praia naquele momento, ele foi o único que sobrara. Não havia mais ninguém, apenas ele, as ondas e o vento forte que estava ajudando a movimentar o mar.
Não existia competição, não existia juízes, não existia corações partidos, arrependimentos e nem preocupações — só existia ele e toda aquele vida que o mar estava disposto a dar a ele.
Não pensou nos detalhes técnicos, na posição de seus pés e nem de seu tronco. Era movido pelo mais puro instinto, os olhos fechando-se à medida em que mergulhava na água. Alguns vultos passavam por ele, muitos deles indo na mesma direção em que surfava, talvez almejando roubar-lhe a posição que ocupava.
Cortou a água num gesto fluído, acompanhando o movimento de uma grande onda. Manteve-se em sua base, o vento forte batendo em seu rosto misturado à espuma e água salgada, obrigando-o a fechar suavemente os olhos. Inspirou fundo quando a onda dobrou sobre sua cabeça, caindo ao seu lado como uma cascata cristalina; ajoelhou-se, dobrando o corpo, posicionando o braço num ângulo de noventa graus, mergulhando os dedos na onda enquanto passava por ela, a saída estreita, porém significantemente libertadora. Sentiu o corpo aos espasmos quando aquele dobramento se encerrou, permitindo-lhe que saísse sem problemas de dentro dela.
Relaxou completamente quando deslizou pela superfície lisa da onda, erguendo-se pouco a pouco, sentindo seu corpo dez vezes mais leve, o corpo inteiro encharcado e inconscientemente trêmulo tamanha a adrenalina que o atingia.
Era como se os minutos simplesmente não passassem. Estava imerso em sua própria dimensão, desfrutando daquilo que era único a ele.
Caiu na água quando voltou à realidade, o alarme de encerramento alto e claro por toda a praia. Afundou nas ondas mornas, voltando à superfície com uma golfada de ar, deixando ser levado pelo mar até a costa, fincando os dedos na areia úmida, inspirando profundamente, a respiração difícil, o corpo ainda trêmulo, o tórax subindo e descendo, a garganta seca e a pele enrugada.
Levantou-se, erguendo a perna para desenroscar a cordinha do calcanhar, concentrado demais naquilo para perceber a movimentação a sua frente. Kale, em dois segundos, foi cercado. Piscou, cego por um instante pelo flash de uma câmera, atônito quando uma garota começou a lhe fazer perguntas aleatórias sobre seu desempenho, se ele estava satisfeito, qual foi sua maior inspiração, seus medos e o que pretendia fazer com o prêmio, caso ganhasse.
Kale engoliu em seco, sendo acompanhado pelo grande grupo que o cercou.
— Com licença, mas eu preciso mesmo beber um pouco d’água… — Pediu educadamente, apontando para onde Lucas estava. Viu, ao longe, Antony Thomas se arrastando preguiçosamente, ignorando a todos que tentavam conversar com ele. Desejou, por um instante, ser capaz de fazer aquilo, mas provavelmente iria se odiar pela vida inteira caso ignorasse uma pessoa sequer.
Deu uma corridinha básica, cansado demais para simplesmente despistá-los. Felizmente, não fora seguido por nenhum deles, todos tendo senso que eles estavam cansados demais naquele instante.
Lucas havia ido comprar um sorvete para as crianças, acabando por demorar demais ao apreciar o final da competição da barraquinha, acabando por comprar um sorvete para si mesmo.
— Você foi muito bem, Ant! — Nicholas correu na direção do irmão, erguendo a mão para um high-five, segurando uma garrafinha d’água com a outra.
— Obrigado — o mais velho agradeceu, jogando sua prancha de lado para cumprimentar o caçula, aceitando a água enquanto batia sua mão na dele.
Kale se ajoelhou num suspiro em cima de sua toalha, abrindo a mochila com dificuldade, a água salgada em seu corpo não parando de escorrer em cima das coisas.
— Eu ainda não acredito que você conseguiu um tubo, Kale — Luana se pronunciou, encarando-o embasbacada. — Segundo o Manu, é uma das manobras que mais rende pontos… Foi incrível. — Elogiou-o com sinceridade, virando-se para Manu, que parecia um pontinho infeliz entre eles, o rosto esboçando tédio absoluto.
— Ah, obrigado… — Riu, profundamente agradecido. Olhou de esguelha para Kai, que parecia concentrado demais em seu celular, o sorriso murchando aos poucos. Podia soar egoísta, e, de fato, era, mas Kale queria ouvir dele um “você foi bem” e um “espero que você permaneça no pódio”. Se contentaria até mesmo com “boa sorte” ou “parabéns”. Desde que fosse ele quem estivesse dizendo, ficaria feliz.
Bebeu toda a água de dentro da garrafinha, sentando-se bem na frente do garoto, enrolando-se numa toalha, esperando impaciente pelo resultado. Sorria para as pessoas que o cumprimentavam, mas seus pensamentos estavam avoados, presos naquele ser incompreensível atrás de si.
— Olha, eu vou ser sincero com você… — Nicholas se aproximou, cruzando ambos os braços, erguendo o queixo. — Você foi bem.
Kale piscou, erguendo a cabeça, encarando aquela pose falsamente arrogante. Sorriu de lado, erguendo o queixo também.
— Ah, então quer dizer que você se rende? — Gracejou, rindo ao ver sua expressão indignada.
— Jamais! — Exclamou, apontando para ele. — Você até pode ter sido bonzinho, mas vai continuar sendo o idiota da vizinhança! — E, dito isso, deu meia volta, talvez com receio de permanecer ali.
— O QUE EU FIZ PRA VOCÊ?! — Kale berrou quando ele já estava correndo para perto de Leo. — EU SOU A VÍTIMA AQUI! — Apontou para si mesmo, olhando para as pessoas em sua volta. — Antony, seu irmão está fazendo bullying comigo! — Gritou como se aquilo fizesse algum sentido, parecendo de fato indignado e incrédulo.
Kai até podia negar a sorrir para ele, mas não conseguiu negar um sorriso àquilo. Acabou rindo, chamando a atenção de Kale, que virou como Emily Rose em sua direção, a sobrancelha erguida.
— É bem a sua cara ser vítima de bullying de uma criança de seis anos, Kale — disse, guardando o celular no bolso, o sorriso ainda preso em seus lábios.
— Sério, Kai? — Indagou com incredulidade, apontando para si. — Por que o mundo está sendo tão rude comigo hoje?! — Declarou com vitimismo, olhando para o céu. — HEIN?!
Kai riu de novo, não se sentindo culpado. Iria dizer alguma coisa, mas foi impedido por Rebecca, que, como uma praga maldita, aproximou-se de Kale, sentando-se perto dele para parabenizá-lo pelo excelente desempenho. Estava mais que óbvio que ela estava dando em cima dele, apesar de que Kale não percebia porque não estava interessado.
— Eu tenho certeza que você manteve sua colocação, Kale… — Disse de forma melosa, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, sorrindo para ele, observando-o se secar. — Todo mundo está falando sobre você… — Riu, apertando os olhos. — Apesar de que, francamente, a Ariel foi muito bem, também… Acho que o pódio permanecerá com os mesmos nomes, só que com colocações diferentes.
Kai não aguentava mais. A voz daquela mulher entrava em sua cabeça de forma dolorida, como se a existência dela ali, perto deles, fosse um erro. Inspirou fundo, levantando-se num tranco, apalpando o bolso de sua bermuda. Kale o seguiu com o olhar, ignorando Rebecca.
— Aonde você vai? — Perguntou de repente, preparando-se para levantar.
— Vou comprar uma raspadinha. — Disse de forma seca, mordendo os lábios. — Eu ouvi a vendedora passando, irei segui-la.
— A praia está lotada, você vai se perder… — Kale disse mais para si mesmo do que para o garoto, levantando-se quando percebeu que Luana e Manu estavam ocupados demais cuidado de Leo e Nicholas. Teve, de repente, medo que Kai se perdesse e fosse parar nas mãos de pessoas mal intencionadas. — Vamos lá, eu vou comprar uma também. — Se levantou completamente, se colocando ao lado dele.
Ficaram quietos por um instante, ambos sentindo a presença do outro, um incômodo óbvio e angustiante entre eles, como se alguma coisa devesse ser ouvida, demonstrada, sentida. Palavras não ditas eram as mais cruéis, eles tinham certeza.
Apesar de não dizer nada, o andar vacilante de Kai simbolizou um “o.k., podemos ir juntos” tímido, assustando-se quando sentiu a mão fria de Kale agarrando-se a sua, apertando-a como se quisesse permanecer daquela forma para sempre.
Andaram em silêncio, Kale não parando nem por um segundo de olhá-lo, hipnotizado por sua pele exposta, meio suada, os cabelos curtos arrepiados, os olhos vagos e os lábios partidos, como se estivesse pensando demais em alguma coisa. Apesar do devaneio, não fez esforço algum para se livrar do aperto afetuoso do surfista, sentindo-se confortável ao estar ao lado dele.
— Desta vez, os competidores classificados irão a uma espécie de festa. — Kale disse de repente, já conseguindo avistar a vendedora de raspadinha. — Mas ela só irá acontecer sábado que vem.
— Você quer que eu vá? — Ergueu uma sobrancelha, confuso.
— Na realidade, não… Eu, hm, eu não estava pensando em ir à festa, para falar a verdade. — Engoliu em seco, com medo do que iria dizer a seguir. Aproximaram-se da vendedora, que acabou os recebendo com um sorriso banguela. — Ah, boa tarde… — Perdido, procurou olhar para Kai, que alisava uma nota de dois dólares.
— Boa tarde, queridos… O que irão querer? — Sua pele negra brilhava sob a luz forte do sol, o triturador de gelo fazendo um zumbindo estranho.
— Uma raspadinha de maracujá com morango, por favor… — Kai pediu, entregando a nota para a senhora, que a aceitou com um “pra já”. — Mas, então, continua… Você, hm, não irá à festa, por quê?
— Porque eu tava pensando se você não quer sair comigo no sábado. — Despejou tudo de forma rápida, a língua se embolando no caminho, engolindo em seco. — Só nós dois. E-eu tava pesquisando algumas semanas atrás alguns pontos legais aqui em Honolulu, e eu descobri que irão inaugurar um parque de diversões no próximo sábado. Então, hm, eu pensei que seria legal se f-fôssemos juntos. — Gaguejou na última parte, nervoso como se estivesse apresentando um TCC.
Kai tremeu por um instante, ouvindo quando a vendedora disse um “aqui, querido”, esticando as mãos para pegar o recipiente gélido. Ficou quieto, a garganta travada, os dedos doídos por conta da temperatura baixa da raspadinha, tentando processar aquela pergunta. Ele estava o convidando para um encontro, não estava?
Enfiou a colherzinha dentro do conteúdo gélido, comendo a raspadinha como se aquilo o distraísse de qualquer coisa.
Kale o observava com tanta expectativa e atenção que mal percebeu quando a praia inteira permaneceu em silêncio, todos prestando atenção ao sinal que anunciava a divulgação das notas. Não piscou, concentrado demais em observá-lo, em assisti-lo reagindo ao que havia lhe proposto.
Em sua cabeça, a praia sempre ficava em silêncio quando Kai falava alguma coisa — não conseguia prestar atenção em mais nada, apenas nele. Por isso, não se assustou com a quietação repentina, apenas o barulho das ondas sendo ouvido por pessoas que estavam fora daquele universo particular.
Aproximou-se mais dele, praticamente chutando tudo para o alto, dando total atenção ao garoto ali na sua frente. Ergueu a sobrancelha quando Kai abriu a boca em uma exclamação surpresa, parecendo chocado.
— Kale, hm… Eu acho que você acabou de ser anunciado em primeiro lugar, ali… — Kai apontou para o local onde o som provinha, sendo cauteloso nas palavras.
— O quê? — Kale piscou, ainda preso demais em seu universo particular. Kai apenas sorriu, comendo a raspadinha, esperando que ele notasse. — CALMA, O QUÊ?! — Gritou repentinamente, virando-se para olhar o telão, o queixo escancarado quando viu sua foto e sua pontuação. — 17,34?! — Gritou novamente, incrédulo demais para formular outra frase.
Quase soltou fogos de artifício, circundando o carrinho e abraçando a senhora da raspadinha, a erguendo com facilidade, aquele furdúncio só aumentando à medida em que as pessoas percebiam que ele estava ali e iam cumprimentá-lo.
Antony Thomas havia permanecido no segundo lugar, aproximando-se muito de Kale, com uma pontuação de 17 cravados. Ariel soltava fogo pelas ventas, o terceiro lugar lhe parecendo eterno, o número 16,55 lhe parecendo o pior das tragédias. Brandon levou muitos tapinhas nas costas ao perceber que estava em quarto lugar, sorrindo discretamente para o resultado.
Kai foi atacado logo em seguida, esmagado pelo abraço afetuoso do surfista, que fez questão de mantê-lo preso a ele num tempo maior do que gostaria. A raspadinha ia derretendo aos poucos, o pote congelando seus dedos, que permaneciam presos contra o tórax de Kale, que parecia muito mais feliz do que o normal.
— Obrigado por ter vindo hoje, de verdade. — Murmurou, ignorando o incômodo gélido acima de suas costelas. — Não sei se este resultado seria especial da mesma forma se você não estivesse comigo para comemorá-lo.
— Claro que seria, você quem participou, não eu… — O garoto resmungou, alguns arrepios lhe assolando aos poucos.
— Fisicamente, até pode ser. Mas psicologicamente, você fez toda a diferença, Kai. Você é mais presente em mim do que imagina.
Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos, a respiração ruidosa do mais novo sendo a única coisa ouvida.
Kai sabia que não iria conseguir entender as coisas que estava sentindo tão cedo. Porém, também sabia que o único capaz de deixá-lo daquela forma era Kale — sempre ele. Se amaldiçoou por aquelas palavras, mas não conseguiu não dizê-las:
— Sobre sábado que vem… Tudo bem, podemos ir.
— Sério? — A resposta lhe atingiu como um baque, obrigando-o a se afastar por um momento, encarando seu rosto. — Tipo, sério mesmo?
— Sim, sério — sorriu, um pouco nervoso. — Mas, hm, eu nunca fui num parque de diversões.
— Cê tá de sacanagem — desconfiou profundamente, erguendo uma sobrancelha.
— Não, é verdade. Meus pais nunca me deixaram ir em um, apesar de que eu nunca pensei que iria me interessar de novo quando fizesse dezoito anos.
Kale tinha o maior sorriso do universo. O agarrou nos ombros com precisão, soltando uma risadinha abafada.
— Ah, pode deixar que iremos nos divertir bastante. Eu ouvi dizer que a queda da montanha-russa tem quarenta e sete metros — informou com sadismo, rindo mais ainda com sua expressão assustada.
— Ah, não, Kale… — Tentou, sentindo dor psicológica só de se imaginar num treco daqueles. Sua mão foi pega pelo surfista, que tentou arrastá-lo para de volta ao grupo.
— “Ah, sim, Kale.” — Gracejou, desviando das pessoas. Virou-se para encará-lo, ainda meio incrédulo sobre o tópico de alguns segundos. — Mas, sério que você nunca ganhou um daqueles ursões de pelúcia por conseguir atirar nos alvos daquelas barraquinhas?
— É meio difícil eu acertar os alvos quando eu simplesmente não os vejo. — Deu de ombros, indiferente. — Ah, aliás, você sabe a diferença entre o Ciclope, de X-Men, e eu?
— Lá vamos nós… — Kale revirou os olhos, se recusando a responder.
— É sério, você sabe?
— Nem começa, Kai...
— Ele é muito bom em artes marciais. — Respondeu, fingindo estar banhado em ingenuidade, rindo alto quando Kale soltou um suspiro de desistência.
— Que péssimo, Kai. Que péssimo. — Repetiu com desgosto, apertando ainda mais sua mão. — Vem, vamos encontrar com os outros. Vou te acompanhar até em casa.
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